rio torto

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24 maio 2022

 ORDEM UNIDA

 

Uma imagem de outros tempos, ou mesmo destes, ao que parece propensos a algum belicismo e avessos à retórica da paz. Instalado que foi o medo, com algum sucesso e dentro de limites aparentemente aceitáveis, justificáveis até perante a terrível ameaça de bárbaros, que atentam contra o ocidente, eis uma nova instalação, necessária para complementar a primeira e bem oportuna face à guerra. A ordem que é unida não se fica pelo ensaio ritmado, cadenciado e equilibrado dos movimentos de marcha. Vai hoje mais além, passando do gesto disciplinado através da voz ao conceito da autoridade e do comando global.

Se, como dizia George Orwell, a maneira mais rápida de acabar com uma guerra é perdê-la, então a lição a retirar, simples e clara, será da rápida perda de uma das partes em confronto.

Condenada que foi a invasão, o acto de glorificação do regime do país atacado é tão estranho quanto a manifestação de ignorância face tudo o que se passou antes da invasão. Aliás, a voz insuspeita do jornalista norte-americano Robert Kaplan, diz que “ainda que isto possa parecer contra-intuitivo, a própria Ucrânia tem sido, desde há vários anos, uma democracia frágil, corrupta e institucionalmente subdesenvolvida”.

Para compreender outros tempos, recorremos ao escritor Thomas Mann, que, ao interrogar-se sobre o que na realidade assombra as gentes, dizia, na sua obra “José E Os Seus Irmãos”, que “...não é tanto o facto de algo passado se voltar a repetir, mas sim o facto de se tornar presente”. E daí, continua, “...por que razão se converte o passado em presente? Simplesmente porque as circunstâncias que um dia o produziram sempre estiveram presentes”. Isto poderia levar-nos a pensar se o passado do final dos anos 30 do século passado não poderá estar hoje presente na tentativa de domínio do mundo, muito embora sejam diversas as circunstâncias que ora podem estar presentes, ainda que de uma forma camuflada. O mundo é dominado hoje de uma forma mais subtil, mas com a mesma vontade imperial de intervir em todos os actos da sociedade. E tal é visível nomeadamente através do domínio da finança internacional, da pilhagem de recursos e das políticas de armamento, enfim, da multiplicação da linguagem e do discurso bélico, constante e permanente e do desprezo absoluto por um futuro de paz e de desarmamento global. Mas a guerra tem, para os senhores das armas e do dinheiro, um suave perfume que eles próprios vão espalhando no ar, com um efeito de tal forma inebriante que nos faz sentir “seguros” e, ao mesmo tempo, possivelmente “felizes”, porque há sempre alguém que decide por nós, libertando-nos da dura e penosa tarefa de pensar.

O cientista político Guy Mettan, jornalista e escritor independente, disse recentemente que “...a moralidade é um péssimo conselheiro em política” e que se deveriam inventariar todos os dados anteriores à invasão russa para compreender melhor a investida atabalhoada do invasor.

A marcha segue então em frente à cadência de milhares de milhões de dólares investidos. Uma ordem que só é unida na aparência, na futilidade vã dos interesses de cada um dos países laterais ao conflito. A tentativa de transformar o que é um conflito local em conflito global, quer através da profusão do discurso bélico, quer através da imposição de sanções, que em vez de se reflectirem sobre o invasor, estão, apenas e simplesmente, a provocar o empobrecimento global das populações, dos cidadãos e, muito em particular, dos países periféricos da Europa.

Não são, como sustentam alguns sátrapas, os valores típicos do nosso modo de vida que estão em causa. Esse é o maior sintoma de uma putativa superioridade que a Europa pensa que ainda tem, se é que algum dia a teve e que é ainda o reflexo de uma arrogância que bloqueia o diálogo e que prejudica, neste contexto, um eventual plano de acordo para a paz. A verdade absoluta que o chamado ocidente pensa que detém, conduz à absoluta contradição do sentido de liberdade de informação. Depois de ter impedido as estações Russia Today e Sputnik de exercerem a sua acção, a presidência da UE quer agora banir (o termo é mesmo este) mais três estações, a RTR Planet, a Russia 24 e a TV Centre. A presidente da Comissão vai ao ponto de afirmar que estas estações “amplificam as mentiras e a propaganda de Putin”. O mundo ocidental lida, pelos vistos bem melhor, com a manipulação da informação das suas próprias estações, que por serem “nossas”, estão à partida resguardadas de mentiras e propaganda. Felizmente sabemos hoje o mérito de grande parte delas na enorme empresa de espalhar a guerra conveniente e de ocultar sistematicamente aquela que não o é, ou que elas consideram que não é. 

A UE quer nitidamente lavar a sua face. Se nos lembrarmos qual foi a política para os refugiados, das últimas décadas, caracterizada por um enorme desrespeito pelos cidadãos e suas famílias que fugiam simplesmente de conflitos e guerras, grande parte deles provocados pelo agora “lado bom”, poderemos hoje pasmar com o apoio aos refugiados ucranianos. Que nos merecem todo respeito e consideração. Não menos, nem mais que os outros, ligeiramente mais escuros e portadores de outras culturas. Poderá, contudo, ser tarde demais e, mais dia menos dia, será relevada como mais um interesse, que pouco tem a ver com as pessoas e suas famílias.

De um campo de visão estritamente militar, a ordem é de facto praticamente sempre unida. Na praça da política, o funcionamento da unidade, tem outro sentido, ditado fundamentalmente pela estratégia e pela designada geopolítica, uma forma perifrástica de dizer hipocrisia. 

Num escrito de 1933, um diálogo entre o Libertário e o Estadista, que designou “Da Liberdade, da autoridade e do socialismo”, António Sérgio estabelece uma “Regra absoluta da alma livre: nunca aclamar um senhor governante, seja este liberal ou não o seja; por maioria de razão, nunca ser tímido diante dele, não sentir por ele “instintivo respeito” ou “temor aflitivo” ante o seu contacto, mas conservar uma atitude [desprendida,] crítica, ainda que concordemos com a sua obra, ainda que ajudemos na sua acção”. Seria hoje avisado, mesmo sem tomar a “Regra” demasiado à letra, desenvolver um espírito crítico, com as necessárias aquisições culturais que a história e as ciências sociais transportam. Contrapondo à “ordem unida”, uma outra “ordem”, que consagrasse a liberdade dos jornalistas em cada país e o acesso dos cidadãos à informação e à imprensa, no sentido lato. Apostando em medidas concretas para ajudar os cidadãos ucranianos e a economia, defendendo a anulação da dívida pública do País, em vez das sanções que apenas os afectam e prejudicam. Propondo a racionalidade de políticas externas internacionais, ao invés da irracionalidade completa que significa a escalada da guerra global, como o que está a ser feito intencionalmente, ao armar populações, que servem inclusivamente como escudos humanos. Tentando contrariar, como defende o filósofo e ensaísta Edgar Morin, “a escalada da desumanidade e o colapso da humanidade, a escalada do simplismo e o colapso da complexidade e sobretudo a escalada em direcção à guerra mundializada e o colapso da humanidade para o abismo”.

A ordem unida deveria ser substituída pela desordem do caos do pensamento livre.

 DO FADO E SUAS VARIAÇÕES


“.... Somos capitães, somos Albuquerques

Nós somos leões dos lobos dos mares

E na verdade o que vos dói

É que não queremos ser heróis

Fausto Bordalo Dias, “Olha O Fado”, (1982)

 

O título da canção do Fausto Bordalo Dias, escrita em 1982, não é estranho, mas entranha-se, como condição perene a um povo mergulhado na sombra dos seus heróis, coisa que parece ninguém querer ser. Parece. O fado é, por sua vez, muitas vezes sinónimo de destino, que pode ser fatal, para alguns, que nunca conseguem sair de uma condição para a qual foram destinados. O destino, porém, nem é fado, nem é sequer destino nenhum, mesmo que isso seja a vontade dos senhores desta terra e de outras. Até ver.

 

O Fado

Se é aquilo que tem que ser, ou o que acontece, independentemente da vontade humana, uma sina ou destino, o fado é, nas definições clássicas do termo, porventura uma ideia, ou até um conceito. Seja de vida, ou apenas de estilo, o fado tem algumas variações que se conhecem e que aqui se relevam, até pela significância que têm, no contexto sociológico e na conjuntura política. Porque afinal, tudo é política, mesmo a cantiga, que, como nos ensinou o saudoso Zé Mário Branco, é uma arma. Política, sim.

O fado tem uma alma que sabe escutar e fala de sentimentos profundos da alma portuguesa, assim se diz numa peça de promoção do Fado, como património imaterial da humanidade da UNESCO. Uns falam do fado como intérprete, outros como a própria condição de ser. Para o musicólogo Rui Vieira Nery, só existe referência à palavra "fado", com sentido próximo da música, em 1822, numa "espécie de guia informativo geral sobre Portugal e as suas colónias". 

Hoje o fado é, na música, uma forma muito arrojada de abordar questões do dia-a-dia. E, em sociedades fragilizadas, uma fonte de inspiração permanente. Muitos são os jovens autores e cantores que transportam na sua voz, uma nova “inspiração”. O faduncho choradinho deu lugar a novos temas, outras construções melódicas, diferente e variados acompanhamentos, que desafiam as formas tradicionais. Pena é que a política não acompanhe este novo fado e fique, em grande parte dos casos, prisioneiras do antigo “fadinho”.

 

O fado menor

Diz-se do fado que tem apenas dois acordes, muito fácil assim de tocar, quase como, por exemplo, o bom e o mau de algumas estórias. O encanto deste tipo de fado é a simplicidade do acompanhamento, sendo uma das formas de simplicidade mais glosada, quando se trata de “acompanhar” uma qualquer luta no terreno. Ao assumir-se, assim tão primariamente, como bom (ou mau), torna-se mais previsível o fim da estória. Que não da história. Seja então menor, como aquele mal que a gente escolhe, quando nada mais lhe resta. Contudo, o fado menor da Amália lá ia dizendo, “...És para meu desespero /como as nuvens que andam altas /todos os dias te espero /todos os dias me faltas”. Uma espera nada útil, convenhamos, quando por exemplo, presumimos algo de uma determinada força política, lhe damos o nosso voto e depois nada, ou muito pouco, temos em troca.

 

O fado corrido

Um fado que é bailado e saltado, como uma dança. A sua estrutura harmónica é baseada na alternância entre tónica e dominante, permitindo assim uma grande variedade de formulações melódicas. É o fado ideal para cantar ao desafio, um género musical de grande impacto nas relações sociais, uma vez que a toada parada-resposta transmite ao “diálogo” uma vida muito especial. É ao desafio que muitas vezes ganha forma a discussão política, embora nem sempre possa ter seguimento, se não devidamente enquadrada e organizada. E sabendo-se que para dançar, por exemplo o tango, são precisos dois, aqui é apenas fado, mas de qualquer forma é uma dança, com muitas variações, ou variantes. 

Corremos tantas vezes atrás do prejuízo, que o cansaço nos faz perder a força necessária, pelo menos, para resistir. Na música, o acorde dominante do primeiro grau é uma dominante primária. Na política, a ideologia dominante é, na maior parte dos casos, eivada de um primarismo de tal forma evidente, que facilmente passa e repassa, sem criar grande mossa. O pior vem depois, quando concluímos que fomos “apanhados” na partitura errada. 

 

O fado maior, o alexandrino

O fado, em modo maior. A designação “alexandrino” é uma homenagem ao poeta francês Alexandre Berné. Neste tipo de fado, o cantar antecipa-se ligeiramente à música, motivo pelo qual há vozes que não esperam pelo acompanhamento, antes pelo contrário. Normalmente poderão ser vozes que alertam, mesmo antes de terem companhia, para configurar um qualquer protesto, que pensam poder ter eco. Nem sempre, porém a coisa resulta, muitas vezes, ficamos a falar sozinhos e a banda não quer mesmo acompanhar. Porque não se sabe a música, ou porque simplesmente, os artistas desistiram de tocar. Este parece ser o caso que uma realidade que nos diz que, hoje, 60 em cada 100 jovens, entram no mercado de trabalho com um contrato precário. Quem ouve o fado maior deles? Mesmo a cantar ao desafio, desconfiamos que alguém os ouça. 

 

Que fazer do fado?

Ou de (não) saber qual o nosso fado.

Natália dizia, na sua “Queixa Das Almas Jovens Censuradas”, que “Temos fantasmas tão educados /Que adormecemos no seu ombro...”, um fado de contornos delico-doces, muitas vezes negativamente impactante. Um dos fantasmas aqui evocados leva-nos até ao mundo do trabalho, que hoje se pretende digno, promoção organizada por agentes ligados ao mundo da dita concertação, que fazem gala em ostentar a divisa (podia ser qualquer outra), com vista a enlear, ou enredar. O facto de partilharmos outra concepção de dignidade (no trabalho e não só) leva-nos a pensar como é possível tanta hipocrisia, numa conjuntura particularmente sensível para os trabalhadores e respectivas famílias. Um fado seria então de pedir, neste particular, não para entreter, mas para denunciar. Um fado civicamente actuante.

E que dizer, por exemplo, no terrível fardo (fado?) que é deixado de uma geração para a seguinte, em termos ambientais? Será que o destino (fado) é mesmo esperar pela degradação completa do ambiente, levada a cabo por afincados agentes de um sistema económico e financeiro, que apenas tem um fim em vista. Aqui os fantasmas são felizmente mal-educados e de quando em vez saem do armário e é vê-los numa cruzada contra o inimigo.

Não saberemos nunca onde andam os “leões dos lobos dos mares”, evocados na canção. Mas nós que, mesmo sem sermos “Albuquerques”, somos talvez os “capitães” que, com “Sete rios de multidão /levavam História na mão”, no dizer da canção do Zé Mário Branco, quando ele dizia ver o povo a lutar.

Olha o Fado!

 

08 maio 2022

“A CATÁSTROFE IMINENTE E OS MEIOS DE A CONJURAR”  

 

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave...

Tornam-nos pequenos...

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver

Alberto Caeiro, “Eu Sou Do Tamanho Do Que Vejo”, (1925) 

 

Procurando um vago sentido de oportunidade, resgatamos o título da velha obra de Vladimir Ilyich Ulianov (1870-1924), mais conhecido por Lenine. Quando a escreveu, corria o ano 1917, a Revolução de Outubro levava meio ano e a grande preocupação era a forte probabilidade de sabotagem ao novo governo dos sovietes, em áreas determinantes, como os transportes e os circuitos de distribuição dos produtos essenciais. E se lembramos um título que fala de catástrofe, é porque estamos a assistir à catástrofe de uma guerra na Europa, sendo também uma das suas mais imediatas consequências a perda do poder de compra em países não envolvidos, particularmente grave numa sociedade tão desigual como a nossa. De facto, a catástrofe está aí. Haverá meios de a conjurar?

 

 

Mais uma falácia

Pode parecer estranho que um governo, que reconhece a quebra do poder de compra, afirme que não será uma actualização de salários que irá resolver o problema das pessoas. Mais afirma que, a haver um aumento de salários, tal iria provocar uma “espiral inflacionista”. Para piorar a situação, vem o Presidente Marcelo pedir “sacrifícios”.

O discurso neoliberal é rico em falácias. Elas têm como objectivo directo, por um lado contornar a questão e, por outro lado, dar uma imagem distorcida da realidade. A falácia não passa de uma ideia errada que se faz passar por verdadeira, para simplesmente enganar.

Esta falácia é, entretanto, venenosa. Primeiro, por ser uma falsidade, segundo porque, vindo da boca do Primeiro-Ministro, contradiz, com a maior candura, o seu discurso anterior.

 

A narrativa da guerra

Serve para tudo. Em primeiro lugar, para tentar passar a ideia de que estamos em guerra. São múltiplas e constantes as declarações que sugerem a nossa participação na guerra da Ucrânia. Em alguns casos, vão ao limite de sustentar a tese de que o apoio ao país invadido é uma forma de defender o “nosso modo de vida”. Na verdade, esta narrativa não é mais do que a defesa de uma pretensa superioridade moral da UE e dos EUA, sendo estes a potência que nas últimas décadas impôs pela força mudanças de governo em vários países e martirizou centenas de milhar de civis, em guerras ilegais, destinadas a promover os seus interesses económicos e geoestratégicos. Tudo isso em nome dos Direitos Humanos e da Democracia. Quanto às consequências económicas e sociais da guerra, será na Europa que elas se farão sentir pesadamente, e não nos EUA, como já estamos a ver com o que os media designam por inflação. 

 

Custo de vida e inflação

Com a pandemia, a produção de diversos tipos de bens e serviços que sustentam a economia global foi gravemente afectada. A redução drástica no transporte de longa distância, em particular o de contentores, muito afectado pela paralisação de portos da Ásia, fez subir os preços de vários tipos de matérias-primas e mercadorias. Apesar de alguns comentadores terem começado a falar do regresso da inflação em 2021, esta subida de preços foi amplamente considerada como temporária. Pelo menos na Europa, não era ainda inflação.

A situação agravou-se com a invasão da Ucrânia e a subsequente guerra. Esta agressão brutal, acompanhada de sanções económicas e financeiras impostas à Rússia, sobretudo pelos EUA e a UE, seguidas de retaliações por parte da Rússia, conduziram a uma escalada alarmante nos preços da electricidade, combustíveis e matérias-primas alimentares, e um forte impacto nos preços de bens indispensáveis à vida das famílias. Num estado de absoluta incerteza quanto à duração da guerra, a única coisa que podemos dizer é que este agravamento do custo de vida constitui, para muitas famílias da classe média, um risco de serem empurradas para a pobreza. Para os que já são pobres, a severidade da sua condição aumentará, podendo cair na miséria. 

Tecnicamente falando, para que haja inflação tem de ocorrer uma espiral custos-salários-preços, o que exige um outro horizonte temporal e outras condições socioeconómicas e políticas. Dado que os sindicatos estão debilitados, e as alterações neoliberais na legislação laboral desprotegeram e precarizaram o trabalho, não há condições para que esta subida de preços conduza a um aumento de salários e, portanto, à inflação. Na realidade, só em situações de pressão da procura sobre a oferta, numa economia em pleno emprego (estamos bem longe disso), ou numa crise da vertente externa da economia que leve a desvalorizações consecutivas, aumentando muito os preços dos bens importados (já não temos moeda própria), então sim, teríamos condições para a espiral que António Costa invocou a propósito do Orçamento do Estado para 2022. Mas não estamos aí; isso foi nos anos oitenta do século passado. Haverá, sim, uma degradação importante nas condições de vida das famílias – subida forte no custo de vida com salários estagnados – particularmente grave para os pobres já que as medidas anunciadas para mitigar a situação (nem se fala em anular) são escandalosamente restritivas e insuficientes. Entretanto, a produtividade do trabalho retomou o crescimento, o que significa que a parte dos salários no rendimento nacional continuará este ano a diminuir (menos 5% desde que adoptámos o euro), precisamente o contrário do que António Costa promete.

 

Há meios de conjurar a “catástrofe”?

Num país com moeda própria, e com um governo liberto das ideias da ortodoxia neoliberal, seria possível lançar um programa de apoio à classe média e aos mais desfavorecidos que poderia compensar as perdas de poder de compra, até que este impacto nos preços termine. Intervenções sobre a economia real para aumentar a produção onde haja estrangulamentos, intervenções dirigidas à estabilização dos preços com controle das margens de lucro e uma partilha equitativa dos custos por toda a sociedade, não apenas pelo trabalho, também poderiam prevenir o aparecimento da inflação. Mas não é essa a situação em que nos encontramos. 

À boleia desta crise, o governo quer reduzir rapidamente o peso da dívida no produto interno bruto gastando o menos possível como já fez durante a pandemia. Como Estado-membro da zona euro, estaremos sujeitos à política da ortodoxia neoliberal, tanto no orçamento nacional, como na política monetária da zona euro. O Banco Central Europeu (BCE), sob pressão dos mercados financeiros, pode decidir a política errada do costume: subir a taxa de juro. Ou seja, para uma subida de preços pelo lado da oferta (os custos subiram) pode promover, através do juro mais caro, uma redução da procura e um aumento do desemprego. Um absurdo. Dado que já tinha prometido reduzir as compras de dívida pública, pode ainda ir mais longe e parar completamente. Nesse caso, é mais que previsível que as taxas de juro para a emissão de nova dívida continuem a subir. Com maior despesa em juros, a Comissão virá exigir cortes na despesa e novas “reformas estruturais”. Se os membros mais moderados da administração do BCE não forem capazes de travar esta linha política, de facto podemos vir a estar confrontados com uma “catástrofe” na Europa.

 

É difícil encontrar um tom optimista para terminar este texto. Ainda assim, como a História não está escrita de antemão, está ao nosso alcance uma intervenção cívica transformadora das nossas sociedades, uma intervenção dirigida à promoção da paz, da justiça social e da solidariedade. Tenhamos presente o testemunho de Frei Bento Domingues que, numa entrevista ao jornal Público de 2 de Maio, afirma que não podemos aceitar esta “...coisa absurda de desigualdade abismal entre classes sociais”. E que, A insurreição é a condição da nossa vida. Temos de nos insurgir contra tudo o que está mal”.


01 maio 2022

 1º de MAIO 2022

 


 














Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades pr'ós outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força p'ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p'ra pouco dinheiro
...”

(Sérgio Godinho)

 

TRABALHADOR, HOJE É O TEU DIA!

QUE A VOZ NÃO TE ESMOREÇA” ...!

(Zeca Afonso)

 

 DE ABRIL E MAIO: MAIS DEMOCRACIA

28 Abril 2022


 

Eram meus os caminhos 

os caminhos murados

só os caminhos eram meus...”

José de Almada Negreiros, “As Quatro Manhãs”, (1935) 

 

A evocação da Liberdade emparelha com a dos direitos dos trabalhadores. Sempre. A proximidade do 25 de Abril e do 1 de Maio, fez deste dia, no ano de 1974, a maior manifestação popular no nosso País, um dia em que “...o povo saiu à rua com a alegria que (não) costumava ter”, evocando uma das canções do festival RTP do mês anterior, “No dia em que o rei fez anos”, de José Cid, O “não” acrescentado é óbvio, após 48 anos de uma ditadura feroz, que perseguiu, torturou e assassinou quem pensava diferente. À alegria pela libertação, juntou-se a satisfação de poder comemorar, pela primeira vez, o Dia do Trabalhador em liberdade. Entre 25 de Abril e 1 de Maio, vai uma curta distância e talvez por isso seja uma semana em que se volta a falar de assuntos que vivem sistematicamente enterrados no baú das conveniências, sempre com os mesmos argumentos de sempre, que, para a grande maioria dos cidadãos, são estranhos, apenas porque são eles que sofrem sempre com os “ajustamentos” que o “sistema” lhes impõe.

 

Entre Abril e Maio

Hoje, 48 anos depois, não resistimos a olhar para trás e, sem qualquer saudosismo, dizemos que há ainda muito trabalho para fazer, no sentido de um País melhor. Porque é nele que vivemos e, mesmo quando dele saímos, não o esquecemos. Também porque é imperioso reconhecer que devemos ser nós, os intérpretes da mudança que começou em 25 de Abril de 1974. Temos essa responsabilidade, quer como cidadãos, quer na qualidade particular de militantes, partidários ou em outras entidades de cariz político e social. Haverá para muitos, possivelmente, o impulso de “voltar ao activo”, após alguns anos de estagnação cívica. Valerá decerto a pena, levando em linha de conta os anos perdidos, proporcionados por conhecidos agentes que ensaiaram, no seu tempo, uma narrativa de passividade, ancorada na sua visão estreita do “deixem-nos trabalhar” e do horror ao que chamavam de “forças de bloqueio”. E curiosamente (ou talvez não) foram eles os principais responsáveis pela destruição do aparelho produtivo do País, a pretexto de um modelo de desenvolvimento perverso. Um possível exercício de Liberdade, leva-nos à exigência de Mais Democracia, ancorada em três pilares muito simples, mas significativos, no mais elementar exercício de cidadania: Resistir, Participar e Propor. A Democracia não poder ser vista com uma excepção, subjugada sempre pelos ditames do poder financeiro, mas sim pela participação livre e consciente dos cidadãos.

 

Resistir

Os 48 anos que nos separam de 1974, representam quase cinco décadas de transformações a todos níveis da sociedade, num advento de aquisições de conhecimento que determinaram alterações profundas da nossa vida, social, económica e política. As novas tecnologias da informação e das comunicações são responsáveis certamente por uma melhor qualidade de vida, facilitando aproximações e contactos, impensáveis nos anos setenta do século passado, sem esquecer, claro, aqueles que não possuem qualquer acesso às mesmas. De qualquer forma, nos dias de hoje (dados de 2021), calcula-se que estejam ligados à internet, cerca de 4,7 mil milhões de seres humanos, cerca de 60% da população mundial. A influência das designadas redes sociais, na vida em sociedade, é de tal forma avassaladora, que leva a equacionar, em situações específicas, se estamos perante um avanço ou um retrocesso civilizacional. 

Daí, falar-se em resistência. No mínimo, à preservação da privacidade, no limite, à segurança dos jovens e das famílias, no seu direito a viver uma vida, longe das parangonas e das montanhas de lixo acumulado, por quem se dedica à intrusão, tenha ela o formato que tiver.

Mas resistir também a todas as formas de manipulação de consciência e à instalação de um pensamento único, uma das vertentes mais perversas da acção política, contrárias à Liberdade e à Democracia. Resistir à ortodoxia é hoje, acima de tudo, um exercício que se impõe.

Mas a resistência tem que ir mais longe. Necessariamente, há uma urgência em resistir aos atropelos constantes contra o Estado Social. Na verdade, grande parte do desencanto que uma larga maioria de cidadãos perante a democracia, radica na “...progressiva erosão do Estado Social através de políticas que negaram a substância dos direitos consagrados na Constituição da República Portuguesa”, conforme se pode ler num Manifesto Em Defesa Do Estado Social, divulgado em 25 de Abril de 2019, pelo colectivo Porto Com Norte – Fórum De Cidadania. 

E tem sobretudo de apelar a uma ampla frente, em que cabem todos os que reivindicam a herança do 25 de Abril, com o objectivo de defender os direitos e conquistas de Abril e aprofundar a participação colectiva e pela exigência de mais democracia, de mais participação na política e de uma outra exigência (esta imediata) e que passa pela definição exaustiva de medidas tendentes a proteger o cidadão, na habitação, no emprego, na educação, na saúde e na justiça. Não é admissível, por exemplo, que os direitos sociais sejam colocados na condição de produtos de mercado, uma afirmação do investigador Manuel Carvalho da Silva, que acusa o sistema neoliberal de promover essa ideia e de a tentar consolidar, na sua acção.

 

Participar

A simplificação do discurso dominante é um dos princípios básicos da dominação, com falas e imagens certeiras, todas baseadas em conceitos muito pouco elaborados, que apelam sempre ao sentimento e quase nunca a factos e onde a evidência é a enfatização no primarismo e na ideia de um mundo estreito e a preto e branco. Ao contrário do pensamento estruturado, que exige análise e reflexão, únicas capazes de produzir conclusões.  

Um exemplo muito oportuno pode ser o da falácia da intervenção directa, nas designadas redes sociais. Pode ser de facto aliciante, pode até, em determinadas circunstâncias, ser eficaz. Contudo a participação cívica é bem mais profunda e exigente, quer em termos de conteúdo, quer no que reporta à forma como ocorre, na acepção da empatia pessoal e grupal que determina e no, mais que provável, movimento que ocasiona.

É necessário reactivar a democracia participativa, com especial ênfase na importância e papel central das associações de cidadãos. Mas também a nível dos partidos políticos, para que sejam a expressão do pensamento dos cidadãos, de uma forma organizada e militante. É ainda urgente que os cidadãos, ao tomarem consciência das questões do território, particularmente do seu, participem nas decisões. Todas as questões relacionadas com a participação cidadã exigem condições muito próprias e muito precisas, que levem o cidadão a concluir que vale a pena participar e que a sua voz será ouvida e tida em conta como importante.

 

Propor 

O que se propõe deve passar pela análise sistemática das condições objectivas. Todas as proposições serão válidas, desde que ancoradas em dados concretos, em factos, e estudadas de forma a poderem ser analisadas em fóruns de decisão. Há uma questão fundamental em que se deve basear qualquer proposta de acção. O que nos agrada na política deve ser visto sob o ângulo da nossa perspectiva e não sobre aquele que nos é determinado. Através da proposta, o cidadão pode sentir a sua “causa”, ou o seu problema concreto, no envolvimento que realiza com a comunidade. Quanta vezes pensamos por que razão não podemos expressar a nossa posição, para além do voto que deixamos na urna, em actos eleitorais? 

 

 

Voltar aos clássicos? 

Possivelmente, o retorno aos Mestres, permitiria pelo menos pensar que há situações que ultrapassam os séculos, independentemente das transformações tecnológicas, ou outras que muitas vezes tentam desvirtuar o pensamento criativo e propor as ditas soluções que a modernidade já terá adquirido como válidas. Na sua imensa sabedoria, Thomas Mann fala num personagem da “Montanha Mágica”, dizendo que “... a sua actividade sediciosa fora o fruto e a emanação desse sentimento respeitável..., essa mistura de rebeldia e patriotismo..., que sob as circunstâncias especiais daquela época e daquele país, a rebelião podia ter sido o verdadeiro dever cívico, e que uma lealdade inconsiderada podia ser equivalente a uma indiferença perigosa, quanto à causa pública.” Era (a personagem) um patriota italiano, dos anos 20 do século passado.

Entre Abril e Maio, vale a pena pensar, sobretudo quando vemos e ouvimos declarações de apego a valores que não se sabe bem de onde emanam, mas que se julgam de uma superioridade irritante.

22 abril 2022

 A PROPORÇÃO ÁUREA

 

Do número nasce a proporção

Da proporção se segue a consonantia 

A consonantia causa deleitação

A nenhum sentido apraz a dissonantia

Camões e a Divina Proporção”, Vasco Graça Moura, (1994)

 

A proporção áurea, razão áurea, ou simplesmente “número de ouro”, é representada por um número irracional que vale aproximadamente 1,618 (arredondado a 3 casas decimais) e é obtido, a partir de um segmento de recta, pelo quociente entre a soma dos comprimentos das duas partes do segmento e o comprimento do segmento maior. Na matemática, a proporção áurea é representada através da letra grega Phi (φ), inspirada no arquitecto Phidias, que teria criado este conceito quando ajudou a projectar o Parthenon, em meados do século V a.c. Já no século XII, o matemático italiano Leonardo Fibonacci descobriu uma sequência de números infinita, onde a divisão entre os termos consiste sempre na aproximação do "número de ouro". Inúmeros serão os exemplos da aplicabilidade deste número, desde a música (jazz, clássica), à arquitectura, passando pela literatura, cinema e até na matemática aplicada aos mercados financeiros. Ensaiamos aplicar a proporção à situação política, deixando-nos surpreender pelos possíveis resultados. 

 

A proporção, no limite

Se tudo fazemos na vida por tentar encontrar um equilíbrio, seja ele qual for, o certo é que, na maior parte dos casos, essa tentativa resulta infrutífera, perante as evidências constatadas ou simplesmente inculcadas, numa retórica esquisita, que, por vezes, nem sequer é perceptível. Tentamos adequar a proporção à referida “consonância”.

Tentamos de bom grado admitir, por exemplo, a bondade das medidas que nos são apresentadas, sempre para garantir uma melhoria do nível de vida. Rendemo-nos até, por vezes, a discursos especialmente gizados para nos aquecer o ânimo ou simplesmente, para nos convencer.  Tentamos compreender as razões que nos são apresentadas, os apelos que nos são feitos para que aceitemos a condição, as estratégias que nos definem para um País onde afinal todos habitamos, mesmo sabendo que uns habitam mais que todos os outros. Julgamos que até pode ser válida a asserção costumeira de que “estamos todos no mesmo barco”, muito versejada durante a pandemia, sabendo bem e à partida que, para alguns, o barco é um luxuoso iate e para a imensa maioria, o barquinho é estreito e tão pequeno que mal cabemos nele e que está a precisar de tantos remendos para conseguir, ao menos, navegar para fora do sítio onde descansava.

Todas as tentativas têm, contudo, um limite. De paciência e de tolerância. Não existe na verdade uma proporção equilibrada, mesmo sem ser áurea, entre o esforço que fazemos durante anos a fio e a oferta que nos é feita, para simplesmente navegar, que Pompeu nos diz ser preciso, enquanto vivemos, mesmo sem ser preciso, “Navigare necesse, vivere non est necesse”. E, a propósito disso, viria Caetano Veloso a versejar, na sua suprema ironia, “O barco, noite no céu tão bonito/Sorriso solto perdido/Horizonte, madrugada/O riso, o arco, da madrugada/O porto, nada”.

A não verificação da proporção, implica, mesmo sem uma equação de grau n, o rompimento do equilíbrio a que aludimos. Vem o desequilíbrio, o fim da paciência, o limite do dar de barato. E, porque a vida está cara, convém entrar no jogo e tentar dar cartas.

 

Onde está o equilíbrio?

Um equilíbrio que não tenha forçosamente a ver com as designadas “contas certas”, poderia assimilar-se por exemplo à aproximação do poder de compra dos portugueses, entre aqueles que não ganham o suficiente e os que mantêm sempre o dito poder (de compra), porque simplesmente nem sequer o sentem colocado em causa. A regra de ouro aqui poderia ser uma justa repartição de rendimentos. Como estamos, o equilíbrio não existe e pode temer-se um potencial agravamento dessa condição. Vejamos um caso de desequilíbrio, relatado pelo Jornal de Negócios de 9 de Março deste ano, onde se pode ler que o grupo “Jerónimo Martins lucra 463 milhões de euros em 2021, mais 48,3% do que em 2020” e que, “Face aos resultados, a administração do grupo vai propor a distribuição de 493 milhões de euro em dividendos...”. Vejamos ainda outro exemplo, notícia da Lusa, de 17 de Março (também deste ano), “O lucro da Sonae atingiu 268 milhões de euros no ano passado, contra 71 milhões de euros em 2020, sendo "o valor mais elevado dos últimos oito anos", divulgou hoje o grupo dono da cadeia de hipermercados Continente. O resultado líquido quase quadruplicou face aos 71 milhões de euros de 2020.” Se mais preciso fora, decerto encontraríamos muitos mais casos de desequilíbrio social. Que contraria sobremaneira o equilíbrio que a natureza regista, na sua diversidade. Que ostenta a profunda desigualdade que existe actualmente, derivada dos desequilíbrios provocados por um sistema económico financeirizado, conhecido pela designação de neoliberalismo. E que provoca desequilíbrios na própria natureza, que nem a matemática, na sua ingenuidade relativa, consegue explicar. 

 

Haverá uma matemática possível?

Uma equação realista, ainda não inventada, ensaiaria uma incógnita conhecida. O que em princípio é uma evidente contradição, uma vez que a definição matemática de equação é a expressão algébrica que contém uma igualdade entre dois membros e um ou mais números (as incógnitas), cujo valor se desconhece. A própria matemática ensina que a equação foi criada para ajudar as pessoas a encontrarem uma solução para o problema em que um número não é conhecido. Acontece que, muito provavelmente, as pessoas já conhecem o problema, só que raramente (nalguns casos, nunca) encontram solução para ele. Ou porque não sabem o que é uma equação, ou porque não sabem como resolvê-la. Há, contudo, um pormenor importante que as pessoas conhecem, mas que raramente a ele têm acesso: a igualdade, mesmo que não seja entre dois termos, como na equação. E mesmo que a matemática consiga dar algumas respostas, não lhe pode dar o conforto suave de uma igualdade ambicionada.

 

A resposta proporcional

Orwell escreveu, na sua obra “Animal Farm”, a propósito do conceito de liberdade, que se ela significa alguma coisa, é sobretudo o direito de dizer aos outros o que eles não querem ouvir. Que seja assim, então. A proporção entre o salário e os gastos mensais de cada cidadão, ou família, apresenta, na maior parte dos casos, um conhecido desequilíbrio. A questão que se coloca, nas sociedades actuais, vergastadas pelo horror da austeridade, é de saber se os Estados conseguem algum equilíbrio, de molde a não sobrecarregar quem vive do seu trabalho, sustentando dessa forma a vida de uma minoria privilegiada. Aparentemente uma equação sem solução, também existe e a matemática ensina-nos a lidar com ela. Todavia, a questão está sempre na forma como se põe o problema. Um exemplo, mais um: será que o problema do aumento do preço dos combustíveis se resolve com uma baixa de impostos, ou com uma limitação das margens de comercialização das empresas? O liberal, de fachada neo, optará pela primeira fórmula, uma vez que jamais admitiria baixar margens de comercialização. O cidadão, que paga cada vez mais pelo respectivo preço, pensará que é por causa da guerra e lá vai aceitando o que se diz e lê e, de forma natural, até é capaz de admitir que se deve baixar o imposto, ignorando em boa verdade o resto. Mas, neste caso concreto, é mesmo o resto que mais pesa: segundo dados da Entidade Nacional para o Sector da Energia (ENSE), o factor responsável pela subida generalizada dos preços, nos últimos meses, tem sido, para além do custo das matérias-primas, a margem de comercialização das empresas do sector, a qual terá tido uma margem média anual (em 2020 e 2021) superior à média registada em 2019. 

Uma possível resposta proporcional, poderia passar, por exemplo, pela fixação do preço de venda dos combustíveis. Contudo, quando se trata de afrontar (estas e outras) grandes empresas, o Executivo (este e todos os outros) fica sempre no mesmo registo, não ajudando mesmo nada a uma resposta proporcional. 

Aqui, como em todos os sectores vitais da economia, a abdicação do interesse estratégico do País, conduziu, conduz e conduzirá sempre ao desequilíbrio. 

Como afirma o Poeta, “A nenhum sentido apraz a dissonantia”. 

14 abril 2022

 MEDIDAS À MEDIDA?


 

Em toda a parte o teu papel é admirar

mas, (caso infeliz)

nunca acertas numa admiração feliz...” (1915)

A Cena do Ódio”, José de Almada Negreiros

 

A apresentação das designadas “Medidas Extraordinárias” do programa de governo e respectivo orçamento, apresentadas no passado 11 de Abril, constituem matéria suficiente para o debate global. A circunstância específica de este Governo dispor de uma maioria absoluta, não implica, ou pelo menos não deveria implicar, a necessária negociação. Até para que o Executivo se possa sentir eventualmente mais confortável para aplicar o seu projecto de governação.  

 

As 18 medidas

As medidas pretendem, no entender do XXIII Governo constitucional, conter o aumento
dos preços energéticos e agroalimentares. A propósito, a Ministra da Presidência afirmou que “Estas medidas procuram dar uma resposta focada e dirigida ao problema em causa”. As medidas são designadas “de emergência” englobam 4 eixos, “Contenção dos preços da energia”, “Apoios à produção”, “Apoios às famílias” e “Aceleração da transição energética”. No primeiro eixo, o Executivo decreta a 
redução do ISP equivalente à redução do IVA para 13% e anuncia “...uma redução de 690M€/mês, nos custos da energia em Portugal para empresas e famílias, por via da limitação dos lucros inesperados e extraordinários das empresas geradoras de electricidade”, bem como “a suspensão do aumento da taxa
de carbono até Junho e reavaliaç
ão trimestral até ao final do ano sem reposição integral”. O segundo eixo, prevê uma subvenção para apoiar o aumento dos custos com gás das empresas intensivas em energia, que abrange mais de 3000 empresas, um desconto de 30 cêntimos por litro nos combustíveis para o sector social. No terceiro eixo, estão previstos alargamentos, para as famílias titulares de prestações sociais mínimas, como o dos apoios ao preço do cabaz alimentar (60€)” e à aquisição de botija de gás (10€). Finalmente, no quarto eixo estão englobados que a redução da taxa mínima do IVA dos equipamentos eléctricos, quer a “agilização do licenciamento de painéis solares”, a “simplificação dos procedimentos relativos à descarbonização da indústria” e um “reforço de 46 M€ para instalação de painéis fotovoltaicos em 2022 e 2023 (agroindústria, exploração agrícola, aproveitamentos hidroagrícolas)”.

 

As medidas são mesmo à medida?

A primeira observação tem a ver com este exemplo comezinho: o Governo considera que tem que esperar a autorização de Bruxelas para a descida do IVA para 13%, nos combustíveis. É alias por isso mesmo, que é reduzido o ISP, com redução equivalente. O significado desta medida é, uma vez mais, a obediência e dependência completa à UE, uma das idiossincrasias deste e de todos os outros governos das últimas décadas. A segunda tem a ver com a ideia, tornada, entretanto uma verdadeira obsessão, de que é necessário reduzir a dívida, antes e acima de tudo o resto. 

Com base nestas duas premissas (podiam acrescer outras mais), é possível entender a medida das medidas, pelo menos no seu alcance imediato. Mesmo sabendo que muito pouco, ou nada mesmo, daquilo que se propõe vai resolver qualquer dos problemas estruturais de uma população que tem, por exemplo, um problema demográfico entre mãos, agora e nas próximas décadas e que vai implicar um enorme aumento em despesas com a saúde e cuidado de idosos. Mesmo sabendo que os salários em Portugal são de uma confrangedora miséria e que cada vez mais se afastam da média europeia. E com os preços dos bens essenciais sempre a subir.

Se as medidas fossem realmente à medida, então teriam de prever um necessário e urgente aumento de salários. Porque afinal, são estes que estão a pagar a factura da inflação, aqui e no resto da Europa, leia-se agora “europa civilizada”, na terminologia pós invasão da Ucrânia pela Rússia. Mais, para que as medidas fossem mesmo à medida, deviam implicar uma política audaciosa de fixação imediata de preços máximos, dos combustíveis aos bens alimentares de primeira necessidade. Mas claro que a modernidade liberal e neo-liberal dita que tal nunca será possível, porque, acima de tudo, o mercado tem que funcionar. O Governo, este Governo, que é o vigésimo terceiro da República, segue todos estes princípios, como qualquer outro que se preze, da zona euro. É pois, por isso mesmo, que com tanta medida avulsa, nunca haverá uma só medida à medida, ou seja, que dê um pontapé na submissão e na dependência, para combater de vez a desigualdade que este País regista, de dia para dia, na cauda de uma Europa injusta e desigual. Na verdade, ao longo do ano passado (2021), os salários reais registaram uma “queda significativa” (termo utilizado pelo Financial Times) na zona euro, depois de uma década em que estiveram praticamente estagnados. A inflação, prevista desde o final de 2021, afecta os salários e o poder de compra dos cidadãos, com a subida do índice harmonizado de preços do consumidor, devido sobretudo aos preços da energia, situação que já vinha a verificar-se desde aquela altura do ano passado e que naturalmente se agravou depois de 24 de Fevereiro.

A organização não-governamental OXFAM, afirma, em comunicação de 13 de Abril, que “a inflação faz disparar pobreza à escala mundial” e estima que mais de 65 milhões de pessoas passaram a correr risco de pobreza extrema após o início da guerra. E defende um significativo aumento de impostos sobre mais ricos e empresas que registaram ganhos extraordinários. Ora aqui está mais um excelente conselho que o Governo da República devia seguir. Sabemos de antemão que tal não irá acontecer, porque a última coisa de que este governo se lembraria, era ferir os interesses do grande capital.

 

Cuidar dos cidadãos, o mínimo que se exige

A próxima legislatura constitui uma oportunidade única para transformar Portugal e aproximar o padrão de vida dos portugueses da média europeia. Para alcançarmos este desiderato, temos de utilizar de forma criteriosa e rigorosa os recursos financeiros que a União Europeia irá colocar à nossa disposição", é o que consta do programa deste Governo. E basta esta afirmação para perceber que o Executivo faz depender a melhoria, que há muito tarda, das condições de vida dos cidadãos, da aplicação dos ditos fundos. Ou seja, a predisposição dos nossos governantes é ser mais criterioso, na aplicação dos fundos que nos conferem. Confessemos que é mesmo muito pouco. E se confrontarmos essa “vontade”, com as outras quatro que estão no “programa de emergência”, a saber, “proteger as famílias”, “proteger as empresas, “garantir a coesão social” e “garantir o crescimento económico”, então é que detectamos o profundo fosse que é cavado entre a “vontade” e a realidade. Porque existe um princípio que não deve ser esquecido, o de que a economia deve supor um sistema de produção e de criação de riqueza que possa ser distribuída e ser a base de bem-estar social e colectivo. Onde está então esse suporte? Existem porventura medidas que o possam, no mínimo, garantir? A resposta é inequívoca e tremendamente negativa. Infelizmente. Mais, aceitar passivamente que os salários desçam em vez de subirem, como seria expectável, é permitir a perpetuação de uma situação de desigualdade e, em alguns casos, de aprofundamento da miséria social. 

Cuidar dos cidadãos, particularmente dos mais carenciados, significaria aumentar os salários, na devida proporção da inflação, porque é essa inflação que vai minando os salários e o poder de compra de quem vive do seu trabalho. Significaria actualizar os escalões do IRS à taxa da inflação. Significaria, reforçar os serviços públicos, saúde, educação, habitação e justiça, com a necessária obrigação de implementar políticas públicas à medida das necessidades do País. Significaria ainda o reconhecimento ao direito universal à energia, único garante possível de uma transição energética justa (a tal transição que anda sempre na boca dos responsáveis, que na verdade o são muito pouco), a saber, aquela que coloca a justiça social no centro da política climática e energética.

A tão simples e evidente noção de cuidar dos cidadãos, que, em política, qualquer governo que se diz preocupado com o bem-estar social, deveria respeitar, é, mais uma vez, enterrada, no tacticismo mais praticista. A emergência deixa de o ser, para passar a ser, única e simplesmente, a aceitação tácita de tudo o que se diz e se defende. Isto é mesmo uma contradição insanável.  

Na verdade, a afirmação transcrita do programa do Governo, acaba por ter uma única leitura possível: é, de facto mais uma oportunidade perdida.


 

11 abril 2022

A TEIA


 

Monstros e homens lado a lado

Não à margem, mas na própria vida

Absurdos monstros que circulam

Quase honestamente...

Ao Rosto Vulgar dos Dias” (1958), “No Reino da Dinamarca”, Alexandre O`Neill

 

Notícias que nos vão dando conta de avanços e recuos numa guerra que nos querem impor como global e que nos tortura com o mais despudorado aumento de preços de que há memória. São as cores que nos querem convencer que são as nossas, porque – pasme-se – se trata de “pessoas como nós, brancas e civilizadas”. São as mais torpes mentiras sobre um conflito que foi alcandorado como do século, com o maior fechamento do outro lado, colocando-nos na posição mais fácil e, todavia, mais penosa, a de “escolher” o “lado bom”, porque o outro é simplesmente proscrito. É uma teia de proporções gigantescas, urdida pelas empresas de comunicação social, ao serviço do objectivo central da construção do edifício iníquo do pensamento único. É a voragem mediática da notícia-espectáculo, servida de manhã á noite, nas rádios e TV, apoiada por verdeiros artistas da propaganda.

 

O cidadão e os monstros

Quem está nas melhores condições para distinguir o que é verdade, ou não? Onde está a verdade? Ainda que pudéssemos ter hipótese de avançar uma posição crítica, baseada na interpretação histórica e na análise factual, o certo é que não é possível fazer tal, sem ser apelidado de traidor ao sagrado ocidente, ou simplesmente pró-russo.

Quem entra (ou não) na voragem? Quem é engolido (ou se deixa engolir) por ela? Quem é trucidado? Quem o quer ser? Tantas questões, tão poucas certezas, ou sequer factos que nos ajudem a formar uma posição. O cidadão indefeso é levado a formar uma opinião, não pela análise crítica e inteligente, mas pelo matraquear constante e permanente de imagens e frases-chave, muito bem conseguidas, eivadas de um populismo primário e perigoso, porque essencialmente bélico e terrorista. 

 

Querem convencer-nos que estamos em guerra

Ao condenar a invasão russa, como inqualificável acto de invasão de um estado soberano, estamos a tomar uma posição declarada e unívoca contra o invasor. Ao mesmo tempo, estamos a classificar aquela invasão, como um conflito regional, que tem a ver com os dois países beligerantes, a Rússia e a Ucrânia. O nosso País, por exemplo, nada tem a ver com aquele conflito e a única posição legítima que deve tomar é a defesa de uma solução negociada, nos estritos limites da sua acção diplomática e na defesa do princípio da defesa da paz entre as nações. Aliás, no espírito das Nações Unidas, na defesa daquele princípio. De momento, só parece haver um caminho para a paz, que passa por negociações sérias, que incluam as regiões da Ucrânia onde a população é maioritariamente russa e pela desistência da Ucrânia em integrar a NATO. Tudo o que vá para além disto, é simplesmente alimentar a guerra.

Ora, o que está a acontecer, desde o início do conflito, é exactamente o contrário. A Europa está completa e unilateralmente nas mãos dos americanos e da política belicista e expansionista da NATO, em claro desrespeito pelas leis internacionais e de todos os acordos firmados após o desmantelamento da URSS. Esta atitude, de apoio cego e incondicional à Ucrânia, nunca vista em relação a qualquer país que tenha sofrido uma invasão ilegítima (exemplos conhecidos), é aduzida do apoio militar indiscriminado, em material e meios humanos, muito para além da ajuda, absolutamente indispensável, aos refugiados. 

E esta é a enorme vantagem dos EUA, o negócio do armamento e agora do gás. Assim se entende a política externa americana, que se caracteriza (agora e sempre) pelo instigar de qualquer conflito. A protecção à indústria e comércio de armamento está, para os americanos, sempre acima de tudo, incluindo os Direitos Humanos. Esta é para eles, por assim dizer, uma guerra conveniente.

 

Bucha releva hoje a questão dos crimes de guerra

Pelo que nos é dado ver e ouvir, as duas versões do que se passou, revelam os monstros e do que são capazes. Revelam, em primeira instância, alguma incoerência, datada e factual. Será de admitir, sem qualquer investigação independente, ter havido mais um crime de guerra, a juntar a todos os outros, cometidos pelo agressor russo, como sustenta a Ucrânia, os EUA e toda a chamada União Europeia? Ou, por outro lado, será legítimo pensar numa “terrível encenação” de um massacre, posição sustentada pela Rússia e por alguns analistas militares? Será crível que existe de facto uma poderosa máquina de propaganda russa, que, para além de fabricar factos e cenários, adultera sistemática e voluntariamente a informação, da guerra e não só? A mesma questão, exactamente nos mesmos termos, para o designado Ocidente, os EUA, a NATO e a UE. Seria porventura sensato ler e ouvir os dois registos e tentar relativizar, sem esquecer a questão central: quem perpetrou uma agressão contra o estado soberano da Ucrânia foi a Rússia. E perceber que, para já, apenas nos é permitida a legítima interrogação: em quem acreditamos e que meios temos à disposição para formular um juízo justo? Entretanto deveremos pensar, antes da necessária investigação, que os taisindicadores claros” dos chamados crimes de guerra do exército russo (porque quando se fala de crimes de guerra têm de ser russos...) fazem lembrar a evidência clara das armas de destruição maciça no Iraque?

 

As “terríveis” sanções 

As sanções são a pior medida possível, apenas servem para empobrecer os trabalhadores de toda a Europa, Ucrânia e Rússia incluídas, embora se saiba que a Rússia tem autonomia alimentar e já estaria preparada para a guerra. As sanções acabam por justificar os escandalosos aumentos de preços dos combustíveis, da energia e dos bens essenciais, penalizando sempre os mesmos, os cidadãos mais carenciados e os povos dos países mais pobres. O cidadão comum, por exemplo no nosso País, perguntará com todo sentido, se por acaso provocamos alguma guerra para estarmos a ser atingidos pelas sanções? As sanções, que curiosamente deixam de fora, 70% das exportações russas, o petróleo, o gás e os combustíveis, de que depende a indústria alemã, abatem-se afinal sobre os povos e sobre a própria oposição russa. As sanções, aliadas à efectiva venda de armas da UE à Ucrânia e que nada têm a ver com a propalada ajuda humanitária, são finalmente uma punição para aqueles que lutam pela Paz, em toda a Europa e uma entrada, ainda que indirecta, da Europa nesta guerra. Pelos vistos, segundo informação do ministro Cravinho, o governo de Portugal entra neste jogo perigoso, porque ofensivo e bélico.

 

Envolvidos na teia

Há uma teia que alguém tece por nós, que já não tecemos nada que seja nosso, ou para nós. Temos sim opinião livre, ou não? Falamos à-vontade ou nem por isso? Mas será que nos vamos auto-limitando, porque às tantas vamos favorecer algo que não estamos a ver? Afinal quem somos nós, para enfrentar de caras tanta hipocrisia? A doxa ocidental, contrária ao livre pensamento e apenas ligada a percepções ou sentimentos, quer mesmo forçar-nos a entrar na guerra. Reparemos em alguns exemplos curiosos, que ilustram um dramatismo forjado para o envolvimento: as televisões, que passam, todos os dias, as mesmas imagens (às vezes falseadas) e uma rádio (TSF) que tem um programa diário de 30 minutos, a que chama “conselho de guerra” e informa durante todo o dia a hora e o tempo na Ucrânia!

É uma teia cuidadosamente fabricada, de contornos e fios débeis, suave e discreta como convém nas chamadas democracias liberais. Por vezes nem damos conta disso e pensamos que é mais confortável ficar dentro dela que tentar a libertação pessoal, que nos daria seguramente outro gozo, mas certamente muito mais trabalho. Talvez por isso, a luta pela paz exige muito mais e é mais fácil adoptar o discurso bélico, que alguém já “teceu” para nós. Ao fim e ao cabo, a Paz não passa de uma utopia e, quem a defende ou é pró-russo ou equiparado.

A libertação da teia não depende só de nós. Mas pode começar por uma mudança de atitude e de discurso.

 

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In: http://diario560.pt/a-teia/