rio torto

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08 novembro 2022

 O COLAPSO DA CIDADE

12 Outubro 2022

A crítica das cidades começa na aceitação de um princípio universalmente aceite. A Cidade pertence ao cidadão, uma tese natural, que parece não ser contestada na sua essência. Saber hoje se isso é verdade já constitui matéria suficiente, de debate e de diálogo. Merece discussão pública e, mais do que isso, uma urgência que tem a ver com a possível restauração de territórios, no inconformismo e na vontade de ocupação cidadã de um espaço que lhe pertence por direito. Quem pensa que as cidades são, ou podem eventualmente vir a ser, “inteligentes”, como a propaganda neoliberal quer fazer vincar, ficará naturalmente chocado precisamente com o inverso, ou seja, a falta dela.

Começar pela distinção entre residente e cidadão parece fazer algum sentido. Enquanto o primeiro diz respeito ao habitante de uma cidade, o segundo, para além disso quer significar o indivíduo que possui direitos civis, políticos e sociais. “A cidade é, por si própria, depositária da história”. Quem o afirma é Aldo Rossi, na sua obra L’Architettura della Città, de 1966. Aí, apresenta uma teoria geral dos factos urbanos, elementos com uma estrutura e individualidade próprias, para defender um método de aproximação à Cidade. Por isso, poder-se-á sustentar-se que a “residência” é algo mais que o facto de residir, é na verdade a consideração das características próprias daqueles lugares, no respeito à perspectiva histórica e à ligação da pessoa à sua cidade. É, por essa e outras razões, que a importância da reabilitação se deve colocar hoje, como um dos pilares de sustentação de renovação da Cidade, em íntima conjugação com os residentes-cidadãos e na defesa de uma ambiente mais favorável à vida.


As cidades são territórios vulneráveis. Existe um determinado número de variáveis sociais e naturais, cuja dinâmica, no tempo e no espaço, pode engendrar situações mais ou menos perigosas para uma sociedade exposta, no entender do investigador Robert D'Ercole.

Na verdade, os processos de urbanização capitalista, evidenciam realidades tão díspares quanto a segregação, a exclusão, a precariedade e a pobreza de um lado, e a necessidade de acesso privilegiado ao ambiente construído e à definição de altos padrões de qualidade, do outro lado. A Cidade é um território vulnerável que tem de lidar com todas as contradições, tensões e conflitos, próprios e identificados no seu ambiente global. Acontece que, na maior parte dos casos, é notória a falta de visão sistémica e de conjunto dos elementos que formam o espaço urbano, o que virá a determinar grande partes dos problemas socio-ambientais das cidades. Um dos problemas com maior incidência, sobretudo para a classe trabalhadora, que vive afastada dos centros de trabalho e muitas vezes em alojamentos precários, é a necessidade de deslocamento diário, uma rotina onde gasta grande parte do tempo, com graves consequências na limitação da fruição do lazer e da cultura. Naturalmente, se o Estado, autarquia ou central, favorecer as condições para o capital, mais desigual se torna a relação social, no território da Cidade.

A mobilidade é uma das vertentes mais significativas do ambiente da cidade. É, ou deveria ser, um sinal aberto, pela necessidade que temos de nela nos deslocarmos. As cidades conhecem-se, passeando a pé, o que hoje é cada vez mais difícil, em ruas e mesmo nos passeios, pela intrusão intolerável daqueles veículos que deveriam circular nos locais próprios, nas ruas e não nos passeios, assustando e, por vezes, atropelando mesmo, as pessoas. As ditas trotinetes constituem hoje em dia um dos sinais mais evidentes de uma certa imbecilidade, um sério impedimento lógico à prometida inteligência da cidade. É vê-las, circulando, ou simplesmente abandonadas um pouco por todo o lado, parecendo que se reproduzem, ocupando espaço e silenciosamente destruindo o território, pela sua imerecida existência.

A ditadura do automóvel caminha, passo a passo, com a indiferença. Chega a ser penoso constatar a inqualificável atitude dos detentores da máquina. A sua utilização inadequada será mais um sinal de ausência de inteligência, que leva a “abandonar” o veículo em frente a semáforos, em cima de passeios, ocupando, paralelamente a outros, uma via de circulação, perante a total complacência de uma polícia perfeitamente inútil e cada vez mais afastada da defesa do cidadão, muito embora queira desastradamente demonstrar o contrário, afundando-se em mais uma demonstração de falta de inteligência institucional. 

A submissão ao turista é um outo sinal de colapso das cidades. Por variadas razões, que estão normalmente associadas ao facto de se considerar que o País não sobrevive sem o filão do turismo, o cidadão-residente é coagido a subordinar a sua vida e a respectiva qualidade às hordas de turistas que inundam as cidades e, particularmente, os centros urbanos. A submissão é patente, por exemplo, na patética situação de (tentar) falar a língua do turista, coisa muito característica do nosso País, de que é difícil encontrar paralelo em outros lugares. Mas a submissão vai muito mais longe, atendendo ao facto de a maior parte dos centros urbanos, históricos, das grandes cidades, estarem hoje travestidos na sua essência para servir o turista. É o “roubo” da habitação, é a multiplicidade de lojas que vendem bugigangas ridículas para o turista de pé-rapado, cujo interesse está muito longe da cultura, da inteligência e da história do País.

Há ainda os hábitos, tidos como “modernos”, de uma certa vivência noturna, desde as praxes académicas, aos copos no meio da rua, passando pela circulação intrusiva de energúmenos e marginais de claques ocasionais ou do futebol, um lúmpen desprovido de ideias que não sejam o fanatismo imediatista, um radicalismo pernicioso e fascizante. Aqui, tal como nas questões de trânsito, a polícia ostenta uma atitude passiva, quando não complacente. O que configura mais uma falta de inteligência. 

As ilhas de cultura da cidade são isso mesmo, ilhas. Na maior parte dos casos, a sua existência é ignorada por largas faixas de cidadãos-residentes, a quem parece estranho o fenómeno cultural. Seja pelo preço, muitas vezes proibitivo, dos espectáculos, seja pela deficiência de funcionamento dos circuitos de divulgação. A relativa falta de interesse do cidadão-residente por muitas das manifestações afins é uma evidência terrível, que provoca o afastamento pela sua cidade. 

A Cidade mais parece hoje o prolongamento de um grande centro comercial, onde tudo gira à volta de centros de interesse duvidosos e de um consumismo febril que limita positivamente a liberdade, ao contrário do que se poderia pensar, porque o prazer da descoberta e da cultura história está desgraçadamente ausente. Lembrando as “Cidades Invisíveis”, que Marco Polo apresentava ao imperador Kublai Khan, nos diálogos superiormente descritos na obra de Italo Calvino, constatamos hoje uma erosão da Cidade, um colapso evidente que apenas poderá ser evitado pela intervenção constante e permanente do cidadão-residente, na aproximação à vivência da sua cidade, em todos os momentos da sua existência.

A cidade colapsa por motivos bem visíveis. O recente caso da construção de um edifício de dezasseis andares, a poucos metros da Ponte da Arrábida, na cidade do Porto, numa área inserida em Zona Especial de Proteção, brada a qualquer céu, ofusca um monumento nacional, mas é “viável”, constando até que a imobiliária tem mais de 90% das frações vendidas a americanos e brasileiros, com preços na casa de um milhão de euro.

A questão que se coloca se será possível ainda evitar o colapso da Cidade tem provavelmente uma resposta possível. Arriscando dizer que tal não será fácil, adiantaremos que na ausência de políticas públicas sérias de apoio e preservação dos centros habitacionais, só mesmo a intervenção directa dos cidadãos-residentes, de preferência devidamente organizados, em torno das suas colectividades representativas, poderá evitar o colapso anunciado. As vãs expectativas nas possíveis iniciativas das autoridades municipais, não passarão disso mesmo. Acontece que elas estão demasiado comprometidas com altos interesses, dos imobiliários aos financeiros, passando até pelos “comerciais”. As evidências manifestadas, por exemplo, nas cedências continuadas de espaços urbanos para instalar centros comercias, são a prova concreta do poder do neoliberalismo, que aqui se manifesta também. 

Pudessem os funcionários e burocratas compreender as palavras do Zeca Afonso “A cidade é um poro um corpo que transpira / pela palavra sangue pela palavra ira”. Se neles tivessem algum possível eco, diríamos com o Poeta, “Não há céu de palavras que a cidade não cubra/não há rua de sons que a palavra não corra...”


 O FEITIÇO DA GUERRA

5 Outubro 2022

As mentes bem-comportadas, descansando na calma da aceitação, confrontam-se com os espíritos insubmissos, no desconforto da sua insubmissão. De um lado e do outro esgrimem-se armas, ligeiras e pesadas, mais ou menos convencionais. Em vários lugares, o confronto espraia-se por duelos, nas planícies imensas das consciências. Apoios chovem de parte a parte. Golpes e episódios de contra-informação sucedem-se e originam sequelas várias, nem sempre fáceis de evitar, uma vez que os campos, devidamente entrincheirados, se isolam do corpo e partem numa cruzada, em que apostam todos os trunfos. 

A guerra. 

Muito embora não tivesse havido uma declaração propriamente dita, para lhe sustentar alguma legitimidade, ela aí está e teme-se um alastramento, assim como uma espécie de castigo, para as duas partes, que teimam em sustentar e alargar o conflito. Mesmo que ela (a guerra) assuma uma espécie de operação especial, ficam a esperar-se, sem muita expectativa, os pronunciamentos tidos como habitais.

Das guerras conhecidas, que povoam o inconsciente de alguns, poderiam invocar-se, por exemplo, a das sondagens e das audiências, que induzem comportamentos e atitudes. Se existisse uma simbologia da guerra, ela poderia até ser vista como “Arte”. Sun Tzu assim pensou e falou, sobre “aquele que sabe quando deve ou não lutar”, bem como “aquele que sabe como adoptar a arte militar apropriada de acordo com a superioridade ou inferioridade de suas forças frente ao inimigo”.

Haverá hoje ainda motivos para falar em guerra de libertação? A primeira sensação diz-nos que sim, por haver demasiadas consciências oprimidas que representam a pior opressão do ser humano. Ainda que duvidemos se valerá a pena fazer uma guerra por isso, a verdade é que a aceitação da dominação pode configurar casos extremos de auto-repressão e de mutilação do pensamento. Algum dele já terá sido, entretanto, oportunamente privatizado e utilizado para lavagens sucessivas. 

Mas há outras guerras. O Império contra-ataca e a guerra das estrelas está hoje disseminada, pelo menos num planeta conhecido. A formação guerreira está subjacente à propaganda generalizada, que é servida em doses regulares e bem proporcionadas.

Outras guerras. A que ficou conhecida como “guerra das rosas”, floresceu no século XV entre dois senhores, pois eram duas as flores rosa, em Iorque e em Lencastre. 

As “guerras civilizadoras”, de que falava Thomas Mann, não teriam tido uma acção internacionalista, antes fazendo com que os nacionalismos florescessem um pouco por todo o lado. Ao seu tempo, uma asserção muito sensata produzida pelo homem que foi um dos intelectuais e pensadores mais firmes na oposição ao nazismo.

Mas há uma guerra que é bem “nossa”. O “Judeu” do século XVIII, que morreu cedo, sempre perseguido pela Inquisição, acabando torturado e executado, inventou Alecrim e Manjerona, que cuidadosamente travestiu, para produzir uma sátira mordaz à sociedade. Podia ter lugar hoje, esta “comédia de enganos”, com algum requinte modernista à mistura.

A paz não surte efeito

A paz não tem grande interesse. É uma espécie de atitude seminal, que parece ser inspirada em seres misóginos, desprovidos de razão, mesmo quando a têm. Dela falam sempre que podem e lhe dão espaço, muito embora a sua voz não tenha o mesmo eco dos que glorificam a guerra, mesmo sem saberem porquê. É uma fala esquisita, própria de criaturas inspiradas, mas a que ninguém, ou poucos, dão qualquer crédito. É uma outra espécie de inevitabilidade, mas ao contrário. É mais difícil de entender, porque fala sempre um tom abaixo, não tendo acompanhamento à altura. Nem sequer à medida. O Poeta avisa, “Tu não queres a paz que trago em mim/Sei também que a paz em ti não fica bem”.

O efeito que poderia surtir hoje é conhecido, nenhum.

A guerra tem um feitiço

Que até lhe fica bem. Que o digam os milhões e milhões que movimenta, num crescendo contínuo, numa fanática sede de Poder, das indústrias e consórcios que alimenta e que com ela são alimentados, numa espiral terrível. Não importa quantos nela morrem, parecem até serem mortes “necessárias”, para “renovar” a humanidade. O feitiço é de tal forma atraente que justifica todos os desmandos. 

Diz-se, que, em tempo de guerra não se limpam armas. A limpeza, aqui entendida como imagem pacífica, afinal quem vai pensar nelas, sem ser em sentido figurado? Os melhores intérpretes da guerra são líderes tão fracos que a ela têm que recorrer, para que alguém dê por eles. Aí poderá residir a previsibilidade da guerra, uma ideia assustadoramente banal, mas porventura com uma certa dose de razoabilidade, na medida exacta da sua tendência natural. 

Freud dizia que não se podem julgar todas as guerras com o mesmo critério. Algumas só teriam causado calamidades, outras, pelo contrário, terão contribuído para a transformação da violência em direito, ao estabelecerem entidades em cujo seio foi eliminada a possibilidade do uso da violência, solucionando-se os conflitos mediante uma nova ordem legal. E se o direito é o poder de uma comunidade, ele próprio se pode impor, na qualidade justificativa da sua existência legal.

Muito embora se saiba que a verdadeira motivação da guerra é de índole política e não propriamente da esfera individual, será possível descortinar-lhe algum feitiço na lógica freudiana: a luta constante entre duas pulsões, uma que impele a destruir e a matar e outra que tende a conservar e a unir (que ele designava de pulsão erótica), uma espécie de transfiguração teórica da antítese entre amor e ódio. Resta saber qual o peso relativo de cada uma.

E, entretanto, a exploração, sobre os corpos e sobre as mentes, continua a fazer o seu caminho. Será provavelmente a única guerra que não tem qualquer feitiço. Ou que ainda não foi descoberto, talvez porque os espíritos insubmissos ainda não tenham ganho, como se esperaria, a guerra.

Quando tal acontecer, a conversa vai ser outra.


RESPOSTAS, MEDIDAS E TRICAS

28 Setembro 2022

O tempo vai passando e a situação que era urgente deixa de o ser, por tibieza e incúria. Enquanto se assiste à mais completa indiferença face às desigualdades e ao empobrecimento progressivo dos cidadãos, cansados e atafulhados em dívidas e propaganda, as grandes companhias e empórios vão acumulando rios de dinheiro. O Governo da República apresenta medidas e pretensas respostas à crise em que entrou de livre vontade. A responsabilidade que lhe devia caber na protecção dos seus concidadãos é, uma vez mais, afastada, para dar lugar ao acato burocrático e ao engano metódico. As tricas em que se envolveram ministros e secretários, são, neste momento e cada vez mais, a realidade de um governo triste e de um País sempre adiado.


As questões da pobreza

São já 2 milhões e 400 mil portugueses abaixo do limiar da pobreza. A resposta a estes números é exemplar: a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza está bem congelada, em qualquer gaveta, provavelmente na das Finanças. Aprovada a 16 Dezembro 2021, com um horizonte alargado até 2030, entendida pela Administração como “...um instrumento que visa concretizar uma abordagem multidimensional e transversal de articulação das políticas públicas tendo em vista a erradicação da pobreza”. E, como tal, com o objectivo da “redução da taxa de pobreza para 10% da população, o que significa retirar 660 mil pessoas da situação de pobreza até 2030”, palavras da Ministra de Estado e da Presidência, que, ao tempo, destacou ainda a meta de “reduzir para metade a pobreza das crianças, o que significará retirar 170 mil crianças desta condição durante o mesmo período de tempo.” Passados mais de 9 meses, com as condições de vida agravadas por todos os motivos, este governo não foi capaz de parir uma única medida da sua própria “estratégia”.

Segundo notícia do Jornal Público, de 15 de Setembro, com o título “Portugal é o 8.º pior na lista de países com maior risco de pobreza ou exclusão social”, o nosso País apresenta uma percentagem de 22,4% da população em risco de pobreza ou exclusão social, segundo dados do Eurostat.


O “respeito” pelos mais velhos

Uma notícia do DN de 26 de Setembro alerta para o facto de existir um défice de 4500 camas para cidadãos séniores em Portugal e constata que a maior parte da oferta de lares para idosos está no sector social e cooperativo, IPSS e Misericórdias. Acrescenta o redactor que “... a maioria dos idosos não tem capacidade financeira para pagar lares e há falta de recursos humanos. Mas a necessidade de cuidados assistidos vai continuar a aumentar.” E ainda, que “...tanto operadores como analistas do mercado consideram manifestamente insuficiente quando Portugal tem 2,4 milhões de pessoas com 65 anos ou mais e cerca de 700 mil acima dos 80”. 

Um dos indicadores que mais deveria preocupar qualquer governo que preze o cuidado dos cidadãos mais velhos é precisamente a forma como responde a estas carências. Um governo que parece ter como único objectivo palpável a resposta ao défice e à dívida, nem sequer saberá, por exemplo, que a taxa de ocupação dos lares portugueses é, neste momento, de 91%, segundo dados de Março último, da consultora Dun & Bradstreet. 

O que seria de esperar do Governo, para cuidar destes cidadãos? Em primeiro lugar, a resolução completa das carências em instalações e equipamentos e, em segundo lugar, a adopção de uma política energética particularmente direccionada para a erradicação da designada “pobreza energética”, que abrange 20% da população que não consegue suportar os encargos para garantir algum conforto térmico em casa. A este propósito, a Associação Ambientalista Zero alertava, em Maio passado, para um atraso de 19 meses, na adopção das medidas de promoção da eficiência energética.

O desrespeito pelos mais velhos é mais uma marca do neoliberalismo e, naturalmente, de administrações e governos que seguem a sua cartilha.


As questões aéreas

O centrão voa pelos ares e entende-se em terra, sobre um qualquer aeroporto. Ou, mesmo que não se entenda, faz que se entende, em mais uma demonstração de vazio de ideias e soluções e após milhões e milhões gastos, em estudos, anúncios e promessas. Na verdade, Governo e PSD, não ser entendem. Estendem-se ao comprido, no que, desde há muito tempo, representa a mais completa demonstração de incapacidade, incompetência, inoperância e subordinação completa aos interesses instalados, neste caso, da multinacional francesa Vinci, a quem foi entregue, em 2013, a concessão das infraestruturas aeroportuárias por 50 anos. Sem qualquer estratégia que não seja o seguidismo em relação aos interesses privados, atestada nos recentes encontros entre Costa e Montenegro para decidir uma hipotética solução, o centrão voa mesmo muito baixinho. 

Uma vez mais, navegação (aérea) à vista.


O desperdício da palavra

Muitas vezes dizemos de alguém, que lucraria mais em estar calado, em vez de continuamente perorar sobre tudo e mais alguma coisa, numa tentativa, por vezes patética, de chamar sobre si a atenção. Alguém que ocupa o cargo mais relevante da República deveria ter a prudência e algum recato, aconselháveis em casos que tal. Ora com Marcelo acontece precisamente o contrário. Não se incomoda com Bolsonaro, participando na farsa de uma cerimónia transformada em comício de campanha. Não sabendo bem o que o incomoda, vai distribuindo palavras, mais ou menos soltas e vazias, possivelmente para tentar marcar a sua agenda própria, que pouco ou nada tem a ver com os reais problemas dos seus concidadãos. Talvez o incomode, a acreditar na sua “inocência”, sair de cena, sem o tal aeroporto.  

Entretanto, na rádio, um comentador ocasional diz, a propósito das eleições italianas, que a "UE tem muita força para lidar com os ataques à Democracia”, falando dos erros dos partidos “tradicionais” e fazendo voto de simpatia pelo bloco central, afirmações típicas de quem ocupa o espaço mediático, julgando que tem opinião e que fala em nome de muita gente, afinal mais um desperdício de palavras, que mais valera o vento as levasse, sem pousarem.

As palavras podem ser perigosas. Göethe alertava quão perigoso poderia ser aquele que não tem nada a perder. Os que mais falam, nesta sociedade do espectáculo, são os que pouco têm para dizer a não ser o eco da propaganda. Daí o desperdício da palavra.


O fascismo ao pé da porta 

Uma admiradora confessa de Mussolini ascende ao Poder em Itália, ajudando a compor um quadro negro, num país assolado por vagas de imigração e pela conjugação das desastrosas políticas neoliberais, com incidência particular na liberalização do mercado de trabalho. A insatisfação crescente e o empobrecimento progressivo dos cidadãos, aliados à falta de alternativas à Esquerda, conduziu ao panorama actual, um sinal assustador do que pode vir a acontecer noutros países desta Europa à deriva e completamente subordinada à estratégia americana de uma política de guerra permanente.

Com o fascismo a entrar pela porta da frente, quais serão as respostas e medidas para tentar minimizar os custos inerentes? As tricas e remoques parecem, aqui por casa, mais importantes que acções decisivas. Pobres sinais.


01 setembro 2022

 A MORTE E O DISPARATE

 

Sendo a morte já de si um disparate, ao que parece e para já, inevitável, o disparate não padece da mesma enfermidade, a tal que um dia leva ao fim. Padece de outra, sim senhor, ela mesmo consequência da falibilidade do ser humano. Hegel diz, na “Fenomenologia do Espírito” que, “A única obra e acção da liberdade universal  é,  por  conseguinte,  a morte, ... da morte  mais  fria  e mais  banal,  sem  mais  significado  do  que  o  corte  de uma  cabeça  de couve, ou do que um gole de água”. Há quem, nestas alturas da morte de alguém com destaque social e político, se coloque sempre em bicos de pés, mostrando a sua natural propensão para o disparate. Apeteceria dizer, pobres deles, não sabem o que fazem. Mas tal não corresponde à realidade, eles sabem bem o que dizer, insistem no disparate, essa é a sua enfermidade permanente. não parece haver, para ela, qualquer cura.

 

A morte de Mikhail Gorbachev provocou uma onda de solidariedade para o Homem que acabou com a URSS. Seria provavelmente fastidioso, porventura até desnecessário, evocar o percurso do falecido, já muito foi escrito sobre ele e a sua obra. Recorda-se apenas que, com a queda do império soviético, ocorreu o desmantelamento do chamado Pacto de Varsóvia, uma das condições (dizia-se) absolutamente necessárias para o tão desejado desarmamento. Pese o facto de as suas intenções serem boas (é sempre difícil avaliar), a realidade demonstrou que acabou por abrir caminho a uma casta de burocratas pouco credíveis, à corrupção e a ... Putin.

Acabou um império. Contudo, o outro, bem mais influente e poderoso, continuava e continua de pé, causando os males que são conhecidos em todo o mundo, incluindo na actualidade, bem presente no nosso quotidiano.

Contudo, não deixa de ser curiosa a reacção de toda a Direita mundial, ucranizada e americanizada, no que parece ser o apoio ao que foi o reinado do falecido. Ele é hoje, na visão dessa gente, o herói que representava o "ideal comunista", da liberdade, igualdade e Paz. Tudo muito estranho, não é verdade?

 

O disparate

Nestas alturas, o inefável Presidente da AR, que foi, durante anos Ministro dos Estrangeiros (Negócios, diz-se), vem à boca de cena “disparar” a sua verborreia habitual e conhecida, que é, exactamente e para todos os efeitos, igual à de toda a direita e extrema-direita. Diz o Senhor, basicamente, que a melhor forma de preservar a memória do falecido é defender a Ucrânia. Aliás, sobre qualquer assunto que se lhe apresente, a melhor forma de o ultrapassar é mesmo defender a Ucrânia. O mestre da ucranização em Portugal (se calhar o epíteto é injusto, mas enfim...) aproveita todas as oportunidades para repetir disparates e vulgaridades, pensando que, com isso, está a preparar outros voos, que lhe reserva a mediocridade da política nacional e europeia.

Outro disparate             
Diz o actual MNE, "Em tempo de guerra, a acção e o contributo para a Paz do último líder da URSS devem, mais do que nunca, ser um exemplo a seguir”.
O que pode parecer um dito aparentemente pacífico, acaba por não o ser, vindo de quem vem. Se há pessoa que sem tem multiplicado a dizer disparate sobre disparate, é este Ministro, defensor acérrimo da políticas norte-americanas, que diz democráticas e pró-liberdade. Ele é ainda um dos pontas de lança das irresponsáveis políticas europeias das sanções criminosas contra os cidadãos. Então os contributos que o dito Senhor terá dado pela Paz, como diz Cravinho (que é o que diz Santos Silva) são o quê, afinal? Pelos vistos são, mais armamento, mais dinheiro não se sabe bem para quê, mais sanções. Será que o apelo constante à guerra e à agressão são contributos para a Paz?        

Tanto disparate.               
Tanta hipocrisia.              
Tanta ignorância.            
Esta Europa diz o mesmo, em uníssono, pela voz de uma líder não-eleita, que é quem “manda” na Europa, (juntamente com o secretário-geral da NATO). Veja-se o expoente máximo da vulgaridade: Gorbachev, um "líder de confiança e respeitado" que "teve um papel crucial para acabar com a Guerra Fria e derrubar a Cortina de Ferro" e que "abriu o caminho para uma Europa livre". 

O desmantelamento  
Diz-se que o império, dito soviético, foi desmantelado pelo falecido. E que hoje há quem o queira erguer de novo. Tudo conjecturas de quem está ao lado do verdadeiro império que teimosamente se impõe, a nível mundial, e que domina, oprime e subjuga Estados e povos, através de um sistema que só provoca fome e miséria e que promove milionários e fortunas desmedidas. E isto não são conjecturas, mas sim a realidade concreta. O verdadeiro perigo está em quem faz a guerra e a promove, todos os dias e a toda a hora. Quem aceita como normal a corrupção e o negócio das armas.              
O verdadeiro desmantelamento é o desarmamento imediato e total, em todo o mundo.
Os que (ainda) estão vivos devem deixar de dizer disparates e empenharem-se na Paz.
Todavia, acreditar que estes que hoje disparatam são capazes de mudar, é porventura o mesmo que acreditar na quadratura do círculo.

25 agosto 2022

 FALEMOS (a sério) de CRIMES CONTRA A HUMANIDADE


 

A jornalista Isabel Lindim publica hoje, no Jornal electrónico Setenta e Quatro um artigo, sob o título “Ilhas Marshall: O Paraíso Tropical Que Virou Um Inferno De Radiação”, onde denuncia a política criminosa dos EUA na Ásia Pacífico, onde a administração norte-americana realizou 67 testes nucleares, entre os anos 1946 e 1958, com efeitos que “...ainda hoje se fazem sentir junto das populações: doenças dermatológicas e cancro, crianças com malformações, ecossistemas contaminados e muita pobreza. Os militares norte-americanos usaram-nas como cobaias para estudar o impacto da radioatividade.”

 

O cenário:

Alimentavam-se do que a terra lhes dava e pescavam nas águas cristalinas do Oceano Pacífico. Seguiam as tradições familiares que os seus antepassados, lá chegados há centenas de anos, lhes passaram. A população das Ilhas Marshall vivia em comunidade e em harmonia com a Natureza. Mas tudo isso mudou abruptamente em 1946. Derrotado o Japão, os Estados Unidos transformaram as Ilhas Marshall no seu protetorado. As Nações Unidas concederam-lhe o mandato e, em troca, deveriam proteger as populações. Não o fizeram, bem pelo contrário.”

 

Isabel Lindim conta a história das ilhas Marshall, que, em 1946, “...foram designadas pelos Estados Unidos da América (EUA) como zona para testes nucleares. A partir desse momento, aqueles cenários paradisíacos que pontuavam o Oceano Pacífico, entre as Filipinas e o Havai, seriam alvo de detonações de bombas atómicas de grande amplitude. Os 167 habitantes do atol de Bikini, um dos locais escolhidos para as experiências, foram alojados noutro local. Antes disso, foram “instruídos” sobre a importância destes testes por militares norte-americanos. Era suposto poderem voltar para as suas casas.”

 

Continua, dizendo que, “Durante doze anos, a vida dos atóis de Bikini e de Enewetak foi literalmente bombardeada. Na primeira explosão, a experiência envolveu cerca de cinco mil animais amarrados aos convés de navios de guerra. Vacas, ovelhas, cabras, porcos, ratos… todos estavam imobilizados. Alguns tinham a pele coberta com um creme “protetor”. A mega explosão deixou um rasto de destruição. As imagens foram captadas por drones - os militares norte-americanos modificaram, pela primeira vez na história, caças F6F Hellcat para serem guiados exclusivamente por sinais de rádio - os militares norte-americanos modificaram, pela primeira vez na história, caças F6F Hellcat para serem guiados exclusivamente por sinais de rádio. O enorme cogumelo não só matou parte dos animais isolados nos navios (10%), como contaminou toda a vida das ilhas próximas do atol. Os animais que não morreram ficaram sob observação, mas apenas 28 viveram mais três anos.”

 

A administração norte-americana considerava as explosões e as suas consequências como uma “oportunidade” para a ciência descobrir o nível de contaminação em humanos.

A Jornalista diz que “Durante anos, a população viveu sob observação médica. As crianças nasciam com problemas de saúde, a predominância de abortos espontâneos aumentou. Quando pediram para ser realojadas novamente, a administração ignorou-os. Foi só em 1985 que a Greenpeace, que fez uma operação de resgate no navio Rainbow Warrior,  levou os 300 habitantes de Rongelap para Majetto, uma ilha não contaminada. Foi a última ação deste navio. Em julho do mesmo ano, a ação prevista pela organização ambiental nunca chegou a acontecer, porque dois comandos franceses fizeram explodir a embarcação. O destino teria sido uma contestação no atol de Mururua, na Polinésia, onde iriam ocorrer testes nucleares.”

 

A descrição é no mínimo dantesca: “Enquanto os militares e cientistas se escondiam no bunker Building 70 (mais tarde retirados de helicóptero envoltos em lençóis) e navios com laboratórios ao largo de Bikini, a população esteve totalmente exposta, assim como os 23 pescadores japoneses que se encontravam muito perto do local onde explodiu a bomba Bravo, no barco Lucky Dragon - mais tarde, depois de muita discussão, chegou a ser sugerido pela administração norte-americana que este barco levava espiões comunistas que se aproximaram demais. As questões que surgiram em primeiro lugar foram as de pele despigmentada com escaras e o cabelo a cair, devido às partículas absorvidas. As partículas beta são as mais perigosas para o corpo humano, explica o jornalista no seu livro. Penetram na pele, destruindo as células e impedindo um novo crescimento. No entanto, este não é o único problema de saúde que resulta desta exposição à radiação, como concluíram os cientistas na altura. Outros dos fatores identificados foi o elemento iodo, que se concentra na tiróide. O iodo emite metade da sua radioactividade em raios gama nos primeiros oito dias.”

 

As administrações dos EUA sucedem-se, a política é sempre a mesma: dominação, submissão e terror. 

Quem apoia este tipo de política está a caucionar esta política, mas não só. Está a caucionar a atitude permanente de CRIMES CONTRA A HUMANIDADE.

 

Não há outra forma de interpretar uma monstruosidade como esta!

 

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Obs.: a leitura do artigo completo pode ser feita subscrevendo o Jornal, em: https://setentaequatro.pt/contribuir  

 


 

ILHAS MARSHALL: O PARAÍSO TROPICAL QUE VIROU UM INFERNO DE RADIAÇÃO

25 AGOSTO 2022

Isabel Lindim – Setenta e Quatro

 

Entre 1946 e 1958, os Estados Unidos realizaram 67 testes nucleares na Ásia Pacífico. Os seus efeitos ainda hoje se fazem sentir junto das populações: doenças dermatológicas e cancro, crianças com malformações, ecossistemas contaminados e muita pobreza. Os militares norte-americanos usaram-nas como cobaias para estudar o impacto da radioatividade.

 

Em 1946, as ilhas Marshall foram designadas pelos Estados Unidos da América (EUA) como zona para testes nucleares. A partir desse momento, aqueles cenários paradisíacos que pontuavam o Oceano Pacífico, entre as Filipinas e o Havai, seriam alvo de detonações de bombas atómicas de grande amplitude. Os 167 habitantes do atol de Bikini, um dos locais escolhidos para as experiências, foram alojados noutro local. Antes disso, foram “instruídos” sobre a importância destes testes por militares norte-americanos. Era suposto poderem voltar para as suas casas.

 

Durante doze anos, a vida dos atóis de Bikini e de Enewetak foi literalmente bombardeada. Na primeira explosão, a experiência envolveu cerca de cinco mil animais amarrados aos convés de navios de guerra. Vacas, ovelhas, cabras, porcos, ratos… todos estavam imobilizados. Alguns tinham a pele coberta com um creme “protetor”. A mega explosão deixou um rasto de destruição. As imagens foram captadas por drones - os militares norte-americanos modificaram, pela primeira vez na história, caças F6F Hellcat para serem guiados exclusivamente por sinais de rádio - os militares norte-americanos modificaram, pela primeira vez na história, caças F6F Hellcat para serem guiados exclusivamente por sinais de rádio. O enorme cogumelo não só matou parte dos animais isolados nos navios (10%), como contaminou toda a vida das ilhas próximas do atol. Os animais que não morreram ficaram sob observação, mas apenas 28 viveram mais três anos. 

 

A administração norte-americana viu nos efeitos das explosões uma “oportunidade” para a ciência descobrir o nível de contaminação em humanos.

 

Em 1954, os EUA realizaram o maior teste de todos, apelidado de “Operation Castle Bravo”: a detonação de uma bomba mil vezes mais potente que a bomba nuclear que explodiu em Hiroshima em 1945 (ou o equivalente a 15 milhões de toneladas de TNT). A população de Bikini e Enewetak tinha sido deslocada, mas a de Rongelap, a 160 quilómetros do local da explosão, permaneceu nas suas habitações. A bola de fogo atingiu um diâmetro de dez milhas. Os detritos radioactivos espalharam-se por uma área muito maior. A bomba termonuclear era composta por urânio e lítio. 

 

No documentário The Coming War on China, realizado pelo jornalista John Pilger em 2015, são várias as testemunhas que relatam esta explosão, assim como os doze anos de testes nucleares que se seguiram. O medo, as doenças, as mortes e a pobreza. As consequências desde o último teste, em 1958. John Pilger faz um levantamento do cerco norte-americano no Mar da China Meridional e começa por contar este episódio bizarro e remetido ao esquecimento. 

 

Quando os Estados Unidos assumiram nos anos pós II Guerra Mundial o controle das Ilhas Marshall, sob o protetorado das Nações Unidas, uma das condições era garantir o bem estar da população. O que na verdade aconteceu é que ainda hoje, 74 anos depois, é o local no planeta com mais nível de radiação nuclear (bastante mais do que Chernobyl, na Ucrânia, ou Fukushima, no Japão) e onde se concentraram mais casos de cancro da tiróide em mulheres - houve até crianças a nascerem com malformações. 

 

Em 2019, um estudo da Universidade da Columbia, nos Estados Unidos, avaliou e comparou os efeitos radioativos que existem nas Ilhas Marshall. Todas as ilhas foram atingidas pelos efeitos de longa duração, detectáveis principalmente no solo e na cadeia alimentar. Não é possível viver em Bikini, apesar da sua aparência paradisíaca, com águas transparentes e uma vida marinha que começa a ressurgir no abismo criado pela bomba Bravo.

 

ARQUIPÉLAGO-LABORATÓRIO

Enquanto os habitantes de Bikini sofriam as consequências do maior teste atómico alguma vez realizado pelos Estados Unidos, na Europa um designer francês fazia deste grande acontecimento o mote para a sua invenção: o biquíni. Na publicidade a este novo conjunto que contribuiu para  a emancipação de tantas mulheres, chegaram a usar imagens de manequins com biquíni em cima de uma bomba atómica como símbolo de sensualidade. 

 

Exilados para outras ilhas, os habitantes de Rongelap foram autorizados a voltar para a sua terra natal em 1957. Este acto de benevolência, ou compensação, ficou mais próximo do que se pode considerar um presente envenenado. O objetivo era aproveitar o facto da população ter sido atingida pelos efeitos radioactivos para a estudar. Era uma “oportunidade” para a ciência descobrir o nível de contaminação em humanos, uma ciência orientada pelos militares norte-americanos.

 

Anos mais tarde, em 1969, quando a população de Bikini teve autorização para regressar às suas antigas casas, a radiação surtiu tantas consequências que acabaram por ficar apenas oito anos. E assim tem sido até hoje. Este “programa científico” foi mantido como Projecto 4.1., descrito pelo Departamento de Defesa como forma de “avaliar a gravidade da lesão por radiação nos seres humanos envolvidos; fornecer todos os cuidados médicos necessários; e realizar um estudo científico de lesões por radiação em seres humanos”. 

 

O Laboratório de Energia Atómica de Chicago chegou a receber um grupo de sete homens das Ilhas Marshall. Vestiram fato e gravata emprestados no Havai, que devolveram quando voltaram às ilhas. Foram fechados numa sala de ferro que media a radiação. Num programa de televisão John Anjain, o presidente da Câmara de Rongelap, era apresentado como “um selvagem feliz e amistoso”. “O homem branco trouxe dinheiro, religião e um mercado para os seus côcos”, diziam ainda no anúncio propagandístico. 

 

Mais tarde, um grupo de habitantes foi também a Nova Iorque, acompanhado por um dos cientistas que mais relatórios produziu durante as experiências: Robert Conard. Funcionário da Marinha dos EUA, este cientista seguiu atentamente os efeitos na população durante três décadas. Tinha um especial interesse pelas crianças com cerca de um ano de idade quando se deu a explosão. Examinava a pele, a queda de cabelo e fazia exames médicos. Foi desta forma que chegou à conclusão da alta incidência do cancro da tiróide em crianças e mulheres adolescentes e adultas, por vezes da mesma família: avós, mães, filhas… 

 

Durante anos, a população viveu sob observação médica. As crianças nasciam com problemas de saúde, a predominância de abortos espontâneos aumentou. Quando pediram para ser realojadas novamente, a administração ignorou-os. Foi só em 1985 que a Greenpeace, que fez uma operação de resgate no navio Rainbow Warrior,  levou os 300 habitantes de Rongelap para Majetto, uma ilha não contaminada. Foi a última ação deste navio. Em julho do mesmo ano, a ação prevista pela organização ambiental nunca chegou a acontecer, porque dois comandos franceses fizeram explodir a embarcação. O destino teria sido uma contestação no atol de Mururua, na Polinésia, onde iriam ocorrer testes nucleares.

 

Uma série de imagens foi reunida pelo radiologista Lauren L. Donaldson, da Universidade de Washington e estão agora disponíveis online. A coleção mostra fotografias e publicações relacionadas com o assunto. Numa newsletter de 1958 da universidade, descrevia-se a importância deste estudo como essencial para obter dados “da radioatividade em várias formas de vida (...) num mundo que está a avançar rapidamente para a era das maravilhas nucleares”.

 

UMA VIDA EXILADA

Todo o quotidiano das populações das Ilhas Marshall foi alterado a partir de 1946. Antes daquela zona do Pacífico se tornar um alvo de testes nucleares, alimentavam-se do que a terra lhes dava e pescavam. Eram auto-suficientes no seu pequeno paraíso. Os homens eram velejadores exímios, com conhecimentos ancestrais. A terra era rica em fruta e vegetais. Quando tiveram de mudar de ilha e deixar as suas casas, passaram a depender das autoridades, perderam a sua autonomia e os seus recursos.

 

Muito rapidamente alguns dos habitantes deslocados caíram numa situação de pobreza. Para agravar a difícil adaptação, tiveram de lidar com novas doenças que alastravam entre as suas famílias, consequência de terem ficado imunodeprimidos com a radiação. No livro Blown to Hell - America's Deadly Betrayal of the Marshall Islanders, publicado em 2021, o jornalista Walter Pincus, do Washington Post e especialista em questões de Segurança Nacional, descreve minuciosamente a situação antes e depois dos testes nucleares. O título é uma alusão a uma piada do comediante Bob Hope: “Assim que a guerra acabou, localizámos o único sítio na Terra que ainda não tinha sido tocado pela guerra e rebentámos com ele”.  

 

Em 1954, os EUA realizaram o maior teste de todos, apelidado de “Operation Castle Bravo”: a detonação de uma bomba mil vezes mais potente que a bomba nuclear que explodiu em Hiroshima em 1945.

 

Walter Pincus, jornalista premiado pelo prémio de jornalismo Pulitzer, fez uma longa investigação convertida numa narrativa fluida e de proximidade, repleta de informação. É um livro imersivo que nos relata o enquadramento geopolítico do pós-II Guerra Mundial, os esforços para alcançar a primazia e liderança nuclear e como aquela zona do Pacífico norte foi negligenciada e usada para testes, depois de ser conquistada ao Japão pelos Estados Unidos. E hoje, quando olhamos para a realidade que persiste na Ásia-Pacífico, o que se conclui é que para Washington a presença naquele lado do mundo continua a ser uma demonstração de poder, de manutenção de uma hegemonia que não abdica de manter, inclusive pelo uso da força se assim tiver de ser. Das 750 bases militares norte-americanas espalhadas por vários países (pelo menos 80), cerca de 120 estão em território japonês. 

 

A introdução começa precisamente com a história de John Anjain, o presidente da Câmara de Rongelap, no dia 1 de Março de 1954, quando a bomba Bravo foi detonada. Rongelap é um dos 29 atóis que formam as Ilhas Marshall (juntamente com mais cinco ilhas, uma delas também com o nome Rongelap). A família de John é uma das que têm ascendência neste pequeno arquipélago, ocupado desde há dois/três mil anos por navegadores que chegaram do sudeste asiático. 

 

Naquele dia, 82 pessoas estavam no atol de Rongelap, nas suas casas feitas de folhas de palmeira e madeira. Os testes já decorriam desde 1946, o atol já tinha sido evacuado uma vez, mas os habitantes voltaram. As rotinas tinham regressado e os militares avisaram que haveria mais testes, mas que estes não ofereciam qualquer perigo. Ninguém esperava que o mundo abalasse com uma bomba de quinze megatoneladas, e que chovesse um pó branco espesso altamente tóxico durante várias horas. 

 

A primeira parte deste livro é dedicada aos testes nucleares, onde o autor descreve em pormenor tudo o que envolveu as detonações, assim como aquilo que chegava ao conhecimento público - durante anos, o acontecimento manteve-se oculto ou exaltado como uma demonstração de poder e até de beleza estética (no próprio dia 1 de Março de 1954, as notícias incidiram sobre quatro porto-riquenhos que dispararam dentro do Capitólio). “Como podem ver pelas imagens, senhoras e senhores, estamos a tentar um pouco de inovação”, dizia o presidente Eisenhower numa conferência de imprensa no dia 31 de Março de 1954.

 

Na segunda parte do livro, Walter Pincus retrata os problemas imediatamente visíveis e os que se prolongaram durante anos, com efeitos que duram até hoje. “Como a maioria das partículas radioativas emite raios gama e beta, os seus efeitos nas células e tecidos circundantes ocorrem lentamente por longos períodos e podem não ser aparentes por dias, semanas ou até anos”, explica o autor. 

 

Enquanto os militares e cientistas se escondiam no bunker Building 70 (mais tarde retirados de helicóptero envoltos em lençóis) e navios com laboratórios ao largo de Bikini, a população esteve totalmente exposta, assim como os 23 pescadores japoneses que se encontravam muito perto do local onde explodiu a bomba Bravo, no barco Lucky Dragon - mais tarde, depois de muita discussão, chegou a ser sugerido pela administração norte-americana que este barco levava espiões comunistas que se aproximaram demais. 

 

As questões que surgiram em primeiro lugar foram as de pele despigmentada com escaras e o cabelo a cair, devido às partículas absorvidas. As partículas beta são as mais perigosas para o corpo humano, explica o jornalista no seu livro. Penetram na pele, destruindo as células e impedindo um novo crescimento. No entanto, este não é o único problema de saúde que resulta desta exposição à radiação, como concluíram os cientistas na altura. Outros dos fatores identificados foi o elemento iodo, que se concentra na tiróide. O iodo emite metade da sua radioactividade em raios gama nos primeiros oito dias. 

 

“Quero que as pessoas percebam o perigo das armas nucleares”, disse Walter Pincus numa das entrevistas que deu o ano passado, quando a obra foi publicada. “Nada acontece num vácuo. Muitas vezes esquecemo-nos disso quando olhamos para factos históricos”, escreve na sua obra. 

 

Depois de várias deslocações e já sob contaminação, a população das ilhas e atóis atingidos pela radiação acabou por não voltar ao seu local de origem, ficaram a viver em diversos sítios, por vezes retidos em bases militares para observação. No documentário de John Pilger, é possível ver e ouvir estas vítimas que falam sobre a longa jornada que dura há décadas. O cenário é de pobreza, sedentarismo, emigração e más recordações. O número de diabéticos cresce todos os anos.

 

Em 1986, durante a administração de Ronald Reagan, os Estados Unidos declararam independência limitada às Ilhas Marshall (sob o termo em inglês Compact of Free Association), com a condição de aceitarem a compensação de 150 milhões de dólares pelos danos dos testes nucleares. Esse valor rapidamente se esgotou, e um pedido de recurso enviado ao Congresso ainda aguarda resposta. A questão do dinheiro é levantada desde 1956, quando o acordo financeiro começou com o pagamento de 325 mil dólares ao povo de Bikini para poder usar o atol. Entretanto, qualquer habitante tem, à partida, acesso a visto de residência nos Estados Unidos.

 

Depois de várias deslocações e já sob contaminação, a população das ilhas e atóis atingidos pela radiação acabou por não voltar ao seu local de origem.

 

Mas o dinheiro não é tudo para as populações afetadas pelos testes nucleares. Em 1977, John Anjain, o presidente da Câmara de Rongelap, que entretanto perdeu um filho de 19 anos com leucemia, surgiu perante uma delegação do Comité do Senado para a Energia e Recursos Naturais. No seu discurso disse: “O dinheiro não pode trazer meu filho de volta. Não me pode devolver vinte e três anos da minha vida. Não pode tomar o veneno dos caranguejos de coqueiros. Não pode impedir de sentirmos medo.”

 

Um relatório das Nações Unidas em 2012 deixa claro que os efeitos dos 67 testes nucleares realizados de 1946 a 1958 duram até hoje. Um dos autores, Calin Georgescu, afirmou ao jornal The Guardian que a “contaminação ambiental quase irreversível” levou à perda de meios de subsistência e muitas pessoas continuaram a sofrer “deslocamento indefinido”. 

 

A reportagem remonta a 2014, quando se assinalavam os 60 anos da detonação da bomba Bravo. A população das Ilhas Marshall continua a exigir justiça e a manifestar-se anualmente nas ruas. Mas não é só esta comunidade que mostra a sua mágoa. No Japão, a data não é esquecida pelos familiares dos pescadores que se encontravam a 60 quilómetros do atol de Bikini quando se deu a explosão. Na data que marcou as seis décadas, cerca de duas mil pessoas marcharam em protesto. O barco Lucky Dragon está em exibição em Tóquio desde 1976, no parque Yumenoshima, para lembrar os visitantes da tragédia nuclear. 

 

No momento em que vivemos, com novas ameaças de se usar armas nuclear, vale a pena recordar as palavras de Walter Pincus no seu livro: “a lógica distorcida para o uso de armas nucleares - e por enquanto o seu único uso - é a de serem armas de terror, não para lutar numa guerra”.

 

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In: https://setentaequatro.pt/enfoque/ilhas-marshall-o-paraiso-tropical-que-virou-um-inferno-de-radiacao

 

31 julho 2022

UMA QUESTÃO DE LINGUAGEM OU DE ESTILO?


O ministro Medina falou.
O ministro Medina contudo não falou para o País. Não falou aos seus concidadãos. Não falou aos portugueses.
O ministro Medina, à semelhança da direita neoliberal, à semelhança dos ministros de Passos Coelho, falou para os tais mercados a quem deve respeito e subserviência.
O ministro Medina falou.
E disse que não haveria governo algum do mundo que conseguisse dar resposta.
Para começar, o ministro Medina mente.
E mente, porque "ignora", ou melhor quer que a gente ignore, que muitos países europeus adoptaram algumas medidas, ainda que parcas, no tempo devido.
O ministro Medina, bom e fiel "acompanhante" do seu chefe, andou mais de 4 meses à deriva, sem saber bem o que fazer.
O ministro Medina nada fez.
E, como se isso não bastasse, engendrou, com o seu chefe, um discurso enganoso, mentiroso, para dourar as medidas pífias que se conhecem, tarde e a más horas, esperando que os cidadãos batessem palmas e o levassem aos ombros. 
Os trabalhadores e os cidadãos que mais precisam tiveram do ministro Medina a mesma resposta que teriam dado os ministros da troika.
O ministro Medina volta a negar que pensionistas e reformados tenham qualquer perda, admitindo "que é preciso fazer reflexão sobre a fórmula de actualização das pensões, com tempo e com ponderação". Aqui, o ministro Medina, para além de insultar a inteligência dos cidadãos, adopta, uma vez mais, o discurso da Direita, para um dia destes, abrir a porta à capitalismo das pensões. 
O ministro Medina é um joguete do capital financeiro e dos privados: enfim, sempre o neoliberalismo, puro e duro.
Agora que o Partido Socialista se "livrou" da Esquerda, usa a maioria absoluta como poder absoluto e governa para os mercados e para o capital.
A linguagem de Medina, nem sequer tem um estilo próprio. É a linguagem da direita neoliberal. É o princípio da autopenalização dos cidadãos. É o desrespeito pela cidadania. É o reinado do enriquecimento dos ricos. É o caminho da submissão e da pobreza.

24 julho 2022

A TESE DA CULPABILIZAÇÃO INDIVIDUAL


Pode, em primeira instância, causar uma certa estranheza que o primeiro-ministro António Costa tenha produzido declarações pretensamente assertivas a propósito dos habituais fogos de verão. Por muito que custe ouvir ou ler, afirmações como “não são precisos mais meios, é preciso é mais cuidado”, ou mesmo a acusação directa aos cidadãos de “falta de cuidado”, elas são contudo fruto de um discurso aparentemente elaborado de culpabilização individual, muito em voga nos tempos que correm. E que resultam, em certa medida,  de uma falta de capacidade ou inteligência para lidar com situações, decorrentes da ausência de políticas, quer de prevenção estrutural, quer de resposta imediata. 

 

A culpabilização do cidadão é, por um lado, uma estratégia de uso do poder de forma abusiva e, por outro lado, a demonstração da ineficácia ou incompetência das administrações e governos. A forma típica de culpabilização individual centra-se porventura na Escola e estará no cerne do próprio imaginário escolar, que culpa o indivíduo pelo seu próprio fracasso. Existe aqui um sentimento de culpabilização individual. A associação de um sentimento de culpa, contribui decisivamente para a dependência psicológica e para a subsequente auto-penalização.  

Não ficará de fora a influência negativa de determinado tipo de práticas, associadas à vertente psicológica. A responsabilização do cidadão, que sempre ocorre nas situações ligadas à ecologia, às alterações climáticas ou catástrofes, naturais ou provocadas, supõe  aquela vertente, fazendo cair sobre o cidadão a responsabilidade do que acontece, penalizando-o e culpabilizando-o. Veja-se, por exemplo, como funcionou esta armadilha, na política pura e dura, no tempo da troika. Na realidade, os cidadãos foram responsabilizados por “viverem acima das possibilidades”, pelos responsáveis europeus e também pelos nacionais. Assim funciona o neoliberalismo, é esta a sua cartilha, impregnada de falácias e de um sentimento de inculcação ideológica propositada e dirigida à culpabilização.  Que constitui, juntamente com a tese da desgraça, uma das suas “armas”. Que não hesitam em utilizá-las, particularmente em momentos de crise, com apelos à “unidade nacional”, situação bem notória quando falam de despesismo, que é válido quer na perspectiva individual, quer na global, contra os estados que, na sua opinião, desperdiçam verbas para o sector público, que deviam ficar ao livre-arbítrio do funcionamento dos mercados.

O direito civil incorpora uma modalidade designada “culpa in vigilando”. Significa, em linguagem corrente, que os que têm a obrigação de vigiar são civilmente responsáveis pelos actos daqueles que deixam de vigiar de forma adequada. E, como resultado, quem tiver em sua posse algo que tem o dever de vigiar, deve responder pelos danos que daí derivam, salvo se provar que não houve culpa da sua parte, ou que os danos se teriam igualmente produzido ainda que não existisse culpa própria. (art.º. 493º do Código Civil). Parece óbvio que administrações e governos estão obrigados a este preceito. Uma eventual dose de esquecimento daqueles princípios apenas vexa os seus autores.

 

Embora se diga, em linguagem popular, que a culpa morre solteira, a sua passagem para o campo estritamente individual, tende a induzi-la no cidadão, responsabilizando-o. O designado sentimento de culpa, que, segundo certas correntes da psicologia, é um conceito necessário para o arrependimento, uma espécie de epifania, em face da qual, o  indivíduo seria levado a reconhecer as diferenças entre valores e atitudes, tornando-se mais consciente e até humilde. 

Somos todos culpados de tudo e de todos perante todos, e eu, mais do que os outros”, dizia Dostoievski, em “Os Irmãos Karamazov”, uma aproximação irónica sobre as posições anti-éticas do autor, que revela entretanto um certo sentimento de culpa e uma necessidade pungente de alcançar um qualquer perdão.

 

Heidegger caracterizou o ser humano de uma forma aparentemente cruel, já que falava da culpa como fundamento da decadência, incorporada numa tipologia de existência humana, baseada na facticidade, ou o ser um facto. As nossas escolhas seriam assim determinadas pela confrontação dos factos, nas situações em que nos encontramos. Para o filósofo alemão, a facticidade é muito importante, porque constitui a base necessária de todas as nossas acções. Para ele, a culpa é o fundamento da decadência. 

 

Pode existir uma certa culpa política no cidadão, que tem algum sentido quando aquele reflecte sobre o verdadeiro sentido do voto que depositou em urna e carrega em si a responsabilidade dos erros cometidos pelos governantes que elegeu. Claro que esta forma de ver a situação carrega em si mesma um ónus estranho, uma vez que quem comete a perversão não é o cidadão. E aqui estará muito provavelmente a chave da questão. O governante culpa o cidadão pelos erros que ele comete, transmutando assim a culpa política, a sua culpa política.

 

Mesmo partilhando da tese de Ramuz, quando afirma “Sentirmo-nos inúteis ainda é pior do que nos sentirmos culpados”, preferiremos decerto que culpas que eventualmente carreguemos sejam as nossas e não as que nos querem impor.

A RÁDIO TRANSFORMA

 

“...Que o poema seja microfone e fale

uma noite destas de repente às três e tal

para que a lua estoire e o sono estale

e a gente acorde finalmente em Portugal...” 

“Poemarma”, Manuel Alegre (1964)

 

 

Do sítio onde nos movemos, ou onde simplesmente estamos, ouve-se uma estação de rádio. Passa música e algumas notícias breves. Crónicas de vida, resultados de alguma investigação, relatos de cidadãos a quem é dada a voz, algo raro por estes tempos. Trespassa uma aparente calma, no meio da frenética propaganda, que se distingue do resto, que repete vezes sem conta o mesmo discurso, que é substancialmente pior que a publicidade da mais recente marca de qualquer coisa, a que facilmente fechamos os ouvidos. Faz que fala connosco, quando nos transmite a alegria do golo, gritado a plenos pulmões, ou quando nos dá a notícia triste da morte do Poeta. Nunca saberemos porventura medir a potência forte da rádio, quando nos perturba sem imagens, quando nos encanta com a abertura de uma ópera antiga, onde a voz da soprano lírica transpassa mais brilho, no tom mais alto que do mundo. 

 

A rádio

No ano de 1887, o físico alemão Heinrich Hertz construiu um aparelho para gerar e detectar o que chamamos hoje de ondas de rádio. Hertz inferiu que as ondas viajavam à velocidade da luz (cerca de 300 000 km/s) e demonstrou que a dita radiação poderia ser reflectida e refractada, da mesma forma que a luz visível. As ondas de rádio, também são conhecidas como ondas hertzianas, em homenagem ao seu descobridor. Mas, vinte e quatro anos antes, James Maxwell, professor escocês de física experimental, havia dado a sua contribuição, unificando de certa forma as teorias de Faraday, Lorentz, Gauss e Ampere, ao demonstrar teoricamente a provável existência das ondas eletromagnéticas. O que Hertz, um admirador de Maxwell fez foi, na realidade, provar experimentalmente a teoria de Maxwell.

Associados à rádio serão sempre os nomes dos percursores  Nikola Tesla (1856-1943) e Guglielmo Marconi (1874-1937). Contudo, a transmissão de sons acabaria por só ser possível, por volta de 1906, após o surgimento do tríodo, uma válvula de três elementos (grelha, placa e filamento), desenvolvida pelo físico norte-americano Lee de Forest (1873-1961), utilizada  para amplificar e produzir ondas eletromagnéticas de forma contínua.

Desde então até hoje, a rádio entrou na vida das pessoas e teve particular destaque na difusão de notícias nas guerras mundiais do século XX. 

 

O bichinho da rádio

Pode ser nome de um programa de rádio. E pode, simultaneamente, atestar quanto ficamos presos por algo que passa na rádio, criando assim o tal “bichinho” que inquieta. Quem poderá esquecer o filme de Barry Levinson, “Bom dia Vietnam”, onde o radialista de serviço, interpretado por Robin Williams, tenta passar a sua esfusiante alegria crítica aos soldados no terreno, enquanto as chefias tremiam, perante o “perigo” dessa passagem. 

Aprendíamos, com aqueles programas da rádio, que, antes do 25 de Abril, nos davam a música que precisávamos, como o “Em Órbita”, do Rádio Clube Português, ou que nos brindavam com verdadeiras pérolas, como o “Pão Com Manteiga”, da Comercial ou o “Tempo Zip”, da Renascença. E lembramos o Leite de Vasconcelos, que no programa “Limite” da Renascença, anunciou o 25 de Abril. E alguns outros, que fizeram da rádio um enorme espaço de liberdade e imaginação, como Manuel Alegre, Fernando Pessa, Fialho Gouveia, Raul Solnado, José Nuno Martins, Mário Zambujal, João David Nunes e Cândido Mota. E ainda o Pedro Rolo Duarte, prematuramente falecido (em 2017), que foi um Homem da rádio que lutou, na opinião de António Pascoal, “...contra a cultura do vazio e da boçalidade profissional no seu meio”. 

 

A rádio transforma

A rádio pode transformar a nossa vida. Mesmo quando nela prolifera, por vezes, a democracia do palavreado e da imbecilidade, a rádio é sempre o aviso ou o alerta para estarmos atentos e para podermos exercer algum direito, quando se abre à nossa voz.

O respeito pelo silêncio, a música do vento, a chamada sincopada dos encontros imediatos, a denúncia, o reconhecimento, a abstracção, o torpedear constante da propaganda, o anúncio estúpido da pasta de dentes, a voz do mestre, o arroto do político menor, os jingles da rádio.  

Há uma rádio que passa um programa chamado “Informação Inútil”, por sinal bem mais útil do que, por exemplo, a informação sobre a bolsa ou do que os “comentários” insidiosos de meia dúzia de “residentes”, convencidos que sabem falar de tudo e parecem viver num planeta próprio.

É a rádio que nos desenha uma ideia de rosto a partir da voz, de quem “...vê a rádio que nós ouvimos”. Ou aquela de um conto de Michel Tournier: “Percorre o mundo de equívocos, e quase mistério que rodeava as personagens da rádio, nesse tempo em que a imagem não impusera ainda a sua diáfana tirania”.

 

A Rádio Transforma

Uma rádio do Porto para o mundo. A Rádio Transforma (http://radiotransforma.net) surge na sequência da publicação da revistaInComunidade (www.incomunidade.com), “…uma revista online de pensamento e criação que aborda áreas como a Política, a Economia, o Direito, Ciência..., não havendo limitação de temas, excepto se atentarem contra a dignidade humana.” A revista leva já onze anos de publicação online. 

Os impulsionadores da revista sentiram, na opinião do Director Henrique Prior, “...a necessidade de avançarem com um projecto mais ambicioso do que essa revista, que seria uma rádio que estivesse presente não só num canal áudio, mas ainda em todas as redes sociais, em particular no Youtube, ambicionando mesmo evoluir para uma televisão por cabo.” E continua, afirmando que “...apesar dos limitados meios financeiros, conseguiu sobreviver à pandemia, e a sua audiência encontra-se em franca expansão, sendo os seus programas seguidos, poder-se-á dizer, por pessoas nos mais variados países, da Europa às Américas, da África à Asia.”

A programação musical da Rádio Transforma é de elevada qualidade, abrangendo a música ligeira, música portuguesa, brasileira, a chamada música do mundo e ainda o jazz  e a música clássica. Os programas de vídeo (audíveis no canal da rádio em áudio), no Youtube, no Instagram Reels, nomeadamente, atraem pela elevada qualidade da cultura e da informação que transmitem. O programa ENFOQUE, que tem uma audiência considerável, não só em Portugal, mas também no Brasil, representa a ligação ao mundo lusófono, que é um dos objectivos sempre presentes na programação.

Henrique Prior diz que a Rádio Transforma “...está nos primeiros tempos de existência. Mas a força e a entrega ao bem comum de quem nela trabalha e com ela colabora são a garantia de que será longa a sua vida.” Na sua visão, o Projecto pretende “...contribuir para a transformação deste mundo num mundo melhor e socorre-se daqueles princípios em que assentou a Revolução Francesa e que, cada vez mais aprofundados, devem nortear todas as sociedades: liberdade, igualdade e fraternidade. Liberdade porque sem liberdade somos todos escravos e não verdadeiros homens responsáveis pelo seu destino e capazes de o moldar, transformando o mundo num mundo melhor. Igualdade porque nenhum privilégio de qualquer espécie deve ter qualquer homem em relação ao outro. Fraternidade porque só com fraternidade poderão existir os outros dois princípios. E, ligados a estes, outros princípios essenciais: sabedoria, força, beleza; honra, verdade, justiça, progresso.” E conclui, dizendo que apesar de “...todas as nossas limitações financeiras, nunca abdicamos de colocar na nossa programação, quer de áudio quer de vídeo, estes princípios.”

 

Se puderes, ouve. 

Ouve a rádio que ciranda por aí, possivelmente num transistor perto de ti. Está provavelmente presa em qualquer esquina, mas passa por aí. Não tem imagem, mas pode albergar belas alegorias, ao contrário da concorrência, onde se vê, a toda a hora, o horror do espectáculo, a vilania da agressão que entra pelos olhos dentro. A rádio que um dia ajudou a libertar o País, à custa de tantos subterfúgios, de tanto enredo, na imaginação fértil de tanta gente, que nos deliciava com a doce amargura dos tempos de cólera. A rádio que um dia nos dava a voz da liberdade e no anterior passava ainda o discurso hostil da mentira.

Há uma beleza imensa na rádio, um afrontar constante à lembrança remota que vive em nós. Uma corrente imensa de palavras e sons. Perdoem-me se invoco a corrente, e diga, “A rádio vai em ondas como o mar”, frase roubada ao Fernando Alves, um Amigo que rema invariavelmente contra uma maré de marasmo e nos convoca sempre ao desassossego. E, se hoje o cito, é porque ele sempre fala de uma “longínqua casa dos prodígios”, ou da “plasticidade das palavras”. 

Como ele, acredito “...que a rádio vê e dá a ver no escuro.”

 

 

 LIBERDADE E PENSAMENTO CRÍTICO (LPC 2022)


 
















Em Abril de 2018 haveria de ser tornado público um documento, um Manifesto, intitulado “Liberdade e pensamento crítico”.

 

Estávamos a comemorar os quarenta e quatro anos de Abril e a Revolução. No Manifesto poderia ler-se “A liberdade povoa todos os espaços da vida; não pode ter quartos escuros”, “A liberdade só existe quando se exerce contínua e diariamente, em cada gesto, em cada ideia, em cada sentimento” e ainda, “A liberdade é o direito à igualdade com o reconhecimento da diferença.”

 

Constatando uma realidade que, com 4 anos de diferença, é exactamente a mesma, o documento afirma, “Há milhões de pessoas que nascem e morrem sem nunca terem sido felizes, porque é impossível sê-lo nas condições em que vivem. As crianças que nascem na pobreza têm fome pela escassez de alimentos ou da sua qualidade. O acesso à chamada solidariedade é sentido desde a infância como um estigma e a desigualdade com os outros da mesma idade não é perceptível por qualquer racionalidade, o que leva à revolta e à tristeza. As situações de desemprego, a precariedade, as pensões de miséria, os idosos dependentes e os incapacitados geram um ambiente que dura vidas inteiras, sem uma abertura, sem um pequeno projecto de alegria. Também nas chamadas classes médias a vida é desumana. O trabalho humano tornou-se mercadoria e o critério de produtividade dos accionistas das empresas cabe num programa de computador. As oito horas de trabalho, que a tantas condenações à morte levou em 1886, foram esquecidas e as empresas privadas alargam com ameaças a jornada de trabalho às dez, 12 horas. Esta é a realidade que impede uma vida pessoal condigna...”

 

Sendo o LPC um Movimento que se posiciona com objectivos bem claros de reactivar a democracia representativa e de defesa dos valores de Abril, a realização do IV Fórum Liberdade e Pensamento Crítico foi um acontecimento ímpar, num contexto em que reina o desinteresse pela política e em que muitos cidadãos se sentem ameaçados nos seus direitos.

Assim foi no dia 23 de Julho, um Sábado quente, a convidar outras paragens, no Liceu Camões.

 

Houve um pouco de tudo, exposições temáticas e de pintura, poesia, música, dança, debates e actividades culturais e onde estiveram presentes diversas associações cívicas e culturais com mostras gastronómicas, livros e outros produtos. 

 

O tema geral do Fórum foi “Informação e Desinformação”. Com ele se procurou, “...fomentar uma reflexão conjunta sobre a verdade e a ética em confronto com a falsidade, as notícias falsas, manipuladas; a verdade que colide com os interesses do poder político e que é sonegada; a verdade como ameaça pela confrontação entre interesses e valores, a manipulação da opinião pública e os jogos de poder.”

 

Num dos debates, muito animado, onde se falou de “Democracia, Liberdade e Pensamento Crítico”, foram avançadas algumas ideias e propostas, no sentido de fazer sentir que as necessárias mudanças a nível político, só serão uma realidade se os cidadãos participarem na vida política, nas empresas, na saúde e na escola, no dia-a dia. Não havendo “receitas”, há experiências que vale a pena conhecer e caminhos que vale a pena trilhar, para a libertação do jugo neoliberal que domina o País e o Mundo.

 

Assistimos, debatemos, convivemos. Também ouvimos poesia e performances diversas. Dançamos forró e apreciamos os Artistas que nos brandaram a com a sua música. 

 

Apesar do elevado grau de interesse  deste evento, não consta que a comunicação social tivesse comparecido. Confirma-se assim que tem mais com que se “preocupar”, afinal ali não havia nada que os pudesse interessar...