rio torto

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05 fevereiro 2023

 EU ME CONFESSO! 

 

Não sabendo bem por onde começar, nem se era este confessionário cento e quarenta e quatro que deveria utilizar, sempre digo que acho perfeitamente idiota, desculpará a linguagem, que o Estado esteja a financiar, ou pagar, esta fantochada, digna da idade das trevas, bem como a indignidade de desperdiçar tanto dinheiro, quando me dizem, todos os dias, que não há. Confesso que estou confuso e aparvalhado, diga-me se existe perdão, estou morto, por assim dizer, para saber. 

Olhe, meu filho, os mistérios de deus são insondáveis.

 

Sim, seja lá o que isso quer dizer, mas se é essa a sua resposta, deixe lá. Confesso ainda que estou possesso porque aquele senhor que manda no País está a comprar peças para os tanques de santa margarida que estão avariados, para os oferecer à Ucrânia, a quem já ofereceu duzentos e cinquenta milhões e diz que não tem dinheiro para pagar aos professores e outros trabalhadores. Eu estou com vontade de lhe apertar o pescoço e de o meter dentro de um daqueles tanques, está a ver? Diga-me por favor se tenho perdão também por isto.

Olhe, meu filho, os mistérios de deus são insondáveis.

 

Porra, desculpe lá, o senhor tem alguma cassete, ou cêdê, acho que já me tinha respondido assim à outra pergunta, afinal que raio de mistérios é que fala?

Olhe, meu filho, a blasfémia é pecado mortal.

 

Eu nem sei bem o que é um pecado mortal, mas convenceram-me a vir aqui, disseram-me que é para jovens, uma espécie de uebessamite com padres, estarei enganado? Mas já agora também quero confessar que ouvi aquele sujeito do santander dizer mal dos que jantam fora à sexta-feira e acontece que, ontem mesmo, fui jantar com uns amigos, era uma sexta e estou para saber se pequei por andar a gastar a mais e assim aumentar a dívida, ou lá o que é, uma vez que já sei quem é o tal senhor e estou a pensar fazer-lhe uma espera. Diga-me lá se tenho perdão possível e o que tenho de fazer, mas, por favor, mude de cassete, ok?

Olhe, meu filho, os mistérios da banca são insondáveis.

 

Bom, já vi que estou a perder o meu tempo, mas não quero deixar de dizer que fiquei com uma raiva daquelas à Ana Catarina por ter ido ao congresso dos fascistas, estive mesmo para ir lá pôr uma daquelas coisas que rebentam com tudo, mas antes, acho eu, avisava a “camarada”, olhe, e daí, nem sei se avisava. Será que me pode perdoar, apesar de eu não ter feito nada, nem era capaz de fazer, mas acredite que vontade não me faltava. E ainda, se me permite, dizer que fiquei com um desejo de estrangular aquele alemão que disse que as armas que vai mandar para a guerra não são para atacar, mas só para defender. E estrangulava também aquela dondoca irritante que alguém pôs a mandar na europa. Ou seja, dava aos dois o mesmo tratamento, será que tenho perdão, muito embora também lhe diga que não era capaz de fazer tal coisa, mas sabe, a raiva é tanta que nem sei.

Olhe, meu filho, sabe que mais, eu tenho mais que fazer, olhe só a fila que está atrás de si, vá dar um volta ao parque eduardo sétimo, faça um escorrega no acesso do altar e vá pedir perdão ao raio que o parta!

 

02 fevereiro 2023

 SETE VÍRGULA OITO POR CENTO, ÓPTIMO!

 

Uma empresa que justifica o que investe na melhoria do serviço e quer reflectir no cliente o custo inerente a esse investimento, não é sustentável, na sua própria existência enquanto empresa. 

Uma entidade reguladora que não regula coisa nenhuma, que aparece de quando em vez a opinar sobre questões, mas não toma posição concreta sobre as mesmas, não se percebe muito bem para que existe.

Um governo que assiste passivamente aos aumentos desmesurados dos preços dos serviços aos cidadãos, revela a mais completa incompetência para proteger os cidadãos.

 

Da parte dos operadores de telecomunicações em Portugal, o que se vê é a mais despudorada arrogância em aumentar preços e, ainda por cima, em cartel. Vejamos o exemplo do dia de ontem, em que 3 empresas do sector anunciam, ao mesmo tempo, um aumento exatamente igual (7,8%) para os serviços que prestam.

E, face a isto, o que diz a entidade reguladora? Nada, vem falar da redução do período de fidelização.

E, face a isto, o que diz o Governo? Nada. E, se falasse, diria, provavelmente, que é o mercado a funcionar.

Estes operadores oferecem, por exemplo, um serviço de telefone fixo, que é muito pouco utilizado, não constituindo de forma alguma uma oferta. É apenas um engano, uma forma de enrolar o cidadão, obrigando-o a pagar um serviço que não utiliza.

 

Os factos e os números revelam que:

·       os preços das telecomunicações em Portugal são elevados, acima da média da EU; o exemplo do custo dos dados móveis no nosso país está na lista dos mais caros na Europa; segundo informação da Anacom, entre Dezembro de 2009 e Dezembro de 2020, os preços das telecomunicações em Portugal aumentaram 6,5%, enquanto na União Europeia diminuíram 10,8%(!);

·       o preço da internet móvel em Portugal é duas vezes e meia o da Espanha e mais de seis vezes o da França; os números são 4,97 €/GB, em Portugal, 1,81 em Espanha e 0,81 em França; e, em relação à média europeia, o custo no nosso País, representa mais 46% (3,4 €/GB).

 

Os preços dos serviços disparam para valores insuportáveis, enquanto milhões de pessoas assistem, pelos vistos passivamente. Não são apenas os preços das telecomunicações que aumentam, são todos os preços. De serviços e de bens essenciais. Sobre salários, pensões e respectivos aumentos, estamos (pelos vistos) conversados.

Aqui ao lado, em Espanha, o Governo está a preparar nova legislação na área das telecomunicações, que visa reforçar as obrigações impostas aos prestadores de serviços a clientes finais e o respeito pelos direitos dos consumidores. Seja qual for o resultado, está aqui, pelo menos, um exemplo de tentativa de proteger os cidadãos.

28 janeiro 2023

 UM CASO SÉRIO

 

“...Vais acabar num bueiroSem futuro nem dinheiro

Etelvina”, Sérgio Godinho (1974)

 

Correndo o risco de parecer vulgar, parafraseando quiçá muitos que dizem o mesmo, avanço com a seguinte tese: para além dois conhecidos “casos” que o afectam, este governo é mesmo um caso sério. Avançando na tese, sempre sustento que, na maior parte das situações, tal se deve à mais profunda imperícia e incompetência.

E porquê? Simplesmente, porque poderiam ser facilmente evitados, com o tal cuidado que o senso comum aconselha e que é válido também para a coisa pública. Não existindo tal senso, seria de considerar alguma prudência na forma como se escolhe, como se nomeia, enfim, como se administra a tal coisa que é pública e que, por consequência, não é mesmo uma coisa qualquer. E que merece tratamento adequado e uma atenção épica.

Mas há mais. Há sempre mais, uma explicação, uma consideração, por que não até um palpite. É um outro factor, nada despiciendo: a tentação da arrogância, quando não a arrogância determinada. É o caso (mais um “caso”) da determinação governamental sobre os “serviços mínimos” na Educação. Uma treta só mesmo possível com o objectivo, claro e preciso, de atentar contra a Lei da Greve.

 

É aqui, como em centenas de outras situações, que este partido que se diz socialista revela os mesmo tiques anti-democráticos da Direita que diz combater. Não combatendo coisa nenhuma, vai, antes pelo contrário dar trunfos aos adversários políticos. Vai fazendo, dia a dia, o trabalho sujo, alimentando o descontentamento “popular”, que se sabe onde conduz. Os que hoje estão em congresso para entronizar o chefe, agradecem reconhecidos e já falam em ultrapassar os “pêessedês”, liderar a Direita e, imagine-se, tomar o poder. Exemplos não faltam, por esse mundo dentro.

 

Mas não aprendem. Melhor, não querem aprender, caprichados que estão no que pensam ser a sua missão. Das “contas certas” à histeria dos tanques e outras coisas bélicas, passando pelo alinhamento vergonhoso com os poderes do capital e da banca, sempre com o beneplácito, ainda que disfarçado, daquele que ajudaram a eleger e a reeleger na mais alta chefia da nação. Por isso, não admira que estejam envolvidos até aos dentes na mais rasteira das ratoeiras, elevados ao altar-mor da ignomínia de dar, doar, ou patrocinar as altas “patentes” de uma religião e não consigam descolar da sua posição conservadora. 

Ao fim e ao cabo, uma posição traidora de classe. Sendo ousada, esta classificação nunca foi tão clara e transparente, porque é a mais pura e simples das verdades. 

 

Este governo é mesmo, cada vez mais, um caso sério.

27 janeiro 2023

OH, VALHA-ME DEUS

A "ideia peregrina", assim classificada pelo general Pinto Ramalho, de enviar tanques de guerra para a Ucrânia, é mais um delírio da paranóia armamentista neoliberal.
Nesta campanha está empenhado um Ministro da República que representa, em Portugal, o triste papel de delegado da NATO e dos EUA, um disparate que nunca se havia visto até agora. Sempre que abre a boca, o senhor Cravinho despeja a conhecida narrativa bélica e alinhada fielmente com o Secretário-Geral da NATO e administração americana. Chega a ser penoso ver um alto responsável vomitar a conhecida propaganda, para além da habitual dose de russofobia militante. Dizer que o apoio do nosso País vai ser "generoso", é, para além de ridículo, profundamente indecente.

Os tanques de que se fala, segundo fonte "autorizada" de um conhecido órgão de comunicação social, estarão na sua maioria "fora de serviço". Foram comprados em saldo à Holanda, um país que hoje está tão em baixo, que até mudou de nome. Parece que a garantia de 2 anos, mesmo tratando-se de segunda mão, não funciona, o que nos devia deixar altamente preocupados, afinal os russos podem vir por aí abaixo e defendemo-nos como? Os tanques antigos de lavar roupa não devem ter grande serventia, a não ser para serem lançados na cabeça de algum de algum general russo que se aventure na conquista do Algarve.
A provável gravidade do tema em apreço deveria preocupar os responsáveis, mesmo aqueles que se sentem protegidos debaixo dos altares, ou lá o que seja, que o Estado decidiu oferecer a uma conhecida agremiação religiosa. Correndo o risco de incorrer em pecado, sempre digo que os 4 ou 5 milhões deveriam dar para comprar peças, munições e reparar os tanques, para os oferecer ao desgraçadinho que manda na Ucrânia e que passa todo o "santo" dia a pedir mais armamento.

Que um deus qualquer, se possível, lhes perdoe, que eu não.

24 janeiro 2023

 ESTA GENTE ENSANDECEU 

As últimas notícias sobre aquela guerra que “anima” a comunicação social e uma opinião pública devidamente moldada e formatada, para servir interesses bélicos e guerreiros, dá hoje conta que a Alemanha encoraja aliados a treinar ucranianos nos tanques Leopard e que o ministro da Defesa encoraja "os países parceiros que têm tanques Leopard prontos para serem destacados para treinar as forças ucranianas nesses tanques".

A resposta do ministro Cravinho, que é neste momento uma espécie de delegado da NATO e dos EUA, não se lhe conhecendo qualquer trabalho em defesa do seu País, veio logo afirmar que Portugal participa de “forma generosa” nesta cruzada, dizendo que o nosso País tem mostrado disponibilidade para o treino dos militares ucranianos. Aliás, a notícia de ontem no DN, é, em grandes parangonas “UE disponibiliza mais 500 milhões de euros para apoiar Kiev, anuncia João Gomes Cravinho”. 

Tudo isto, ou seja, a dita cruzada, é em favor da Paz. Nunca tal coisa imaginaríamos, que a dádiva de mais 500 milhões fosse para a Paz., juntamente com mais 45 milhões não se sabe bem para quê, mas decerto que será “pacífico”, uma vez que o tema é uma "missão de assistência militar".

 

Ao mesmo tempo, seguindo as notícias vindas daquele belo recanto de democracia e liberdade que, pelos visto, é a Ucrânia, sabe-se também hoje dos casos de corrupção que envolvem altos responsáveis da administração ucraniana, que vão desde o vice-ministro da Defesa e responsável pelo apoio logístico às Forças Armadas, ao Vice-Procurador-geral, passando pelo vice-chefe da Administração Presidencial. Ao que consta existem ministros suspeitos de inflacionar preços de alimentos das tropas, equipamentos e geradores de energia. A classificação no ranking dos mais corruptos do mundo que coloca a Ucrânia em lugar de destaque deve, porém, ser obra dos russos ou de agentes infiltrados para denegrir o país. Igualmente deverá ser obra deles o facto de terem sido banidos os partidos políticos e os sindicatos. 

 

A mais pérfida das propagandas e a intolerável tentativa de imposição do pensamento único, pela industrialização e lavagem das consciências vai ao ponto de iludir as pessoas de que os milhares de milhões até agora gastos são para promover a Paz. Um pecado mortal, para quem acredita e uma miséria moral para quem tem alguma decência. 

Dinheiro a rodos que não pára de correr, quase um ano depois, o apoio mundial à Ucrânia ascende a 100 mil milhões de euros, oriundos dos EUA e União Europeia. Portugal, o nosso País, onde se negam uns míseros aumentos, já gastou nesta guerra 300 milhões. Verdadeiramente inqualificável!

 

Uma perfeita loucura. Será de perguntar o que aconteceu a esta gente toda. 

Não adianta sequer tentar compreender, uma vez que não conseguem falar de outra coisa, nem lhes interesse falar de mais nada que não seja guerra, tal é a cruzada em que entraram e onde querem que entremos também. No meio da confusão, a ministra da Defesa da Alemanha demite-se, ao que parece por ter manifestado algum distanciamento em relação ao apoio militar do país à Ucrânia. 

Não há milhões que resistam a tanta perfídia. 

Das duas, uma. Ou a Paz vem mesmo aí a correr com tantos milhões e milhões a favor, ou esta gente ensandeceu mesmo.

13 janeiro 2023

 O EXAME DE ADMISSÃO 

Recuo ao início dos anos 60 do século passado. Fazíamos então o exame de admissão ao Liceu, vindos da Escola Primária. Não me lembro se tinha 36 questões, mas acredito que se tratava de perguntas pertinentes, relacionadas com a exigência da coisa. Sem o exame não poderíamos entrar no Liceu, poucos, entretanto tinham esse privilégio, a maioria ficava por aí, sem acesso sequer a um exame, prerrogativa só possível aos filhos da burguesia. O exame era um "luxo", a admissão uma miragem, tal como a Ponte, da canção. Havia, para um grupo ainda mais restrito, as explicações do Prof. Gil, que nos preparava o melhor que podia e sabia para a dura prova.                  

A admissão dos dias de hoje é quase a mesma coisa. Há uns tantos candidatos que vão agora, após muitos anos de entrada directa, fazer o exame de ingresso. Difícil como o outro, deverá ser, a única coisa que sabemos é que são 36 perguntas. Decerto que haverá, como no outro caso, um qualquer Prof. Gil a dar-lhes as explicações necessárias para passagem à primeira. 

Mas se calhar dá para imaginar perguntas, tipo, “tens algum processo em cima?”, “a tua mulher tem alguma conta arrestada?”, “sabes o que é uma conta arrestada?”, “entregaste algum subsídio à Empresa X?”, “sabes o que é um subsídio?”, etc... Estas são fáceis, outras possivelmente mais difíceis, como por exemplo, “define ética republicana”, “quantos dias esperas estar no Governo?”, “tens algum prima no Governo e em que departamento?”, “ainda namoras com o secretário de estado Y? E para estas últimas penso que as “explicações” antes do exame não serão grande ajuda.

Gostaríamos de saber ainda se bastará a prova escrita ou, se lhe sucede uma prova oral. Ou se há, neste caso concreto, dispensa da oral, com nota acima de 14 valores. Ainda este pormenor que poderá ter algum sentido: onde serão afixados os resultados da prova escrita? Poderia sugerir que fosse na Autoridade para a Transparência, se esta não tiver paredes de vidro. Esta última sugestão era capaz de ter alguma lógica, ao menos serviria para inaugurar e dar que fazer a esta digna instituição, que já tem estatuto, uma lei orgânica, que tem o número 4 e data já do longínquo ano de 2019, já agora ao décimo-terceiro dia do mês de Setembro.

Mas, como é evidente, nada disto tem interesse. O que interessa aqui é agitar as águas, de um rio bem sujo e onde fica seguramente mais bonito saber até que ponto vale mesmo a pena tomar banho nele. Se porventura tomarem contacto mais estreito com alguma, ou algum, dos visados façam favor de serem compreensivos para com os candidatos, que estes levam um vida muito preenchida e não devem estar a mudar-se só porque sim.

 Com esta termino. Deverá haver, para os examinandos, uma espécie de atendimento imediato e um despacho rápido, que esta gente tem mais que fazer e coisas importantes a tratar. Deus sabe o tempo que nos fazem perder num simples interrogatório. Deviam ter algum respeito e consideração connosco, pronto, enquanto escrevia, sei que passei na escrita, mas não tenho dispensa da oral, deve ser na semana que vem.

Aguardemos.

29 dezembro 2022

 PEDRO NUNO (SANCHEZ?)

Os dois Pedros são homens da mesma geração, com 5 anos apenas a separá-los, sendo mais velho o espanhol. Sem pretender qualquer comparação, em termos pessoais, respeitando a individualidade de cada um, poderá eventualmente falar-se em algumas similitudes, num momento particularmente delicado para o português.

Curioso será analisar em pormenor o percurso de cada Pedro, com natural vantagem política para o homem do PSOE, que lidera o Governo de Madrid com a coligação Unidos Podemos (Podemos, Esquerda Unida e outros partidos de esquerda).


Pedro Nuno sai do Governo de Costa depois de ter protagonizado muito de bom e algum de mau, neste e nos outros governos do Partido Socialista. Fora da análise o pormenor de cada uma das situações, o certo é que a personalidade e, de certa forma, o vigor, com que Pedro Nuno defendeu algumas medidas concretas, fazem dele um exemplo no panorama político nacional, havendo quem lhe vaticine um promissor futuro dentro do Partido Socialista.


Fica, entretanto, o devido registo de quem não tem qualquer simpatia pelos dois partidos, que de socialista apenas têm o nome e que praticam, em Espanha e em Portugal, a doxa europeia, que, no caso português, representa o neoliberalismo mais primário e de subjugação aos ditames da desastrosa moeda única que significa, no limite, o empobrecimento progressivo dos trabalhadores. Mas tem que se salientar, no caso de Espanha, algumas decisões positivas como a da Memória Histórica, na qual foram consagrados e ampliados direitos e onde se estabelecem medidas em favor de quem sofreu perseguição ou violência durante a Guerra Civil espanhola e a ditadura franquista. E ainda algumas medidas de apoio aos cidadãos carenciados e atingidos pela pandemia e pelas estúpidas sansões da guerra, que atingiram algum significado, no país vizinho, precisamente devido ao facto de a Esquerda estar no Poder, coisa que em Portugal nunca aconteceu.


Poder-se-á então falar num fenómeno Pedro Nuno “Sanchez”, sem qualquer desrespeito pela propositada adulteração do nome do Pedro português? A resposta possível apenas poderá ser dada dentro do Partido Socialista. Há quem sustente que o futuro de Pedro será o de um líder. Ainda que essa hipótese seja plausível, muita coisa terá que mudar, para que, um dia, o partido que ocupa o Poder, se transforme. Diria até, se transmute de um partido de interesses e de concluio de tudo o que rejeitamos, num partido que, no mínimo, consiga afirmar-se como de Esquerda, ainda que moderada e reformista.


Hoje, é ver toda a Direita a exultar contra Costa e o seu desastrado e incompetente governo. A coisa pública foi vilipendiada, de tal forma, que difícil será emendar ou corrigir. Atingiu-se porventura o limite no que reporta a uma gestão minimamente coerente e honesta. Mas a Direita devia estar grata ao Partido Socialista, por todos os “males” causados na economia e na política. A Direita faria tudo exatamente igual, ou ainda pior, se tal fosse possível (é sempre possível fazer pior). Por isso, salta à vista a hipocrisia, particularmente o PSD, um partido que não é capaz de apresentar uma única proposta digna desse nome e navega à vista para ver quando o Poder lhe cai na mão. Quem ganha mais é mesmo a extrema-direita, quer a arruaceira, quer a “civilizada”. O Partido Socialista irá um dia entregar-lhes o Poder, enquanto permite a degradação da confiança e o descrédito na Democracia.

Será Pedro capaz de inverter o rumo do seu Partido? A partir de agora, livre para outras tarefas, terá de demonstrar que é capaz. Mesmo quem à partida não lhe queira dar o crédito que precisa, ficará na expectativa.

28 dezembro 2022

 ALEXANDRA MILHÃO (ou meio)

 

O final do ano que se aproxima parece mais um precipício, onde alguém supostamente se irá afundar. As notícias relativas a Alexandra podem afundá-la, afundar alguém, por via dela. Ou todos, o que nem seria despiciendo. Saberemos agora o que nos diz respeito. Ou não.

 

Contemos a estória. Alexandra, Engenheira de Telecomunicações, 48 anos, não tem, que se saiba, qualquer filiação partidária, “apenas” mérito para integrar, em tão curto espaço de tempo, empresas como a PT, a REN ou a NetJets, sempre na área de compras. Seguiu-se a TAP, onde entrou em 2017, tornando-se um dos rostos da reestruturação da companhia aérea, que levou à saída de perto de três mil trabalhadores. Depois, no ano seguinte, a empresa NAV, Navegação Aérea de Portugal (sabiam o que isto era?), que assegura o controlo de tráfego aéreo, com um vasto conjunto de equipamentos e instalações em vários pontos do Continente e Regiões Autónomas. Aí desempenhou a função de presidente do Conselho de Administração. Alexandra esteve sempre na mira dos sindicatos da TAP, por força da função que ocupava, que era, simplificando as coisas, despedir o pessoal, nestas situações considerado descartável.

E, a este propósito, deverá falar-se porventura de uma certa bondade dos poderes constituídos, quando consideram que a casa está demasiado cheia e o espaço é exíguo, tentam aliviar o ambiente e, a forma mais óbvia de o fazer é convidar algumas pessoas a sair. Tudo isto tem uma lógica muito própria e, na verdade, só mesmo uma mente dura não a compreende, nem alcança. 

Alexandra fez isso, mas como se trata de uma pessoa empenhada, colocou todos os seus vastos recursos na tarefa e isso custa dinheiro. Também não será muito difícil perceber isto. Foram quase oitocentos mil, que se saiba, que reclamava do seu trabalho. Mas fica a dúvida, Alexandra demitiu-se, foi exonerada, foi despedida? Foi competente ou não? Executou as funções inerentes? Mas que interessa tal coisa? A quem interessa? Onde está a diferença?

Saber se a gestão da TAP, ou da NAV, ou outra qualquer é, ou não, transparente, é coisa que não deve perturbar as mentes do vulgar cidadão. Entende-se, pois, a atitude de absoluto silêncio, neste como em outros casos, dos administradores e governantes, para assim poupar o dito cidadão a preocupações escusadas. De nada serve a gritaria, o nosso Governo segue o caminho certo, ou melhor das “contas certas”, estejam assim descansados.

Mas, no entanto, há sempre gente demasiado ansiosa, dizendo mal, escarnecendo dos políticos responsáveis pelos cargos em que a República os investiu, para cumprirem a sua função. E nós, vulgares cidadãos, devemos dar-nos por satisfeitos por podermos votar, de quatro em quatro anos, pois trata-se de uma conquista de Abril. Há 50 anos, nem isso podíamos fazer. 

E quanto à ética republicana, que muitos vieram a evocar, não passa afinal de retórica barata e arma de arremesso contra o empreendedorismo, habilidoso ou não, típico da sociedade moderna europeia que já deveria, há muito, ter-se livrado de utopias falaciosas e desnecessárias.

 

Quanto ao milhão da Alexandra (exactamente, se querem saber, 1,47), que depois se viria a transformar apenas em meio, devemos apenas agradecer (de novo) aos poderes constituídos, porque afinal até poupamos na verba que ela pretendia. Medina, na sua senda de velar pela Pátria (e pelas tais contas), Costa, seu chefe supremo, que decerto que o terá aconselhado. E quando a Pedro, mesmo sem lhe conhecermos uma palavra sobre a matéria, se por acaso procedeu mal, irá apanhar um raspanete, com o da última vez e continuará a servir o seu chefe e a Pátria, por arrastamento natural. 

Se porventura estiverem interessados em saber mais, anotem que o vencimento mensal da jovem Alexandra era de 17.500 euro, já depois de aplicado o corte de 30%, devido ao processo de reestruturação. E ainda que este vencimento estava à margem do Estatuto do Gestor Público, pelo que não se aplicam as limitações de ordenado. Daí que a comparação aos míseros 5.792 euro do vencimento do primeiro-ministro, é simplesmente escusada. Tudo isto a TAP esclareceu, apenas não explicou bem o motivo da saída, coisa de somenos, deve dizer-se, afinal que temos nós com isso? Afinal, na parte final, a Alexandra teria um brevíssima passagem por uma Secretaria de Estado, tendo sido ora demitida. Que querem mais?

 

Voltando às “contas”, o meio milhão dividido pelos três mil trabalhadores, dá aproximadamente 167 euro. Deverá ser esse o valor de cada trabalhador despedido. Nada mau. E, se for entendido como prémio, até nem é grande coisa...

26 dezembro 2022

ERA UMA VEZ NO 2022 

Distraídos com o bolo-rei e as rabanadas, deixamos passar a propaganda habitual e chutamos para canto uma possível oportunidade de golo. O copo de vinho do Porto inebria-nos e faz-nos pensar em amanhãs que poderão cantar, não contando com o pio do galo, que, sempre atento, nos leva à missa do mesmo, nem que seja por um hábito antigo. 

Pois sim, um perú que, hoje assado, há muito havia deixado a capoeira, partindo para um qualquer Continente perto de nós.

Estamos invariavelmente felizes, “focados”, como ora estupidamente se diz, na esperança de um ano melhor. Pelo menos é o que desejamos à família e amigos. Mas não, provavelmente nem será melhor, mesmo que ainda não seja pior. E por que razão haveria de ser melhor, se nada fazemos para que tal aconteça? Antes pelo contrário, convivemos no marasmo invisível, com o fardo pesado da tal dívida que dizem temos que aliviar, ainda que sem saber de que dívida falam eles, sempre na mira da subjugação eterna a um sistema injusto e pérfido. Deixamos andar? Enquanto deixamos, há sempre alguém a lucrar, mais atento, sempre atento às “possibilidades” e nunca enjeitando nenhuma para engrandecer.

Distraídos com a bola, andamos às voltas a tentar justificar os desmandos e as birras de um sujeito mal-educado a quem convenceram que era o melhor do mundo e da Madeira também e a quem deram o estatuto de figura pública e o nome a um aeroporto, acrescentando que tudo lhe devemos. Aqui, como em outras situações mais ou menos parecidas, com a mão serena e virtuosa da mesma propaganda que semeia ilusões e que vende barato o que nos é mais caro. 

Passamos o tempo a perder tempo e, como dizia Saramago, “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”, afinal ele deve ser bem gasto, mesmo que seja a não fazer nada, um direito universal e inalienável. Por falar nisso, Costa pede confiança aos portugueses sem apontar o fim da inflação, uma incrível falta de gosto, para outra coisa não dizer. E, para cúmulo, pede a tal confiança para o país “...chegar ao pelotão da frente", sem dizer como, nem onde.  Será caso para perguntar de que país fala ele, quando se sabe que neste ano 2022, há cinco vezes mais ricos do que em 2014.


Pelo mundo anda uma certa acrimónia, o sabor da desonra e da morte gratuita. Um maquinista reformado mata a tiro três pessoas em Paris e, na vizinha Galiza, a queda de um autocarro faz seis mortos na noite de Natal. Mas o que parece ser mais confortante é saber que o presidente da Ucrânia, aquele que passa a vida a pedir mais dinheiro e mais armas, partilhou um vídeo com a árvore de Natal do Porto. Melhor seria impossível.

Entretanto morreu hoje um cidadão da minha idade, um Homem da cultura, jornalista e escritor, de seu nome António Mega Ferreira. Dele lembramos o remoto tempo da Expo e, entre tanta produção, o Roteiro Afectivo das Palavras Perdidas​, um dicionário de palavras que deixámos de usar, onde consta o trampolineiro, espécie em desuso apenas no que toca à antiga designação.


Há apenas três anos escrevíamos sobre uma teia que nos envolve e à qual parecemos estar presos, uma “...perigosa teia que alguém tece por nós, porque já não tecemos nada que não seja para oferecer a um banco, a uma empresa ou a um operador que leva couro e cabelo, com os preços mais caros da europa, por serviços de qualidade por vezes duvidosa, protegido por uma autoridade tão alta, que mal sabemos enxergar.”

De 2019 até hoje o que mudou foi sempre para pior. Dizem-nos que a culpa foi da pandemia e da guerra, há sempre um culpado próximo de nós que nos inferniza. As tragédias pesam mais sobre quem tem menos, nota-se e regista-se.


O melhor para 2023 é bem capaz de ser afastar este fardo que se chama resignação, apesar de outros lhe chamarem outra coisa. Nada melhor que libertarmo-nos do medo e da teia que nos envolve, partir a louça toda no final do ano e pensar.

Pensar faz sempre bem, ler um livro, ouvir uma melodia e plantar a revolta em qualquer lado.

Que dizem?

07 dezembro 2022

INICIATIVA BIDÉ

Ainda bem que temos uma iniciativa que cuida dos nossos interesses. Num dia em que se conhecem situações de crianças com graves infecções respiratórias que entopem urgências de pediatria, em que o preço dos bens alimentares regista uma subida de dois dígitos, em que as empresas de energia “ajustam tarifas” que prenunciam mais aumentos e em que. Se sabe que o ex-Ministro da Defesa e actual Ministro dos Negócios Estrangeiros promoveu um dos suspeitos, agora detido, já depois de saber da derrapagem das obras no Hospital Militar de Belém, a tal iniciativa, que é decididamente liberal, quer acabar com leis iníquas como a das banheiras e bidés.

 




Assinala-se aqui o devido respeito pelo objecto, que, nas nossas casas de banho, ocupa um papel de primordial importância e que ainda é uma das coisas boas da civilização ocidental, tão manchada de cenas muito pouco recomendáveis. Que nasceu em França, por volta de 1600 e morava no quarto onde se dormia, ao contrário de agora. Os salafrários que querem hoje acabar com o bidé desconhecem, por exemplo, que à época se pintavam quadros em que o objecto era senhor e que havia muitos que estavam inseridos em pequenos móveis de madeira, com pés curtos, e tapados com tampo de couro, fazendo parte da vida da corte, da nobreza e da burguesia. Aliás a difusão do adorno foi generosa em todo o Mundo, como excepção dos americanos que nunca entenderam para que servia, como ainda hoje não entendem muita coisa.

 

Mas a vida é assim e quem gosta de bidé irá, muito provavelmente, render a homenagem devida aos servidores da Pátria que, podendo não querer saber de mais nada, cuidam da higiene pessoal de forma tão atenta e oportuna, bem como dos superiores interesses dos cidadãos, preocupados com uma lei tão degenerada. Que cada casa tenha o seu bidé, isto claro, para quem consegue hoje ter um privilégio desses. De ter casa, que não de bidé.

 

Regista-se que, sem banheira e sem bidé, o prazer não é o mesmo. Estendendo assim o conceito conhecido do Miguel Esteves Cardoso, “Sem o prazer, é tudo uma estucha”.


04 dezembro 2022

 FORA O ÁRBITRO, QUE SAUDADE...

 

A imagem do indivíduo a quem atribuíram o estatuto especial de “estrela”, a roubar o golo ao colega de equipa, não é apenas o reflexo de uma atitude individual de quem não tem personalidade social relevante e que anda, há algum tempo, a arrastar-se em campo, porque é ele que parece mandar numa equipa de compromisso entre uma federação subserviente, um treinador que não quer pagar impostos e um empresário que detém os direitos da maior parte dos atletas . É sobretudo um sinal preocupante do mundo do futebol, um universo paralelo de milhões e hipocrisia, alimentado por uma comunicação social decadente e que pactua com ele, ao dar-lhe o tempo e a honra que não merece, patente em manifestações de ignorância e cretinice, como, por exemplo, a de um locutor de serviço dizendo “...agora vai ser tocado o hino da.… selecção nacional”.

O contraponto está nas bancadas, com figurantes pagos para apoiar as equipas, com políticos “ao mais alto nível” a deslocarem-se ao país organizador para apoiar a selecção, com dirigentes como o da execrável agremiação chamada FIFA, a ginasticarem um discurso miserável de submissão e corrupção. É a chegada, nunca tardia, do politicamente correcto ao mundo do futebol, com a proibição completa de uso de braçadeiras ou outros adereços “provocatórios” e o impedimento de filmar imagens de invasão de campo e mais ignóbil ditadura de cerceamento da liberdade de expressão, com ameaças expressas. Mas a coisa não fica por aqui, no que toca à destruição da beleza do futebol, com a mais que discutível introdução da tecnologia no jogo, uma intromissão na arbitragem que, ao invés de resolver problemas, vem avolumar as situações de eventual confronto.

É um desporto de privilegiados, eleitos no meio de uma mentira permanente, embora conveniente, que leva inclusivamente a medir as equipas, não pelo valor dos atletas, mas pelo seu eventual valor de mercado. A pessoa deixa de o ser para virar mercadoria, valorizada um ano, descartada no seguinte, negociada em função de dinheiro vivo que aqui nunca falta e de contratos milionários de publicidade.

 

O mundial da vergonha é cada vez mais uma vergonha generalizada de falsidade e de hipocrisia, típica de uma modernidade virada do avesso e na qual, um qualquer “infantino” dita leis e submete Estados, soberanos ou nem por isso, aos ditames de uma retórica estribada na ignorância, na mentira e na cretinice. O presidente-comentador, que fala sobre tudo e mais alguma coisa, diria, bem a propósito, “direitos humanos, sim, mas agora vamos apoiar a selecção...”.

 

Onde estão os eusébios, os pelés, os maradonas, tantos nomes e tantas “lendas” que espalharam em campo a sua classe e talento, mesmo que a “mão de deus” marcasse um ponto na baliza da memória? Onde está o desporto-rei que atraía pessoas e famílias, agora travestidas em figurantes e figurões que espalham o medo e a tristeza da arruaça e da agressão? 

 

O “melhor” exemplo, o mais esplendoroso sinal desta ignomínia é talvez a notícia que os estádios, onde morreram trabalhadores transformados em escravos de ocasião, irão ser deitados abaixo. Não será, entretanto, bem assim, uma vez que o país organizador é um “doador nato” e vai “oferecer arquibancadas desmontáveis a países com carência de infraestruturas desportivas”. E vai converter um deles (estádio) “num hotel de cinco estrelas e centro comercial”. E vai, imagine-se, transformar um outro em “uma escola e zonas comerciais”.

 

O esqueleto já não fica no armário, o elefante já está plantado na sala, o cenário é tão artificial como a máscara de um evento que hoje domina a atenção, ou que desvia esta, para a luz efémera da vaidade e da podridão. Teremos estrelas de lata a prenunciar um Natal de frio no Norte e de sol no Sul,  cheio de nortes de fome e de miséria. Mas claro que nada disto interessa, o var validou o golo e já estamos quase na final...

27 novembro 2022

UMA QUESTÃO DE COMUNICAÇÃO

24 Novembro 2022

Sobre alguém que, no seu tempo e espaço, não foi capaz de comunicar a mensagem que transportava. Uma situação típica dos tempos que correm, com explicações várias, dependentes quer do sujeito, quer do conteúdo da mensagem.

O que parece ser um problema de comunicação poderá dar forma a outras situações, configurando limitações e quiçá preocupações ao chamado cidadão comum. Este tem acesso aos meios como rádios e televisões, que inundam os espaços públicos e eventualmente a alguns órgãos de comunicação social escritos, como os jornais. E ainda, como acréscimo significativo dos dias de hoje, às designadas redes sociais, a que Manuel Castells chamou “Redes de Indignação e Esperança”, título de uma obra publicada em 2012. O Autor, ao discorrer sobre as redes, avança que “...a sociedade em rede é uma sociedade global” e que, a era da informação é, para a sociedade, aquilo que a era da revolução industrial foi para a sociedade industrial do século XVIII.

A forma como o cidadão comum consome os citados órgãos de comunicação pode ser uma resposta, ou não, dependendo do carácter participativo, ou meramente informativo, dos mesmos. O cidadão pode ser então um sujeito activo da informação, ou, pelo contrário, um mero consumidor.

A forma como o cidadão utiliza as redes sociais, uma matéria vasta para analisar, determina o possível sucesso na transmissão da mensagem. 

 

O papel da comunicação na era do neoliberalismo é decisivo, no sentido que permite a troca de informações necessárias à plena realização do capital. É por essa razão que não surpreendem as profundas alterações que vem sofrendo o panorama mundial das comunicações, onde os capitais privados participam em muitas áreas, sectores e empresas e onde é conhecida a relação de proximidade com as mais variadas inovações tecnológicas, desde o multimédia à inteligência artificial, passando pelas mais recentes tecnologias da informação e das comunicações. Convém levar em linha de conta a influência dessas tecnologias nas transformações recentes que permitem o funcionamento sincronizado dos mercados e a transmissão em tempo útil de informações entre diversas unidades das empresas. Nenhum desenvolvimento tecnológico deve ser analisado apenas do ponto de vista da tecnologia em si. É o desenvolvimento e o funcionamento pleno de uma imensa teia, um complexo sistema mundial de interligações de redes privadas entre bancos, empresas industriais e de serviços e administrações que determina o sucesso do sistema. 

 

Se na verdade é inegável a posição fundamental da comunicação nesta fase do desenvolvimento capitalista, não é menos verdade que a comunicação é uma espécie de fenómeno, dito por vezes incontornável e que determina algumas situações, que por vezes nos surpreendem. Essas situações são criadas com a finalidade de gerarem espaços de experimentação, nem sempre compreensíveis, mas decerto devidamente aproveitados pelos intervenientes, para monopolizarem as possibilidades de atingir os imaginários de forma colectiva, uma autêntica indústria de consciências. É o domínio do simbólico, indutor possível de uma forma de pensar global, caracterizada pela simplicidade de argumentos e pela predominância dos sentimentos, desligada do concreto e da consideração dos factos. A produção resultante é uma mistura de mensagens simples e directas, antes panfletárias, hoje de índole pura e dura, no que reporta à sua formulação.

 

Para lidar com situações destas, ou seja, com o que se pode designar como produção de um discurso e uma retórica, existem hoje os chamados “Think Tanks”. A designação não deixa de ser curiosa, uma vez que lembra na sua formulação e conjugação de termos, um “tanque”, ou “laboratório”, de “pensamento”. São grupos que reúnem académicos, estrategas e comentadores políticos e económicos e consultores de comunicação social. Estes grupos, financiados principescamente por grandes empresas e por administrações não identificadas, destinam-se a “criar conhecimento” sobre políticas públicas e administração de políticas globais, a nível nacional e internacional. Curiosamente, ou não, estes grupos estão normalmente ligados a grupos e candidatos conservadores, a avaliar pelo que se passa nos EUA. Conhecido recentemente em Portugal, pela mão da TSF, que lhe dedica uma parte de um programa diário, o Institute for the Study of War, ou Instituto para o Estudo da Guerra, é um desses grupos. A sua criação data de 2007 e diariamente produz “informação” e “análise”, em larga escala, sobre a guerra na Ucrânia, sob o manto diáfano de “comentário”, que, após desmontado, se traduz na mais refinada propaganda, parcial e de incentivo à guerra.

Como é sabido, da teoria da comunicação, no caso de o emissor ser pouco credível, seja porque não é de confiança, seja porque não tem informação relevante sobre a matéria em apreço, constata-se uma perturbação evidente, que pode inclusivamente constituir uma barreira, uma interferência hostil, que impedem que a comunicação seja eficaz e transparente. Aqui reside um problema, conforme a realidade constata.

 

Há quem se dedique à ingrata tarefa de tentar compreender o fenómeno da comunicação. Especialistas, estudiosos, académicos ou simples batoteiros, que hoje nascem por todo o lado e inundam os ecrãs das notícias. Ou que escrevem livros sobre os mais variados temas, sem que lhes seja reconhecido qualquer mérito que não seja o da exposição pública “forçada”. Sustentam, quando decidem falar da coisa pública, ou de política em geral, um discurso e uma retórica de grau zero, ou seja, a “simplicidade” de quem não é capaz sequer de tentar articular meia dúzia de conceitos ou de compreender a dialéctica do pensamento. 

Depois há os casos conhecidos de “comunicação a mais”, ilustrados aqui na postura hiper-realista de um Presidente, que fala a toda a hora, sobre tudo e o seu contrário, proporcionando um espectáculo permanente, ou contribuindo para todos os espectáculos, como o exemplo recente do mundial de futebol no Qatar. Sobram ainda as polémicas, arrufos, ou ambas as coisas, entre dois Costas, por causa da banca e não só, com análises demasiado primárias sobre questões económicas ou orçamentais. Exemplos que todos os dias surgem na comunicação social e nas redes sociais e para os quais existe sempre uma explicação recorrente, quando a coisa não corre bem: foi um erro de comunicação.

Aqui e ali entra sempre “uma questão de comunicação”, directamente proporcional à “força” relativa de cada intérprete. Ou a “comunicação” não foi eficiente, ou o canal disponível para a transmissão não foi capaz de passar a barreira, para produzir o necessário impacto, o certo é que alguém saiu a perder, quer do ponto de vista da idoneidade da fonte, quer do direito a ser informado devidamente. 

 

Se pudéssemos enquadrar as questões da comunicação e da sua relação, sempre difícil com a realidade, encontraríamos algum refúgio nas palavras do grande pensador cubano-italiano Italo Calvino, “...o passo entre a realidade que é fotografada na medida em que nos parece bonita e a realidade que nos parece bonita na medida em que foi fotografada é curtíssimo.” E aí ficaríamos, protegidos com uma capa protectora, para nos afastar do maldizer e da propaganda.  O facto é que, como o espaço na sociedade em rede é configurado como uma hipotética oposição entre espaços globais e locais, a estrutura espacial da sociedade actual é uma das fontes essenciais das relações de poder. Convém não esquecer que, quando falamos de comunicação social e redes, estamos num espaço de produção de poder. Uma das formas de exercer esse poder, como acontecimentos recentes demonstram, está na exclusão pura e simples do cidadão. 

 

Saber distinguir, hoje em dia, o real e o virtual, parece ser uma tarefa ciclópica. Voltando a Castells, e ao aviso que faz de que toda a realidade é hoje percebida de maneira virtual, podemos ficar perplexos. Ou atentos, para podermos, nos casos devidos, levantar a dúvida sistemática e a atitude crítica que deve guiar os livres-pensadores.


 

20 novembro 2022

 “EU SOU UMA AUTORIDADE”

Este frase, retirada de um certo e muito recente contexto, poderia ser entendida como uma manifestação de autoritarismo, quiçá de arrogância. No entanto, enquadrada nos acontecimentos da semana passada, numa escola de Lisboa, ganha um sentido assertivo de quem dirige um estabelecimento de ensino, a quem se pergunta se chamará as autoridades para intervir contra os estudantes. Passados uns dias, uma escola do ensino superior público, em contramão com o citado exemplo, vai precisamente recorrer às ditas autoridades, para conter os “desacatos” dos jovens. 

O exemplo da António Arroio é assaz significativo. O seu Director afirma claramente, referindo-se aos protestos que, na Escola, é ele a autoridade e que nada fará contra os estudantes. Acrescentou ainda que a Escola nunca estará contra os alunos que querem um mundo melhor.

O exemplo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que chamou a polícia para acabar com os protestos pelo clima, faz lembrar os tempos de antigamente. A acção dos responsáveis escolares foi, a todos os títulos, lamentável e condenável. 

Outras “ocupações” se seguirão, na sequência das iniciativas do movimento internacional “End Fossil Occupy!”. Os jovens estudantes activistas manifestam a vontade de contribuir para “...uma transição energética que seja justa e não uma exploração como a que tem vindo a acontecer, que é uma aposta simultânea em energias renováveis, enquanto se continua a exercer o negócio da energia fóssil.” E contrapõem que é precisamente isso que está a ser feito em Portugal, uma vez que o Governo aposta na indústria fóssil, tendo até na pasta da Economia e do Mar um ex-quadro de uma conhecida petrolífera. É desta forma, directa e incisiva, que os participantes das manifestações acusam o Governo de pactuar com a inacção e destruição, vendo no dito Ministério o centro decisivo das políticas do País, na verdade, o centro operacional de todas as petrolíferas.

A geração mais jovem será muito provavelmente uma vítima directa dos desvarios neoliberais. Natural, portanto, a sua revolta. Que é, apesar de tudo, muito contida, a avaliar pelos acontecimentos recentes. Isto significa que poderá ter, num futuro próximo, outros contornos, mais agudos e contundentes. E que será possivelmente estribada em conceitos de ecologia profunda, de forma a, por um lado, proporcionar uma análise completa da situação ambiental e, por outro lado, conduzir a conclusões divergentes dos habituais lamentos de organizações e autoridades, que mais não servem senão para ostentar a verdadeira incapacidade e incompetência em lidar com uma situação cuja complexidade os ultrapassa. Mas é, sem qualquer espécie de dúvida, um bom começo para a aprendizagem política dos jovens, para alguns um primeiro contacto com a realidade divergente que os rodeia.

Vale a pena, a propósito desta luta, lembrar o ano que já parece longínquo de 2019, altura em que surgiu na Alemanha um movimento designado "Fridays for Future” (sextas-feiras para o futuro), com mais de 350 grupos locais e que reunia uma vez por semana por videoconferência para analisar a situação e discutir acções futuras, criando, na sua versão muito própria, uma democracia de base que consideraram exemplar. Este movimento acabou por se espalhar pela Europa, com uma agenda climática, que inclui vectores para uma mudança global, com cinco pontos, desde os transportes à pobreza energética e hídrica, passando pela energia, trabalho e construção. E vinca, por exemplo, a importância da gratuitidade do transporte público nas cidades, que leve os cidadãos a optar por ele, em detrimento do transporte individual, reduzindo as emissões. Utilizando o humor, ainda que ácido, e uma criatividade contagiante, podemos reter, desde 2019, algumas palavras de ordem como “Há mais plástico do que bom senso”, “Se o gelo derreter, como fazemos o mojito?”, ou “Não queime o nosso futuro”. E outras, clara e abertamente anti-capitalistas, como “O capitalismo não é verde”, ou “O capitalismo mata o planeta”. 


Saber se existe hoje vontade política suficiente para mudar o estado de coisas é porventura o mesmo que questionar se é possível alterar o sistema por dentro. Uma possível não-resposta está seguramente nas diversas cimeiras mundiais, ditas pelo clima, onde se juntam normalmente os maiores poluidores, países e grandes empresas, unidos na mais poderosa mistificação e que consiste em convencer os cidadãos da bondade das políticas suicidas neoliberais, que afundam o planeta na destruição. Quando os jovens manifestantes clamam "Nem um grau a mais nem uma espécie a menos", possivelmente terão verificado e consciencializado a evolução negativa verificada desde 2015, ano em que o Acordo de Paris marcava as expectativas de quem, afastado do processo produtivo, acreditava que seria possível acertar um plano de acção para limitar o aquecimento global. A afirmação, polémica e contundente, de um activista do Uganda, no final desta COP 27, pode ser, ao mesmo tempo, chocante ou hiper-realista: “Até à COP28, talvez a África leve cadáveres para Dubai. Talvez não participemos porque as mudanças climáticas terão dizimado o continente. Não estamos fazendo um apelo, estamos exigindo que a dívida climática seja paga para a África, que pouco ou nada contribuiu para a mudança climática”. Quando uma das conclusões da COP 27, no Egipto, afirma que terão sido avançadas soluções para reduzir as emissões das indústrias mais poluentes do mundo, juntamente com apelos por justiça climática e financiamento para países em desenvolvimento, sabemos o que significado desta retórica patética e enganosa. Terá sido apenas mais uma conferência onde a decisão principal é que é melhor nada decidir.

Contudo, nesta COP 27 sobressaiu uma informação interessante do consultor especial das Nações Unidas para a Acção Climática. Selwin Hart de seu nome, foi director de um “banco de desenvolvimento” no Caribe e, para além de outros cargos, membro do Conselho do Fundo de Adaptação do Protocolo de Quioto (Dezembro de 1997), para a redução da emissão dos gases que produzem o efeito de estufa. Hart deu conta de uma aparente contradição, comparando a Argélia e a Dinamarca, dizendo: “A Dinamarca tem um dos piores potenciais de energia renovável. O potencial da Argélia para energia renovável é provavelmente 70 vezes maior. Mas a Dinamarca tem sete vezes mais painéis solares do que a Argélia. O motivo é o custo do capital”. O capital, sempre o capital, a interferir no desenvolvimento. E quem ainda defende o “desenvolvimento sustentável”, como possível resposta, a nível ambiental e político, estará a embarcar na mistificação atrás referida, alimentando uma retórica insustentável. Não existe qualquer possibilidade de superar a contradição fundamental de um sistema económico que se apropria de uma forma degenerativa, no esgotamento e na degradação, dos recursos naturais e do meio ambiente, impossibilitando dessa forma uma hipotética concretização de equidades ecológicas, ambientais e sociais. Daí que as proposições ambientalistas conservadoras que toleram ou defendem uma redenção do sistema de mercado, não passam de uma falácia.

É muito importante e deveras urgente que estes jovens consigam enquadrar, numa perspectiva crítica permanente, a abordagem das questões, para ser possível compreender o que está realmente em causa e agir na medida e proporção devidas.

17 Novembro 2022

08 novembro 2022

MAPEAR A REALIDADE

4 Novembro 2022

Um termo que é um jargão matemático é utilizado comumente por algumas “artes performativas”, ligadas ao fenómeno do empreendedorismo para induzir o que chamam conhecimento da realidade, mas que, contudo, não passa de uma mistificação do real. Mapear significa, segundo os dicionários correntes, construir ou confeccionar um mapa. O respectivo mapeamento será então o resultado da representação gráfica das diversas partes de um todo, ou da simples definição do lugar, utilizando um mapa. Passando, ou generalizando a ideia, para o campo social, podemos associar a função de mapeamento a uma espécie de ferramenta destinada a registar oportunidades de uma determinada região, local ou cidade. E que pode e deve ser utlizada, para as matérias concernentes, pelas autoridades públicas ou movimentos sociais, no sentido de ajudar a encontrar soluções para certos problemas, identificados como alvo de intervenção.

Importa, acima de tudo, marcar um território, provavelmente livre da propaganda moderna, de cariz neoliberal e caracterizada por um empobrecimento mental e cultural. Poderia ser um território de resistência, na perspectiva de poder eventualmente sustentar uma atitude filosófica sobre a vida em comunidade, tão necessária nos dias de hoje, onde o simples esforço para pensar parece ser um empreendimento gigantesco. Na verdade, o universo que nos rodeia está hoje infestado por personagens menores que, de certa forma, ensombram a realidade e impedem um mapeamento correcto e cientificamente sustentado dos territórios onde os cidadãos se movem. Dir-se-ia existir um impedimento consciente, que, privilegiando emoções descontroladas, obstrói as visões claras da realidade. A medida exacta em que tal impedimento influencia a vida colectiva e o usufruto, por exemplo, da cultura e do lazer, está na falta de tempo de que nos queixamos e que mais não é que um artifício em que nos vemos envolvidos e nos impede o acesso aos referidos bens.

Cada um, a seu modo e na sua área específica, dois cientistas de reputado gabarito internacional, recentemente falecidos, contribuíram para a ingrata tarefa de mapear a realidade. O activista norte-americano Mike Davis, geógrafo, historiador e economista político, falecido a 25 de Outubro, afirmou que escrevia para que as pessoas que leiam os seus livros, não precisem de doses de esperança ou finais felizes, mas que leiam para saber contra o que lutar, e lutem mesmo quando o combate pode parecer sem qualquer esperança. Esta poderá ser uma mensagem inteligente e inteligível para a realidade do século XXI, atafulhada que parece estar em doses sucessivas de propaganda, oriunda de uma forma geral, daqueles sectores que não desejam a mudança e se lhe opõem a todo o custo.   Um outro cidadão falecido a 9 de Outubro, o antropólogo, sociólogo e filósofo Bruno Latour, lançaria em 2013 um processo de investigação e pesquisa sobre os modos de existência, que tomaria a forma de livro. A obra “Jamais Fomos Modernos” serve para interrogar as conexões entre a natureza e a cultura e descreve uma visão irrealista da ciência, que, no entender do Autor, se vocacionaria como o árbitro da realidade e da verdade, levando-nos a julgar todos os valores por um único padrão. Estes dois Homens marcaram as suas gerações, e deram um significativo contributo ao pensamento crítico moderno, no final do século XX e no início deste. E à eventualidade de transformações sociais, para as quais se torna necessário um real mapeamento, necessário e urgente. 

Um exemplo contraditório de mapeamento transporta-nos hoje para uma realidade virtual. É o caso de um evento que está a realizar-se em Lisboa, e que vem ocupando espaço na capital, desde 2009. Nas palavras do jurista Fernando Teixeira, a dita Web Summit é uma “vendedora de ilusões”, não passando de uma espécie de “centro de turismo tecnológico”, uma classificação mais que oportuna, uma vez que “...não deixa de ser turismo porque não produz nada.” Este evento é aliás um bom exemplo do vazio completo da propaganda neoliberal, alimentado ilusões a milhares de “empreendedores” e que só consegue realizar-se com o fortíssimo apoio de dinheiros públicos, que deveriam estar a ser canalizados para aquilo que o País precisa. Para ter uma pequena ideia da falácia deste “empreendimento”, utilizando dados da consultora Informa D&E, do ano 2019, cerca de uma em cada três startups portuguesas (as tais empresas que nascem pela acção dos ditos “empreendedores”) encerra ao fim de um ano. Misturando uma linguagem infantilizada com expressões bizarras, como “fábrica de unicórnios”, este não deixa de ser um exemplo de como a doxa neoliberal actua e tenta “prender” os cidadãos a conceitos enganosos e, de certa forma, perigosos.

Os estudos académicos dos mais variados observatórios deveriam ser devidamente integrados nos processos de tomada de decisão. Poderiam ser um contributo decisivo para o mapeamento da realidade. Brecht dizia, a propósito, "Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la", uma lição e uma metodologia bastante convenientes. Meio mundo vive hoje uma realidade paralela, transmitida em directo, um espectáculo, por vezes horrendo, uma mistificação absoluta, aceitando toda a informação, de uma forma pacífica e acrítica. E aceitando conclusões fáceis e simplistas sobre questões complexas. Daí à inacção completa vai um pequeno passo, o sistema existe e existirá sempre, mesmo que alguma coisa mude e fique tudo absolutamente na mesma. O esforço para mapear a realidade vale a pena, para que o cidadão se situe no espaço que lhe pertence e possa actuar sobre ele, para o transformar.

 O ESTADO LIVRE DA POBREZA

28 Outubro 2022

Segundo uma notícia do Jornal Público, deste mês de Outubro, “Portugal é o 8.º pior na lista de países com maior risco de pobreza ou exclusão social. O Jornal afirma ainda que “A pandemia fez com que Portugal subisse de 13.º para 8.º na lista de países europeus com maior risco de pobreza ou exclusão social. O primeiro ano da pandemia criou 230 mil novos pobres.”. Atentemos nas classificações “risco de pobreza” e “exclusão social”. Se a segunda é facilmente digerida, porque lembra alguém que é excluído socialmente, independentemente da razão, a primeira reporta-nos para um fenómeno que merece algum cuidado de análise. Não significa que seja difícil determinar quem é pobre, quando tal releva a possibilidade de lhe faltar algo, em oposição ao rico, a quem supostamente sobejará. Na verdade, a pobreza revela uma carência de bens e serviços essenciais, como a alimentação, o vestuário, a habitação, os cuidados de saúde, para além da impossibilidade prática em fruir da cultura e do lazer. A socióloga brasileira Vera Telles afirma, num estudo de 2017, que, “...na óptica da cidadania, pobre e pobreza não existem. O que existe, isto sim, são indivíduos e grupos sociais em situações particulares de negação de direitos”.

Mais correcto seria então, ao invés de falar em pobres e ricos, falar em explorados e exploradores. Nesta lógica, seremos levados a crer que esta é uma sociedade de classes, que usa um sistema económico perverso para retirar de uma classe o que falta lhe faz, para o distribuir de forma clara à outra classe, excluindo da primeira a possibilidade de usufruir dos instrumentos necessários para a mesma qualidade de vida que a outra detém. Assim se compreenderia melhor a diferença profunda entre cidadãos e os motivos por que tal acontece, na sociedade “moderna” do século XXI.

Na verdade, será decerto bem diferente, pelo menos a nível conceptual, “actuar” contra a pobreza, ou contra a desigualdade social. Enquanto a pobreza equivale ao estado de quem é pobre e, devido a isso, não possui as condições básicas para garantir a sua sobrevivência com qualidade de vida e dignidade, a desigualdade social constata as diferenças entre as classes sociais, utilizando critérios de natureza económica e social, educativa e cultural. Ao constatar as diferenças, a actuação contra tal estado deverá prover a respectiva erradicação, ou seja, acabar com elas, eliminando desta forma a pobreza. Estão em causa aqui a justeza e a dignidade de uma luta, para terminar com uma condição de subjugação. Não é isso que, entretanto, acontece nas sociedade actuais, subsistindo a perspectiva de considerar a pobreza como uma espécie de fatalidade, ou como um fenómeno especial da natureza. É esta versão piedosa, ou mesmo devota, que conduz a interpretações fantasiosas como aquela de culpar as próprias vítimas, uma característica aliás muito frequente nesta fase neoliberal do capitalismo. Uma outra, não menos frequente, pretende mostrar a bondade de algumas pessoas e instituições, mostrando “os seus pobres”, e manifestando a vontade de os expor à comiseração pública, como vimos recentemente em Lisboa, na tentativa, felizmente abortada, de uma conhecida autarca.

Na sociedade do século XXI continua a vingar o sistema de contraposição entre trabalho e capital. Nada mudou relativamente à situação do início do século passado. Os trabalhadores continuam a não ter acesso aos meios de produção, contando apenas com a sua força de trabalho, para sobreviver. Dir-se-ia até que, no presente, na fase neoliberal do capitalismo, a exploração se agravou, face, por exemplo, à constatação dos lucros desmedidos das grandes empresas, que, entretanto, beneficiam de uma política financeira que lhes é favorável, uma vez que se baseia precisamente na transferência de valor do trabalho para o capital. É a base essencial deste tipo de políticas que conduz à uma afirmação dos poderes vigentes, de todas as matizes, que o aumento de salários deve estar subordinado a uma “economia competitiva”. É assim, subordinado a esta lógica perversa, que se assinam acordos numa plataforma, dita de concertação social, onde vinga apenas a posição do capital. É desta forma que se poderá talvez compreender uma certa indiferença social, parecendo normal que os trabalhadores se contentem com as migalhas que o capital lhes concede, como eventual prova de boa-vontade. É assim que se aceita a roda livre que representa a ascensão escandalosa de grande fortunas que, na maior parte das situações, ou não estão sujeitas a impostos, porque existe a figura da transferência de lucros para paraísos fiscais, ou porque abundam as soluções de engenharia financeira para os ocultar, ou porque os poderes públicos se recusam a aplicar-lhes taxar consentâneas.

Um estado livre de pobreza não é exactamente a mesma coisa que um estado onde a pobreza seja livre de aumentar, graças à acção conjunta de administrações e governos que abdicam de cuidar dos cidadãos, entregando-se nas mãos daqueles que exploram e oprimem os trabalhadores, concedendo ao capital todas as condições para que a exploração continue em roda livre. Todas as políticas que, particularmente em Portugal e na Europa, privilegiem a condição de submissão às regras europeias da dívida e de uma moeda única que, na prática, impede o crescimento económico, devem ser consideradas como de regressão social e impeditivas em melhorar as condições de vida dos trabalhadores. É por isso que se compreende, de forma clara, as medidas de um governo que desvalorizam salários e pensões, cortam no investimento público e permitem que a inflação faça o seu caminho, em desfavor de quem vive do seu trabalho e de quem, não o tendo, aprofunde a sua condição de simplesmente excluído. Deve ainda dizer-se que os sucessivos cortes no investimento público conduzem a uma degradação acentuada dos equipamentos, nomeadamente em escolas, hospitais e transportes, com todas as consequências resultantes da fragilização da economia portuguesa.

Entretanto, os que insistem em ver sempre um mercedes à porta da pobreza são os mesmos que se alimentam dela para engendrar um cenário maquiavélico, com base na demagogia e na gritaria. Existe, entretanto, um outro tipo de pobreza, que vem fazendo escola na sociedade do espectáculo: a pobreza da liderança política, nacional e europeia, na incapacidade que demonstra em combater a pobreza, aliada a uma outra, a pobreza de espírito que intensifica a mediocridade e a ignorância, mas que cavalga numa sociedade que definitivamente parece ter perdido a decência. Estranho é que, numa situação limite como esta, onde deveria haver inquietação, haja apenas estagnação.

Hoje em dia não restarão muitas dúvidas em afirmar que quem não quer combater a pobreza, pactua de facto com ela. Quem não quer combater a exploração sujeitar-se-á um dia a ter o que merece. Falar hoje em quatro milhões e meio de pobres não parece representar qualquer sobressalto social, a não ser se aqueles que são sistemática e permanentemente explorados acordem e façam o que tem que ser feito.

 A CULTURA DO CANCELAMENTO

19 Outubro 2022

Dois termos provavelmente incompatíveis, juntam-se por estes tempos, para construir uma identidade própria, característica de uma modernidade cada vez mais inconveniente. Anular ou cancelar, do francês “culture de l'annulation” ou “culture de l'effacement”, ou na acepção inglesa, simplesmente “cancel”, emergem hoje, aceites ou simplesmente confirmados.

No ano de 2019, a asserção cultura do cancelamento foi escolhida como termo do ano, pelo dicionário Macquarie. Interpretada de forma genérica, a cultura do cancelamento é uma manifestação de reprovação, punição ou mesmo anulação, oriunda de pessoas ou organizações e que tem como alvo, posições ou simples opiniões, comportamentos ou crenças, contrárias a uma normalidade, tida como padrão. Nos finais do século passado, surgiu na gíria política a ideia que existiria um designado “interesse nacional”, uma norma que se teria tornado doxa, ou seja, um reforço mais ou menos subtil do pensamento dominante. Se é fácil desmontar essa ideia, uma vez que que o interesse nacional é fruto da dialéctica política e é definido pelas contradições existentes numa sociedade pluralista, mais difícil porventura se torna evitar, ou sequer contornar, o desvio populista que aquele fenómeno incarna.

Os conceitos, tidos como pertença de organizações ou sociedades aprendentes, surgiram na segunda metade do século XX. Começam a referir-se como importantes, ou mesmo determinantes, a aprendizagem ao longo da vida e a educação permanente. Se o primeiro fala por si, o segundo merece algumas considerações. O conceito de Educação Permanente, segundo a Associação Portuguesa para a Cultura e Educação Permanente (APCEP), “... e da filosofia que o enforma são assumidos na perspectiva, universalmente consagrada, segundo a qual a plena realização do individuo, no contexto de uma sociedade e de um desenvolvimento equilibrado, passa pelo acesso, fruição e participação dos cidadãos – em condições de igualdade de oportunidades – em diversificadas formas de aprendizagem, escalonadas ao longo da vida e abrangendo os diversos níveis, formas e conteúdos da cultura e do saber...”. Tornar aprendente uma organização e, no limite, uma sociedade, significa admitir a capacidade que o conhecimento tem de transformar a realidade, resolvendo problemas e criando alternativas. A sociedade da informação deveria ser (ou transformar-se em) uma sociedade aprendente. Uma sociedade em que a educação permanente fosse a pedra angular da cidadania. O pedagogo Paulo Freire era de opinião que aprender é conhecer melhor o que já se sabe para partir para novos conhecimentos, acrescentando que a educação muda as pessoas, não transforma o mundo e que são as pessoas que transformam o mundo.

Aquilo que admitimos como dado adquirido, ou seja, a aceitação daqueles princípios e conceitos é porém, hoje em dia, transmutado. O aproveitamento das novas tecnologias da informação e das comunicações, reflectido na internet e nas redes sociais, é exemplo de uma certa expropriação para finalidades que pouco, ou mesmo nada, têm a ver com a verdadeira aprendizagem ao serviço da cidadania, antes configuram um poder oculto ao serviço da desestabilização das estruturas democráticas e do empobrecimento e progressiva destruição do tecido social, corrompendo-o lentamente, mas de forma eficaz. 

Concluir que a sociedade aprendente, na sua essência democrática e potencialmente transformadora, está hoje em causa pela acção perniciosa de agentes e entidades que promovem uma estupidez populista, não deixa de ser penoso e motivo para alerta máximo. Sem qualquer mediação, as redes sociais promovem a seu modo uma cultura do cancelamento. A sucessiva exposição de um tema, abordado de forma imediatista, acaba por ditar uma atitude de endeusamento de posições primárias, promovidas por uma comunicação social alucinante e despida de sentido crítico. Desta forma, se parece transformar a realidade num contínuo espectáculo mediático. Daí à formação de um juízo de consciência vai um pequeno passo. Do juízo à execução um passo ainda menor. Assim se consegue, por exemplo, a pretexto de uma guerra, decretar proibições de livros, discos e outras obras do conhecimento. Assim se excluem artistas, desportistas e cidadãos indiferenciados, pela sua nacionalidade, como se lhes coubesse alguma responsabilidade por terem nascido em determinado lugar. 

E se a mundialização do conhecimento fosse capaz de produzir cidadãos atentos, quanto mais não fosse, ao seu direito de cidadania, o certo é que o contrário é que parece imperar. A cultura do cancelamento estimula boicotes, na sua essência primeira, a pessoas, entidades ou marcas. Mas estende-se rapidamente à censura generalizada, face a posições sociais e políticas que possam ser consideradas como atentatórias a determinados modos de vida, tidos como aceites e padronizados. A substituição do debate e do contraditório pelo ataque generalizado à honra de pessoas e organizações é, hoje em dia, tida como natural. O apelo às sensações e emoções afasta normalmente de cena a análise factual e documental. O retorno aos tempos macarthistas, como tendência populista é perigoso. A ascensão do fenómeno da estupidez é um apelo ao não-pensar, uma negação à inteligência e uma nítida obstrução às sociedades aprendentes. O cancelamento é uma espécie de poder, detido pela pressão populista ou por simples preconceito. O poder que confere ao indivíduo a força que lhe advém de possuir, por exemplo, uma conta em qualquer rede social. Barato e acessível, apesar de ser um falso poder, pode eventualmente configurar um perigo social assinalável.

Há um personagem de um filme de Rainer Werner Fassbinder que diz, “a realidade anda mais depressa que a consciência”. É a questão dos tempos que correm, com factos indesmentíveis que, no dia a dia, mostram o colapso das sociedades tidas como modernas, mas que, na verdade, não conseguiram (ainda) colmatar brechas que prenunciam um futuro pouco risonho.