rio torto

rio torto

12 fevereiro 2023

 A POLÍTICA COMO ACTO NATURAL  

12 Janeiro 2023


 

As condições, particularmente adversas aos trabalhadores, com que o ano de 2022 terminou determinam a necessidade de olhar e reflectir sobre a governação do País, numa perspectiva crítica, quer do modo particular como se governa, quer ainda das possíveis soluções para a multiplicidade de problemas que afectam os cidadãos, muito especialmente aqueles que sofrem sempre as consequências das medidas penalizadores resultantes de políticas erráticas, ou mesmo erradas, de administrações e governos.

 

A questão da política, de como se faz política, de como a política interfere na vida dos cidadãos, é a questão central. Será de equacionar, porque na verdade faz pensar e deveria fazer reflectir, a razão por que muita gente diz não querer nada com política, quando é a política que determina a sua existência. Numa democracia, é, ou deveria ser, dos partidos políticos, a grande responsabilidade, uma vez que lhes compete, para além da tarefa natural de tomar e administrar o Poder, a pedagogia necessária e conveniente a um panorama que hoje é mediatizado pelas redes sociais, com todos os inconveniente que daí advêm. Importante seria saber também as razões pelas quais as figuras políticas ligadas à extrema-direita têm tido sucesso em todo o mundo e estão a contribuir para a degradação do debate democrático, da livre circulação de ideias e das necessárias utopias que caracterizam uma sociedade decente. Há quem considere, por exemplo, que o panorama mediático mais fragmentado contribuiu para o desaparecimento de um consenso social em torno do que é ou não factual. Tudo isto é hoje evidente, pelo menos na abordagem das questões políticas centrais, nas sociedades modernas, particularmente na ocidental, onde existe uma percepção errónea sobre a democracia participativa e a sua preeminência. Parece por vezes existir alguma relutância, quando não desinteresse, em que os cidadãos participem na vida política. Alguns partidos políticos, nomeadamente aqueles que têm mais experiência de poder, insinuam, ainda que não explicitamente, que a participação tem a ver com o voto nas urnas e pouco mais. Ou seja, dão valor formal à democracia representativa e prestam muito pouca atenção à democracia participativa, desmerecendo-a, ou desvalorizando-a.  

 

O declínio do centro político é outra evidência do desgaste das ideologias que o sustentam, bem como a consequência da ascensão da extrema-direita e da inculcação que a sustenta. É um declínio evidente, com a banalização do debate no centro das atenções, com a industrialização da comunicação social a proporcionar o maior dos desvios na formação de uma opinião pública tergiversada pela imposição de uma tipologia de pensamento uniformizada, que enfraquece o diálogo e a retórica política. A política deixa de ser natural, para passar a ser uma encenação, por vezes um espectáculo mediático em que o cidadão passa rapidamente para a condição de actor, figurante ou secundário.

 

Os casos, alguns inacreditáveis, outros verdadeiramente inaceitáveis, que ultimamente têm vindo a público, não demonstram apenas a incompetência de quem nomeia e de quem governa. São um triste exemplo de como a política pode ser um refúgio confortável para burocratas, carreiristas e arrivistas. Alguns são apenas a imagem de uma relativa mediocridade. Outros, de natureza algo obsequiosa, contêm uma leniência nítida. De todos, porém, se faz, de imediato, um aproveitamento por vezes demasiado, na tentativa de generalizar e de banalizar. Restam os de natureza grave, particularmente do ponto de vista jurídico, que estão na alçada da lei e que se espera sejam devidamente sancionados. Mas fica sempre uma sensação de desconforto relativamente ao emissor do problema, um phatos difícil de ultrapassar.

 

Pode questionar-se, com algum sentido, se e como, o cidadão reage à ratoeira que lhe foi montada pelo sistema de dominação económica e política. Ou por que razão simplesmente não parece reagir. As tentativas pontuais de reacção, consubstanciadas em lutas pontuais, não serão porventura suficientes para sequer abalar o modelo de dominação. As declarações dos governantes, que sempre exaltam os feitos cometidos pela sua administração, ofuscam as reacções, por vezes desesperadas, daqueles que vêem o seu poder de compra sempre a cair, o seu salário a não crescer para suportar o custo de vida, os custos com a sua habitação (quando a têm) a aumentar, a sua saúde a ser precarizada porque não se investe no sector, a energia e os combustíveis sempre mais caros. Não basta já ao que se assiste, num Ocidente perdido numa guerra fabricada, alimentada e instigada, com uma crescente penalização para aqueles que apenas têm a sua força de trabalho e que acabam pagando todos os desmandos. Porque afinal tudo foi agravado e parece não existir vontade política para mudar. A “naturalidade” da política que deveria prevalecer sobre a indiferença continua a marcar pontos, numa sociedade esquisita que privilegia a subjugação. 

 

Talvez, por força de uma situação em que a política poderia marcar algum espaço para a análise e o debate, faça sentido reflectir na recente entrevista do Secretário-Geral do PCP ao DN, datada de 9 de Janeiro. A leitura que Raimundo faz da situação política actual, quer de um possível quadro futuro, eleitoral ou de intervenção social, permite detectar algumas pistas, quer do ponto de vista formal, que tem a ver com o relacionamento entre PCP, BE e Partido Socialista, na perspectiva de uma eventual partilha de poder. A circunstância de o PCP admitir poder participar num governo com o PS é uma das hipóteses avançadas desde já, muito embora o Partido não queira falar ainda de “frentes eleitorais”. A constatação que o PCP faz, dizendo que existe acordo com o BE em 90% dos casos, pode revelar uma realidade que por vezes parece ser ofuscada pela postura dos dois partidos ao valorizar a autoria e a paternidade nesta ou naquela medida. Uma constatação importante feita por Raimundo é de que algumas pessoas deixaram de olhar para o PCP como o partido que lhes responde nos seus objectivos e ainda que há muitas pessoas que, não estando no seu Partido, estão na verdade juntas nesta ou naquela batalha, ou simplesmente interessadas em ter uma intervenção política activa, necessária numa batalha mais geral.

 

Em uma das suas obras de referência, dedicada à análise e critica políticas, o filósofo alemão Jürgen Habermas aborda o processo de “modernização ocidental”, salientando a relativa insignificância da mudança, que parece limitar-se ao domínio do estrutural. O seu estudo sobre a história dos movimentos sociais do Ocidente propiciou, em termos de aprendizagem moral, algo que, desde então, deve ser identificado e preservado como guia da acção política. Ao propor, pela primeira vez, um conceito dual de sociedade, onde são explicados e desenvolvidos os conceitos de técnica de ciência no contexto do designado capitalismo tardio, simultaneamente como força produtiva e como legitimação ideológica, Habermas ensaia um pensamento crítico para tentar perceber os aspectos positivo e evolutivo, bem como o significado universal do desenvolvimento ocidental. 

A sua contribuição, aproveitada e aprofundada em várias experiências do final do século XX e do início deste, permite relançar o interesse subjectivo na visão da política como arte natural, intrínseca ao ser pensante. E a medida objectiva da necessidade, vital para o cidadão, em revitalizar a participação na vida política, instalando uma vitalidade democrática, condição primeira para o dinamismo cidadão, na imposição da verdadeira agenda política em relação à qual o Estado deve actuar e agir.


A GUERRA COMO CONDIÇÃO DE RECURSOS

5 Janeiro 2023

 

A questão da guerra pode ser abordada em, pelo menos, duas perspectivas. Uma delas será, muito logicamente, a da luta, muitas vezes, pilhagem, dos e pelos recursos existentes, ou em disputa. A outra, do ponto de vista conceptual, radica na aquisição ideológica, eventualmente no desenvolvimento de ideias e conceitos, que, na educação ou na formação dos cidadãos, possam ser utilizados como arma de arremesso, propaganda ou inculcação. As motivações de uma guerra podem ter origem, ou serem consequência, em desentendimentos étnicos ou religiosos, interesses políticos e económicos, vertendo em disputas territoriais, locais, regionais, nacionais ou internacionais. O filósofo e estratega militar chinês Sun Tzu, considerava a guerra indissociável ao ser humano, tendo-lhe dedicado treze capítulos na sua obra A Arte da Guerra, considerando fundamental em cada exército o conhecimento das suas próprias forças e fraquezas.

A guerra no Leste da Europa, que actualmente parece mobilizar grande parte do mundo ocidental, não escapará decerto à análise de cada uma das vertentes, ainda que a segunda possa parecer a mais significativa, por força da orientação que lhe é conferida por uma das partes em confronto. Uma das questões que ora se coloca sobre este conflito reside em saber se terão sido devidamente avaliadas, como aconselhava Sun Tzu, as intenções dos outros, quando um exército se move em terrenos inimigos.

 

A primeira das perspectivas, porventura a origem de todas as guerras, são os recursos naturais. No caso concreto da guerra na Ucrânia, destacam-se as importantes reservas de gás, petróleo e minérios, particularmente de ferro, que existem em território ucraniano. Em 2014 acentuaram-se episódios violentos, por força da disputa com eles relacionada. As minas de carvão do Donbass, famosas pela qualidade do minério, são um exemplo de disputa entre os dois países, sabendo-se que muitas foram inundadas, por força da guerra, desde o início daquele ano. Forçoso será então tentar compreender a tensão constante entre Rússia e Ucrânia, desde há pelo menos duas décadas, para além de outras questões políticas internas.

A propriedade e a política de uso e distribuição dos recursos está em jogo em todos os momentos da vida dos povos e das civilizações. No final do ano de 2019, foi publicado um estudo da Organização das Nações Unidas atestando que, nos últimos sessenta anos, pelo menos 40% de todos os conflitos internos tiveram alguma relação com a exploração de recursos naturais. São referidos recursos escassos, como água e terras férteis e ainda produtos muito valiosos, como madeira, diamantes, ouro e petróleo. Já em 2004, um relatório do Painel de Alto Nível sobre Ameaças, Desafios e Mudanças, do Secretário-Geral, havia salientado a relação fundamental que, no seu entender, devia existir, entre meio ambiente, segurança e desenvolvimento social e económico na busca pela paz. A melhor definição da guerra, sob o ponto de vista dos recursos, eivada de uma simplicidade chocante, é do sociólogo colombiano Alfredo Molano. Ao dizer que “onde há terras há guerras”, Molano viria a acrescentar, que, em situações de conflito e, no caso particular do seu País, se nota a falência do camponês e a protecção do latifundiário, conforme nos dá conta o jornalista António Rodrigues, em artigo do jornal Público de Novembro de 2022.

 

Mas é de facto no domínio do simbólico que esta guerra ganha um significado maior. Uma das últimas medidas censórias, da autoria da ministra da cultura do governo ucraniano e relativas à proibição das obras de Tchaikovsky é bem demonstrativa, quer da pequenez da governante, quer do que pode ser considerado como uma recuperação do essencial da ideologia nazi. A perspectiva das ideias e dos conceitos, em choque nesta guerra, ocupa um papel determinante, não só entre os beligerantes, mas globalmente, uma vez que foi essa a intenção de uma partes. Um conflito que, ao contrário do que normalmente se pretende, não começa a 24 de Fevereiro de 2022 e remonta, no mínimo, ao ano de 2014, com uma nítida pulsão guerreira contínua, particularmente significativa nas regiões da Crimeia e Donbass e, com o posterior especial relevo nas designadas repúblicas populares de Donetsk e Lugansk, que são etnicamente russas e usam o russo como língua materna e estão sob administração da Federação Russa. 

As declarações recentemente conhecidas de Angela Merkel e de François Hollande sobre este conflito, devem ser lidas de forma atenta e demonstram, se necessário fora, que a questão está muito longe da linearidade e simplismo com que é normalmente tratada. Ambos são de opinião que afinal os ditos acordos de Minsk não eram para cumprir e apenas tiveram como objectivo “distrair” as atenções dos russos e permitir o cerco, cada vez mais apertado, àquele país.

O que era um conflito local foi transformado em conflito mundial, com vários pretextos. Um deles tem a ver com a ideia de que defender a Ucrânia equivaleria a defender a Europa, defender a democracia ou defender a liberdade. O caricato da questão é que a Ucrânia é um país com um modelo profundamente anti-democrático, onde não existem partidos nem sindicatos e onde a liberdade sempre foi uma miragem. E onde não são cumpridos os mínimos critérios para a propalada integração na chamada União Europeia. A insistência dominante em enquadrar este conflito, confundindo o bloco ocidental, capitalista e liberal, com toda a “comunidade internacional”, negando qualquer legitimidade aos rivais e tratando-os simplisticamente como “autoritários”, ou mesmo ditaduras, parece querer esquecer regimes tolerados e mais ou menos “patrocinados” pelo bloco ocidental, como é o caso de alguns do Médio Oriente, acabando na prática por os legitimar.

 

A condição da guerra parece ser uma constante do início deste século. Quer do ponto de vista dos recursos, atirando para a precaridade as vidas humanas daqueles que mais sofrem com os conflitos, quer no aspecto simbólico, uma representação grotesca de uma modernidade que sempre será adiada, caso o caminho a seguir não seja arrepiado.

Sobre a questão do pensamento e da crítica, fundamentais nesta sociedade do desperdício e que vê a guerra numa perspectiva holiodesca, nada melhor que a imagem da estrada, que o filósofo norte-americano Marshall Berman nos dá, na sua obra fundamental, de 1982, “Tudo que é solido desmancha no ar”.  Berman diz que “...os burgueses não podem olhar de frente para as estradas que abriram: as grandes e amplas estradas podem converter-se em abismos. Mas os pensadores radicais são livres de vislumbrar aonde conduzem as estradas e seguir por elas”.  Se houver alguma lucidez para tentar encontrar possíveis respostas sobre a guerra, sobre esta guerra, deixem então os livres-pensadores trilhar as estradas amplas da crítica permanente e da renovação de ideias. 

Que nos convide a pensar e, certamente a agir, na estrada que livremente escolhemos.

11 fevereiro 2023

PROFESSORES e CIDADÃOS 

Que esta greve seja um sinal para todos os trabalhadores. Nós os professores, sabemos bem as razões e conhecemos na pele todas as contrariedades a que o Poder nos sujeitou. 

Nos grau de ensino em que leccionei, secundário, profissional e superior, pude testemunhar a tremenda falta de respeito pelos profissionais da Educação e do Ensino Superior. 

Dizer que chegou a hora de exigir Respeito, não é contudo suficiente. É preciso fazer ver aos cidadãos, que a sociedade não avança sem professores qualificados e dignificados na sua profissão. 

Todos teremos de aprender na sociedade que se quer e diz "aprendente". É aqui que a defesa da Escola Pública ganha toda a dimensão e sentido. A aprendizagem passa (sempre) pelo encontro entre métodos e práticas, que possam valorizar a nossa luta.

O respeito que ora exigimos deverá ser um exemplo na disseminação pública do que exigimos e da qualidade das nossas futuras intervenções. Lutamos também (nunca o devemos esquecer!) contra a manipulação  grosseira de agentes e pasquins mal-informados, ignorantes e, por vezes, maldosos e que tentam voltar pais e encarregados de educação contra nós, quando deveriam estar contra os governos que nem cuidam da Escola Pública, nem do País. 

A melhor resposta às tentativas de instauração da excepção no Ensino e na Educação, será porventura a lição maior que poderemos dar ao Poder: somos professores e não abdicamos dos nossos direitos e, ao defendê-los estamos a defender a Escola, os estudantes e os pais, que, em grande parte da situações, sofrem das mesmas injustiças e arbitrariedades das políticas neoliberais.

E que viva a luta internacionalista de todos os trabalhadores!

05 fevereiro 2023

 EU ME CONFESSO! 

 

Não sabendo bem por onde começar, nem se era este confessionário cento e quarenta e quatro que deveria utilizar, sempre digo que acho perfeitamente idiota, desculpará a linguagem, que o Estado esteja a financiar, ou pagar, esta fantochada, digna da idade das trevas, bem como a indignidade de desperdiçar tanto dinheiro, quando me dizem, todos os dias, que não há. Confesso que estou confuso e aparvalhado, diga-me se existe perdão, estou morto, por assim dizer, para saber. 

Olhe, meu filho, os mistérios de deus são insondáveis.

 

Sim, seja lá o que isso quer dizer, mas se é essa a sua resposta, deixe lá. Confesso ainda que estou possesso porque aquele senhor que manda no País está a comprar peças para os tanques de santa margarida que estão avariados, para os oferecer à Ucrânia, a quem já ofereceu duzentos e cinquenta milhões e diz que não tem dinheiro para pagar aos professores e outros trabalhadores. Eu estou com vontade de lhe apertar o pescoço e de o meter dentro de um daqueles tanques, está a ver? Diga-me por favor se tenho perdão também por isto.

Olhe, meu filho, os mistérios de deus são insondáveis.

 

Porra, desculpe lá, o senhor tem alguma cassete, ou cêdê, acho que já me tinha respondido assim à outra pergunta, afinal que raio de mistérios é que fala?

Olhe, meu filho, a blasfémia é pecado mortal.

 

Eu nem sei bem o que é um pecado mortal, mas convenceram-me a vir aqui, disseram-me que é para jovens, uma espécie de uebessamite com padres, estarei enganado? Mas já agora também quero confessar que ouvi aquele sujeito do santander dizer mal dos que jantam fora à sexta-feira e acontece que, ontem mesmo, fui jantar com uns amigos, era uma sexta e estou para saber se pequei por andar a gastar a mais e assim aumentar a dívida, ou lá o que é, uma vez que já sei quem é o tal senhor e estou a pensar fazer-lhe uma espera. Diga-me lá se tenho perdão possível e o que tenho de fazer, mas, por favor, mude de cassete, ok?

Olhe, meu filho, os mistérios da banca são insondáveis.

 

Bom, já vi que estou a perder o meu tempo, mas não quero deixar de dizer que fiquei com uma raiva daquelas à Ana Catarina por ter ido ao congresso dos fascistas, estive mesmo para ir lá pôr uma daquelas coisas que rebentam com tudo, mas antes, acho eu, avisava a “camarada”, olhe, e daí, nem sei se avisava. Será que me pode perdoar, apesar de eu não ter feito nada, nem era capaz de fazer, mas acredite que vontade não me faltava. E ainda, se me permite, dizer que fiquei com um desejo de estrangular aquele alemão que disse que as armas que vai mandar para a guerra não são para atacar, mas só para defender. E estrangulava também aquela dondoca irritante que alguém pôs a mandar na europa. Ou seja, dava aos dois o mesmo tratamento, será que tenho perdão, muito embora também lhe diga que não era capaz de fazer tal coisa, mas sabe, a raiva é tanta que nem sei.

Olhe, meu filho, sabe que mais, eu tenho mais que fazer, olhe só a fila que está atrás de si, vá dar um volta ao parque eduardo sétimo, faça um escorrega no acesso do altar e vá pedir perdão ao raio que o parta!

 

02 fevereiro 2023

 SETE VÍRGULA OITO POR CENTO, ÓPTIMO!

 

Uma empresa que justifica o que investe na melhoria do serviço e quer reflectir no cliente o custo inerente a esse investimento, não é sustentável, na sua própria existência enquanto empresa. 

Uma entidade reguladora que não regula coisa nenhuma, que aparece de quando em vez a opinar sobre questões, mas não toma posição concreta sobre as mesmas, não se percebe muito bem para que existe.

Um governo que assiste passivamente aos aumentos desmesurados dos preços dos serviços aos cidadãos, revela a mais completa incompetência para proteger os cidadãos.

 

Da parte dos operadores de telecomunicações em Portugal, o que se vê é a mais despudorada arrogância em aumentar preços e, ainda por cima, em cartel. Vejamos o exemplo do dia de ontem, em que 3 empresas do sector anunciam, ao mesmo tempo, um aumento exatamente igual (7,8%) para os serviços que prestam.

E, face a isto, o que diz a entidade reguladora? Nada, vem falar da redução do período de fidelização.

E, face a isto, o que diz o Governo? Nada. E, se falasse, diria, provavelmente, que é o mercado a funcionar.

Estes operadores oferecem, por exemplo, um serviço de telefone fixo, que é muito pouco utilizado, não constituindo de forma alguma uma oferta. É apenas um engano, uma forma de enrolar o cidadão, obrigando-o a pagar um serviço que não utiliza.

 

Os factos e os números revelam que:

·       os preços das telecomunicações em Portugal são elevados, acima da média da EU; o exemplo do custo dos dados móveis no nosso país está na lista dos mais caros na Europa; segundo informação da Anacom, entre Dezembro de 2009 e Dezembro de 2020, os preços das telecomunicações em Portugal aumentaram 6,5%, enquanto na União Europeia diminuíram 10,8%(!);

·       o preço da internet móvel em Portugal é duas vezes e meia o da Espanha e mais de seis vezes o da França; os números são 4,97 €/GB, em Portugal, 1,81 em Espanha e 0,81 em França; e, em relação à média europeia, o custo no nosso País, representa mais 46% (3,4 €/GB).

 

Os preços dos serviços disparam para valores insuportáveis, enquanto milhões de pessoas assistem, pelos vistos passivamente. Não são apenas os preços das telecomunicações que aumentam, são todos os preços. De serviços e de bens essenciais. Sobre salários, pensões e respectivos aumentos, estamos (pelos vistos) conversados.

Aqui ao lado, em Espanha, o Governo está a preparar nova legislação na área das telecomunicações, que visa reforçar as obrigações impostas aos prestadores de serviços a clientes finais e o respeito pelos direitos dos consumidores. Seja qual for o resultado, está aqui, pelo menos, um exemplo de tentativa de proteger os cidadãos.

28 janeiro 2023

 UM CASO SÉRIO

 

“...Vais acabar num bueiroSem futuro nem dinheiro

Etelvina”, Sérgio Godinho (1974)

 

Correndo o risco de parecer vulgar, parafraseando quiçá muitos que dizem o mesmo, avanço com a seguinte tese: para além dois conhecidos “casos” que o afectam, este governo é mesmo um caso sério. Avançando na tese, sempre sustento que, na maior parte das situações, tal se deve à mais profunda imperícia e incompetência.

E porquê? Simplesmente, porque poderiam ser facilmente evitados, com o tal cuidado que o senso comum aconselha e que é válido também para a coisa pública. Não existindo tal senso, seria de considerar alguma prudência na forma como se escolhe, como se nomeia, enfim, como se administra a tal coisa que é pública e que, por consequência, não é mesmo uma coisa qualquer. E que merece tratamento adequado e uma atenção épica.

Mas há mais. Há sempre mais, uma explicação, uma consideração, por que não até um palpite. É um outro factor, nada despiciendo: a tentação da arrogância, quando não a arrogância determinada. É o caso (mais um “caso”) da determinação governamental sobre os “serviços mínimos” na Educação. Uma treta só mesmo possível com o objectivo, claro e preciso, de atentar contra a Lei da Greve.

 

É aqui, como em centenas de outras situações, que este partido que se diz socialista revela os mesmo tiques anti-democráticos da Direita que diz combater. Não combatendo coisa nenhuma, vai, antes pelo contrário dar trunfos aos adversários políticos. Vai fazendo, dia a dia, o trabalho sujo, alimentando o descontentamento “popular”, que se sabe onde conduz. Os que hoje estão em congresso para entronizar o chefe, agradecem reconhecidos e já falam em ultrapassar os “pêessedês”, liderar a Direita e, imagine-se, tomar o poder. Exemplos não faltam, por esse mundo dentro.

 

Mas não aprendem. Melhor, não querem aprender, caprichados que estão no que pensam ser a sua missão. Das “contas certas” à histeria dos tanques e outras coisas bélicas, passando pelo alinhamento vergonhoso com os poderes do capital e da banca, sempre com o beneplácito, ainda que disfarçado, daquele que ajudaram a eleger e a reeleger na mais alta chefia da nação. Por isso, não admira que estejam envolvidos até aos dentes na mais rasteira das ratoeiras, elevados ao altar-mor da ignomínia de dar, doar, ou patrocinar as altas “patentes” de uma religião e não consigam descolar da sua posição conservadora. 

Ao fim e ao cabo, uma posição traidora de classe. Sendo ousada, esta classificação nunca foi tão clara e transparente, porque é a mais pura e simples das verdades. 

 

Este governo é mesmo, cada vez mais, um caso sério.

27 janeiro 2023

OH, VALHA-ME DEUS

A "ideia peregrina", assim classificada pelo general Pinto Ramalho, de enviar tanques de guerra para a Ucrânia, é mais um delírio da paranóia armamentista neoliberal.
Nesta campanha está empenhado um Ministro da República que representa, em Portugal, o triste papel de delegado da NATO e dos EUA, um disparate que nunca se havia visto até agora. Sempre que abre a boca, o senhor Cravinho despeja a conhecida narrativa bélica e alinhada fielmente com o Secretário-Geral da NATO e administração americana. Chega a ser penoso ver um alto responsável vomitar a conhecida propaganda, para além da habitual dose de russofobia militante. Dizer que o apoio do nosso País vai ser "generoso", é, para além de ridículo, profundamente indecente.

Os tanques de que se fala, segundo fonte "autorizada" de um conhecido órgão de comunicação social, estarão na sua maioria "fora de serviço". Foram comprados em saldo à Holanda, um país que hoje está tão em baixo, que até mudou de nome. Parece que a garantia de 2 anos, mesmo tratando-se de segunda mão, não funciona, o que nos devia deixar altamente preocupados, afinal os russos podem vir por aí abaixo e defendemo-nos como? Os tanques antigos de lavar roupa não devem ter grande serventia, a não ser para serem lançados na cabeça de algum de algum general russo que se aventure na conquista do Algarve.
A provável gravidade do tema em apreço deveria preocupar os responsáveis, mesmo aqueles que se sentem protegidos debaixo dos altares, ou lá o que seja, que o Estado decidiu oferecer a uma conhecida agremiação religiosa. Correndo o risco de incorrer em pecado, sempre digo que os 4 ou 5 milhões deveriam dar para comprar peças, munições e reparar os tanques, para os oferecer ao desgraçadinho que manda na Ucrânia e que passa todo o "santo" dia a pedir mais armamento.

Que um deus qualquer, se possível, lhes perdoe, que eu não.

24 janeiro 2023

 ESTA GENTE ENSANDECEU 

As últimas notícias sobre aquela guerra que “anima” a comunicação social e uma opinião pública devidamente moldada e formatada, para servir interesses bélicos e guerreiros, dá hoje conta que a Alemanha encoraja aliados a treinar ucranianos nos tanques Leopard e que o ministro da Defesa encoraja "os países parceiros que têm tanques Leopard prontos para serem destacados para treinar as forças ucranianas nesses tanques".

A resposta do ministro Cravinho, que é neste momento uma espécie de delegado da NATO e dos EUA, não se lhe conhecendo qualquer trabalho em defesa do seu País, veio logo afirmar que Portugal participa de “forma generosa” nesta cruzada, dizendo que o nosso País tem mostrado disponibilidade para o treino dos militares ucranianos. Aliás, a notícia de ontem no DN, é, em grandes parangonas “UE disponibiliza mais 500 milhões de euros para apoiar Kiev, anuncia João Gomes Cravinho”. 

Tudo isto, ou seja, a dita cruzada, é em favor da Paz. Nunca tal coisa imaginaríamos, que a dádiva de mais 500 milhões fosse para a Paz., juntamente com mais 45 milhões não se sabe bem para quê, mas decerto que será “pacífico”, uma vez que o tema é uma "missão de assistência militar".

 

Ao mesmo tempo, seguindo as notícias vindas daquele belo recanto de democracia e liberdade que, pelos visto, é a Ucrânia, sabe-se também hoje dos casos de corrupção que envolvem altos responsáveis da administração ucraniana, que vão desde o vice-ministro da Defesa e responsável pelo apoio logístico às Forças Armadas, ao Vice-Procurador-geral, passando pelo vice-chefe da Administração Presidencial. Ao que consta existem ministros suspeitos de inflacionar preços de alimentos das tropas, equipamentos e geradores de energia. A classificação no ranking dos mais corruptos do mundo que coloca a Ucrânia em lugar de destaque deve, porém, ser obra dos russos ou de agentes infiltrados para denegrir o país. Igualmente deverá ser obra deles o facto de terem sido banidos os partidos políticos e os sindicatos. 

 

A mais pérfida das propagandas e a intolerável tentativa de imposição do pensamento único, pela industrialização e lavagem das consciências vai ao ponto de iludir as pessoas de que os milhares de milhões até agora gastos são para promover a Paz. Um pecado mortal, para quem acredita e uma miséria moral para quem tem alguma decência. 

Dinheiro a rodos que não pára de correr, quase um ano depois, o apoio mundial à Ucrânia ascende a 100 mil milhões de euros, oriundos dos EUA e União Europeia. Portugal, o nosso País, onde se negam uns míseros aumentos, já gastou nesta guerra 300 milhões. Verdadeiramente inqualificável!

 

Uma perfeita loucura. Será de perguntar o que aconteceu a esta gente toda. 

Não adianta sequer tentar compreender, uma vez que não conseguem falar de outra coisa, nem lhes interesse falar de mais nada que não seja guerra, tal é a cruzada em que entraram e onde querem que entremos também. No meio da confusão, a ministra da Defesa da Alemanha demite-se, ao que parece por ter manifestado algum distanciamento em relação ao apoio militar do país à Ucrânia. 

Não há milhões que resistam a tanta perfídia. 

Das duas, uma. Ou a Paz vem mesmo aí a correr com tantos milhões e milhões a favor, ou esta gente ensandeceu mesmo.

13 janeiro 2023

 O EXAME DE ADMISSÃO 

Recuo ao início dos anos 60 do século passado. Fazíamos então o exame de admissão ao Liceu, vindos da Escola Primária. Não me lembro se tinha 36 questões, mas acredito que se tratava de perguntas pertinentes, relacionadas com a exigência da coisa. Sem o exame não poderíamos entrar no Liceu, poucos, entretanto tinham esse privilégio, a maioria ficava por aí, sem acesso sequer a um exame, prerrogativa só possível aos filhos da burguesia. O exame era um "luxo", a admissão uma miragem, tal como a Ponte, da canção. Havia, para um grupo ainda mais restrito, as explicações do Prof. Gil, que nos preparava o melhor que podia e sabia para a dura prova.                  

A admissão dos dias de hoje é quase a mesma coisa. Há uns tantos candidatos que vão agora, após muitos anos de entrada directa, fazer o exame de ingresso. Difícil como o outro, deverá ser, a única coisa que sabemos é que são 36 perguntas. Decerto que haverá, como no outro caso, um qualquer Prof. Gil a dar-lhes as explicações necessárias para passagem à primeira. 

Mas se calhar dá para imaginar perguntas, tipo, “tens algum processo em cima?”, “a tua mulher tem alguma conta arrestada?”, “sabes o que é uma conta arrestada?”, “entregaste algum subsídio à Empresa X?”, “sabes o que é um subsídio?”, etc... Estas são fáceis, outras possivelmente mais difíceis, como por exemplo, “define ética republicana”, “quantos dias esperas estar no Governo?”, “tens algum prima no Governo e em que departamento?”, “ainda namoras com o secretário de estado Y? E para estas últimas penso que as “explicações” antes do exame não serão grande ajuda.

Gostaríamos de saber ainda se bastará a prova escrita ou, se lhe sucede uma prova oral. Ou se há, neste caso concreto, dispensa da oral, com nota acima de 14 valores. Ainda este pormenor que poderá ter algum sentido: onde serão afixados os resultados da prova escrita? Poderia sugerir que fosse na Autoridade para a Transparência, se esta não tiver paredes de vidro. Esta última sugestão era capaz de ter alguma lógica, ao menos serviria para inaugurar e dar que fazer a esta digna instituição, que já tem estatuto, uma lei orgânica, que tem o número 4 e data já do longínquo ano de 2019, já agora ao décimo-terceiro dia do mês de Setembro.

Mas, como é evidente, nada disto tem interesse. O que interessa aqui é agitar as águas, de um rio bem sujo e onde fica seguramente mais bonito saber até que ponto vale mesmo a pena tomar banho nele. Se porventura tomarem contacto mais estreito com alguma, ou algum, dos visados façam favor de serem compreensivos para com os candidatos, que estes levam um vida muito preenchida e não devem estar a mudar-se só porque sim.

 Com esta termino. Deverá haver, para os examinandos, uma espécie de atendimento imediato e um despacho rápido, que esta gente tem mais que fazer e coisas importantes a tratar. Deus sabe o tempo que nos fazem perder num simples interrogatório. Deviam ter algum respeito e consideração connosco, pronto, enquanto escrevia, sei que passei na escrita, mas não tenho dispensa da oral, deve ser na semana que vem.

Aguardemos.

29 dezembro 2022

 PEDRO NUNO (SANCHEZ?)

Os dois Pedros são homens da mesma geração, com 5 anos apenas a separá-los, sendo mais velho o espanhol. Sem pretender qualquer comparação, em termos pessoais, respeitando a individualidade de cada um, poderá eventualmente falar-se em algumas similitudes, num momento particularmente delicado para o português.

Curioso será analisar em pormenor o percurso de cada Pedro, com natural vantagem política para o homem do PSOE, que lidera o Governo de Madrid com a coligação Unidos Podemos (Podemos, Esquerda Unida e outros partidos de esquerda).


Pedro Nuno sai do Governo de Costa depois de ter protagonizado muito de bom e algum de mau, neste e nos outros governos do Partido Socialista. Fora da análise o pormenor de cada uma das situações, o certo é que a personalidade e, de certa forma, o vigor, com que Pedro Nuno defendeu algumas medidas concretas, fazem dele um exemplo no panorama político nacional, havendo quem lhe vaticine um promissor futuro dentro do Partido Socialista.


Fica, entretanto, o devido registo de quem não tem qualquer simpatia pelos dois partidos, que de socialista apenas têm o nome e que praticam, em Espanha e em Portugal, a doxa europeia, que, no caso português, representa o neoliberalismo mais primário e de subjugação aos ditames da desastrosa moeda única que significa, no limite, o empobrecimento progressivo dos trabalhadores. Mas tem que se salientar, no caso de Espanha, algumas decisões positivas como a da Memória Histórica, na qual foram consagrados e ampliados direitos e onde se estabelecem medidas em favor de quem sofreu perseguição ou violência durante a Guerra Civil espanhola e a ditadura franquista. E ainda algumas medidas de apoio aos cidadãos carenciados e atingidos pela pandemia e pelas estúpidas sansões da guerra, que atingiram algum significado, no país vizinho, precisamente devido ao facto de a Esquerda estar no Poder, coisa que em Portugal nunca aconteceu.


Poder-se-á então falar num fenómeno Pedro Nuno “Sanchez”, sem qualquer desrespeito pela propositada adulteração do nome do Pedro português? A resposta possível apenas poderá ser dada dentro do Partido Socialista. Há quem sustente que o futuro de Pedro será o de um líder. Ainda que essa hipótese seja plausível, muita coisa terá que mudar, para que, um dia, o partido que ocupa o Poder, se transforme. Diria até, se transmute de um partido de interesses e de concluio de tudo o que rejeitamos, num partido que, no mínimo, consiga afirmar-se como de Esquerda, ainda que moderada e reformista.


Hoje, é ver toda a Direita a exultar contra Costa e o seu desastrado e incompetente governo. A coisa pública foi vilipendiada, de tal forma, que difícil será emendar ou corrigir. Atingiu-se porventura o limite no que reporta a uma gestão minimamente coerente e honesta. Mas a Direita devia estar grata ao Partido Socialista, por todos os “males” causados na economia e na política. A Direita faria tudo exatamente igual, ou ainda pior, se tal fosse possível (é sempre possível fazer pior). Por isso, salta à vista a hipocrisia, particularmente o PSD, um partido que não é capaz de apresentar uma única proposta digna desse nome e navega à vista para ver quando o Poder lhe cai na mão. Quem ganha mais é mesmo a extrema-direita, quer a arruaceira, quer a “civilizada”. O Partido Socialista irá um dia entregar-lhes o Poder, enquanto permite a degradação da confiança e o descrédito na Democracia.

Será Pedro capaz de inverter o rumo do seu Partido? A partir de agora, livre para outras tarefas, terá de demonstrar que é capaz. Mesmo quem à partida não lhe queira dar o crédito que precisa, ficará na expectativa.

28 dezembro 2022

 ALEXANDRA MILHÃO (ou meio)

 

O final do ano que se aproxima parece mais um precipício, onde alguém supostamente se irá afundar. As notícias relativas a Alexandra podem afundá-la, afundar alguém, por via dela. Ou todos, o que nem seria despiciendo. Saberemos agora o que nos diz respeito. Ou não.

 

Contemos a estória. Alexandra, Engenheira de Telecomunicações, 48 anos, não tem, que se saiba, qualquer filiação partidária, “apenas” mérito para integrar, em tão curto espaço de tempo, empresas como a PT, a REN ou a NetJets, sempre na área de compras. Seguiu-se a TAP, onde entrou em 2017, tornando-se um dos rostos da reestruturação da companhia aérea, que levou à saída de perto de três mil trabalhadores. Depois, no ano seguinte, a empresa NAV, Navegação Aérea de Portugal (sabiam o que isto era?), que assegura o controlo de tráfego aéreo, com um vasto conjunto de equipamentos e instalações em vários pontos do Continente e Regiões Autónomas. Aí desempenhou a função de presidente do Conselho de Administração. Alexandra esteve sempre na mira dos sindicatos da TAP, por força da função que ocupava, que era, simplificando as coisas, despedir o pessoal, nestas situações considerado descartável.

E, a este propósito, deverá falar-se porventura de uma certa bondade dos poderes constituídos, quando consideram que a casa está demasiado cheia e o espaço é exíguo, tentam aliviar o ambiente e, a forma mais óbvia de o fazer é convidar algumas pessoas a sair. Tudo isto tem uma lógica muito própria e, na verdade, só mesmo uma mente dura não a compreende, nem alcança. 

Alexandra fez isso, mas como se trata de uma pessoa empenhada, colocou todos os seus vastos recursos na tarefa e isso custa dinheiro. Também não será muito difícil perceber isto. Foram quase oitocentos mil, que se saiba, que reclamava do seu trabalho. Mas fica a dúvida, Alexandra demitiu-se, foi exonerada, foi despedida? Foi competente ou não? Executou as funções inerentes? Mas que interessa tal coisa? A quem interessa? Onde está a diferença?

Saber se a gestão da TAP, ou da NAV, ou outra qualquer é, ou não, transparente, é coisa que não deve perturbar as mentes do vulgar cidadão. Entende-se, pois, a atitude de absoluto silêncio, neste como em outros casos, dos administradores e governantes, para assim poupar o dito cidadão a preocupações escusadas. De nada serve a gritaria, o nosso Governo segue o caminho certo, ou melhor das “contas certas”, estejam assim descansados.

Mas, no entanto, há sempre gente demasiado ansiosa, dizendo mal, escarnecendo dos políticos responsáveis pelos cargos em que a República os investiu, para cumprirem a sua função. E nós, vulgares cidadãos, devemos dar-nos por satisfeitos por podermos votar, de quatro em quatro anos, pois trata-se de uma conquista de Abril. Há 50 anos, nem isso podíamos fazer. 

E quanto à ética republicana, que muitos vieram a evocar, não passa afinal de retórica barata e arma de arremesso contra o empreendedorismo, habilidoso ou não, típico da sociedade moderna europeia que já deveria, há muito, ter-se livrado de utopias falaciosas e desnecessárias.

 

Quanto ao milhão da Alexandra (exactamente, se querem saber, 1,47), que depois se viria a transformar apenas em meio, devemos apenas agradecer (de novo) aos poderes constituídos, porque afinal até poupamos na verba que ela pretendia. Medina, na sua senda de velar pela Pátria (e pelas tais contas), Costa, seu chefe supremo, que decerto que o terá aconselhado. E quando a Pedro, mesmo sem lhe conhecermos uma palavra sobre a matéria, se por acaso procedeu mal, irá apanhar um raspanete, com o da última vez e continuará a servir o seu chefe e a Pátria, por arrastamento natural. 

Se porventura estiverem interessados em saber mais, anotem que o vencimento mensal da jovem Alexandra era de 17.500 euro, já depois de aplicado o corte de 30%, devido ao processo de reestruturação. E ainda que este vencimento estava à margem do Estatuto do Gestor Público, pelo que não se aplicam as limitações de ordenado. Daí que a comparação aos míseros 5.792 euro do vencimento do primeiro-ministro, é simplesmente escusada. Tudo isto a TAP esclareceu, apenas não explicou bem o motivo da saída, coisa de somenos, deve dizer-se, afinal que temos nós com isso? Afinal, na parte final, a Alexandra teria um brevíssima passagem por uma Secretaria de Estado, tendo sido ora demitida. Que querem mais?

 

Voltando às “contas”, o meio milhão dividido pelos três mil trabalhadores, dá aproximadamente 167 euro. Deverá ser esse o valor de cada trabalhador despedido. Nada mau. E, se for entendido como prémio, até nem é grande coisa...

26 dezembro 2022

ERA UMA VEZ NO 2022 

Distraídos com o bolo-rei e as rabanadas, deixamos passar a propaganda habitual e chutamos para canto uma possível oportunidade de golo. O copo de vinho do Porto inebria-nos e faz-nos pensar em amanhãs que poderão cantar, não contando com o pio do galo, que, sempre atento, nos leva à missa do mesmo, nem que seja por um hábito antigo. 

Pois sim, um perú que, hoje assado, há muito havia deixado a capoeira, partindo para um qualquer Continente perto de nós.

Estamos invariavelmente felizes, “focados”, como ora estupidamente se diz, na esperança de um ano melhor. Pelo menos é o que desejamos à família e amigos. Mas não, provavelmente nem será melhor, mesmo que ainda não seja pior. E por que razão haveria de ser melhor, se nada fazemos para que tal aconteça? Antes pelo contrário, convivemos no marasmo invisível, com o fardo pesado da tal dívida que dizem temos que aliviar, ainda que sem saber de que dívida falam eles, sempre na mira da subjugação eterna a um sistema injusto e pérfido. Deixamos andar? Enquanto deixamos, há sempre alguém a lucrar, mais atento, sempre atento às “possibilidades” e nunca enjeitando nenhuma para engrandecer.

Distraídos com a bola, andamos às voltas a tentar justificar os desmandos e as birras de um sujeito mal-educado a quem convenceram que era o melhor do mundo e da Madeira também e a quem deram o estatuto de figura pública e o nome a um aeroporto, acrescentando que tudo lhe devemos. Aqui, como em outras situações mais ou menos parecidas, com a mão serena e virtuosa da mesma propaganda que semeia ilusões e que vende barato o que nos é mais caro. 

Passamos o tempo a perder tempo e, como dizia Saramago, “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”, afinal ele deve ser bem gasto, mesmo que seja a não fazer nada, um direito universal e inalienável. Por falar nisso, Costa pede confiança aos portugueses sem apontar o fim da inflação, uma incrível falta de gosto, para outra coisa não dizer. E, para cúmulo, pede a tal confiança para o país “...chegar ao pelotão da frente", sem dizer como, nem onde.  Será caso para perguntar de que país fala ele, quando se sabe que neste ano 2022, há cinco vezes mais ricos do que em 2014.


Pelo mundo anda uma certa acrimónia, o sabor da desonra e da morte gratuita. Um maquinista reformado mata a tiro três pessoas em Paris e, na vizinha Galiza, a queda de um autocarro faz seis mortos na noite de Natal. Mas o que parece ser mais confortante é saber que o presidente da Ucrânia, aquele que passa a vida a pedir mais dinheiro e mais armas, partilhou um vídeo com a árvore de Natal do Porto. Melhor seria impossível.

Entretanto morreu hoje um cidadão da minha idade, um Homem da cultura, jornalista e escritor, de seu nome António Mega Ferreira. Dele lembramos o remoto tempo da Expo e, entre tanta produção, o Roteiro Afectivo das Palavras Perdidas​, um dicionário de palavras que deixámos de usar, onde consta o trampolineiro, espécie em desuso apenas no que toca à antiga designação.


Há apenas três anos escrevíamos sobre uma teia que nos envolve e à qual parecemos estar presos, uma “...perigosa teia que alguém tece por nós, porque já não tecemos nada que não seja para oferecer a um banco, a uma empresa ou a um operador que leva couro e cabelo, com os preços mais caros da europa, por serviços de qualidade por vezes duvidosa, protegido por uma autoridade tão alta, que mal sabemos enxergar.”

De 2019 até hoje o que mudou foi sempre para pior. Dizem-nos que a culpa foi da pandemia e da guerra, há sempre um culpado próximo de nós que nos inferniza. As tragédias pesam mais sobre quem tem menos, nota-se e regista-se.


O melhor para 2023 é bem capaz de ser afastar este fardo que se chama resignação, apesar de outros lhe chamarem outra coisa. Nada melhor que libertarmo-nos do medo e da teia que nos envolve, partir a louça toda no final do ano e pensar.

Pensar faz sempre bem, ler um livro, ouvir uma melodia e plantar a revolta em qualquer lado.

Que dizem?

07 dezembro 2022

INICIATIVA BIDÉ

Ainda bem que temos uma iniciativa que cuida dos nossos interesses. Num dia em que se conhecem situações de crianças com graves infecções respiratórias que entopem urgências de pediatria, em que o preço dos bens alimentares regista uma subida de dois dígitos, em que as empresas de energia “ajustam tarifas” que prenunciam mais aumentos e em que. Se sabe que o ex-Ministro da Defesa e actual Ministro dos Negócios Estrangeiros promoveu um dos suspeitos, agora detido, já depois de saber da derrapagem das obras no Hospital Militar de Belém, a tal iniciativa, que é decididamente liberal, quer acabar com leis iníquas como a das banheiras e bidés.

 




Assinala-se aqui o devido respeito pelo objecto, que, nas nossas casas de banho, ocupa um papel de primordial importância e que ainda é uma das coisas boas da civilização ocidental, tão manchada de cenas muito pouco recomendáveis. Que nasceu em França, por volta de 1600 e morava no quarto onde se dormia, ao contrário de agora. Os salafrários que querem hoje acabar com o bidé desconhecem, por exemplo, que à época se pintavam quadros em que o objecto era senhor e que havia muitos que estavam inseridos em pequenos móveis de madeira, com pés curtos, e tapados com tampo de couro, fazendo parte da vida da corte, da nobreza e da burguesia. Aliás a difusão do adorno foi generosa em todo o Mundo, como excepção dos americanos que nunca entenderam para que servia, como ainda hoje não entendem muita coisa.

 

Mas a vida é assim e quem gosta de bidé irá, muito provavelmente, render a homenagem devida aos servidores da Pátria que, podendo não querer saber de mais nada, cuidam da higiene pessoal de forma tão atenta e oportuna, bem como dos superiores interesses dos cidadãos, preocupados com uma lei tão degenerada. Que cada casa tenha o seu bidé, isto claro, para quem consegue hoje ter um privilégio desses. De ter casa, que não de bidé.

 

Regista-se que, sem banheira e sem bidé, o prazer não é o mesmo. Estendendo assim o conceito conhecido do Miguel Esteves Cardoso, “Sem o prazer, é tudo uma estucha”.


04 dezembro 2022

 FORA O ÁRBITRO, QUE SAUDADE...

 

A imagem do indivíduo a quem atribuíram o estatuto especial de “estrela”, a roubar o golo ao colega de equipa, não é apenas o reflexo de uma atitude individual de quem não tem personalidade social relevante e que anda, há algum tempo, a arrastar-se em campo, porque é ele que parece mandar numa equipa de compromisso entre uma federação subserviente, um treinador que não quer pagar impostos e um empresário que detém os direitos da maior parte dos atletas . É sobretudo um sinal preocupante do mundo do futebol, um universo paralelo de milhões e hipocrisia, alimentado por uma comunicação social decadente e que pactua com ele, ao dar-lhe o tempo e a honra que não merece, patente em manifestações de ignorância e cretinice, como, por exemplo, a de um locutor de serviço dizendo “...agora vai ser tocado o hino da.… selecção nacional”.

O contraponto está nas bancadas, com figurantes pagos para apoiar as equipas, com políticos “ao mais alto nível” a deslocarem-se ao país organizador para apoiar a selecção, com dirigentes como o da execrável agremiação chamada FIFA, a ginasticarem um discurso miserável de submissão e corrupção. É a chegada, nunca tardia, do politicamente correcto ao mundo do futebol, com a proibição completa de uso de braçadeiras ou outros adereços “provocatórios” e o impedimento de filmar imagens de invasão de campo e mais ignóbil ditadura de cerceamento da liberdade de expressão, com ameaças expressas. Mas a coisa não fica por aqui, no que toca à destruição da beleza do futebol, com a mais que discutível introdução da tecnologia no jogo, uma intromissão na arbitragem que, ao invés de resolver problemas, vem avolumar as situações de eventual confronto.

É um desporto de privilegiados, eleitos no meio de uma mentira permanente, embora conveniente, que leva inclusivamente a medir as equipas, não pelo valor dos atletas, mas pelo seu eventual valor de mercado. A pessoa deixa de o ser para virar mercadoria, valorizada um ano, descartada no seguinte, negociada em função de dinheiro vivo que aqui nunca falta e de contratos milionários de publicidade.

 

O mundial da vergonha é cada vez mais uma vergonha generalizada de falsidade e de hipocrisia, típica de uma modernidade virada do avesso e na qual, um qualquer “infantino” dita leis e submete Estados, soberanos ou nem por isso, aos ditames de uma retórica estribada na ignorância, na mentira e na cretinice. O presidente-comentador, que fala sobre tudo e mais alguma coisa, diria, bem a propósito, “direitos humanos, sim, mas agora vamos apoiar a selecção...”.

 

Onde estão os eusébios, os pelés, os maradonas, tantos nomes e tantas “lendas” que espalharam em campo a sua classe e talento, mesmo que a “mão de deus” marcasse um ponto na baliza da memória? Onde está o desporto-rei que atraía pessoas e famílias, agora travestidas em figurantes e figurões que espalham o medo e a tristeza da arruaça e da agressão? 

 

O “melhor” exemplo, o mais esplendoroso sinal desta ignomínia é talvez a notícia que os estádios, onde morreram trabalhadores transformados em escravos de ocasião, irão ser deitados abaixo. Não será, entretanto, bem assim, uma vez que o país organizador é um “doador nato” e vai “oferecer arquibancadas desmontáveis a países com carência de infraestruturas desportivas”. E vai converter um deles (estádio) “num hotel de cinco estrelas e centro comercial”. E vai, imagine-se, transformar um outro em “uma escola e zonas comerciais”.

 

O esqueleto já não fica no armário, o elefante já está plantado na sala, o cenário é tão artificial como a máscara de um evento que hoje domina a atenção, ou que desvia esta, para a luz efémera da vaidade e da podridão. Teremos estrelas de lata a prenunciar um Natal de frio no Norte e de sol no Sul,  cheio de nortes de fome e de miséria. Mas claro que nada disto interessa, o var validou o golo e já estamos quase na final...

27 novembro 2022

UMA QUESTÃO DE COMUNICAÇÃO

24 Novembro 2022

Sobre alguém que, no seu tempo e espaço, não foi capaz de comunicar a mensagem que transportava. Uma situação típica dos tempos que correm, com explicações várias, dependentes quer do sujeito, quer do conteúdo da mensagem.

O que parece ser um problema de comunicação poderá dar forma a outras situações, configurando limitações e quiçá preocupações ao chamado cidadão comum. Este tem acesso aos meios como rádios e televisões, que inundam os espaços públicos e eventualmente a alguns órgãos de comunicação social escritos, como os jornais. E ainda, como acréscimo significativo dos dias de hoje, às designadas redes sociais, a que Manuel Castells chamou “Redes de Indignação e Esperança”, título de uma obra publicada em 2012. O Autor, ao discorrer sobre as redes, avança que “...a sociedade em rede é uma sociedade global” e que, a era da informação é, para a sociedade, aquilo que a era da revolução industrial foi para a sociedade industrial do século XVIII.

A forma como o cidadão comum consome os citados órgãos de comunicação pode ser uma resposta, ou não, dependendo do carácter participativo, ou meramente informativo, dos mesmos. O cidadão pode ser então um sujeito activo da informação, ou, pelo contrário, um mero consumidor.

A forma como o cidadão utiliza as redes sociais, uma matéria vasta para analisar, determina o possível sucesso na transmissão da mensagem. 

 

O papel da comunicação na era do neoliberalismo é decisivo, no sentido que permite a troca de informações necessárias à plena realização do capital. É por essa razão que não surpreendem as profundas alterações que vem sofrendo o panorama mundial das comunicações, onde os capitais privados participam em muitas áreas, sectores e empresas e onde é conhecida a relação de proximidade com as mais variadas inovações tecnológicas, desde o multimédia à inteligência artificial, passando pelas mais recentes tecnologias da informação e das comunicações. Convém levar em linha de conta a influência dessas tecnologias nas transformações recentes que permitem o funcionamento sincronizado dos mercados e a transmissão em tempo útil de informações entre diversas unidades das empresas. Nenhum desenvolvimento tecnológico deve ser analisado apenas do ponto de vista da tecnologia em si. É o desenvolvimento e o funcionamento pleno de uma imensa teia, um complexo sistema mundial de interligações de redes privadas entre bancos, empresas industriais e de serviços e administrações que determina o sucesso do sistema. 

 

Se na verdade é inegável a posição fundamental da comunicação nesta fase do desenvolvimento capitalista, não é menos verdade que a comunicação é uma espécie de fenómeno, dito por vezes incontornável e que determina algumas situações, que por vezes nos surpreendem. Essas situações são criadas com a finalidade de gerarem espaços de experimentação, nem sempre compreensíveis, mas decerto devidamente aproveitados pelos intervenientes, para monopolizarem as possibilidades de atingir os imaginários de forma colectiva, uma autêntica indústria de consciências. É o domínio do simbólico, indutor possível de uma forma de pensar global, caracterizada pela simplicidade de argumentos e pela predominância dos sentimentos, desligada do concreto e da consideração dos factos. A produção resultante é uma mistura de mensagens simples e directas, antes panfletárias, hoje de índole pura e dura, no que reporta à sua formulação.

 

Para lidar com situações destas, ou seja, com o que se pode designar como produção de um discurso e uma retórica, existem hoje os chamados “Think Tanks”. A designação não deixa de ser curiosa, uma vez que lembra na sua formulação e conjugação de termos, um “tanque”, ou “laboratório”, de “pensamento”. São grupos que reúnem académicos, estrategas e comentadores políticos e económicos e consultores de comunicação social. Estes grupos, financiados principescamente por grandes empresas e por administrações não identificadas, destinam-se a “criar conhecimento” sobre políticas públicas e administração de políticas globais, a nível nacional e internacional. Curiosamente, ou não, estes grupos estão normalmente ligados a grupos e candidatos conservadores, a avaliar pelo que se passa nos EUA. Conhecido recentemente em Portugal, pela mão da TSF, que lhe dedica uma parte de um programa diário, o Institute for the Study of War, ou Instituto para o Estudo da Guerra, é um desses grupos. A sua criação data de 2007 e diariamente produz “informação” e “análise”, em larga escala, sobre a guerra na Ucrânia, sob o manto diáfano de “comentário”, que, após desmontado, se traduz na mais refinada propaganda, parcial e de incentivo à guerra.

Como é sabido, da teoria da comunicação, no caso de o emissor ser pouco credível, seja porque não é de confiança, seja porque não tem informação relevante sobre a matéria em apreço, constata-se uma perturbação evidente, que pode inclusivamente constituir uma barreira, uma interferência hostil, que impedem que a comunicação seja eficaz e transparente. Aqui reside um problema, conforme a realidade constata.

 

Há quem se dedique à ingrata tarefa de tentar compreender o fenómeno da comunicação. Especialistas, estudiosos, académicos ou simples batoteiros, que hoje nascem por todo o lado e inundam os ecrãs das notícias. Ou que escrevem livros sobre os mais variados temas, sem que lhes seja reconhecido qualquer mérito que não seja o da exposição pública “forçada”. Sustentam, quando decidem falar da coisa pública, ou de política em geral, um discurso e uma retórica de grau zero, ou seja, a “simplicidade” de quem não é capaz sequer de tentar articular meia dúzia de conceitos ou de compreender a dialéctica do pensamento. 

Depois há os casos conhecidos de “comunicação a mais”, ilustrados aqui na postura hiper-realista de um Presidente, que fala a toda a hora, sobre tudo e o seu contrário, proporcionando um espectáculo permanente, ou contribuindo para todos os espectáculos, como o exemplo recente do mundial de futebol no Qatar. Sobram ainda as polémicas, arrufos, ou ambas as coisas, entre dois Costas, por causa da banca e não só, com análises demasiado primárias sobre questões económicas ou orçamentais. Exemplos que todos os dias surgem na comunicação social e nas redes sociais e para os quais existe sempre uma explicação recorrente, quando a coisa não corre bem: foi um erro de comunicação.

Aqui e ali entra sempre “uma questão de comunicação”, directamente proporcional à “força” relativa de cada intérprete. Ou a “comunicação” não foi eficiente, ou o canal disponível para a transmissão não foi capaz de passar a barreira, para produzir o necessário impacto, o certo é que alguém saiu a perder, quer do ponto de vista da idoneidade da fonte, quer do direito a ser informado devidamente. 

 

Se pudéssemos enquadrar as questões da comunicação e da sua relação, sempre difícil com a realidade, encontraríamos algum refúgio nas palavras do grande pensador cubano-italiano Italo Calvino, “...o passo entre a realidade que é fotografada na medida em que nos parece bonita e a realidade que nos parece bonita na medida em que foi fotografada é curtíssimo.” E aí ficaríamos, protegidos com uma capa protectora, para nos afastar do maldizer e da propaganda.  O facto é que, como o espaço na sociedade em rede é configurado como uma hipotética oposição entre espaços globais e locais, a estrutura espacial da sociedade actual é uma das fontes essenciais das relações de poder. Convém não esquecer que, quando falamos de comunicação social e redes, estamos num espaço de produção de poder. Uma das formas de exercer esse poder, como acontecimentos recentes demonstram, está na exclusão pura e simples do cidadão. 

 

Saber distinguir, hoje em dia, o real e o virtual, parece ser uma tarefa ciclópica. Voltando a Castells, e ao aviso que faz de que toda a realidade é hoje percebida de maneira virtual, podemos ficar perplexos. Ou atentos, para podermos, nos casos devidos, levantar a dúvida sistemática e a atitude crítica que deve guiar os livres-pensadores.