rio torto

rio torto

21 outubro 2005

ESTE HOMEM NÃO!

Ele diz: "Posso contribuir para a melhoria do clima de confiança, para o reforço da credibilidade e para vencer a situação muito difícil em que o nosso país se encontra." Mais uma vez, após longos anos de exílio político, com intervenções episódicas, surge o homem-forte, o salvador da Pátria em perigo. 

E continua, dizendo que pretende ajudar o Governo a governar, graças "à experiência e conhecimento da vida política nacional" e das "dificuldades que se colocam a qualquer governo em tempos de mudança como aqueles em que vivemos". Depois vem com as mais que estafadas declarações sobre a economia e a necessidade do seu rápido crescimento, lamenta os 400 mil desempregados e pinta o retrato negro assinalando o afastamento "do nível de desenvolvimento da União Europeia e da nossa vizinha Espanha".

Convencido (será que é um mero convencimento?) de que o seu currículo e formação lhe permitem enfrentar os problemas que enuncia, diz estar em condições de ajudar o país a reencontrar o caminho pelo seu conhecimento da realidade portuguesa "e pela reflexão que ao longo dos últimos anos" tem "vindo a fazer sobre a razão das dificuldades que atravessamos". Conclui o seu discurso, com a velha (e gasta) máxima que a direita usa quando quer enganar os incautos: "Candidato-me para ajudar o país a vencer as dificuldades em que está mergulhado e construir um futuro melhor".

Ora vejamos. Em primeiro lugar, como se vê, o homem não tem realmente nada para dizer, ou para dar ao País, além do já disse e deu. Todos se recordam da personalidade cinzenta que numa bela tarde foi fazer a rodagem do carro àFigueira da Foz e lá se instalou na liderança daquele partido (como ele dizia...). A ascensão a primeiro foi um passo, todos (todos não!) esperavam por um salvador, à boa maneira portuguesa, por um Salazar qualquer, que nós somos assim... Lembram-se também que o homem nunca se enganava e raramente tinha dúvidas (era mais ou menos isto...), que nunca lia jornais, mas ouvia sempre a sua Maria. Recordo também os famosos tabus, as referências aos opositores (todos!) como forças de bloqueio e finalmente o deixem-nos trabalhar.... Não sei se esqueci alguma outra citação, mas estas bastam de todo para as pessoas se lembrarem do homem.

Em segundo lugar, convém não esquecer que o homem chega ao poder no momento em que o País beneficia dos fundos estruturais do I QCA (Quadro Comunitário de Apoio), que esteve em vigor entre os anos de 1989 e 1993. O homem comemorou no passado dia 6 de Outubro precisamente 20 anos da vitória nas eleições legislativas, que lhe permitiram constituir o seu primeiro Governo (1985-1987) e a que se seguiram mais dois governos de maioria absoluta (1987-1991 e 1991-2001). E que convém que se lembre sobretudo que ele foi o primeiro responsável pelo desbaratar de milhões sobre milhões de contos em betão, por exemplo em auto-estradas que hoje praticamente ninguém usa (vejam os índices de utilização das auto-estradas do interior...), em detrimento do investimento na educação e na formação. Estamos a pagar hoje o fracasso completo da política de opções estratégicas do homem e dos seus apaniguados. Tenho para mim que se há fracassos de politica em Portugal no final do século XX, esta étalvez das mais graves e prova a capacidade do homem que agora aparece a candidato a PR. No dia de ontem, após a apresentação, alguém disse que os portugueses tem de ter memória. Essa é de facto a marca principal do dia de apresentação da candidatura do homem que afronta a memória de todos nós, ao pretender limpar a face, apresentando-se (mais uma vez...) como um não-político. Ao dizer o que disse, Jerónimo tem toda a razão do Mundo: é preciso ter memória, é preciso não esquecer que, se estamos como estamos, bem podemos agradecerao homem que ontem se apresentou. É preciso pois desmistificar o discurso do homem, é preciso recordar o que não se fez e devia ter sido feito, não deixar passar (mais uma vez?) a imagem do rigor, da honestidadee de outras coisas que na boca deste homem soam a falso, porque já deu provas do mais rotundo falhanço... Diz ele que não se candidata contra ninguém. Diz que se candidata ...para ajudar o País a vencer as dificuldades em que está mergulhado e construir um futuro melhor. Termino dizendo que, por um lado até acredito que ele não se candidate contra ninguém mas, por outro lado, que recuso a ajuda dele para construir o tal futuro melhor: o futuro que ele ajudou a construir está aí à vista de toda a gente... 

Estou disposto a contribuir com a minha campanha para desmistificar o discurso deste homem que ora se nos apresenta, depois de uma patética cena de um novo tabu. Os responsáveis políticos devem pegar neste tema, de imediato e mostrar às pessoas a realidade que está por trás do homem... 

Não, este homem decididamente não serve!

07 outubro 2005

UM DOMINGO DIFERENTE???

Duvido sinceramente que o próximo Domingo seja particularmente interessante, do ponto de vista da maioria das pessoas, que já não deposita grandes esperanças no poder autárquico deste País. Os exemplos que se multiplicaram nos últimos anos (10, 20 anos, ou mais?) não dignificam em nada a vida politica local, apostado que foi pelos intervenientes directos, no exercício mais rasteiro do poder de que há memória depois do 25 de Abril.

A profusão das rotundas nos sítios mais incríveis, a multiplicação das benesses ao betão, a cumplicidade (activa ou passiva) com o sub-mundo do futebol, a incapacidade em apostar na qualidade de vida dos cidadãos através de uma cultura de bem estar para todos, bem como de politicas culturais consentâneas, fez o que está agora à vista: um afastamento das pessoas, um alhear mais que preocupante mas real, um deixa-andar até ver...

Depois, as elites dos partidos do centrão, fazem o resto: promessas mais que falaciosas, discursos patéticos, afirmações bacocas de amor áterra, conversas para atrasados mentais, verdadeiros atentados à inteligência. E tudo isto porquê? Por alguma razão os 2 partidos do poder se esforçam por se parecerem um com o outro, enquanto se degladiam em ataques constantes, sem substância... Vejam-se os múltiplos exemplos (de que Lisboa é um caso paradigmático) onde o Partido Socialista não foi capaz de entender a necessidade da abrangência de uma candidatura de esquerda plural, porque não écapaz de se libertar das grilhetas e dos complexos que tem... Alguém de boa fé é capaz de entender que se classifiquem como socialistas, autarquias como Braga, Matosinhos, Felgueiras, ...? Isto sóparar citar alguns exemplos conhecidos de gestão ruinosa, de destruição de património, de desrespeito pelos direitos de cidadania, de completa submissão ao poder do dinheiro fácil e das tentativas mais ou menos evidentes para calar as vozes incómodas que de quando em vez se levantam...

A esperança vincada pela estrondosa derrota da direita nas últimas eleições não é devidamente alimentada pela situação actual, nem é capitalizada em termos de manifestação colectiva de rejeição de politicas que não servem os interesses da maioria. Infelizmente o tempo é de esferográficas, sacos de plástico, electrodomésticos e até... chouriços! Alastra a estupidez colectiva, as parangonas das televisões independentes e a miséria intelectual chocante das declarações dos políticos de carreira: "estamos aqui para servir Portugal, estamos aqui para servir os portugueses..."

Para mim não servem, vão "servir" para a rua deles, vão "servir" para o raio que os parta!

23 setembro 2005

A CAMINHO DO 3º MUNDO

Aqui se dá (justo) relevo a excertos de uma carta de um português atento (1), que eu subscrevo na íntegra, consciente de que é preciso cada vez mais uma posição de critica sistemática a esta mediocridade...

"Um cidadão português é apanhado a 200 Km por hora e não lhe é aplicada a multa de lei nem é apreendida a carta ao motorista. O cidadão em causa éo presidente do Tribunal Constitucional. O primeiro-ministro inaugura uma unidade industrial que labora ilegalmente em terrenos agrícolas desde 1997. O vice-presidente de uma câmara denuncia pressões do poder político e de promotores imobiliários para a aprovação de projectos urbanísticos.
Autarcas, dirigentes desportivos, ex-autarcas, candidatos a autarcas, ex-governantes, chefes de gabinete, amigos e angariadores de dinheiro para os partidos são arguidos ou estão indiciados como coniventes em processos de corrupção ou tráfico de influências... 
Estas são só algumas das notícias que se podem ler profusamente em quase toda a comunicação social. 
Não, não é em África. É em Portugal! 
Portugal tem um problema de corrupção. "A política dos solos tem sido moeda de troca para as mais variadas práticas fraudulentas e instrumento de enriquecimento pessoal". A autora destas frases é Maria JoséMorgado, insuspeita conhecedora da matéria em causa... 
João Cravinho diz que o governo deveria lançar uma política nacional anti-corrupção. Em sua opinião "não houve nenhum governo que enfrentasse este problema a sério" nos últimos 20 anos... 
A par disto tudo Portugal gasta 10 vezes mais em armas do que em ajuda humanitária... 
A par disto tudo, e talvez por isto tudo, Portugal não pára de perder lugares na lista dos países mais desenvolvidos do mundo e está já em 27º lugar no índice de desenvolvimento humano, tendo sido ultrapassado pela Eslovénia! 
A par disto tudo, e talvez por isto tudo, Portugal é o país da União Europeia em que o índice de repartição da riqueza é o mais desfavorável! 
Portugal já foi um país subdesenvolvido. Depois passou a país em vias de desenvolvimento mais para distinguir o subdesenvolvimento negro do subdesenvolvimento branco. Qualquer dia vai ter que se arranjar uma nova designação para, mais uma vez, este país se manter no seio de um clube ao qual não sabe ou não tem capacidade para pertencer.

Ou então deixa de fingir e passa mesmo para o 3º mundo. É só uma questão de se assumir...
"

(1) Carta publicada por António J. Ribeiro em Noticias Lusófonas, in http://www.noticiaslusofonas.com/view.php?load=arcview&article=11529&catogory=Lusófias

24 agosto 2005

S.L.B. (1)

"Sou do Benfica
E isso me envaidece
Tenho a genica
Que a qualquer engrandece"
Apesar dos resultados o não ajudarem
o nosso Clube é o maior.
Por isso, nunca desistas do teu BENFICA.
Ele precisa do teu apoio e calor!

Para que conste. Ser benfiquista é ser vermelho por dentro e por fora. É ter cá dentro a chama imensa, é ser a águia a voar tão alto que dela só temos a imagem das asas largas a cortar o vento. Sim, as camisolas berrantes também, a evoluir como papoilas saltitantes no relvado, verde de inveja precisamente por ser verde. E claro é amar perdidamente e dizê-lo cantando a toda a gente. A postura de um benfiquista ésempre altiva mas serena; porque somos de facto os maiores e mostramos a nossa garra em todos os campos, em todo o lado, enquanto aguardamos com serenidade a chegada ao primeiro lugar. Somos 6 milhões (mais ou menos...) e contudo somos sempre sóum, sob a bandeia encarnada que representa o sangue que nos corre nas veias. SOMOS UM Projecto ganhador, que nunca renega os seus princípios e que visa sempre a vitória. Temos orgulho de ser quem somos, não somos contra ninguém, simplesmente por nós próprios. Os outros que se cuidem: estamos sempre à fila, não pomos o pé em ramos verde; nem azul, claro. A nossa divisa é a unidade e não nos deixamos abater em maus momentos. E não desistimos nunca de coisa alguma: a alma e a garra de um benfiquista não esmorecem jamais; são garras e asas de condor! E nas vitórias somos sempre generosos, sabemos que não jogamos sozinhos; o jogo do adversário só valoriza os momentos de glória. Não, não há explicação possível para ser assim: éassim simplesmente. Por muito que nos tentem amedrontam, seremos cada vez maiores e mais fortes. Não iremos vacilar com pequenas ou grandes contrariedades, porque a chama é imensa e não se apagaránunca. O Tempo joga a favor de quem tem firmeza de princípios e justeza de razões. Temos fome e sede de Infinito!
Então, condensemos o mundo num só grito: Viva o BENFICA!!
!

(1)Ajudas: Florbela Espanca e Luís Piçarra

23 agosto 2005

DIVAGAÇÕES

A propósito (mais uma vez...) de Bertolt Brecht e do seu legado, sempre actual:
... Dentro de mim lutam
O entusiasmo pela macieira em flor
E o horror dos discursos do pintor de tabuletas
Mas só o segundoMe força a sentar-me à mesa
...
Discurso elucidativo que deveria valer para muitos dos que apregoam falácias diversas de várias matizes...

Sobre o valor dos homens e das suas empresas (sentido lato), o autor é bastante pragmático. Para ser lido e meditado (será que é mesmo possível?) por aqueles que vão ostentando os sinais exteriores que a gente sabe...(lembram-se de o Zeca cantar esta versão da "A Excepção e a Regra"?)
Ali está o rio
Dois homens na margem estão
Se um dá um passo o outro hesita
Será um valente? O outro não?
Bom negócio faz um deles
Tem o triunfo na mãoDo outro lado do rio
Só um come o fruto, o outra não
Ao outro passo o p'rigo
Novos castigos virão
Se ambos venceram o rio
Só um tubo ganha o outro não
Na margem já conquistada
Só um venceu a valer
Perdeu o outro a saúde
Mas nada ganhou pra viver...


E, para finalizar, um pensamento bem simples, ainda do
Brecht:

Quem construiu Tebas, a cidade das sete portas?Nos livros lêem-se os nomes dos reis.Mas terão os próprios reis carregado com as pedras?...

22 junho 2005

SERVIÇOS MÍNIMOS???


A nova invenção do Governo chama-se serviços mínimos na Educação e aplica-se, para saber, àgreve geral dos professores decretada pela FENPROF e pela FNE, as duas estruturas sindicais que representam os profissionais do Ensino em Portugal. Lembre-se a propósito, que as alíneas do nº2 do art. 598º do Código do Trabalho, por força de previsão expressa do art. 595º, nº 2, do mesmo Código, estabelecem necessidades sociais impreteríveis, como os tais serviços mínimos. O ridículo da situação, dificilmente superável, faz lembrar os piores momentos da Ferreira Leite no ME. De entre as asneiras que se têm dito e escrito sobre o assunto salienta-se a prosa, sempre diligente, do insuspeito José Manuel Fernandes, no PUBLICO de 20 de Junho; cito, sobre a greve ... a mais cruel chantagem..., ...tomar os alunos como reféns... e esta outra digna de qualquer cabeça fascista ...sindicatos dirigidos por profissionais do sindicalismo que se assustam com a perspectiva de um dia terem de voltar a dar aulas....

Então agora, a maioria dos comentadores estatizados inventou uma que também não desmerece o autor anterior e que ele aliás subscreve implicitamente no seu artigo merdoso. Trata-se da asserção fantástica de que a greve prejudica os alunos, as famílias e mais não sei quê! Ora essa, então uma greve não prejudica sempre alguém, a começar pelo grevista, que vêreduzido o seu ordenado e que se sacrifica por ele e pelos que (comodamente) não fazem greve? Pois claro que há prejuízo, para isso é que se faz greve, ou não será? Por esse andar ninguém fazia greve, que se calhar éa ideia da maioria daqueles que agora vociferam contra os professores...

Pelos vistos está na moda atacar os funcionários públicos e, por arrastamento claro, os professores. Pelos vistos querem reformar o sistema contra aqueles que sistematicamente o aguentam contra a incapacidade e a incompetência de sucessivos ministros, ministérios e comanditas associadas. Claro que é incomparavelmente mais fácil, mais barato e, se não dá milhões..., pelo menos resulta em demagogia e populismo...

Pois que viva a Sr.ª ministra da educação, que vai contra os interesses corporativos instalados e contra os malditos professores, que são uns malandros e que fazem greve aos exames, impedindo os meninos e os seus papás (e mamãs) que têm de ir de férias e não podem permitir que se atrase um exame... E viva também a mão firme do Sr. primeiro-ministro que não vacila diante de um grupo mais que privilegiado da nossa sociedade..
.
Que tristeza!

14 junho 2005




LUTO E LUTA...

Mais uma morte de um companheiro de luta pela liberdade. A morte de Álvaro Cunhal deixa a democracia e todo o seu legado mais pobre. Um grande pensador, um escritor, um artista plástico. Um Homem a quem devemos a liberdade; 11 anos preso nas cadeias fascistas, um nome da resistência, um politico de dimensão internacional, um internacionalista. Uma vida por uma causa.

É justo lembrar uma das quadras de Manuel Alegre, que dedico ao Álvaro, nesta despedida da vida: 
"Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não
".

Gente de vários quadrantes lamenta a perda de uma vida com sentido. Muitos gostam de salientar as grandes divergências que com ele mantinham. Poucos têm a coragem de admitir que durante décadas, o Partido que dirigiu foi a única fonte de resistência ao fascismo; numa hora destas, isso é muito mais importante que tudo o resto...
Para homens como o Álvaro, poderemos dizer com Luiz de Camões:
"...e aqueles que por obras valerosas
se vão da lei da Morte libertando.
.."

Adeus camarada...

12 junho 2005







ADEUS COMPANHEIRO...

A morte saiu-te àrua num dia de Junho. Abril tem 30 anos e sempre o soubeste recordar nas tuas intervenções... Curiosamente, a revolução passou-te compulsivamente áreserva, depois do triste Novembro, ao qual se associaram todos os democratas de hoje, e todos os salazaristas do passado. Força, força, ... se cantava, na altura em que tudo era possível. Soubeste resistir ao conformismo, foste um político do povo, sem fato e sem gravata. Falavas para os trabalhadores, irritaste os senhores do dinheiro. Soubeste merecer o respeito de muitos dos políticos de vários quadrantes, apesar de muitos deles te terem minado o terreno, á boa maneira da burguesia comprometida. Lutaste pela Reforma Agrária, pelos direitos dos camponeses; no entanto, agora 30 anos depois, vemos o Alentejo transformado num deserto gigantesco, ao sabor das políticas da massificação. Disseste até ao fim que acreditavas na Revolução, mas sempre com uma preocupação latente.

Foste um combatente e um patriota. Adeus companheiro Vasco!

08 junho 2005





UMA BALADA ESPECIAL....

Um momento de rara beleza em Braga, na passada 6º feira (3 de Junho), aquando da apresentação em Braga, na cooperativa Velha-a-Branca do livro *Balada Solitária* de Fran Alonso e Renato Roque, das edições Eterogémeas. Na linha seguida durante a apresentação, uma projecção com as fotos de ilustração do Renato Roque, a música (o piano) do João Lóio e leitura poética da Regina Castro.

A "Balada Solitária", onde Fran opina sobre a solidão e sobre inúmeras facetas do relacionamento entre as pessoas numa sociedade massificada, é um momento de delicada harmonia entre um conceito terrivelmente dramático e um pragmatismo de discurso e ilustração, com uma geometria mais que variável de sentimentos e palavras.
Através do que pode ser considerada a afirmação do betão, o Renato transporta-nos à complexidade emaranhada da individualidade intrínseca á urbanidade dos nossos dias: porque associei logo os arames do betão ao traçado (errático?) dos nossos neurónios? Puro acaso???

A radicalidade assumida dos autores aliada a um despretensiosismo evidente, leva-nos à cidade que nunca é a nossa, mas sim a que desenhamos numa arquitectura imaginária, onde o sonho é possível. Ou, já agora, como diz o Fran Alonso
Fran Alonso, Cidades, Edicións Xerais de Galicia, Vigo:

"Entre tódalas cidades prefiro as que dormen sobre o mar
ou aquelas que se erguen na areado deserto.
As primeiras están habitadas por sardiñas de prata,
e as segundas por dátiles de luz"
.

30 maio 2005

O NÃO ...

Pela primeira vez no nosso País uma questão europeia vem agitar as águas mornas da política caseira. O facto é que elas nunca foram debatidas suficientemente em Portugal e por isso ninguém sabe bem o que pensar sobre uma futura Constituição Europeia. Não conhecem os contornos da questão. E não conhecem também a proposta de texto do Tratado Constitucional. Não sabem, por exemplo, o que representa a directiva Bolkestein que conduz o chamado modelo social europeu a um monte de retalhos e uma enganosa falácia e que mais não passa de um formato pérfido de mais uma deriva neo-liberal da Europa, aliás bem personificada no presidente da Comissão, o tal José Manuel Barroso.

A alegada visão apocalíptica de que o não ao Tratado significa o caos é a mesma (vai ser a mesma...) em qualquer dos países onde o referendo se realizar. As mais altas esferas comportam-se (comportar-se-ão...) aqui como lá (França, etc...): presidentes, primeiros-ministros, senadores, e toda a comandita instalada e burocrática. E no caso francês, écaso para dizer: bem feito! Como já li algures, esta tirada espectacular: mais oui, c'est non... Lá como cá (?) amaioria dos eleitores acredita na Europa, mas não necessariamente na Europa que nos querem impor aos atropelos. A França voltou assim, creio eu, a dar uma lição de liberdade ao mundo.
Apesar de nos acenarem (barómetro DN / TSF do fim de semana) com sondagens duvidosas sobre os resultados de uma putativa votação sobre o sim ao Tratado, a realidade é que as pessoas não sabem, não conhecem e (sobretudo) não querem votar ao mesmo tempo que para as Autarquias e não querem mais uma vez ser carneiros. A França é um bom exemplo, só há que segui-lo e esperar para ver até onde vai o descaramento dos liberais do costume e de todos os seus lacaios, tenham a cor que tiverem...

É mesmo muito bem feito!

13 maio 2005

PARA QUE SERVE UMA "QUEIMA"?

É mais um balanço desastroso de mais uma "QUEIMA" na cidade de Braga. Mais uma semana de bebedeiras, de barulho até às tantas da madrugada numa zona residencial da cidade. Ano após ano, ninguém é capaz de fazer nada contra o estado de coisas a que a Câmara, o Governo Civil e pelos vistos a prestimosa Associação de Estudantes "condenaram" milhares de pessoas indefesas que moram na zona. Consta até (…) que em 2003, as autoridades (?) pretenderam deslocalizar a "festa" para outro lado, mas a Associação não quis, porque tal era um prejuízo enorme. E como em outras situações do género, esta Câmara acedeu, porque os interesses corporativos de um pequeno (ínfimo, digo eu…) grupo se devem sobrepor aos do interesse geral. Nada que me admire, aliás deste executivo camarário. Até há bem pouco tempo existia, em plena baixa, um bar que debitava decibéis até às tantas; claro que o dito bar era pertença de um familiar do digníssimo presidente…

Para que serve então a tal "QUEIMA", nesta terra santificada, seja lá como? Talvez para acicatar a opinião generalizada de que os estudantes mais não fazem ao longo do ano do que irritar solenemente durante uma semana inteira, uma grande parte da cidade que nem consegue dormir descansada…

Estamos pois perante mais um caso de calamidade pública pior que a seca. Eu sinceramente gostava de saber em quantas cidades do mundo civilizado acontece o mesmo. Como se salvaguarda a lei do ruído, a defesa dos direitos das pessoas, o direito ao descanso, sei lá que mais. Quanto é que tais coisas pesam para esta Câmara, quanto vale o direito do cidadão comum. E já não falo dos direitos culturais, numa terra onde isso vale ao que parece simplesmente nada, como se pode ver em termos de iniciativas locais em termos de cultura. Uma cidade bacoca, parola, que cresce em cimento e betão e decresce em tudo que se relaciona com o respeito pelas pessoas.

Mas "eles" pelos vistos não pensam assim. E atacam ferozmente quem contra eles investe. Têm todo o poder, tal como no tempo do fascismo, ao serviço dos interesses dos grupos estabelecidos, pavoneiam-se por aí, produzem declarações parvas e cretinas e agarram-se cada vez mais uns aos outros, quanto toca a rebate. Pior, ao abrigo da democracia que os legitima, arrastam-se na lama do favor, da pequena política e do mais profundo desprezo pelo tal "povão" que neles vota sucessivamente; até quando?

Ao menos, digo eu aos cidadãos comuns, pensem na hora decisiva; organizem-se, não sejam carneiros, não tenham medo. "Eles" não duram sempre…

03 maio 2005

FORMALISTAS, BUROCRATAS E EMPATAS...

É um dos sintomas mais negativos deste País: o formalismo, que não é nem mais nem menos que a obsessão pela norma, pelo cumprimento escrupuloso dos prazos e das formalidades, que se sobrepõe a tudo, mesmo que isso signifique o esgotar de um processo de forma definitiva. Veja-se o caso típico da justiça, em que (vulgarmente) acontecem situações de prescrição só porque os circuitos habituais não permitiram uma análise atempada. A burocracia é uma outra faceta do formalismo: nele se baseia e dele bebe o conceito fundamental, que no fundo é que tudo se justifica por si mesmo; a forma vale tudo e significa muito mais que a razão, seja ela qual for.
O País vive destes empatas, que podem ser pessoas individuais ou colectivas, mas sempre com a mesma preocupação: fazer depender tudo da sua "preocupação" pelo estafado "cumprimento".

Tudo isto para comentar a decisão presidencial sobre a não convocação do referendo sobre a IVG. Nada que não fosse já esperado. A preocupação do PR com prazos, cumprimentos, normas e mais não sei quê, é a sua principal marca. Procedeu conforme é o seu timbre: deixar esgotar os prazos, para depois dizer que não tinha prazos. Tudo conforme o habitual neste estafado órgão de soberania, que nem se sabe bem para que serve neste momento. Depois, como diz o outro "fala, fala e não diz nada…", ou então "fala, fala e nem se sabe para quê, porque fica tudo na mesma". Como digo, a mim já nada me admira, nem nada espero deste PR.

O mesmo não se poderá dizer dos partidos políticos. Ou pelo menos da parte do PS e do BE. Estavam à espera de quê, com a confusão lançada sobre a opinião pública, depois das eleições? Então para que serve a Assembleia da Republica (AR)? Será que a AR não tem a legitimidade para se pronunciar sobre tão grave problema que afecta as mulheres, sobretudo as de parcos recursos e afecta a sociedade e o seu equilíbrio? Mas referendo, para quê, quando existe uma Assembleia mandatada e com maioria mais que suficiente para legislar sobre o assunto?

E para terminar para o cidadão Jorge Sampaio em mais esta embrulhada, mais uma vez ao lado da direita (porque é que não me admiro?): as pessoas sabem bem o que pensam sobre o assunto e querem uma decisão mais que urgente; não precisam de mais prazos, de mais formalidades, de mais nada; precisa-se é de uma nova lei sobre o assunto.

Ainda bem que Helena Roseta vem hoje dizer que compete na realidade à AR decidir, legislar sobre o assunto em definitivo. Mas acontece que já há muito tempo a esta parte, houve milhares de pessoas e um partido (o PCP) que já tinham dada a sua opinião sobre o assunto de forma também definitiva. Para que conste, aliás a única posição correcta!

02 maio 2005

O 1º DE MAIO EM 2005

Já não será um tempo de bandeiras vermelhas ao vento saudando a liberdade e os direitos de quem trabalha. Já não será porventura uma data com carga politica bem determinada. Não será concerteza marca de unidade sindical, há muito tempo foi gorada.

Qual o significado em 2005 de um 1º de Maio? Pois bem, que seja uma data de denúncia permanente e sistemática das condições de vida dos trabalhadores, a começar por aqueles que não conseguem trabalhar. O nosso País é hoje um deserto de 500 mil desempregados, número a subir todos os meses. Isso sabemos e não podemos deixar de denunciar.

Sabemos também que 20 por cento - dois milhões de pessoas - da população portuguesa vive abaixo do limiar da pobreza, mesmo após os subsídios a que tem direito. E que o número de portugueses a passar fome poderá neste momento chegar aos 300 mil. Iniciativas como a criação de um fundo de emergência social para acabar com a fome em Portugal, bem podiam tomar corpo, já que foram propostas no final de 2003, face ao agravar das condições existentes.
E sabemos muito mais coisas que significam discriminações e violações constantes dos direitos de quem trabalha e paga impostos numa sociedade de injustiça e de falta de respeito permanente pela dignidade das pessoas.

Que o 1º de Maio seja mais que uma formal comemoração; que seja de facto uma festa, mas uma festa consciente, que canta as vitórias, mas que não se esqueça nunca da luta constante a travar, da luta que o Zeca Afonso fala no seu poema:

"Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar
"

Cantigas do Maio, Lisboa 1971

27 abril 2005

ISTO É QUE É MAIS JUSTIÇA, MEUS SENHORES???…

1. A noticia da libertação dos culpados pela morte de um agente da Judiciaria, pelo facto (aparentemente usual) de o Tribunal não ter cumprido os prazos previstos, é um bom exemplo da ineficácia da justiça deste País. Tal aconteceu, dado que (pelos vistos) houve um recurso às condenações, que variavam entre os 8 e os 16 anos. Isto já ultrapassa a chamada lentidão; esta justiça é de facto uma injustiça. Como irão reagir a isto a família e os entes mais próximos do agente assassinado? Sim, porque é preciso equacionar as consequências sociais de uma decisão deste tipo. Os formalismos não se podem sobrepor a tudo. Qualquer dia começam a aparecer fenómenos marginais a estas situações. Depois admirem-se…
2. "Os 23 homens e mulheres suspeitos de recrutarem portugueses para trabalho escravo em Espanha saíram em liberdade, esta quarta-feira de madrugada, do Tribunal de Instrução Criminal do Porto", segundo a notícia da Lusa, hoje de manhã. Os culpados dedicavam a sua actividade à contratação de pessoas desempregadas, algumas da quais com reconhecida debilidade mental, para trabalharem em propriedades agrícolas espanholas. Todos eles são portugueses, embora residissem grande parte do tempo em Espanha e foram indiciados de crimes de "escravidão, sequestro, branqueamento de capitais e associação criminosa". Aguardam o julgamento… em liberdade. Fantástico!
3. O homem que compra votos com electrodomésticos, finalmente "apanhado" nas malhas da lei, indiciado de trinta e tal crimes de corrupção e tráfico de influências vai novamente ocupar o lugar de Presidente da Liga de Futebol. Volta, ao que consta pela porta grande, com todo o desplante de quem tem sempre razão. Parece que nada (mesmo nada) entretanto se passou e ainda por cima aproveita para malhar forte e feio no Director Executivo, que parece que não o foi receber à porta…

Não haverá ninguém que possa por cobro a isto?

PARABENS CORREIA DE CAMPOS!

O Ministro da Saúde (MS) decidiu colocar ponto final em 2 situações de favor, bem típicas da sociedade portuguesa e bem elucidativas das escandalosas arbitrariedades dos Governos da Direita de Barroso e Lopes.
Primeiro, acabou com o Protocolo que previa o acolhimento de doentes necessitados de cuidados hospitalares, mas não permanentes, pelos hospitais de cuidados continuados das Misericórdias, cabendo ao MS pagar um valor por cada doente à instituição acolhedora. A notícia diz que as camas contratualizadas teriam sido negociadas, sendo pagas a 50%, mesmo não estando ocupadas, o que personificava uma situação de enriquecimento que o ministro da Saúde considerou "intolerável". O citado Protocolo foi negociado
em Maio do ano passado entre a UMP e o MS, mas, apesar do seu início estar previsto para Julho de 2004, apenas começou no final do mesmo ano.
Segundo, decidiu suspender a construção do Centro Materno Infantil do Norte (CMIN) no Hospital de S. João, no Porto, e considerou que o Ministério que tutela está a ser lesado de forma "indigna" com o processo. O acordo com a Câmara do Porto previa a construção de um bairro social na cidade, financiado pelo MS a 60%. Ao que consta, o Ministério teria sido lesado neste processo em mais de 10 milhões de euros.

Apetece agora perguntar aos ideólogos (e executivos) da Direita se isto tem alguma coisa a ver com o tal conceito de "menos Estado".

Parabéns então António, que estás no bom caminho; também concordo contigo quando dizes que a vocação do Ministério da Saúde não é propriamente financiar a Câmara do Porto…

25 abril 2005



31 ANOS DEPOIS!</b>

Já lá vão 31 anos. Muitos anos passados sobre a libertação, muitos anos de luta por uma sociedade melhor. Que deveríamos ter, mas não temos ainda. Temos um País mais moderno, mais soft, mais na crista da onda, mais telemóveis, mais auto-estradas, mas centros comerciais, mais canais de televisão, mais uma data de coisas que (nem) toda a gente conhece. Mas, apesar de tudo, temos o País mais atrasado da Europa, mais pobre, mais pobres, mais fome, mais endividado, mais mal-educado, mais caro, mais iletrado, mais mortos nas estradas.

Vá lá saber-se porquê! O certo é que os 50 anos de fascismo, cavados numa memoria colectiva comum, falam por vezes ainda mais forte que a liberdade e a cidadania conquistadas a ferros na manhã de 25 de Abril de 74. Há ainda resquícios de fascismo, de fascismos individuais e colectivos agarrados a conceitos, a preconceitos que por vezes falam mais forte que o sentimento a vontade de mudança. Respiramos liberdade, bebemos democracia, ao mesmo tempo que enjeitamos a diferença. Às diferenças, não somos tolerantes quando é preciso e somos transigentes quando não o deveríamos ser. Parece que nos falta o tal golpe de asa, a radicalidade capaz de rejeitar o que não presta e partir para a construção dos edifícios, das arquitecturas novas, que não se compadecem com o velho edifício a cair que já não pode contemplar qualquer recuperação.
De qualquer forma, é bom o ar livre da liberdade, ou como diria Miguel Torga :
"Ar livre, que não respiro!
Ou são pela asfixia?
Miséria de cobardia
Que não arromba a janela
Da sala onde a fantasia
Estiola e fica amarela!
Ar livre, sem restrições!
Ou há pulmões,
Ou não há!
Fechem as outras riquezas,
Mas tenham fartas as mesas
Do ar que a vida nos dá!
"

Ao respirá-lo, é bom que tenhamos em linha de conta que o olhar em frente, o olhar para o futuro, não se pode fazer sem pensar o que esteve para trás. Há quem saiba bem fundo o que foi a noite fascista, com bem fala o Sérgio Godinho :
"Vivemos tantos anos a falar pela calada
só se pode querer tudo quando não se teve nada
só quer a vida cheia quem teve a vida parada
só quer a vida cheia quem teve a vida parada
"

Nestes 31 anos é bom estar atento e recusar os conservadorismos formalistas que levam a que o País demore anos a recuperar: os atrasos da justiça, os atrasos na formação dos governos, os atrasados mentais que ainda temos à frente dalgumas administrações, os pobres de espírito que entravam todos os processos de desenvolvimento dentro das suas coutadas pessoais de que alguém com bom senso terão qualquer dia terá de correr a pontapé.
Ainda é tempo: Ruy Belo diz que:
"O PORTUGAL futuro é um país
Aonde o puro pássaro é possível...
"
Haverá aí alguém que o possa impedir de voar???

08 abril 2005

MAIS PAPISTAS QUE O PAPA…

Com todo o respeito. Com todo o recato devido pela morte. Com toda a consideração da parte de quem não é católico. Mas realmente todo este espectáculo mediático montado à volta da igreja de Roma e da morte do Papa é demais. Não dá para entender porque motivo o circo publicitário montado anula tudo o que é noticia. Cá pelo burgo e também lá fora. Já se esqueceram que estão novamente a ser julgadas mulheres em Setúbal pelo crime de decidirem que não queriam ter um filho. Nem se fala do novo governo. Parece que caiu no esquecimento o pronunciamento de mais de 200 pessoas no caso "apito dourado". O Benfica leva 6 pontos de avanço, está quase (digo eu!) a ser campeão e ninguém liga nada. Ficamos no entanto a saber o que é o conclave, o que é um cardeal camerlengo (mesmo sem ler o Dan Brown…). Estamos atentos à corrida de apostas sobre o novo Papa (é verdade, eu ouvi…) e ainda que o nosso Presidente aposta num Papa português. Estamos na crista da onda, em cima do acontecimento. A TSF, a minha rádio de referência parece a Renascença: ele é entrevista, ele são programas especiais, ele são fóruns seguidos sobre o mesmo tema (eu já contei 3 em outros tantos dias), mais as opiniões de padres e cardeais, sem esquecer a publicidade barata sobre esse fenómeno horrendo e vergonhoso que é Fátima. Estado laico? Nem por isso. Se calhar aquele deputado do CDS é que tinha razão, quanto à religião oficial do estado (lembram-se?). Porque o que conta, por estes dias, não é o que está estabelecido, mas sim o que está na moda, o que é realmente notícia, o que vende na "abençoada" comunicação social.

Ficam de fora os milhões no mundo que morrem com sida; atenção que o uso do preservativo é pecado mortal! O orçamento do Vaticano era capaz de dar para cobrir a divida do 3º Mundo. Mas isso existe na realidade? Não será muito mais prático não falar das coisas que incomodam? Não vende, portanto não se fala. A hierarquia da igreja de Roma agradece. Mais papistas que o próprio Papa os apoiantes e instigadores deste circo dão de barato a imagem de pessoas preocupadas com a "paz", com a "igualdade", com os "desfavorecidos". Deus lhes perdoe!

Entretanto, a vida continua. Apetecia agora dizer que realmente há vida, para além da morte do Papa. Com todo o respeito.

30 março 2005

A ALFINETADA

O Partido Socialista decidiu (e bem) concorrer em coligação com o PCP e o BE nas eleições às autárquicas, nomeadamente nas câmaras de Lisboa e Porto. A notícia é dada por Jorge Coelho na noite de hoje. Parte-se do princípio (correctíssimo) de que existe realmente uma sincera vontade de muitos eleitores em dar a uma coligação de esquerda a hipótese de liderar as 2 maiores câmaras do País. Tudo como se previa alias, após alguma discussão pública do tema. Mas Jorge Coelho tinha que dar a alfinetada do costume. Que, diz ele, o PS tem votos suficientes para ganhar as eleições nas 2 cidades, que tem o seu projecto, etc, etc…

Ora bem, mais uma vez Jorge Coelho perde uma óptima oportunidade para estar calado. Então se o PS tem os votos suficientes para ganhar, para que faz coligações? Se tem o seu projecto e acredita nele, porque não vai sozinho? O quer Coelho dizer com isto? Acho que não fica bem dizer as 2 coisas ao mesmo tempo; não será?

Sabemos que não é fácil fazer uma coligação de 3 partidos. É preciso fazer cedências, ter algum cuidado com as sensibilidades próprias de cada força politica, ajustar vontades, acertar ideias base. Mas é aí que reside a força da democracia. E no fundo corresponder á vontade de uma imensa maioria de portugueses que demonstraram nas últimas eleições a confiança a num verdadeiro projecto de esquerda para este País.

Ficava bem ao Jorge um certo recato, uma certa modéstia; mas não, preferiu a alfinetada; precisamente àqueles com quem se propõe coligar. Sinceramente, não havia necessidade

29 março 2005

MARKETING SANTO

As recentes notícias sobre o estado de saúde de Karol Woitila são um verdadeiro golpe publicitário barato. Como se pode admitir que se faça da vida de um homem doente e, quem sabe em estado terminal, um festival de "fala-não-fala, aparece-não-aparece, dá-não-dá a bênção e outros que tais? A hierarquia da igreja católica é um constante exemplo de práticas persecutórias de mau gosto, instigadas por uns tantos fundamentalistas espalhados um pouco por todo o lado e interessados em manter um status dificilmente justificável. Acho graça em ouvir as opiniões dos chamados católicos não-praticantes, uma espécie que abunda por aí e que não é senão coisa nenhuma, mas que alimenta as estatísticas da uma igreja perfeitamente decrépita e sem credibilidade. O homem devia merecer mais respeito por parte daqueles que (supostamente) o veneram (seja lá o que isso possa significar). A pompa e circunstância do Estado mais rico do mundo já não consegue disfarçar a podridão imensa que atola os seus mais altos signatários. O poderoso Estado do Vaticano, sempre com as mãos sujas de influências, alimentando e alimentado pelos opus-deis de toda a parte, já não tem lições (será que alguma vez teve?) para dar a ninguém, tirando os seus mais dilectos parceiros…

Os analistas de assuntos da igreja, feitos abutres, alimentam diariamente nas rádios e na restante comunicação social um autentico totoloto da fé, uma lotaria de duvidosa religiosidade, sem qualquer respeito pela vida de uma pessoa, que admito se esforçou por ser protagonista activo na ultima década.

Nem tudo devia valer nestas alturas. Alguém acredita (questão de fé) que Karol Woitila esteja ainda na posse das suas faculdades mentais (para não dizer simplesmente físicas)? Francamente, não havia necessidade… Já não há respeito por nada, nem sequer pelo recato de quem sofre…

11 março 2005




A ROLHA SEM GOSTO…

Ainda há poucos dias me confessava, num jantar de amigos, que vale a pena lutar pela defesa da qualidade. Isto a propósito de várias coisas, conversas quer se têm, sobre isto, sobre aquilo, toda a gente se queixa do mesmo, da indiferença, da mediocridade, do deixa-andar bem à portuguesa. O que se faz de bom não tem valor, o que chama a atenção do país é o pequeno escândalo, a notícia chocante, a boca mandada á socapa.

Quisera estar com ela no EuroParque, mas outros ventos me levaram para outras paragens nesse dia. No dia em que Alzira e o seu Centro Tecnológico da Cortiça deram a conhecer a invenção da rolha sem gosto: 2 anos de investigação, com os "recursos da casa", como atesta a notícia do Publico de 10 de Março. Investigação fundamental para Portugal, dada a possibilidade de consolidação da cortiça num mercado difícil e com grandes ameaças, nomeadamente as dos concorrentes sintéticos.

Para se provar que há País para além da mediania comum, lamentada no dia a dia. Para além do défice, para além das tricas das celebridades com ou sem quintas. Que a aposta na qualidade e na qualificação dos recursos humanos é o caminho a seguir para a verdadeira sociedade do conhecimento.

Sei das dificuldades que neste País existem para se trilhar um caminho diferente, com um discurso diferente. E a diferença estará somente na atitude em relação ao que nos rodeia. Uma atitude positiva, pela mudança e pela transformação. Porque vale a pena, porque simplesmente faz parte da vida e da luta que travamos por uma sociedade melhor.

Para a Alzira, uma palavra de carinho, com o gosto de uma rolha que bem ficaria na boca de muitos que neste País falam, sem terem nada para dizer aos outros…

09 março 2005

A PALAVRA QUE FOGE…
Por vezes há certos tiques que são fatais. Expressões verbais que caem mal a quem ouve, mas que ficam muito pior a quem as profere. Em tempos de acalmia politica, em tempos de expectativa mais que justificada, as coisas apresentam-se sempre sob um manto diáfano, que nem os próprios intervenientes directos convêm macular. Os sintomas manifestam-se normalmente quando um dado personagem é instigado, sempre pela atenta comunicação social e não consegue disfarçar aquele sentimento de quem foi justamente promovido à elite da causa pública. Então, como que pautado pelo desígnio de quem tem entre mãos a responsabilidade de chefiar uma putativa mudança (mesmo que tal não passe de …), atira para o ar aquelas frases que nada dizem, mas que ficam bem na conjuntura; pois "estaremos atentos aos novos sinais…", "sabemos o que o País espera de nós…", "naturalmente é ainda muito cedo para …". Outros não conseguem disfarçar a "promoção" e fazem aquilo que em ciência politica é considerado desajustado ao momento. Não conseguindo dominar impulsos naturalmente mal dominados, os tiques, deixam escapar a incontida vontade, manifestando a surda escapadela para o óbvio. Mas, como bem dizia Stendhal, "a palavra foi dada ao homem para esconder o seu pensamento"; na gíria, há realmente coisas que não se devem dizer.

Por isso, o recém-nomeado Ministro das Finanças esteve mal, ao declarar o propalado aumento de impostos, como acto natural, ainda que não no imediato. Contra tudo o que disse na campanha quem o nomeou. Tradicionalmente no nosso País, o cargo da liderança das Finanças é visto (e na realidade o é) como um super ministério, acima (?) dos outros. Todos os colegas lhe devem a natural vassalagem, pois será ele quem determina as verbas para cada um, os cortes, sei lá que mais. Os casos dos notáveis do passado, que passaram pelo lugar, a começar pelo inevitável homem de Santa Comba, deixaram uma marca que ainda hoje se mantém. Não só uma marca, como ainda uma estrutura de médio século de burocratas, uma tradição de favor e de comprometimento com os que não cumprem e de justiça de talião para as pequenas escapadelas.

Haverá finalmente quem tenha coragem de mudar isto???


O RETRATO
O episódio do retrato que deixa a sede do Caldas e vai (vai mesmo?) para a sede do Rato não é mais que uma manobra de diversão. Independentemente da justiça relativa do acto. A política é feita de factos e este é mais um de quem já não tem mais nada para dar aos cidadãos. Há os que afirmam "não posso conformar-me com o facto de o partido ser um partido de 7 vírgula tal por cento…", Nobre Guedes à TSF na grande entrevista de Margarida Marante, sábado passado. Há ainda quem diga "Paulo Portas tem muito a dar ao partido…", Telmo Correia também à TSF na semana passada.
Mas eles não têm nada, mas mesmo nada para dar ao País. E ainda bem, porque o País não precisa mesmo nada deles, nem da demagogia, nem do populismo parolo que os caracteriza. Ficam muito bem na prateleira e diga-se de passagem que lá ficariam se não fora alguém lhes ter dado a mão para chegar onde chegaram.
Este o verdadeiro retrato de uma direita envergonhada, bacoca e sem arte para fazer melhor. Deste retrato já não podem fugir e não pode ser mandado para uma outra qualquer sede…