rio torto

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20 junho 2016

A DIMENSÃO












"A desvalorização do mundo humano 
cresce na razão directa da valorização
do mundo das coisas"

Karl Marx




A estátua e o homem. O exagero não estará porventura na dimensão do órgão, mas poderá residir no facto em si, atribuindo uma messiânica função a quem não tem, lá está, a dimensão suficiente. Pondo de lado o órgão, claro. O que se vê em campo, pela tal selecção a quem alguns querem atribuir a dimensão nacional e uma representatividade que ultrapassaria a nação e se projectaria na tal globalidade europeia ou mesmo mundial, não fora a traição dos resultados, pese sempre a postura em campo, que se diz digna, superior e de bom recorte técnico. Brinca-se hoje com o poste, fosse ele a origem de todo o mal, a angústia do penalti aqui em toda a sua (imaginem!) dimensão. Aquele que era, pelos vistos, um desígnio, legitimamente configurado para a vitória total, voa agora baixinho rasteiro, ao nível do gramado, que de tão sintético se torna verdadeiro. O homem que se diz o melhor do mundo e possivelmente arredores, é realmente soberbo na linguagem gestual que ostenta a cada jogada, a cada paragem de jogo, para as câmaras, para a ribalta que o lançou como um produto acabado do consumismo e da mais patética e promíscua socialite, uma dimensão que nos ultrapassa e terá quiçá compreensão ao nível do etéreo, nunca lá chegaremos, nem a tal aspiramos, de simples mortais que somos, sem direito a estátua, nem a tamanha dimensão. Se acreditarmos no jargão popular, esse sim ao nível do comum dos mortais, “quanto mais se sobe, maior é a queda”, decerto que já não queremos subir a tal dimensão, donde excluímos naturalmente o órgão, sobretudo aqueles que o podem ter.

Por alguma razão ao ouvir hoje a estação de rádio TSF conceder 25 minutos a uma conferência de imprensa de um jogador, a quem colocaram as questões mais parvas e contudo profundas, retorquindo o dito (jogador) com o mais redondo discurso, embora revelador, senti o verdadeiro significado da dimensão. E ainda, o verdadeiro sentido da essência, numa angélica busca interior da maior dimensão. Conclui, imaginem, que basta marcar um golo ao adversário e não sofrer nenhum, para seguir em frente.
Seja lá para onde for…

15 maio 2016

TOURADA



Afirma com energia o disparate que quiseres e acabarás por encontrar quem acredite em ti
Virgílio Ferreira








Eu sabia. 
Haveria de estar em frente da TV precisamente um quarto para o meio-dia. Daria para gravar, mas ao vivo era outra coisa. E sabia que, do outro lado do mundo, haveria uns não sei quantos milhões a ver a coisa que dava por cá, um prodígio de valor porque, como um dos intérpretes viria a dizer, o nosso produto é bom. Já há uns dias atrás, um idiota mascarado de economista trocaria uns quantos papéis com números manipulados, para mostrar ao povo que o apocalipse se aproximava perigosamente e era preciso fazer qualquer coisa para subtrair o poder a quem o tinha usurpado, na gloriosa pátria bem-amada. Onde o produto, não nos esqueçamos, é bom, dando portanto para exportar, enriquecendo assim a suposta e inerente taxa que faz a riqueza do país aumentar. Não interesse para quem, isso é outra história.
Havia de tudo na messe, era só apostar e aparecia sempre um tipo de calções com a bandeja das oferendas que um catroga qualquer (dava por esse nome) coleccionava aos milhões e passava para o outro lado do mundo, numa orquestrada sinfonia espaventosa. Embora em tempos idos, o tal tipo pregasse a pobreza como onírica ventura. Não havia pois qualquer dúvida, era o acontecimento do século, no rescaldo do 13 de Maio, de boa memória para a populaça, um bom negócio afinal para juntar umas coroas, em velas, passeatas e afins. A pátria vendida a preço de saldo, mas com aquela garra lusitana que orgulhava sempre o pequenote rapazola que andava sempre (havia-lhe ganho o gosto durante 4 anos) com um emblema na lapela e chutava sempre para canto, quando se falava em inaugurações.
O país rendido aos pés da estupidez, marchava direitinho para a terra santa, enquanto uns quantos empunhavam estranhas bandeiras, umas com uma seta para cima e outras com um alvo e duas setas apontadas para ele, em que só acertavam de cada vez que falhavam. Que me lembre, havia uma senhora de crista, que gritava bem alto o peixe que vendia, bem fedorento diga-se entretanto, de podre que devia estar.
Era para ser festa uma dia depois, quando a maralha descesse a rua e irrompesse na praça, onde um marquês ostenta uma bandeia encarnada. Mas tão não era novidade, de há 3 anos a esta parte, nada de anormal, muito embora a saudável estranheza de muitas bandeiras vermelhas na rua, assuste sempre aqueles (e aquelas) que preferem a cova da iria à cova da moura, vá lá saber-se porquê, mistérios insondáveis quiçá.
Havia ainda uma estória mal contada e que envolvia o tipo que andava a tirar o tapete aos colégios, uma trama imensa, um golpe insidioso contra a “liberdade de escolha”, que para os detractores não era mais que a obrigação que a maioria terá em lhes amparar e confortar o luxo a que divinamente têm direito.
No meio de tanta confusão ficamos sem saber quem ganhou o jogo, embora a esperança fique de pé, para mais logo a invasão ser uma vaga de fundo. Sabemos que, hoje como antes, “toureamos ombro a ombro as feras[1]. E que na tourada da vida acabaremos sempre por ter que “pegar o mundo/pelos cornos da desgraça/e fazermos da tristeza/graça[2].
Quanto ao resto, que nos valha são marcelo, senhor de Belém e de todos os afectos. Amém.



[1] Extracto do poema “Tourada”, José Carlos Ary dos Santos, Lisboa 1973
[2] Idem, ibidem

25 abril 2016

OS FILHOS DE ABRIL


O homem não teria alcançado o possível se,
repetidas vezes, não tivesse tentado o impossível.
Max Weber












Ei-los que chegam de todo o lado às ruas, praças e avenidas a louvar a Festa, que em tempos foi bonita pá, sim senhor e agora, muitos anos depois, tanta água do rio que passou e que percebe não volta a passar, para o bem e para o mal da esperança que sempre nos conforta.
Eles são os filhos da Revolução, a quem passamos um património pleno de convulsões e contradições. São agora maiores, vacinados pelos tempos amargos dos dias de chumbo que ainda nos assolam, pela sua tremenda marca.

São altivos e sabem porque a árvore não deu frutos, pelo menos os suficientes para alimentar a luta que deve ser permanente, como a Revolução, que assim nos ensinaram. E se contestamos quase tudo, tal não contestaremos, porque faz parte da nossa cultura.
A rua nos obriga a vir gritar a Liberdade. Desceremos a Avenida proclamando o reinado das pessoas dignas e lembrando os tempos “…dos passeios que demos/Pela cidade? Dos dias que passámos/Nos braços da cidade?/Coleccionámos gente, rostos simples, frases/De nenhum valor para além do mistério[1]

Os filhos de Abril sabem que devem continuar a tarefa suprema de interpretar a Democracia na sua plena asserção. Que lhes compete lutar quando as forças nos começarem a trair. Agora, no tempo em que estamos lado a lado, queremos sempre saber se basta “…agitar a malta”, ou se o que faz falta mesmo “…é dar poder à malta”[2]. Acreditamos que sim, que a nova esperança que reina em Portugal seja a afirmação de poder mudar, de poder inovar, de poder construir.

Sabendo que a “liberdade está a passar por aqui”, embarquemos na Maré Alta[3] de Abril, gerações juntas na mesma empresa, rio de esperança, flor sem tempo, terra da fraternidade!

25 DE ABRIL, SEMPRE!




[1] Extracto de “Surrealismo/Abjeccionismo”, Alexandre O´Neill, 1963

[2] Referência a canção do Zeca
[3] Extracto da canção, Sérgio Godinho, 1971

17 abril 2016

O ABRIL DA NOSSA MEMÓRIA







Da memória colectiva se escreve um país, se constrói uma identidade, se afirma uma vontade imensa de Liberdade. Crescemos de certa forma com Abril, no ano 74 do já passado século, que contudo é a nossa referência de conceitos, princípios e determinação pela mudança. Fizemo-nos adultos, formamo-nos cidadãos, afirmando valores de contestação de uma sociedade podre, castradora e ruim. E, convém não esquecer, repressiva e asfixiante, na vertente fascista nacional protagonizada por lacaios de uma ideologia nefasta da crueldade e da miséria. Passamos por tudo isso, privamos com todos os que sempre acreditaram. E “Foi então que Abril abriu/as portas da claridade/e a nossa gente invadiu/a sua própria cidade”[1]. O exemplo de uma tribo que emergiu quando necessário, tornando dia a longa noite, acordando para a dignidade.

Passaram tantos anos, tantas desilusões, tanta água que, ao invés de limpar a sujidade e a miséria, parecia alimentar a fonte da iníqua injustiça. Nunca se deixou de lutar, é verdade, mas parecia sempre uma luta desigual, uma frente que avançava num ritmo tão lento que exasperava. Alguém teria dito “Temos fantasmas tão educados/que adormecemos no seu ombro…”[2] . Eles que porventura nos tolhiam o espírito e nos toldavam a memória? E nos dificultavam o raciocínio lógico que permitiria vislumbrar mais longe do que a varanda do sótão? Se pudéssemos enterrá-los, explodiriam as consciências e libertaríamos a tribo de Abril para a sua verdadeira vocação, rejeitar os dogmas e afrontar o poder, restaurando a dignidade perdida, promovendo a esperança.

Escrevemos hoje 17 de Abril, porque não podemos esquecer o mesmo dia do ano 1969. Em Coimbra, lançaríamos nesse dia um firme e violento golpe no regime fascista, que iria continuar nos meses seguintes com acções de luta, na academia e junto das populações. E levaríamos a Lisboa a 22 de Junho, na final da taça de Portugal uma das manifestações que mais abalou o regime e que levaria a substituição do ministro Saraiva, um dos pilares do fascismo marcelista.

A circunstância de a Esquerda ser agora maioritária no Parlamento e apoiar um Governo que reverte os malefícios de 4 anos de chumbo e de mais de 30 de compromisso, em nada afecta o apelo irresistível da rua para ocupar um espaço de luta permanente, a 25 de Abril e no 1º de Maio. Assim pugnaremos sempre por uma sociedade que aposte nas pessoas e não nos malfadados mercados, fonte de desigualdade, exploração e corrupção.

Na imensa vaga passadista que atravessa a Europa, o poeta no Governo, poderá ser a afirmação da benignidade da política, levando a imaginação ao poder, ou pelo menos a Cultura a um lugar que perdeu durante anos a dignidade a que tem direito.

Abril abre portas na nossa memória…

 [1] Extracto de “As Portas que Abril Abriu, José Carlos Ary dos Santos, 1975
[2] Extracto de “Queixa das Almas Jovens Censuradas”, Natália Correia, 1957

03 abril 2016

A IMPORTÂNCIA DA TRAVESSIA

Da leitura de um artigo de revista retiro um ensinamento. O autor diz, na sua aparente simplicidade, “…para mim, passar o rio já era um acontecimento”, uma asserção modesta e soberba ao mesmo tempo. Diria que redundante, não fora (para o autor) a principal e crucial medida da sua existência. Um artista, jovem, que marca o tempo na arte de rua, transportando afinidades e cumplicidades para os muros e praças, com rostos de gente que trabalha e luta na azáfama dos dias sem tempo. Cruzo com ele (fazemos sempre o mesmo quando nos agrada a sentença) a travessia que faço diariamente, a caminho do trabalho. Ele falava precisamente disso, quando atravessava o rio, o outro lado da cidade grande era sempre o destino. Ao mesmo tempo, um apelo terrível a criatividade, é de um artista que trata a matéria. Ao engenho de rever corpos e coisas misturadas nas ruas e avenidas, a procura de um mimetismo, muitas vezes escuso. Paro a pensar se a travessia, invariavelmente a mesma, tem significado diverso consoante o estado de espírito ou a marcha do tempo, que sempre soma. Procuramos qualquer coisa que marque o ritmo de forma constante e sem saltos ou, ao revés, esperamos algo que diariamente nos surpreenda? Provavelmente cada um encontrará para si o sinal correcto, a medida mais ou menos exacta, diletando para si uma qualquer fuga em frente, simplesmente para não querer pensar.

Vale sempre atravessar em vez de ficar no mesmo sítio, paráfrase da retórica interpretativa a que cada um tem direito, na liberdade do acto e na disponibilidade para a acção. Por mim, prefiro a travessia, mesmo contando que do outro lado pode estar o inesperado. Aí, vale mesmo a pena.

21 fevereiro 2016

O SENHOR BAUDOLINO













Podia chamar-te Baudolino[1] , observando o céu e contemplando as estrelas, partindo na aventura do maior mentiroso do mundo, que inventaste. Foste o nome daquela rosa[2] que todos leram e alguém quis filmar. Filosofaste sobre o Pêndulo[3] , lembrando que poderia haver um plano para governar a humanidade, quem sabe prevendo a trama da sociedade do domínio do capital. Ensinaste-nos a elaborar a tese de doutoramento[4] , e ficaste à espera na ilha do dia antes[5] , provavelmente para todo o sempre, encantando as ninfas com a tua arte, o teu humor, a tua categoria de príncipe. Que a Rainha Loana[6] , dona de uma misteriosa chama te chame agora para contar novas histórias. Sabemos ora que “não são as notícias que fazem o jornal, mas o jornal é que faz as notícias, e que saber juntar quatro notícias diferentes significa propor ao leitor uma quinta notícia”[7] , lendo o teu livro mais recente, que escreveste com aquela garra e atrevimento que fazem os grandes mestres. Deixa-nos lembrar-te como um grande pensador da vida, ou como o Guilherme de Barskerville, que desafiou o poder. 

Passo-te a palavra, num gesto de louvor: “… às vezes, um ândito escuro, uma estrada frouxamente iluminada, um lampião entrevisto na neblina, podem estimular a imaginação e colocá-la em orgasmo inventivo…”[8]

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[1] Homenagem à obra do mesmo nome, 2000
[2] Homenagem à obra “O Nome da Rosa”, 1980
[3] Homenagem à obra “O Pêndulo de Foucault”,1988
[4] Homenagem à obra “Como se faz uma Tese”, 1995
[5] Homenagem à obra do mesmo nome, 1994
[6] Homenagem à obra “A Misteriosa Chama da rainha Loana”, 2004
[7]Referência a obra “Número Zero”, 2015
[8]Citação da obra “Apocalípticos e Integrados”, 1964


14 fevereiro 2016

TRANSFORMAR A RESTRIÇÃO EM AFIRMAÇÃO (1)





Perante um obstáculo, a linha mais curta entre dois pontos pode ser a curva…”
Bertolt Brecht












A redefinição da luta política é, nas circunstâncias actuais, uma aprendizagem com contornos de uma intervenção ajustada e equilibrada, num sentido que se pretende positivo e integrador. Curiosamente este é um tempo de afirmação, embora o seja também tempo de resistência. Nunca como agora, a esperança de uma solução diferente esbarra na atitude reaccionária que se insinua na sociedade civil através de agentes meticulosamente colocados em diversos postos-chave da comunicação social, primando por uma postura calculista e visando descredibilizar pessoas e instituições que pretendem a mudança. Compete às forças vivas que estão pela viragem, mas também apostam na defesa da dignidade perdida, desencadear processos que imprimam na sociedade civil a compreensão da nova política, das suas vantagens e também dos seus compromissos.
1.      Em primeiro lugar a questão da reversão das políticas que arrasaram o País, o seu tecido económico-social e as pessoas de forma directa nos seus rendimentos. A inversão do ciclo é consensual à esquerda e constitui no momento o acordo base (que se pretende) para uma legislatura. Passa pelo equilíbrio desta solução de governo, o sucesso da reversão. Mas também de redefinição das linhas programáticas da própria solução governativa. É por esta razão urgente que o discurso político mude radicalmente. Precisamente na base concreta da afirmação de ideias, princípios e conceitos que se supunha adquiridos na sociedade civil portuguesa após o 25 de Abril de 74, mas que foram sucessivamente hipotecados por décadas de uma realpolitik que os assassinou, pelo menos ideologicamente. A afirmação de um novo discurso pode (deve) ser feita de duas formas. Por um lado, através de “acerto” de linguagem entre as forças partidárias que subscreveram os acordos à Esquerda, de uma forma pedagógica, no que reporta a comunicação e difusão da mensagem. E, por outro lado, na assunção de medidas legislativas concretas, em áreas-chave do poder, como a Educação e a Cultura. O novo Poder tem que se afirmar na comunicação social, que ora lhe é adversa. E fazê-lo de uma forma assertiva e irrepreensível. O “simples” facto de, ao contrário do que aconteceu nos últimos 4 anos, o PM não aparecer nas rádios e nas TV, todo o dia e a toda a hora, a opinar sobe tudo e mais alguma coisa, pode ser um bom exemplo. Que todavia deve ser substituído por um outro tipo de intervenção, de formato diverso, possivelmente explicativo e que está a ser ensaiado, por exemplo, com a “saída”  do Terreiro do Passo e o contacto directo com as pessoas.
2.      Em segundo lugar, e não necessária e cronologicamente após o primeiro, há que equacionar a questão da dialéctica e do confronto ideológico, como premissas de desenvolvimento e de capacitação das pessoas e das instituições. A educação para a cidadania será porventura um dos passos possíveis, já que é aceite de forma consensual e que inclusivamente ultrapassa a barreira ideológica entre Esquerda e Direita, mas onde a Esquerda tem um enorme ascendente social, por razões óbvias. Explorar as contradições entre riqueza vs. distribuição no desenvolvimento das sociedades, economia vs. finanças, público vs. privado, investimento vs. desenvolvimento, são exemplos vivos de como pode ser incentivado um debate sério e responsável.
3.      Em terceiro lugar, virão aquelas medidas que nunca são tomadas por nenhum governo do antigo centrão partidário e que constituem a pedra de toque dos regimes baseados no favor e na influência. A reforma do Estado é porventura a melhor prova que o novo Poder pode dar á população, de que está interessada em mudar o sentido da política, para algo que aproxima as pessoas e não o contrário. Intervenções necessárias e urgentes devem ser propostas e efectuadas em sectores como a Educação, a Saúde e a Segurança Social. Há ainda um sector onde de deveriam supor mudanças radicais, para aproximar as pessoas ao Estado: a Justiça. A verdadeira reforma do Estado começa sempre pela assunção do princípio básio de colocar o Estado ao serviço das populações, contra a tese instrumental dominante. O exemplo negativo das designadas “entidades reguladoras” será talvez o paradigma do que não-deve-ser. Existem neste momento em Portugal 17 entidades reguladoras, agora (decisão do finado governo da Direita) com privilégios especiais na remuneração das respectivas chefias, traduzidos em aumentos de 170 por cento. Não existia entretanto, nem sequer no portal do Governo, um local que simplesmente listasse quais são estas entidades reguladoras, um dos sintomas reveladores da falta de transparência da administração central. A melhoria dos serviços públicos de saúde, educação e ensino superior, previstos no acordo das Esquerdas é outro dos centros de intervenção, bem como uma administração desburocratizada e eficiente. E ainda a premência da criação das Regiões Administrativas, o reforço da autonomia administrativa e financeira do Poder Local.
A Direita portuguesa está desqualificada. A única “qualificação” actual que se lhe conhece é alimentada pela “interiorização que muitos jornalistas e comentadores fizeram do argumentário da direita nos últimos quatro anos[1]. É espantoso como a insistência em meia dúzia de conceitos-chave, martelada pelas rádios, TV e jornais, produz efeito nas pessoas, pelo menos a nível do que se pode considerar a chantagem pelo medo desta solução governativa. E, para além disto, existe uma campanha, agora conhecida e denunciada como “os truques da imprensa portuguesa” que consiste na produção constante de notícias alarmistas, e algumas delas completamente falsas. E finalmente, a divulgação de “sondagens” de duvidosa credibilidade (para não dizer outra coisa…) e que constitui uma manobra tendente a recolocar a Direita de novo no poder. Um exemplo, e é apenas um, dos tais truques, tem a ver com a recente subida do preço dos combustíveis, Enquanto a matéria-prima (crude/brent) desceu mais de 60%, os combustíveis desceram menos de 30%. Entretanto, a Galp apresenta lucros de mais de 600 milhões. Mas, por sorte sua, a imprensa continua a falar do "brutal aumento de impostos."
Compete pois à Esquerda qualificar-se. E tal significa assumir, para além da reversão das medidas, uma postura permanente na adopção de medidas que devolvam a dignidade às pessoas. Perceber a importância histórica desta solução de governo, significa antes de mais o reforço da solução governativa, ora ameaçada pelos burocratas de Bruxelas, com o apoio dos cães de fila habituais. E esse reforço começa pela coesão interna da solução governativa, tendente, em primeira instância em conquistar a população, nomeadamente das suas camadas mais desfavorecidas.
(continua)



[1] Citação do artigo “Brincar com o fogo”de J. Pacheco Pereira, no jornal Público de 06/02/2016

30 janeiro 2016


Devíamos estar a falar de coisas mais importantes…
















Como por exemplo. De saber como podemos aumentar a produção nacional. De como poderemos aproveitar melhor os recursos nacionais. De como poderemos melhor distribuir a riqueza que produzimos. De como equilibrar os rendimentos, erradicando de vez a pobreza. De como devemos melhorar o ensino público. De como deveremos oferecer melhores cuidados de saúde a população. De como trabalhar menos e produzir mais e melhor. De como preencher o lazer, porque a ele temos direito. Não, o que discute é o famigerado Orçamento de Estado 2016. Reformulo, porque nem 0,1% da população está interessado nisto, o que nos querem fazer discutir. A comunicação social predadora faz deste tema um alarido permanente. Como nunca se viu. Quem se lembra de discutir o Orçamento de Estado? “Fruto de uma cultura obesa e que fabrica a conformidade e o consenso[1], como bem diz A. Guerreiro, o séquito voraz de comentadores, analistas e painelistas atira-se ao Governo como nunca havia feito aos anteriores, fazendo passar a mensagem que a Comissão Europeia “chumba” o Orçamento. A histeria é de tal ordem que chega ao cúmulo de albergar frases como “Costa sob fogo, Bruxelas pressiona”, “Comissão chumba Orçamento”, “Governo apertado entre Bruxelas e PCP”, numa clara intenção de reinventar a malfadada inevitabilidade. A histeria desta comunicação social é a pedra de toque cavada pela Direita. Desta vez é o Orçamento, como antes foi a tese da fragilidade dos acordos. Bafejados pelos favores da Direita, que deles por sua vez se alimenta, escrevem e postulam com a arrogância que os define. O objectivo é sempre o mesmo. Criar um clima de suspeição permanente na opinião pública, que mais cedo ou mais tarde, estará disposta a atirar a primeira pedra a um Governo que tenta, contra a corrente, devolver ao Povo o que lhe foi roubado. Curiosamente, parece que as pessoas já se terão “esquecido” das malfeitorias a que foram sujeitas, às vezes a memória é curta…  
Proust disse, “A sabedoria não se transmite, é preciso que nós a descubramos fazendo uma caminhada que ninguém pode fazer em nosso lugar e que ninguém nos pode evitar, porque a sabedoria é uma maneira de ver as coisas[2]. Ser sabedor implica, nos momentos difíceis, ser capaz de pensar do lado discreto das coisas. Não fazer ondas desnecessárias, descobrir nesta caminhada a melhor forma de levar às pessoas a mensagem certa no momento oportuno. Este será porventura o momento de o Governo se aproximar daqueles que renegam a política, porque se afastaram pura e simplesmente das decisões. Ou porque delas foram afastados.
Os acordos celebrados pelas Esquerdas são em muitos anos um sinal de mudança. Há quem não queira mudança alguma. Ou porque não lhe convém, ou porque lhe convém manter os seus privilégios. Haverá porventura uma última razão, que tem a ver com a circunstância de não acreditar em nada, porque já perdeu a esperança. Tão simples quanto isto. Pela primeira vez existe uma maioria parlamentar que pode virar a página. No nosso País há tanta coisa para fazer, que alimentar as querelas dos que não aceitam que é possível, é simplesmente perder tempo. Faz bem pois o Governo que tem mantido uma atitude de recato aconselhável perante as investidas antipatrióticas dos que desejam de facto o regresso ao passado.
Quem fala dos benefícios sociais até agora revertidos? Quem se preocupa com as camadas desfavorecidas da população, marginalizadas durante os últimos anos? Que fala, por exemplo, de felicidade? Quem quer que ainda tenhamos medo?
Já agora, lembro David Bowie, quando dizia,“Viver com medo é a manifestação da miséria mais profunda”.



[1] António Guerreiro, “Escritora, Princesa do Espírito”, Público/Iplison, 29 Jan 2016
[2] Marcel Proust, in “Em Busca do Tempo Perdido- Do Lado de Swann”.

22 janeiro 2016


O QUE FAZ FALTA…










O que faz falta é dar poder à malta…
Zeca Afonso








Tanta coisa que faz falta. Faz falta tanta coisa que não cabe em poucas palavras. No último dia nunca poderíamos inventariar o que na realidade faz falta. Temos agora alguma consciência do que faz falta, quando finalmente o País acorda de uma longa noite de 4 anos. De trevas e de silêncio. Também de uma certa impunidade que revolta.

Quando nunca a noite foi dormida/O que faz falta…”. Acordar, pelo menos e sacudir o medo. Erradicá-lo seria o termo para definir melhor.

Quando nunca a infância teve infância/O que faz falta…”. Lembrar “os filhos dos homens que nunca foram meninos [1], triste sina de quem não se pode dar ao luxo de ter infância, porque os pais estão desempregados e não há dinheiro em casa.

Quando um homem dorme na valeta/O que faz falta…”. E cada vez eram mais e mais, nas valetas de um País perdido na desgraça do “ajustamento”. Mais ou menos 2 milhões, é verdade.

O que faz falta é avisar a malta/O que faz falta é agitar a malta”. Agitamos durante 2 semanas a fio, de Norte a Sul de um País agora mais avisado, um “tempo novo” que anuncia um futuro melhor.

Quando dizem que isto é tudo treta/O que faz falta…”. Pois não foi assim que começou esta campanha, que mais pareceu um estender de passadeira vermelha ao candidato da Direita? Treta, está tudo resolvido, ganha ele, mais que certo. E agora que a campanha chega ao fim, afinal até as próprias sondagens reconhecem que nada está garantido…

“O que faz falta…”. Faz falta por exemplo, um Presidente que corte com o terrível passado de 10 anos que envergonha o País. Faz falta defender causas. E princípios, que unam os portugueses e que signifiquem um compromisso para o futuro. Um Presidente CAPAZ, um Presidente cidadão, próximo das pessoas e do País que quer representar. Um Presidente que orgulhe o seu País. Um Presidente que seja a cara da mudança.
Esse Presidente tem nome: ANTÓNIO SAMPAIO DA NÓVOA!



[1] Dedicatória final da obra “Esteiros” (1941), de Soeiro Pereira Gomes, Edições Avante!, Lisboa 2009

18 janeiro 2016

ESTA SEMANA É DE VEZ!


Não é fácil ter paciência
diante dos que têm excesso de paciência
Carlos Drummond de Andrade











Por todo lado em que se fale das Presidenciais um pormenor fica para a história. O papel da comunicação social. Não somente o da estação televisiva que ajudou a promover, a fabricar, um homem presidencial e que o catapultou para os píncaros da fama etérea. Não somente. Mas também o da grande maioria da comunicação social, ouvida e falada, escrita e vista, com um enorme séquito de comentadores, painelistas e politólogos, que se desmultiplicaram, opinando sempre para o mesmo lado, sempre da mesma forma, utilizando duvidosos critérios de análise, conseguindo milagrosamente chegar sempre a mesma conclusão: havia um candidato, era uma pessoa conhecida, muito popular, muito bem informada, muito rodada nos labirintos do poder estabelecido, muito cordata, muito sensata, muito culta, muito sabedora, muito muito e sempre muito, enfim. Porém ter-lhe-á caído a máscara no debate com Sampaio da Nóvoa, que bem o encostou às cordas. Deixando a sua postura sorridente e beatífica, concorda com tudo e o seu contrário, apoia e cumprimenta todas e todos, a democracia, os partidos e os sem partido, os pobres e os ricos, os trabalhadores e os empresários, as empresas e os bancos, os famintos e os gulosos, os preguiçosos e os laboriosos, tudo o que mexe e o que está parado. A civilização moderna tem o privilégio de ter um homem assim, acima de tudo e de todos, pairando no aquário da TV, olhando para o Povo com a mística do educador e do pai presente e ausente. Sempre ao mesmo tempo.

Uma campanha barata. A mais terrível das mistificações, a mais despudorada postura de arrogância, o maior desprezo pelos portugueses. Damos umas passeatas pelo País, alinhamos numas “comezainas”, entramos em meia dúzia de cafés, somos eu, a estrela da televisão transformada à pressa em candidato. Assim é o marketing político, lançamos um produto, criamos a necessidade, está tudo feito. Vendemos a eterna ilusão de que está tudo bem, que o “tudo bem” serve mesmo para tudo, para a Direita, para a Esquerda, isso mesmo, o politicamente correcto levado ao absurdo extremo, o deus e o diabo na mesma pessoa, tudo é mesmo possível, desde que se faça um fotogénico sorriso, um pode e não pode, tudo fica na mesma, por milagre, como uma varinha de condão constantemente brandida na cabeça do pobre cidadão, ele até é boa pessoa, simpático, bondoso, etc, etc…

Sondagens para o gosto de quem as fabrica, de uma forma profissional e meticulosa. Apontando sempre na mesma direcção. Atenção, esta maioria durará até quando? Não pode durar sempre e por isso se torna necessário prever o que irá acontecer se houver desentendimento, se o acordo, ou acordos, se quebrarem, é preciso saber o que fará, que decisão tomará, dissolve ou não dissolve, nomeia ou não nomeia, apoia ou não apoia?  A uma senhora perguntaram até quanto tempo previa que este governo se iria manter, ainda antes de ele tomar posse (…). Assim se faz Portugal.


Mais uma semana. Só faltam 5 dias para o final. Vale a pena o esforço para derrotar o mito, nesta primeira volta. Que muitos dão como já resolvida, há muito tempo. O que é certo é que as expectativas que mais certas parecem, podem sair furadas. Queremos que lhes saiam furadas. Nada está resolvido, tudo pode ser possível. Arrastar a decisão destas eleições para uma segunda volta é trabalho de todas e todos aqueles que acreditam de facto na Democracia, na Liberdade. E também que a mudança é possível, neste tempo dito novo, imagem bela e de esperança. Mas também da certeza que temos em acreditar no País e nas pessoas.   

13 janeiro 2016

A ESQUERDA DA DIREITA?




A vocação de um político de carreira é fazer de cada solução um problema.)”,

Woody Allen














1.    Conhecíamos o centro-esquerda, o centro-direita, a extrema-esquerda, a extrema-direita (salvo seja!), enfim, o centrão. Agora ficamos a conhecer, pela mão extremosa de Marcelo, a “A Esquerda da Direita”. Uma espécie de invenção livre, entre muitas outras do candidato, que parece queres livrar-se da Direita. Contudo sabemos que não quer de facto, nem tal coisa lhe passaria pela cabeça. Apenas uma diversão, mais uma, nesta espécie de campanha, que decidiu levar a cabo, para seu deleite pessoal, tendo em linha de conta que outras e outros já fizeram o caminho por si. Que é o de o tentar levar ao colo para Belém, no mais profundo desprezo pela Democracia de que há memória, após o 25 de Abril de 74.
2.    Esta poderá ser mais uma tentativa de mascarar a diferença profunda entre Esquerda e Direita, um exercício já antigo e que vai ganhando algum espaço, precisamente graças aos esforços da Direita. Assim mesmo. O que acontece é que, devido precisamente a uma conjuntura de confronto ideológico, cavado por uma Direita impiedosa e implacável, nas últimas décadas, cada vez faz mais sentido na actualidade a diferença entre Esquerda e Direita. Há um “simples” pormenor distintivo, nos tempos que correm, temática abordada por Isaiah Berlin [1], e que concerne ao conceito de liberdade. Segundo este autor, existem dois tipos de liberdade, a positiva (“livre para”) e a negativa (“livre de”). Muito embora esta dualidade possa ter algum sentido, não é porém suficiente, apenas indicativa da orientação de liberdade, negativa para a Direita e de liberdade positiva para a Esquerda. A melhor e mais significativa distinção entre Esquerda e Direita estará propriamente nos conceitos “autonomia” e “dominação”. Defendemos portanto, autonomia, a Direita prefere, sem qualquer dúvida, dominação.
3.    Será Marcelo um libertário de direita? A classificação poderia até fazer algum sentido, se aquele considerasse porventura o Estado como uma máquina opressora, para indivíduos e instituições. Mas não parece ser esta a orientação do candidato, a avaliar pelas suas concordâncias constantes com políticas dos partidos de direita, expressa em posições públicas conhecidas.
4.    A expressão “A Esquerda da Direita” assimila bem a tese de Groucho Marx,Estes são os meus princípios. Se vocês não gostarem deles, bom, eu tenho outros". E assim se esvazia a dita tese, que só se entende como mais um dislate do candidato a quem parece que tudo é permitido.
5.    E já agora, Marcelo onde estavas no 25 de Abril de 1974?

 [1] Berlin, I. (1958) “Two Concepts of Liberty”