rio torto

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21 setembro 2020

 21 de Setembro - DIA INTERNACIONAL DA PAZ 


 

No ano 2006, a 21 de Setembro, o então Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan instituía o Dia Internacional da Paz declarava-o, como “um dia de cessar-fogo e de não violência em todo o mundo”.

 

No dia de hoje, manifestamos o nosso apoio à Declaração das organizações europeias membro do Conselho Mundial da Paz:

Defender os direitos e a soberania dos povos!

Defender a Paz!

As organizações, comprometidas com a sua luta de sempre em defesa da paz e da amizade entre os povos, preocupadas com a acção agressiva do imperialismo, particularmente do imperialismo norte-americano, e suas repercussões na atual situação mundial, recordam e sublinham a importância da defesa de princípios do direito internacional, essenciais à prossecução da paz, e de assinalar importantes efemérides com eles relacionadas.

Defender princípios como a igualdade soberana de todos os Estados e a autodeterminação dos povos; a resolução dos conflitos internacionais por meios pacíficos; o desenvolvimento de relações de amizade e a cooperação internacional, no sentido da resolução dos problemas internacionais de carácter económico, social, cultural ou humanitário, a promoção do desarmamento geral e controlado, nomeadamente de armas nucleares, ou o fim dos blocos político-militares, é ainda mais importante, no momento complexo, exigente e imprevisível com que os povos se confrontam, nomeadamente a crise pandémica.”

 

Defender a Paz, implica, no momento presente, exigir o desmantelamento imediato da NATO, uma organização belicista, que é manifestamente responsável, pelo ascenso da guerra em todo o mundo e responsável, directa e indirectamente, pela situação de miséria de milhões de refugiados.

 

Pela PAZ e pela cooperação entre os Povos! 

20 setembro 2020

 A LESBOLÂNDIA

 

...somos o tempo em que vivemos, um tempo de que não podemos nos ausentar. Temos uma existência própria, e não estamos mais dispostos a permanecer imaginários.” 

Alberto Manguel, 2011

 

Lesbos é o nome de uma ilha grega, no nordeste do mar Egeu. Diz-se a terceira maior ilha grega e a sétima maior do Mediterrâneo, com uma área superior a mil e quinhentos quilómetros quadrados. O nome da ilha é homenagem a Lesbo, que lá se exilou, tendo casado com Metimna, filha de Macareu, o rei local. Lesbo torna-se então o primeiro rei eólio da ilha. Do nome da ilha deriva a palavra lésbica. A história conta que Safo (século VII a.C.), a maior poetisa da literatura grega, teria escrito poemas apaixonados, dirigidos à filha ou às suas companheiras de forma terna e amorosa, poesia de conteúdo erótico, que seria censurada pelos copistas medievais, ligados na sua maioria à Igreja Católica, daí originando a lenda que existiriam relações homossexuais em Lesbos.

 

Hoje é aqui, é Moria

A história antiga é, porém, bem mais terna e benévola que a actual. Na realidade, a ilha de Lesbos é, desde 2017, o maior campo de refugiados da Europa. Dá pelo nome de Moria e, a 9 de Setembro, entra em colapso devido a um incêndio de grandes dimensões. Neste campo, com capacidade para 3 mil pessoas, viviam cerca de 13 mil (!), em condições precárias, num espaço sobrelotado. O campo estava em confinamento, depois de ter sido detectado o primeiro caso de covid-19. A activista portuguesa pelos Direitos Humanos Dulce Machado classifica Moria como o “inferno na Terra, um cenário de guerra, de sofrimento, de dor”. Fala nas tendas, contentores e casas de banho, partilhadas por homens, mulheres, crianças e em condições inimagináveis. Fala ainda na falta de higiene, de cuidados sanitários, na fome e nas doenças e nas violações que, segundo ela, fazem parte do quotidiano. 

 

Quem denuncia?

Quem fala nisto? Um reduzido número de activistas, em voluntariado, vão (como a referida portuguesa) dando conta de uma realidade que a Europa enfrenta, sem que se veja resposta condigna, da parte dos responsáveis, nem dos países em questão, nem sequer da designada “união europeia”. 

A propósito, e sobre os designados refugiados esquecidos de Paris”, espalhados pelo nordeste da cidade e pelo bairro de Saint-Denis, o site jornalístico DW (Deutsche Welle) dizia, em Dezembro de 2019, que, ...centenas de migrantes vivem em acampamentos improvisados na capital francesa.

Convivemos com esta realidade chocante há quanto tempo? 

De facto, desde 2015, que a vergonha dos “campos” alastra e se multiplica.  

Aceitamos esta realidade (?), lamentando o infortúnio, indigno e indecente. 

A chamada “união” irá muito provavelmente despejar uns quantos milhões, para que as vozes se calem, para que as criancinhas tenham, durantes uns dias, o pão e a água que lhes faltam. Porque dinheiro é coisa que não (lhes) falta, injecta-se hoje algum, para que amanhã tudo fique na mesma, uma farsa enorme, uma iniquidade. 

Nada que perturbe os eurocratas, essa espécie asquerosa, para quem a política é sempre veludo. Veja-se, por exemplo, a posição da Comissão Europeia, ao aconselhar, em Março passado, “cautela” perante as últimas imagens da violência na fronteira entre a Grécia e a Turquia. Bruxelas recusa-se a censurar o comportamento das autoridades gregas, e a sua política de dissuasão dos migrantes que procuram aceder ao território europeu. 

E recusar-se-á sempre, como no passado, a tomar uma posição de força contra a guerra que ocasiona tudo isto.

 

É a Guerra, estúpido!

Porque é na realidade disso que se trata. Enquanto existir a NATO, essa excrescência belicista, ao serviço dos EUA e dos seus designados “aliados”, existirá sempre guerra, porque é a essência desta que alimenta a sua existência. Isso acrescido dos interesses profundos relacionados com a indústria do armamento, que justifica os grandes negócios e as grandes fortunas.  

É a guerra que fabrica milhares e milhões de mulheres, homens e crianças, que fogem dela, com o medo e fome no corpo, na esperança vã de poderem encontrar um lar, uma cama, alimento que se preze, para si e para os seus. 

Nasce, aos nossos olhos, neste século horrendo, um novo território, a “Lesbolândia”, que é hoje um imenso império, onde reina a iniquidade, a desigualdade e a exclusão. Nela se instala a indiferença, no medo da denúncia, na limpeza das consciências, porque agora é mesmo assim, em tudo que diz respeito às políticas desta “união”, um nome que deveria ser impronunciável, tal a ironia.

 

Nela se canta a canção, com ela denunciamos, nela revemos uma realidade escondida, entretanto sempre presente nas nossas mentes:

Há um fogo enorme no jardim da guerra 

E os homens semeiam fagulhas na terra 

Os homens passeiam co´os pés no carvão 

que os Deuses acendem luzindo um tição

P´ra apagar o fogo vêm embaixadores 

trazendo no peito água e extintores 

Extinguem as vidas dos que caiem na rede 

e dão água aos mortos que já não têm sede

 

Ao circo da guerra chegam piromagos 

abrem grande a boca quando são bem pagos 

soltam labaredas pela boca cariada 

fogo que não arde nem queima nem nada

 

Senhores importantes fazem piqueniques 

churrascam o frango no ardor dos despiques 

Engolem sangria dos sangues fanados 

E enxugam os beiços na pele dos queimados

 

É guerra de trapos no pulmão que cessa 

do óleo cansado que arde depressa 

Os homens maciços cavam-se por dentro 

e o fogo penetra, vai directo ao centro

Cantiga do Fogo e da Guerra”, José Mário Branco/Sérgio Godinho, 1971

 

 

17 setembro 2020

 A NOSSA UTOPIA


 













Hoje é dia de falar na Escola, enquanto lugar de Educação, de Ciência e de Cultura. 

Enquanto Formação.

Enquanto Cidadania.

Porque hoje, há escola de novo.

Porque hoje, impõe-se, Liberdade e Criatividade.

Porque hoje e sempre, nos devemos libertar das amarras que nos tolhem a consciência.

Mas há quem não pense assim.

E há quem pense que é bom viver tutelado e amarfanhado.

Porque há quem aceite a liberdade condicionada.

Hoje alguém disse que para “sermos cidadãos, precisamos de uma cidade[1]. Da Cidade “sem muros nem ameias[2], porque “...não há céu de palavras que a cidade não cubra[3]

Para quem duvide, que atende na forma velada e insidiosa como é fabricada e difundida a informação que nos rodeia, toda ela eivada de preconceito e por vezes de perfídia.

Se é na Escola que formamos o cidadão, é na Cidade que ele vive que ele trabalha e luta é na cidade que ele usufrui dos bens e serviços que são de todos, mas a que nem todos têm direito.

É na cidade que tomamos consciência, mas é nela também que sentimos a manipulação das consciências. Porque há, na Cidade, uma verdade formatada, a que é difícil reagir, sem se ser considerado um marginal.  

Aquilo que nos defende das prepotências, é, sem sombra de dúvida, a Utopia "...toma o fruto da terra//é teu, a ti o deves//lança o teu desafio"[4].

E é nos ensinamentos da Escola que aprendemos a pensar, assim deve ser sempre, acima de tudo.

É na vida da Cidade que aprendemos a conviver, a “tropeçar” no outro, mas onde também aprendemos que “um homem roubado por um adversário pode levantar-se outra vez”, mas também que “um homem derrubado pela conformidade fica para sempre no chão[5].

Ao lembramos a Escola, evocamos a Cidade.

A nossa Cidade. O lugar onde vivemos, lutamos e sofremos.

Defendemos a cidade soberana, sem muros e aberta ao Conhecimento.

E aberta a quem vier por bem.



[1] Palavras de Daniel Oliveira, no Facebook 

[2] “Utopia”, Zeca Afonso, 1983

[3] “A Cidade”, Zeca Afonso, 1969

[4] Idem, ibidem nota 2

[5] Citações de Thomas More, na “Utopia”, 1516

05 julho 2020

ESTE TEXTO SÓ EXISTE QUANDO É LIDO EM VOZ BAIXA...”[i]


O Rafael, de Thomas Moore, “...descobriu nos diversos povos leis loucas injustas como as nossas, mas também observou grande número de decretos e constituições cujo exemplo salvaria dos seus erros as nossas cidades povos e reinos[ii].
Aprender, portanto, aprender sempre, uma divisa pelos vistos difícil de seguir, tal é a propensão actual, para a asneira e para o disparate.

Tudo (re)começou com o futebol
A partir do episódio patético da liga dos campeões da UEFA, parece que tudo se desmoronou. O Estado perde a compostura, Governo e Presidentes (da República e da AR), irmanados no mesmo ridículo, tentam convencer o País, que era bom trazer para cá, uma data de jogos de futebol. Sousa e Costa aproveitariam ainda a oportunidade para delirar com a perspectiva à vista: o primeiro diria que a liga seria um "um caso único e irrepetível" e o segundo, afirmaria que a realização do evento era o “...melhor prémio para os profissionais de saúde portugueses.”

A TAP, dos sucessivos erros à “derrota” final
Parece um país rico, que se dispõe a investir na aviação. São 1200 mil milhões
mil euro, com a oferta de 55 milhões ao investidor principal, para sair da empresa, onde nada fez senão engordar os seus proveitos e gerir da pior forma. Daniel Oliveira escreveria, sobre isso, “Uma fraude política dirigida por António Costa, executada pelo seu amigo Lacerda Machado – que depois foi nomeado para o Conselho de Administração da companhia aérea – e pelo qual deu a cara o agora eurodeputado Pedro Marques. O seu sucessor no Ministério limita-se a ter de resolver o que todos recebemos. A cláusula do contrato, que permite aos privados recuperarem os cerca de 200 milhões que emprestaram à TAP através de prestações acessórias no caso do Estado reforçar a sua posição acionista, é a confissão da própria fraude.”[iii]
Para investimentos destes, há sempre dinheiro.

E a Saúde e a Educação, senhor?
O Estado recusa-se em investir onde é preciso. Os dois sectores, que deveriam ser vitais para o País e que frequentemente andam nas bocas dos nossos “socialistas”, estão mesmo pela hora da morte. Nada se diz, nada se faz, simplesmente declarações de amor às causas, ao mesmo tempo que chumbam sistematicamente na AR, todas as propostas da Esquerda. Uma catástrofe, que Costa assimila com uma vontade firme de privilegiar acordos à Esquerda. Mais uma fraude, confirmada na aprovação do orçamento suplementar. 

Reanimar a economia?
Que faz o Governo? Investe forte no SNS? Acautela a abertura das Escolas e das Universidades? Toma medidas para estancar o desemprego e as sucessivas investidas dos privados em atropelar o lay-off? Revê apoios aos cidadãos e/ou às pequenas e médias empresas? Aposta definitivamente na produção nacional? Revê circuitos de distribuição de produtos? 
De todo.
Continua a “acreditar” que a salvação do País está em mais turismo, mesmo que tal signifique uma descaracterização completa das nossas principais cidades, entregues à voragem dos números. 
Simplesmente assustadora a imagem de um senhor que apareceu, nas últimas semanas, a querer esburacar o País, a procura de lítio, apresentado como salvador da pátria...

Quem quer retratar-se?
Tenho que dizer: durante o período da pandemia (que ainda vai por aí...), vi e ouvi pessoas que se reclamam de esquerda, elogiar o PM , a Ministra e a respectiva Directora para a Saúde, dizendo inclusivamente que eram os melhores que poderíamos ter, comportamentos impecáveis, tudo bem, tudo certo, as melhores medidas, as soluções mais adequadas, todo um concerto de efabulações, que julgava já erradicado do discurso político. Não, era preciso (pelos vistos) elogiar, até pôr nos píncaros, alternativas para quê, nem devemos sequer mexer no que está bem (ou pensamos que está). 
Eis senão quando, basta um pequeno surto numa região do País, precisamente na capital do País, para se concluir que afinal nem tudo está bem. Transportes superlotados, porque as pessoas têm mesmo que ir trabalhar, condições de vida e de habitação que não são comportáveis com uma sociedade decente, cidadãos que não ganham para o que precisam gastar, idosos que sofrem em lares inadequados. 
E, ao mesmo tempo que a realidade acorda para ela própria, é ver as comadres zangadas com elas mesmas e com as amigas, ver os amigos de ontem transformados em carrascos, porque alguém lhes chegou a roupa ao pelo, ...
Quem estará disposto a dar a cara e dizer, que diabo, enganei-me, às tantas apoiei à pressa, se calhar hoje já não faria o mesmo. Uma boa questão, já não é mau, ter (ainda que tarde) uma posição crítica.

A sempre pouca ambição (nacional)
Contentámos-mos sempre com pouco, poucochinho, ou andamos mesmo muito distraídos. Podíamos dizer, tolerantes. Todavia, este é um termo ao qual manifesto muito pouca adesão...
Haverá outra colónia de Bruxelas, onde exista tão pouca ambição? Tanto baixar os braços. A propaganda fez bem o seu caminho, o resultado está aí, parabéns aos “propagandistas”, todos os que contribuíram e contribuem ainda para que este País continue na senda do famigerado bloco central, que, paulatinamente faz o seu percurso. Por vezes até com a colaboração prestimosa de alguma Esquerda, muitas vezes “distraída” da sua verdadeira função: oferecer uma alternativa credível, defendendo a soberania nacional, única forma possível de fazer frente à cada vez maior investida do império que mora ao lado.

A Utopia, (precisa-se)!
Voltamos ao mestre Thomas More, ele que pagou com a vida a sua Utopia. 
Estávamos em pleno seculo XVI. 
Mas ele tinha uma (utopia), coisa que raramente se vê, na modernidade actual, plena de distopias, onde apenas existem opressão, desespero ou privação. 
Na Utopia, falava de um povo oprimido pelo trabalho incessante para manter o exército, a corte e uma multidão de ociosos. Falava da sede de dinheiro dos reis, dos nobres e dos grandes burgueses, a causa primeira da miséria da maioria. Falava do abismo, cada vez maior, entre as classes sociais.
Rafael, recusa aparentemente o convite em trabalhar na corte, como conselheiro. A sua recusa, baseia-se em que se julga demasiado radical e, assim sendo, não seria levado a sério. E cita Platão, ao afirmar que “...os reis só admitiriam filósofos em suas cortes se eles mesmos estudassem filosofia”.[iv]
E não é que tem razão?
No meio de tanta pobreza de espírito, poucos são os que se julgam “destinados” ao lugar de aconselhar os governantes.
Procuram-se alguns “lacerdas machados” que tenham (ao menos) lido o Mestre...



[i] Afirmação inspirada em Thomas More, in “Utopia”, (1516)
[ii] Idem, ibidem, pág. 22 e 23
[iii] in Expresso Diário, 02/Julho/2020
[iv] Idem, ibidem, 1 e 2 (Resumo)

28 junho 2020

ISTO É INACEITÁVEL EM QUALQUER SOCIEDADE DECENTE!



A notícia é do Jornal de Notícias de hoje, 28 de Junho, e tem como título, “Gestores ganham 30 vezes mais do que trabalhadores
Diz que os “Salários dos CEO das 18 empresas cotadas aumentaram 20% face a 2019. Diferença é maior na dona do Pingo Doce.”
E continua:
·      Há cada vez uma maior distância entre a remuneração dos presidentes executivos das maiores empresas cotadas e a dos trabalhadores. Em 2019, os CEO das empresas do índice PSI-20 passaram a ganhar quase 30 vezes mais do que a média do salário dos colaboradores. No ano anterior, ganhavam 25 vezes mais.Em média, cada CEO ganhou 916 mil euros em 2019, uma subida de 20% face ao ano anterior. Já o salário médio dos trabalhadores ficou-se pelos 29 mil euros, uma subida de 1,5% em termos homólogos, segundo os relatórios e contas.
O CEO da Jerónimo Martins é o campeão da diferença salarial. Somando a sua remuneração fixa e variável auferida em empresas do grupo, Pedro Soares dos Santos ganhou 1,8 milhões de euros no ano passado. Corresponde a 167 vezes o salário médio de um trabalhador da retalhista, que se fixou em 10,5 mil euros anuais. O CEO da dona do Pingo Doce teve um aumento de 9% na sua remuneração global enquanto a subida média do salário dos trabalhadores do grupo se ficou pelos 1,9%.
Das 18 empresas que compõem o índice PSI-20, cinco pagam aos seus CEO uma remuneração superior a 50 vezes o salário médio dos seus trabalhadores. Trata-se da Galp, EDP, Semapa, Sonae e CTT.
A lista dos CEO com os salários mais chorudos é encabeçada por António Mexia, presidente executivo da EDP, que auferiu quase 2,17 milhões de euros de remuneração global em 2019. Seguem-se Pedro Soares dos Santos, com 1,76 milhões, Manso Neto, líder da EDP Renováveis, com 1,48 milhões, João Castello Branco, da Semapa, com 1,42 milhões e Carlos Gomes da Silva, da Galp Energia, com 1,39 milhões.”
A notícia coloca a questão, “Quem paga pior?”
·      Quanto às empresas que pagam melhor aos trabalhadores, a campeã é a EDP Renováveis, seguida da REN, da EDP e da Altri. O salário médio nestas empresas pode superar os 40 mil euros anuais. As pior pagadoras são a Jerónimo Martins, a Mota-Engil, Ibersol, a Sonae e os CTT. O salário médio nestas empresas vai dos 10,5 mil euros anuais aos 15,9 mil euros. Alguns gestores a nível mundial tomaram a iniciativa de partilhar o esforço da atual crise, cortando os seus salários. "Esses são gestos bem-vindos, principalmente quando comparados àqueles que se apressaram em cortar custos e receber ajuda do governo sem cortar no topo", defendeu a Bloomberg numa análise. As consultoras já falam em possíveis mudanças na forma como as empresas gerem o talento. Nuno Abreu, diretor da consultora Aon, em Portugal, admite que com a crise "poderá haver uma aproximação entre os salários dos gestores de topo da remuneração média dos trabalhadores". Mas, para já, com trabalhadores em lay-off e alguns a ficar sem emprego, ainda não é visível qualquer mudança no comportamento das empresas.”
Trata-se, no mínimo, de uma questão de respeito pela pessoa humana. 

No momento em que os Objectivos de Desenvolvimento Sustentáveis das Nações Unidas (ODS), falam em uma “... visão comum para a Humanidade, um contrato entre os líderes mundiais e os povos e “uma lista das coisas a fazer em nome dos povos e do planeta”.
Lembro que a chamada AGENDA 2030, é constituída por 17 ODS e foi aprovada em Setembro de 2015 por 193 membros, resultando do trabalho conjunto de governos e cidadãos de todo o mundo para criar um novo modelo global para acabar com a pobreza, promover a prosperidade e o bem-estar de todos, proteger o ambiente e combater as alterações climáticas.

Vale citar aqui, bem a propósito, o Objectivo 10 - REDUZIR AS DESIGUALDADES:
·      Até 2030, progressivamente alcançar, e manter de forma sustentável, o crescimento do rendimento dos 40% da população mais pobre a um ritmo maior do que o da média nacional.       
·      Até 2030, empoderar e promover a inclusão social, económica e política de todos, independentemente da idade, género, deficiência, raça, etnia, origem, religião, condição económica ou outra.         
·      Garantir a igualdade de oportunidades e reduzir as desigualdades de resultados, inclusive através da eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias e da promoção de legislação, políticas e ações adequadas a este respeito.”
A notícia avança que “...Em média, cada CEO ganhou 916 mil euros em 2019, uma subida de 20% face ao ano anterior. Já o salário médio dos trabalhadores ficou-se pelos 29 mil euros, uma subida de 1,5% em termos homólogos, segundo os relatórios e contas.”
E particulariza, no caso sempre “estimulante” do Pingo Doce (que paga impostos fora do País), que o gestor “Pedro Soares dos Santos ganhou 1,8 milhões de euros no ano passado”. E que tal valor, “...corresponde a 167 vezes o salário médio de um trabalhador da retalhista, que se fixou em 10,5 mil euros anuais. O CEO da dona do Pingo Doce teve um aumento de 9% na sua remuneração global enquanto a subida média do salário dos trabalhadores do grupo se ficou pelos 1,9%.”

Não há mais palavras para descrever injustiças como esta.
Que são aos montes, por esse País adentro. Por esse mundo fora.

QUE FAZER?

19 junho 2020

O NACIONAL PAROLISMO E O FUTEBOL (e, já agora, a EDUCAÇÃO)


Há afirmações que, valendo o que valem, quando proferidas por responsáveis políticos, adquirem uma dimensão particularmente significativa.
É o caso daquela cerimónia ridícula, a propósito da Liga dos Campeões, e da hipótese de aquele evento se vir a realizar em Lisboa.
O que apetece dizer, assim numa primeira impressão, é que “o mundo de cada um é os olhos que tem”, uma espécie de provérbio que o Mestre aplicou ao campo de visão do burro, no Memorial[i].
É o habitual parolismo lusitano, interpretado a alto nível por Sousa, Costa e aquele senhor cinzento que dizem ser ministro da Educação. Mas havia mais, naquela palhaçada.

Quase não se quer acreditar...
Para cúmulo, Costa foi ao ponto de afirmar que a final da Liga dos Campeões em Lisboa, é “um prémio aos profissionais de saúde”. Grande descaramento!
Enquanto isto, em França, o governo vai dar um bónus de 1500 € aos profissionais de saúde e a Alemanha prepara-se para lhes aumentar os vencimentos.
Será que a pandemia afectou o sentido do ridículo?” perguntava hoje, no jornal Público, o deputado Pedro Filipe Soares, enquanto que, no mesmo jornal, em artigo de opinião, a jornalista Susana Peralta, avisava que “a Liga dos Campeões é a educação”.

Mas porquê, senhor?
Porque triste sina, “temos” que ser assim?
Por que carga de água é que aquela cerimónia foi transformada no acontecimento mais importante, pós-pandemia?
E, já agora, porque é que os mais altos dirigentes da Pátria aceitam cair assim no ridículo? Aqui e no resto da (louca) Europa que aposta milhões e milhões no futebol?
A resposta parece simples: face à necessidade emergente de dar nas vistas, de qualquer ângulo, parece valer tudo, na aposta da PROPAGANDA, uma forma de centrar atenção e de tentar lançar o país no “mais do mesmo”.

Porque afinal, o que é preciso,
É tudo voltar ao mesmo, consumir (seja o que for, principalmente o que menos falta faz) e não pensar. E, na verdade, que melhor senão a pura alienação do espectáculo do futebol, mais o convencimento geral que isso é bom para o País e para os portugueses?

Mas não é um risco?
Mesmo que o seja, mesmo que mais ninguém na Europa queira verdadeiramente encher de povo um qualquer estádio de futebol, pelo perigo potencial que acarreta (ainda nesta fase) promover ajuntamentos daquele gênero.
O país pequeno daqueles que se prestaram (e prestam) ao ridículo, parece girar em volta deles, mesmo com um grave prejuízo, quer para a saúde pública, em geral, quer para a saúde mental, em particular.
Voltando ao campo de visão do burro, diríamos que, de tão estreito que lhe baste para a função, assim transportado para os humanos, precisaria de um pouco mais de imaginação: uma pequena luz que ilumina a escuridão e a que se costuma chamar conhecimento.
Mas, infelizmente, tudo isto parece muito pouco provável. 
É bom estarmos avisados...




[i] “Memorial do Convento” (1982), José Saramago, pág. 274

16 junho 2020

A “EXTREMA ADVERSIDADE











Poderíamos estar a falar da situação de cerca de 20% de cidadãos portugueses, que vivem em condições de pobreza, ou fome, ou mesmo miséria.
Poderíamos estar a falar das quase 5 mil e 500 cidadãos que, neste momento, estão a viver na rua, ou em centros de abrigo temporário. Para que se saiba, entre 2014 e 2018, o número de sem-abrigo subiu 157%, em Portugal (números da OCDE).
Poderíamos falar de um número ainda não calculado de cidadãos que perderam o seu emprego, devido à pandemia e ao aproveitamento que algumas grandes empresas fizeram dela.
Poderíamos estar a falar de um número também ainda não contabilizado de portugueses que morrem, por terem frio, em pleno século XXI.
Qualquer dos casos significam, para tanta gente do meu País, uma EXTREMA ADVERSIDADE. Sim, sem aspas.

NÃO!
Estamos a falar da afirmação de um banqueiro, que pelos vistos ganha, qualquer coisa como cerca de 30 mil euros por mês, e que se queixa de “EXTREMA ADVERSIDADE”, para pedir mais dinheiro ao Estado Português.
Que ele “peça” dinheiro, pelo banco dele estar na penúria (está sempre, aliás), não surpreende ninguém. Afinal, ele é responsável pelo prejuízo recorde de 179,11 milhões de euros (último valor conhecido). É ainda responsável (sabe-se agora) por vender um conjunto de activos do banco ao amigo "Rei dos Frangos" com desconto de 11 milhões de euros. E mais deve haver, que (ainda) não sabemos. O que surpreende é a circunstância de, dia a dia, estarem a ser conhecidas novas cláusulas do tal Contrato, que nem a Assembleia da República (AR) conhece...

São estas as “contas certas”?
A grande fala deste governo é a alegoria das contas certas. Por mais que queiram, Costa e Centeno, culpabilizar o governo de ocupação da troika, não se inibem de forma alguma das responsabilidades que têm na venda definitiva ao Lone Star. Assumam o erro e corrijam-no de uma vez!

Raiva ou racionalidade?
Penso que é natural a raiva, ao saber-se que o contrato do Novo Banco (NB) prevê a entrada automática de dinheiro do Estado, se sobrevirem “circunstâncias extremas” (assim escrito ou de outra forma qualquer).
Mas é a racionalidade que ora se impõe.
Não basta que o novo Ministro Leão aconselhe "calma e boa gestão" ao (ir)responsável pelo NB até ao final do ano.
A posição deve ser de imediato preparar as condições para a nacionalização do NB.
Tal significa, desde já, a AR investigar para ROMPER O CONTRATO e NACIONALIZAR O BANCO!



15 junho 2020

A PALAVRA TRAIÇOEIRA

O que valem as palavras?
No entender de Mestre Saramago, “As palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa[i]
O contraponto desta inteligente e sábia imagem, poderá ser encontrado na conhecida alegoria atribuída a um (pouco "abonado") presidente do Brasil[ii] que dizia ter encontrado o País à beira do abismo, “Connosco, vamos dar um passo em frente”.
O certo é que (as palavras) valem o que valem, o seu uso pode ser certeiro ou fatal, passando por degraus intermédios de complexidade.
Há uma que tem sido utilizada por Costa, para simbolizar a transição entre Centeno e Leão. Segundo ele, a política económica e financeira do País, orçamental quiçá, será então de “continuidade” e que a dita transição se faz (assim) de forma natural e sem sobressaltos.
Os “socialistas” modernos não gostam de sobressaltos, lá terão as suas razões. Na verdade, se sobressaltos tiveram existido, porventura não estaríamos agora com uma brutal dívida pública, agravada pela pandemia. Será que uma vez mais à beira do abismo? Cuidado com o passo em frente!
Mesmo partido do pressuposto que os portugueses (dizem) gostam da estabilidade, poderia questionar-se que portugueses afinal gostarão da “estabilidade” de ficarem na rua, sem emprego e sem habitação, sem o mínimo das condições de uma existência condigna, sem expectativa alguma (que conheçam) de ver mudar tal estado? Mas há alguns que gostam. Que gostam que tudo fique na mesma, mesmo que alguma coisa sejam obrigados a mudar, oh aparências.
A outra margem
O problema é saber se queremos atravessar e passar para a outra margem. É o rio que nos oprime ou são as margens que o oprimem a ele?[iii] Retórica à parte, o que Costa pretende mostrar, para não assustar ninguém, é que tudo vai correr bem, mesmo apesar de Centeno ir embora, para o tal “outro ciclo”, que poderá ser uma "ciclovia inclinada", lá para os lados da Rua do Comércio[iv].
A questão é porem algo (para não dizer completamente) diversa. E resume-se a isto: se continuar a mesma política de baixos salários e de falta de investimento público, agora que as condições concretas são bem diferentes de antes, o mais certo mesmo é o passo em frente da alegoria.
Impunha-se uma entrada de leão? Talvez, se coragem houvera para enfrentar o rio e querer passar para o outra margem, onde por exemplo, a aposta firme num tipo de desenvolvimento completamente diferente do que temos e onde se aposta fundamentalmente em duas “verdades” perversas, sendo a primeira aquela que reza que o desenvolvimento tem que ser o mesmo em toda a parte e a segunda que impõe o crescimento infinito, que já se viu onde irá dar.
O desastre?
Sim, o mais provável. Entretanto andaremos (por quanto temo ainda?) entretidos com a miragem dos não-sei-quantos-milhões da União, fazendo contas à laia do que não existe, ansiando (fé?) por melhores dias, com a mesma política de sempre: CONTINUIDADE, palavra traiçoeira, senão mesmo, maldita.
Vale a pena lembrar
Mesmo dando de barato que muito foi conseguido, no primeiro governo de Costa, onde campeava em Centeno, esquisito à primeira vista, tem que dizer-se que tal aconteceu devido sobretudo à enorme pressão da Esquerda Parlamentar e, de alguma forma também, a uma conjuntura internacional algo favorável.
Mas (há sempre um “mas”), nem Costa, nem Centeno queriam alcançar uma outra margem, tal não era aliás “permitido” pelos barqueiros de serviço, em Bruxelas e Estrasburgo. E, nem um nem outro, ousariam sequer fazer algo que desagradasse a quem comanda lá fora, continuando assim “bons alunos”. E nós, olhando o rio...
Um agoiro escusado
Um governo houve, de má memória, neste País, que quis utilizar uma outra alegoria. Chamaram-lhe “evolução na continuidade[v]. Me perdoem se faço injustiça, que os tempos agora são outros, as pessoas são outras, outro ainda é, apesar de tudo, o País que acabou, num belo dia de Abril, de derrubar quem pensava que enganava tudo e todos, com palavras de algodão.
Apenas se mostra um perigo iminente: falar ”às massas” de forma matreira e de sentido duvidoso, nunca dá bom resultado, é a tal teoria que se pode enganar durante algum tempo, mas depois...
Atravessar o rio...
No momento em que estamos a assistir a um aumento significativo do desemprego, urge pensar diferente, olhar para o rio, que entretanto vai crescendo em caudal, e ver (ou simplesmente pensar que) pode haver algo, na outra margem que seja minimamente interessante: onde possa não existir fome, nem miséria, nem desemprego, onde possa existir uma casa para qualquer um, onde os limites da decência não permitam que ninguém fique para trás, nem que se afunde simplesmente no rio, só porque uma qualquer cheia se avizinhe.
Tudo menos continuidade!
Aprender as lições, possivelmente lutar mesmo, em certas situações, contra a corrente, olhar o rio com a coragem necessária e com aquela força que significa por vezes audácia. De fazer diferente. CONTINUIDADE NÃO, OBRIGADO!
E nós, olhando o rio?

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[i] José Saramago, “A Caverna”(2000)
[ii] Artur da Costa e Silva (1899/1969), 27º Presidente do Brasil e 2º do período da Ditadura Militar, governou o Brasil entre 15 de Março de 1967 e 31 de Agosto 1969
[iii] Referência a um pensamento de Bertolt Brecht, “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”
[iv] Rua do Comércio, nº148: a sede do Banco de Portugal, em Lisboa
[v] Expressão utilizada por Marcello Caetano, o “fascista renovador”, Portugal 1969. Dizia-se, ao tempo, que viria uma “Primavera Marcelista

ALERTA GLOBAL!


Aqui lançado no dia (tinha que ser um Domingo?) em que o chefe do tal banco que se diz "novo", vem dizer que quer mais dinheiro, por causa da covid19.
Para além da desfaçatez e pouca vergonha do senhor em questão, esta é porventura uma resposta à "taxa de solidariedade" prevista para a banca em geral.
Mas este ALERTA é essencialmente um aviso à navegação, porque (quem sabe?) o novo centeno não vá já embarcar na puxada do homem e abrir os braços e a mente ao "chamamento", enfim os cofres, prevendo já uma qualquer cativacão, para acudir àquilo.

É preciso dizer que este banco, qual sorvedor automático dos dinheiros públicos, gasta milhões em publicidade, nas rádios, TV, jornais e revistas. Por exemplo, na minha qualidade de ouvinte da TSF, posso testemunhar que de meia em meia hora (no mínimo) há um anúncio sobre produtos, serviços, seguros, do tal banco, um delírio profundo de quem se diz um "apoiante da economia nacional" e detentor da patente "a economia somos todos nós". Se calhar é por causa desta afirmacão balofa e patética, que "eles" acham que todos lhes devemos pagar...
Muita atenção: este lançar o barro à parede não é inocente!
Alguém de direito tem que parar isto. Os Partidos Políticos e os muitos Movimentos Cívicos devem pronunciar-se e propor um cerco sanitário qualquer ao homem e à instituição que ele dirige.
Uma medida URGENTE de SAÚDE PÚBLICA e de SENSATEZ DEMOCRÁTICA!