rio torto

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18 setembro 2021

 UMA CONFRANGEDORA TRISTEZA

 

Parece triste de mais para ser verdade. 

Contudo, num dia em que muito se falou nos preços da energia em Portugal, os Ministros Galamba e Matos Fernandes, lançam-se para fora do País e acusam o Governo da Espanha (!) de mentir aos cidadãos.

 

Se mais preciso fora para provar a incompetência e mediocridade política dos dois Senhores, aí estão os factos, para provar. Não, meus Senhores, não atirem a responsabilidade para o Bloco de Esquerda, para disfarçar a Vossa demagogia. É toda Vossa a culpa da situação em que o País caiu, às mãos ávidas dos especuladores.

Aliás, a coisa pode resumir-se assim: ENQUANTO VEMOS O VALOR DA FACTURA SUBIR, ELES DIZEM-NOS QUE VAMOS PAGAR MENOS...

 

Merecem pois, tais personagens, o nosso repúdio e indignação. 

Estes e praticamente todos os outros que ocuparam os mesmos lugares, permitem que as grandes empresas de distribuição façam o que sempre fizeram, a coberto de uma auto-designada “entidade reguladora”, que apenas regula os seus interesses, que sempre coincidem com os do grande capital.

É triste, verdadeiramente muito triste, constatar que continuamos a ter os preços mais altos da Europa, com os salários mais miseráveis e a situação das famílias mais carenciadas a degradar-se sempre e cada vez mais.

É mais que certo que este “pequeno aumento” da energia se vai reflectir nos circuitos económicos, com a consequente subida dos produtos e bens de consumo imediato.

E tudo isto, ao que parece, em nome de uma propalada “descarbonização”, em favor de um “verde”, que apenas existe no cromatismo pérfido das cabeças “bem-pensantes” dos dignitários do capital. Quem têm na boca a “sustentabilidade” e na mão o machado da destruição da natureza e do equilíbrio natural e social.

 

Que estes senhores ainda estejam no Governo, não é de estranhar. Parecem de facto cumprir bem a função de “protectores"...

São, na linguagem “moderna”, os famigerados influencers, a saber, aqueles que detém o poder de influência num determinado grupo de pessoas. 

 

Depois que se queixem. 

Virão um dia (é sempre assim), dizer que foram perseguidos por perigosos “esquerdistas”, que apenas existem para “negar” a sua existência. 

Exige-se vigilância e muita atenção! 

Na verdade, é a acção de gente desta que contribui paulatinamente para o avanço do populismo e para abrir caminho à ascensão da extrema-direita.

 

23 agosto 2021

CARTA ABERTA AO MINISTRO JOÃO GOMES CRAVINHO

 

Porto, 23 de Agosto 2021

Senhor Ministro da Defesa Nacional do Governo da República,

Exmo. Senhor Dr. JOÃO GOMES CRAVINHO,

 

Ao Senhor Ministro da Defesa, me dirijo, por força do artigo de opinião, que publicou no DN do passado 18 de Agosto.

O Senhor é uma pessoa que bem conheço, dos tempos em que era SENEC[i] e eu desempenhava funções de Presidente numa ONGD, trabalhando também na Plataforma das ONGD e por quem manifestei, na altura, o meu respeito e alta consideração, pelo trabalho que desenvolveu, em prol da Cooperação e da Educação para o Desenvolvimento.

 

O título do referido artigo é elucidativo e quase diz tudo, “Duas décadas no Afeganistão ao serviço da paz e da segurança internacionais”. Na realidade, refere-se concretamente à presença portuguesa, ao lado das forças internacionais, a designada ISAF (Força Internacional de Apoio à Segurança). E refere ainda a RSM (Resolute Support Mission), que, segundo afirma, tinha como objectivo, “...a transferência da responsabilidade global pela segurança do país para as autoridades afegãs”(sic).   

Quanto à primeira (ISAF), é bom que se diga que foi uma força liderada pela NATO, classificada aliás pelo senhor Anders Rasmussen[ii], como “...a missão mais exigente que nossa Aliança já empreendeu” e sobre a qual disse, “... apesar de muitos desafios, e apesar dos contratempos ocasionais, estamos fazendo um progresso constante![iii]. E sobre a segunda (RSM), convém lembrar que foi formada a 1 de Janeiro 2015, para que a NATO pudesse conduzir “...uma nova missão, essencialmente de treino, aconselhamento e assistência, no Teatro de Operações do Afeganistão[iv]

 

Senhor Ministro, como pode dizer, que “...as nossas forças ofereceram um valioso e decisivo contributo para a paz e estabilidade na região”, quando a realidade demonstrou o mais rotundo dos fracassos, em toda a linha, quer quanto à “paz”, quer no reporta a “estabilidade”? Como é possível falar dessa forma, num momento em que os diferentes analistas e especialistas internacionais, são quase unânimes (finalmente) em afirmar que a intervenção no Afeganistão teve apenas como objectivo a tentativa de querer moldar (mais um) país, à sua imagem e semelhança, que (também infelizmente) não são um bom retrato para ninguém? Como pode ignorar que foi “apenas e só” uma ocupação de 20 anos, para deixar tudo na mesma ou ainda pior? 

Senão vejamos alguns números: 47 mil vítimas civis, 66 mil solados afegãos, 72 jornalistas e 444 trabalhadores de ajuda humanitária, sacrificados na guerra. Por causa desta guerra, o Afeganistão perdeu, em 20 anos, quase 3 milhões de habitantes, fugidos e agora refugiados e migrantes noutros países. Esta guerra de duas décadas, que matou milhares de soldados americanos, britânicos e de outros países (Portugal incluído), acaba por mostrar hoje, uma nação arruinada e perfeitamente desarticulada e que significou um custo calculado em mais de 2 mil milhões de dólares. 

 

Nem sequer o facto de terem sido resoluções das ditas nações unidas a ditar grande parte das “intervenções”, justifica agora esta profunda hipocrisia de americanos e “aliados”. A verdade é que o Império e o seu aparelho de guerra, a NATO, fugiram vergonhosamente, tal como em Saigão, no ano de 1975. E que o pretendido disfarce, não significa senão mais uma derrota estrondosa dos EUA e dos seus “aliados”. Entre os quais, está sempre e em todas as ocasiões, o nosso País, ou melhor, os governos do País (todos e sem excepção). 

Senhor Ministro, será que não consegue fazer um simples exercício crítico de memória, em vez da quantidade imensa de palavras que gasta na glorificação da guerra e no mais que evidente alinhamento com a versão oficial americana e da NATO? Ignora a devastação imensa produzida por uma guerra de ocupação, que, em vez de servir os propósitos que anunciou, aumentou o risco do terrorismo, no Afeganistão e no resto Mundo? Ignora o enorme arsenal de material e equipamento “oferecido” aos talibans, bem como todo um sistema informático de intrusão no domínio privado, que irá permitir aos talibans perseguir, decerto sem piedade, todos os que colaboraram? 

 

Senhor Ministro, será que não sabe, por exemplo, que o foi o primeiro dos presidentes promovidos pelos americanos (Hamid Karzai), que promulgou a lei xiita da família, em que era dado aos maridos o direito a forçar sexualmente as suas mulheres e que incluía a autorização do casamento de adolescentes de 14 anos? Como pode assim falar, no seu texto, em espezinhamento pelos talibans, de direitos das mulheres e raparigas, “esquecendo” o que fizeram pessoas como a que cito?

 

Senhor Ministro, aconselho-o a ler, na mesma edição do DN, o artigo da Susete Francisco, cujo título elucidativo é “Um “espantoso” erro de avaliação que não deixa Portugal incólume”. Talvez lhe avive a memória e o faça pensar em tudo o que escreveu. Remeto de novo para o título que escolheu, para lhe dizer, finalmente, que as duas décadas no Afeganistão, ao contrário de que afirma serem “...ao serviço da paz e da segurança internacionais”, foram ao serviço da guerra e da destruição, ao serviço dos ditames do império americano e dos amigos da NATO e demais “aliados”, que incentivaram regimes corruptos e outros interesses obscuros. E com os quais, o nosso País, o povo português nada tem a ver. 


Senhor Ministro da Defesa, a defesa que precisamos não é decerto a defesa que defende no seu artigo.

 

Os meus respeitos e melhores cumprimentos,

Alfredo Soares-Ferreira



[i] SENEC: Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, do MNE

[ii] Secretário-Geral da NATO, entre 1 de Agosto de 2009 e 30 de Setembro 2014 (Dinamarquês, ex-PM do seu país)

[iii] Citado por Domingos Rodrigues, “As Forças Armadas Portuguesas no Afeganistão”, disponível em: https://comum.rcaap.pt/bitstream/10400.26/7645/1/NeD130_DomingosRodrigues.pdf      

[iv]  Texto de Augusto de Barros Sepúlveda, no Jornal do Exército, disponível em: https://eurodefense.pt/o-contingente-nacional-no-afeganistao-resolute-support-mission/           

                  

                  

 

06 agosto 2021

 A TRAIÇÃO DOURADA

 

O Homem que traiu o seu País, cousa vulgar, na história de hoje de sempre, tantos houve, ao longo dos tempos, inenarrável de tanta vulgaridade. Dir-se-ia que Brutus e Judas, exemplos habituais, haveriam de produzir excelentes exemplares da traição clássica.

 

O contrário já é mais rebuscado. De modo que, quando o Homem se sente traído e encontra razões para saltar dos seus, para a propalada Liberdade e o faz de forma tripla, buscando o aplauso colectivo, porque o ouro conquistou, a gente gosta. O País rejubila, porque afinal essa outra cousa é tão rara, que tem mesmo que se ir sempre à História, procurar idênticos feitos, neste e noutros séculos, desde que os olímpicos jogos são notícia.

Então vem o Presidente e fala, ele que tanto gosta de o fazer, por isto ou por aquilo, fala sempre. E, pelos vistos, a gente gosta, que sim, que sabe reconhecer e mostra que sabe do que fala. Diz ele que devemos prestar homenagem e a gente presta, e rende-se ao feito, porque é uma honra e mexe connosco, ouvir o hino e ver a bandeira subir, é sempre a lágrima incontida, mesmo que não ao canto do olho. 

 

Somos, diz-se, um País pequeno, ouvimos isto e sempre lembramos. E sempre lamentamos, porque, diz-se também, já fomos grandes, um imenso Império, onde, diz-se finalmente, um dia nos afundamos. Mas nunca esquecemos. Há países identicamente pequenos. Há um, por exemplo, do outro lado do mar, que já sacou até agora, nestes jogos, 6 medalhas de ouro, 3 de prata e 4 de bronze. E, pelo que rezam as estatísticas oficiais, ganhou já 226 medalhas, sendo 78 ouros, 68 pratas, e 80 bronzes, ocupando assim, a 3ª terceira posição entre os países das Américas, em relação a conquistas de medalhas de ouro (atrás apenas dos Estados Unidos e do Canadá) e conquistou mais medalhas do que qualquer país da América do Sul. 

 

Curiosamente, é desse País que falamos, e que, diz o medalhado, o traiu. Então, diz ainda o herói, “Em Cuba sou um traidor, mas eu já não sou cubano...”. Esquece o herói que foi o País onde nasceu que lhe deu as bases para que ora seja ouro? Sobre isso, sabemos nada, mas afinal o que é que isso interessa? O importante para ele, é que irá receber 50 mil euro, para além da liberdade que conquistou ao saltar de um país onde era, segundo alegadamente, um “traidor”. 

 

Para além da habitual romaria de vaidades, quando um atleta conquista uma medalha, ao serviço do País, fica a incrível falta de aposta nas modalidades olímpicas, situação que se repete sistematicamente. E, talvez por isso, somos “obrigados” a festejar cada medalha, como se fosse a última, porque a continuar assim, o lugar modestíssimo que o País ocupa, será eterno. 

Desta vez foi assim, amanhã pode ser na mesma. Afinal, não deverá haver assim tantos cubanos a querer saltar...

31 julho 2021

A DIGITALIZAÇÃO DA REVOLUÇÃO SOCIALISTA

Por todo o lado, há bandeiras.  

Ruas e praças apinhadas de gentes. Bares, cafés e restaurantes, pubs e discotecas, o pessoal amontoado à porta, mesmo descontando a distanciação física, tudo desperto e expectante por mais um acontecimento, uma etapa necessária da transição anunciada e dada como determinante, para as vidas humanas. 

O autor destas linhas reconhece que estão criadas todas as condições subjectivas para a digitalização da Revolução Socialista.  Faltarão decerto ainda algumas condições objectivas e o fundamento deste artigo pretende precisamente significar uma decisiva contribuição para que tal aconteça. 

 

Sejemos, conjuntivamente, agentes digitalizadores!

A nova Revolução não será decerto 5 estrelas, mas sim 5G.

Nunca poderia ser em Outubro, mas no mês da Web Summit.

A Revolução Cultural será uma espécie de curso de formação de longa duração para reeducar para o pensamento dominante, reinterpretando a liberdade, na sua visão simplificada.

A ditadura do proletariado será substituída pela ditadura neoliberal em todas as suas vertentes, particularmente nas que dizem respeito aos direitos do cidadão, com a propalada “protecção de dados” e outras coisas que tais. 

O financiamento da Revolução Socialista sempre objeto de crowdfunding, ou seja de um financiamento colaborativo, embora obrigatório.

O exército vermelho passará a ser agora azul-celeste, para meninas e rosa-choque para rapazes.

 

Coisas que deixam de fazer sentido:

1. Digitalizar documentos uma vez que já está tudo digitalizado

2. Privatizar, diga-se de passagem, que também já não há nada para privatizar

3. Nacionalizar, que passa a ter como significado, Digitalizar.

 

Coisas que é preciso fazer com alguma urgência:

1. Digitalizar o que ainda não foi digitalizado, caso haja ainda algo para digitalizar (...)

2. Digitalizar a mobilidade terrestre, aérea e fluvial

3. Digitalizar o ar, versão leve de privatização que já não existe, porém.

 

Decisões:

1. O governo deixa de ser “Da República”, passando a ser “Da Rede”, simples e absolutamente virtual.

2. Os partidos políticos continuarão a existir, mas agora em versão PDF e revestidos de película transparente.

3. As comunas serão desinfestadas e, após a desinfestação, transformadas em centros de negócios virtuais.

 

Consequências: 

1. O governo, virtual, terá um número flutuante de ministros e de secretários de estado e eleito via facebook.

2. Os tribunais digitais julgarão os traidores à causa digital, que poderão ter, como pena máxima, a passagem de 5 para 4G.

3. As plataformas continentais passam a ser plataformas digitais

 

Finalmente, diga-se que a questão que hoje deve colocar-se não é decerto se é possível digitalizar a Revolução Socialista, mas sim como se deve fazer a digitalização da Revolução Socialista.

Apesar de haver quem diga que "Estamos a caminho de ser governados por Estados que sabem tudo o que há para saber das pessoas e sobre as quais as pessoas sabem cada vez menos"[i], a verdade é que já falta pouco para o fim da democracia...

A conhecida tese de Vladimir Ilyich Ulianov, "O socialismo significa os sovietes mais electricidade”, será reescrita e passará a ler-ser, “O socialismo do futuro será unplugged e completamente digitalizado”.

O que se determina e não foi determinado, jamais será alcançado!

 


[i] Arundhati Roy, Arquitecta, escritora, e activista indiana.

 

25 julho 2021

 ASSIM MORRE UM POUCO DE ABRIL...

 


 


























OTELO SARAIVA DE CARVALHO

 

Otelo partiu hoje.

Atrás dele está toda a preparação e execução do 25 de Abril. 

Com ele, estão aqueles que acreditaram sempre que era possível derrubar a ditadura fascista. Dele irão guardar a memória do golpe militar que se transformou numa revolução popular, pela liberdade, pelos direitos e pela transformação social.

 

Dele falou a Isabel do Carmo, com aquela autoridade que lhe reconhecemos, dizendo sobre a parte dita não-consensual do Homem de Abril, que nada é, na realidade, consensual, a começar pelo próprio 25 de Abril, com a imagem tão simples, que ele não é de todos, não é o Natal.

Sobre ele opinou, com alguma emoção, o Sousa e Castro, com o à-vontade de quem o prendeu naquele dia triste de Novembro 75, “...estou psicologicamente preparado para ver e ouvir os pulhas que, vivendo em liberdade, vão cuspir de forma grosseira no prato de quem tudo fez e arriscou para lhes dar a liberdade, a liberdade até de serem pulhas...”.

 

Otelo partiu.

Deixa um rasto de saudade, assim o disseram hoje homens e mulheres do meu País, que não esquecem a Revolução, por mais voltas que ela tenha dado, a maioria das quais, a desmerecerem-na. E que também lembram ainda os tempos em que a liberdade estava coarctada e o fascismo encarcerava, torturava e matava indiscriminadamente. 

Dele foi dito que era generoso e afável, até na altura em que foi preso, dizendo sempre que “estava bem”. 

 

Otelo partiu, mas é, sem sombra de dúvida, um HERÓI NACIONAL.

Que os pulhas se alimentem e, como chacais, que façam o seu papel, acicatando as consciências frágeis. Afinal, continuarão a existir e a cumprir o desígnio de encantar, elaborando fábulas sobre um destino que nada nos diz.

A melhor forma de lembrar Otelo, será hoje, defender os que a sociedade rejeita, com falas mansas, luvas e colarinhos brancos. Será, por exemplo, ocupar uma casa devoluta, para alojar um sem-abrigo ou uma família. Será defender sempre os trabalhadores, que tudo produzem e com pouco ficam. Será lutar pela integração, pela diferença, pela verdadeira igualdade.

 

LEMBRAR OTELO, SERÁ LEMBRAR SEMPRE O 25 DE ABRIL DE 1974!

 

19 julho 2021

ESBURACA TOUPEIRA

 

A toupeira saiu à rua num dia assim-assim, deu logo, à esquina do buraco, com merda de cão. E disse (sim, porque a toupeira diz), que merda! 

Óbvio, pois não podia ser de outra maneira. Mas por que raio havia de me calhar isto? Parvo será o dono, que não o cão, que naturalmente caga em tudo quanto é sítio. 

Eu esburaco, sim senhor e lá vou descobrindo alguma coisa. Para além da merda de cão, digo eu. Pois sim, a jogar com as palavras, disso a toupeira não sabe, não tem estudos, não encontra decerto a melhor forma de dizer as coisas.  Mas esburaca, sim senhor. 

Perdi o número de vezes que, ao esburacar, vem logo alguém tapar o buraco. Não sei porquê, mas acredito que há sempre algo a esconder, a tapar ou coisa assim. Toupeira sim, estúpida não, se assim fora, o Zeca não teria dito que queria ser como eu, que bem lembro aquele natal em 72, quando o disco dele saiu e haveria de provocar mais ondas de choque que qualquer buraco que eu possa fazer, mesmo com a ajuda de muitas colegas minhas.

Quem mais esburaca, mais merda encontra, podem crer. 

A melhor forma de tal não acontecer é seguramente deixar de escavar. Mas há tanta coisa que deveríamos descobrir e não conseguimos porque há sempre alguém a tentar desfazer o que, com alguma coragem e sacrifício, vamos fazendo, precisamente quando esburacamos, como a toupeira.

Sejamos então toupeiras, digo eu.

 

 

27 junho 2021

 VÍCIO INERENTE 

 

Com este magnífico título, o realizador norte-americano Paul Thomas Anderson, realizou,  quando tinha apenas 44 anos, um filme[i] que é especial, na exacta medida do misto entre a ironia e o ridículo. Atente-se na cena de “reposição” da "Santa Ceia" transformada em pizzada, o suficiente para desconverter o discurso do mítico sonho americano.

 

Há de facto vícios inerentes. Vícios que são privados, outros que foram há muito “nacionalizados” e assim se tornaram públicos. Tal como as possíveis virtudes, inerentes aos privados (vícios) que ora (não) abundam e deixam os seus mentores desapossados. A bem dizer.

 

Vem a rábula cinematográfica a propósito do discurso pífio da neutralidade. É, como todos os vícios, inerente ao estado de alma dos dirigentes que, a propósito de qualquer coisa que possa mexer em altos interesses, ou em discutíveis opções que os possam ferir, decidem ser “neutros”. Aos factos, respondem invariavelmente da forma mais mesquinha, ficando quietos e mudos, numa pertença posição, que de neutra apenas tem a hipócrita face do ilusório.

Do ministro Augusto não se pode esperar nada que não seja a cartilha gasta e putrefacta da mediocridade. Às utopias, diz nada, aos direitos quase nada, que não seja a linguagem politicamente condicionada pelos altos ditames de uma coisa que nem sequer existe, como o é, por exemplo, a “amizade” de amigos mal-recomendados.

De um governo que ocupa, a presidência da “coisa”, deveria esperar-se uma tomada de posição, ou, no mínimo, um alinhamento com a moção que condenava a mais descarada homofobia. Pois não. A invocação da neutralidade, em matéria de Direitos Humanos é a maior vergonha a que o País foi sujeito e demonstra, para além do evidente erro de palmatória, uma falta de nível tremenda, dando de barato ao infractor uma vantagem inequívoca.

Colaboracionismo. Esta é mesmo a única interpretação e classificação possíveis. Uma mancha indelével, para quem tem nas palavras e nos actos, a demonstração evidente do alinhamento mais descarado. 

 

Nada poderá “salvar” a indigência. Não se pode ser neutro, em matéria de Direitos Humanos. Nem o uso eventual de uma pesada droga, poderá justificar tamanho disparate institucional. Uma qualquer ilusão de querer “ficar bem”, cai na terra pantanosa da indiferença generalizada, a que mereciam ser “condenados”. Quem não sabe semear o pão, não merece comê-lo, diz a sabedoria popular, que é tudo menos neutra.

 

Quem está do lado “neutro”, está objectivamente do mesmo lado dos que tentam subjugar os outros, pelas ilusões de domínio e do poder fátuo da repressão. Está claramente a colaborar, no dito caso que é muito concreto, com a arbitrariedade e a repressão, está a colaborar na mais nefasta campanha pela Liberdade da pessoa humana, os seus gostos e a sua orientação, moral, social e sexual. Quem quer ser neutro, em matéria de Direitos Humanos, está a mostrar verdadeira face, abjecta sempre, do colaboracionista.

 

Na outra fita[ii], o herdeiro do trono austro-húngaro dedica-se à libertinagem e ao deboche, um sinal que lhe é “transmitido” e, de certa forma, permitido. Aqui não há liberdade, apenas a demonstração cabal do poder dos ricos e poderosos.

 

No filme de Anderson, o intérprete está sempre limitado, pela dificuldade constante de compreender o global, um vício”, “inerente” à sua própria condição. Na cena do ministro Augusto, o que torna o “vício inerente” não é decerto a incapacidade de ler e fazer melhor. É apenas e só a manifestação da falta de vontade política de lutar pelos direitos e pelas causas. Por defeito crónico de não querer assumir uma identidade própria. São pessoas meias-tintas, os ditos nem-nem, os que melhor atestam a sociedade do consumo imediato e de certa forma, de uma pobreza de espírito, que jamais os alcandorará a um lugar na História, pelo nítido desprezo a que devem ser votados.  

São a escala mínima do ser humano. 

 


[i] Vício Inerente” (2014), argumento e direcção de Paul Thomas Anderson, com Joaquin Phoenix, Josh Brolin, Jena Malone, Katherine Waterston, Owen Wilson, Benício del Toro, Maya Rudolph, Sean Penn, Reese Witherspoon e Martin Short

[ii] Vícios Privados, Públicas Virtudes (1976), direcção de Miklos Jancso, com Lajos Balazsovits, Pamela Villoresi, Franco Branciaroli, Teresa Ann Savoy, Laura Betti, Ivica Pajer.

 

 

20 junho 2021

 GEOGRAFIA DO SILÊNCIO


 

















Sabe-se que há silêncios mais eloquentes que palavras.

Guarda-se silêncio, por isto ou por aquilo, por vezes nem sequer sabemos porque o fazemos, tamanho é o espanto perante o que se passa à nossa volta, estranha realidade que se quer imiscuir no nosso quotidiano e nos perturba o dia a dia.

Direito a um silêncio que reputamos imprescindível, perante a vozearia que perpassa por todo o lado, num crescendo de tal forma violento, que parece querer destruir o pouco que ainda temos, de algum recato a que temos direito.

Pensamos aí, se ainda nos resta algum direito, que se pode resumir em simplesmente não querer mais. O direito de não querer saber. De não querer saber dos desastres, das tricas e das disputas, das hipotéticas desavenças, dos ditos “factos”, arquitectados em gabinetes de fala-baratos e profetas da desgraça.   

Se vantagens houve no mediatismo social das últimas décadas, eis que ora escapam por entre os dedos e confundem-se com a mexeriquice das tias das várias linhas, em mapas desenhados com mesquinhice e cretinice. 

Ouvem-se a eles próprios, convencidos que representam alguém, como se houvesse alguéns que queiram ser representados. Aliás, a suposta representação escapa e estingue-se, no momento preciso em que abrem a boca e vomitam estupidez, em forma de informação. Alguns até piscam o olho, num assomo supremo, misto de ignorância e ignomínia. Que lhes valha a tela que têm pela frente e os protege da ira popular, se ela existe e tem força, ainda que contida. 

 

Daí que o silêncio pode construir uma geografia eloquente, perante tanta falta de sabedoria. Assim, talvez venha a obter um estatuto, capaz de ombrear com tanta pequenez, moral e intelectual. Valha-nos a razão de não querer, assista-nos o direito de não alinhar. Haverá algures um mapa, ao qual a geografia presta contas, ainda que seja desenhado com uma qualquer geometria variável, onde caiba, pelo menos, a diversidade que nos querem subtrair, sob a forma recente da auto-proclamada “resiliência”. 

Iremos por aí, encontrando esta e aquele, tu e mais alguém que resista, recordando os tempos de uma noite triste, onde apenas havia escuro e perfídia. E, como o Poeta nos ensinou, “...há sempre alguém que diz não”, recusando em definitivo, toda e qualquer servidão. 

 

Apenas murmúrios, vindos de outras terras, relatam dores e prantos, por vezes invisíveis aos ouvidos. Respostas não existem, apenas um perplexo estado de mutismo, quiçá insensibilidade, perigo constante que espreita as sociedades que fazem do lucro e do consumo, o supremo estado de alma. 

Deixem vir até nós as vozes de quem tem algo para dizer, talvez um “...desafio pairando sobre o rio”. Talvez uma miragem...

 

26 maio 2021

 UM POTE COM MAIS OU MENOS “MEL”


 









A imagem do cartaz, profusamente instalado no País, cai, como sopa no MEL, no regaço das direitas. Ora refastelados em poltronas, ora da janela de uma penthouse, na administração de uma grande empresa, num banco, ou simplesmente gozando uma reforma de mais de 20 mil euro, com muita grana ou muito MEL, eis os novos senhores que, conforme os ventos e as tempestades, vão ditando a sua lei, construindo a falácia mais bem tecida, ou apenas gozando com a pobreza.

 

Por vezes elevam a voz, num clamor constante. Contra o Estado, contra o que chamam a subsidiodependência, contra tudo que cheire a protecção de quem trabalha. Muitas vezes contra a Vida e contra o ser humano, que apelidam de “bandido”, apenas porque a cor da pele é diferente da sua. Outras vezes, limitam-se a querer “exterminar” outras vozes diferentes da sua. Tantas vezes, insultam a nossa inteligência, com uma demagogia barata, proferida com a voz doce da arrogância, ou com a alarvidade da sua manifesta intolerância.

 

Todavia, procuremos concentrar-nos no que propõem. O que terão afinal para oferecer às pessoas, à sociedade em que estão inseridos e onde gozam de liberdade bastante, embora pareçam querê-la só para si e para o gozo de certos direitos. Há um pormenor que não devemos esquecer: entendem pelos vistos, no que reporta a direitos, que têm o “sagrado” dever, que alguém lhes terá outorgado, de definir o chamado “interesse nacional”, numa pátria de que se julgam donos, até da consciência colectiva. O que têm então para oferecer? Pensamos e vemos, trazemos de um passado recente, mas também de um outro passado, exemplos suficientemente elucidativos. Daquele tempo em que eram uma única voz, uma “união nacional”, que encarcerava, torturava e matava, em nome da nação, apenas e só por isso. Exterminava, é bem verdade. Não esquecemos. Mas há um outro tempo, aquele em que entregaram o País à fúria exterminadora do capital, vendendo património a preço da uva mijona, subtraindo aos mais carenciados até aquela fatia de rendimento mais pequena que dava para sobreviver, mandando os jovens para fora do País, privatizando tudo o que mexia, em nome de eficiência e da eficácia de uma gestão ruinosa, que apenas determinava que “vivíamos acima das possibilidades”, uma vez mais a tal voz única, que sentenciava não haver alternativa. Não esquecemos também.

 

Elas e eles têm nomes e nós conhecemos os seus rostos e o seu pensamento. Muito embora alguns se tenham possivelmente travestido de democratas, comentadores ou dirigentes, empregadores e beneméritos, pagadores de promessas e vendedores de sonhos, o certo é que acabam todos no mesmo pote. Que às vezes tem MEL.

 

Olhando o mundo pela perspectiva destas senhoras e senhores, a coisa é muito simples: afirmam-se “...contra os partidos que se inspiram em Estaline e Mao, são eles que suportam o partido que está no poder”, assim mesmo o disse o anfitrião da tal agremiação que dá nome “cândido” de IL e que ostenta cartazes como aquele, que apenas servem para enganar e deturpar a mais simples das verdades da própria realidade capitalista, “menos impostos, melhores salários”. Acontece que esta premissa parece apenas ser válida para os donos daquele hipermercado que paga os impostos na Holanda. Abençoado “socialismo” que tal coisa permite...

 

Alguém falou em uma “lua de MEL para unir os partidos e relançar a direita”. Precisam para tal, de um “dote”, ou de um “pote”?

29 abril 2021

15 ANOS DA ENGENHO & OBRA

 









Há precisamente 15 anos, a 29 de Abril 2006, haveria de nascer uma nova organização, vocacionada para as questões do Desenvolvimento e da Cooperação, a nível nacional e internacional.

O Cartório Notarial de São João da Madeira seria o escolhido, para a Escritura Pública de constituição da ENGENHO & OBRA.

Foi um Sábado de sol, recordo bem esse dia, em que passamos umas boas 4 horas, fechados no Cartório, o acto assim o determinava, dado que, para além de umas três dezenas de Associados individuais, estavam também várias Entidades, públicas e privadas, às quais era exigida a apresentação de documentação comprovativa, inerente a estas situações.

Era manhã bem cedo, quando fomos buscar o Victor[i], a sua casa. Recordo a quantidade de dossiers que transportava, era ele o digníssimo representante da primeira das Entidades Fundadoras, aquela que foi (e ainda é) a Sede Nacional da Associação, a nossa Casa: o ISEP.

Em São João da Madeira acabaram por confluir pessoas e organizações, um pouco de todo o País, de Viana do Castelo a Setúbal, passando por Braga, Vila Nova de Famalicão, Barcelos, Porto, Aveiro, Coimbra e Lisboa, para a Fundação da E&O, que se pretendia uma entidade com abrangência nacional. 

Embora não tivesse sido possível juntar toda a gente num almoço, algumas das pessoas tinham que regressar a suas terras, conseguimos efectuar um simpático convívio, após o final do acto notarial.

 

Hoje, 15 anos depois, é justo que se assinale o 29 de Abril do ano 2006.

Porque muito trabalho aconteceu nestes anos, muitos foram os cidadãos que contribuíram para que a E&O fosse reconhecida, a nível nacional, mas também a nível internacional, com particular destaque para todos os países de língua oficial portuguesa, em 

África e no Sudoeste Asiático, fruto de muitas vontades, de voluntariado activo e da solidariedade internacionalista. Um empenhamento que contribuiu decisivamente para a concepção, execução e disseminação de actividades e projectos, cujo objectivo central sempre foi, segundo a Missão da Associação, o de contribuir para a autonomia das populações, uma das formas de melhorar a sua qualidade de vida. 

 

Alguém um dia contará as estórias desta Associação, porque vale a pena dar a conhecer o que se fez, por onde se andou trilhando caminhos quiçá pouco conhecidos, atravessando rios com um caudal imenso de Conhecimento, tentando integrar saberes, gostos, gestos, lamentos e sorrisos, dos povos com quem sempre procuramos aprender e ainda hoje lembramos, com muito respeito e profunda admiração.

Lembramos hoje aqui, os Amigos que nos deixaram, que tanto nos deram e tanta falta nos fazem, a Olímpia Soutinho, na sua postura simpática e altamente profissional, o José Augusto Rocha e Silva, um engenheiro sábio e preocupado, o Raimundo Delgado, um professor e mestre da simplicidade e da grandeza.

E prestamos homenagem a todos os que, em Portugal, Angola, Cabo-Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe e Timor-Leste, connosco trabalharam e nos honraram com a sua sabedoria, cumplicidade e muita Amizade. As ONG de Desenvolvimento, que são conhecidas como ONGD, constituem uma parte determinante da Cidadania, nas suas vertentes de multiculturalidade e da prossecução de objectivos internacionais comummente aceites, em defesa das populações mais fragilizadas e marginalizadas.

 

Um viva muito especial à E&O, de quem tem esta organização sempre no coração e na memória das coisas boas da Vida!

      



[i] Eng. Victor Santos, Presidente do ISEP, Instituto Superior de Engenharia do Porto

25 abril 2021

 






Era um dia escuro e húmido. Arrancado da cama (uma estória já contada...), com a Revolução na rua, pensei de imediato no golpe das Caldas, apenas um mês antes. Havia qualquer coisa no ar, o que não havia era certeza alguma. Esperávamos somente que o fascismo caísse, força da nossa luta, força da enorme pressão social dos últimos 4 ou 5 anos, uma insustentável situação, de que as conversas em família do marcelo, eram o sinal de fragilidade aterradora de um regime podre, que vinha de tantos anos de terror, pobreza e miséria, aqui e nas colónias. Uma guerra que seria o meu destino “natural”, para onde iria seguramente, uma vez perdido o direito ao adiamento, circunstância que levaria a equacionar, no início desse ano, o abandono do País. Não sabíamos, portanto, não havia respostas. Saímos para a rua, esperando que esta nos desse algumas, que as possíveis movimentações populares nos conseguissem explicar o que se estava a passar. Não ouvíamos logo a rádio, apesar de bem me lembrar (depois) de ter ouvido, religiosamente como sempre, o “Limite”, do Leite de Vasconcelos, na Renascença, onde passaria o “Grândola”, pouco depois da meia-noite. Contudo, nunca me passaria pela cabeça, estar a ouvir a segunda senha do 25 de Abril, praticamente meia-hora depois da primeira (que não ouvi), nos Emissores Associados de Lisboa, justamente o “E Depois do Adeus”. A rua, entretanto, não nos dava respostas, a não ser uma série de informações contraditórias, que a coisa poderia dar para o nosso lado, mas também para um outro lado negro, o dos fundamentalistas do regime. Foram os Amigos, os colegas mais velhos da faculdade, para onde seguimos, já no final da manhã, a ajudar, com aquela cumplicidade anti-fascista, a que nos situássemos, há sempre alguém que consegue ter alguma informação que nos anime, um que tinha ouvido o 1º Comunicado do MFA, pelas 4 da manhã, “Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas, nas quais de devem conservar com a máxima calma...”. Soubemos depois, ao contrário do apelo, do imenso levantamento popular, na Cidade, que bem nos mostram hoje os arquivos da memória, de que relevo hoje, o nosso grande Capitão Salgueiro Maia (com quem haveria de privar, 1 ano depois, na minha tropa, na Escola Prática de Cavalaria) a dar voz de prisão aos ministros que acabariam de fugir, borrados de medo, do Terreiro do Paço, ou a exigir a rendição incondicional do chefe do governo, no Quartel do Carmo.

 

Nós que vínhamos de Coimbra em 69, conhecíamos bem a rua, não tínhamos medo de nada, mesmo com medo de quase tudo. Vimos e participámos da Luta:

Eu vi este povo a lutar

Para a sua exploração acabar

Sete rios de multidão

Que levaram a história na mão...”

A recordação desse dia, leva-me à Praça da República e aos Aliados, já durante a tarde e ao episódio da troca de tiros, com a PSP, os resquícios da repressão, a marca do regime, já agonizante. Ouvimos agora a rádio, era a voz da Luísa Basto, alto aí, a cena parece ser outra, aquela voz é das nossas, ajuda a dissipar as dúvidas. Cerramos fileiras, gritamos bem alto, era a luta de tantos anos e tantas vidas, a exigir a Liberdade, o fim da PIDE, a libertação dos presos políticos, era o prenúncio da Liberdade a sério, era o erguer do punho cerrado, contra a exploração e a opressão.

Recordo então o Zeca, percebo agora a senha:

Grândola, vila morena

Terra da fraternidade

O povo é quem mais ordena

Dentro de ti, oh cidade...”

 

Era uma 5ªfeira, o sol tardava a aparecer, num dia tão belo, faltava a sua luz, a sua cor. Mas sobrava a força para ajudar a queda de um regime, que nos havia roubado a juventude, mas nunca a esperança, nunca o sorriso da Vida, era o cravo do “Portugal Ressuscitado”:

Depois da fome, da guerra

Da prisão e da tortura

Vi abrir-se a minha terra

Como um cravo de ternura...”

 

São hoje 47 anos do Abril 74, curiosa imagem, hoje possível, porque fomos capazes de consolidar uma nova República, apesar de todos os todos, apesar da imperfeição, apesar da flor murcha, substituída pelo cravo e papel, ou pelo cravo digital, impensável à época. Apesar da perda progressiva da soberania, em flagrante desrespeito pela Constituição, a República celebra a Liberdade, ocupa e desce a Avenida, trazendo a Luta para fora de portas, fazendo greve por direitos, levantado a voz contra injustiças. Pesem embora todos os contratempos e arbitrariedades, há sempre quem esteja disposto a dar a cara e ir à luta e que não tenha medo, o medo que “eles” querem que tenhamos.

Havia quem dissesse, ao tempo: 

“...não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.”

Que o queriam “cego e mudo”, hoje bem mais brando, apenas “calado e consensual”.

Mas como afinal: 

Foi então que Abril abriu

as portas da claridade

e a nossa gente invadiu

a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra 

na madrugada serena 

um poeta que cantava 

o povo é quem mais ordena...

(...)

Agora que já floriu 

a esperança na nossa terra 

as portas que Abril abriu 

nunca mais ninguém as cerra.”

 

Havemos sempre de encontrar, em qualquer cidade, uma qualquer parede branca, para escrever, com vontade e com garra:

 

25 SEMPRE, A LUTA CONTINUA!

 

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Citações dos autores, pela ordem em que entram: José Mário Branco, José Carlos Ary dos Santos, Fernando Tordo, Jorge de Sena e Sérgio Godinho

23 abril 2021

DIA MUNDIAL DO LIVRO E DOS DIREITOS DE AUTOR


 

















Neste dia, 23 de Abril celebra-se o LIVRO.

A imagem do livro é para mim, como para tanta gente da minha geração, o símbolo máximo do Conhecimento e da Liberdade.

Com ele convivemos e a ele lhe continuamos a dedicar grande parte da nossa vida, o nosso companheiro, sabemos-lhe o sabor e o cheiro, o significado que tem, sempre e em cada momento.

Kafka, dele diria, “...deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós.”

 

Neste dia, que serve para realçar o VALOR de um livro e possivelmente a mensagem que lhe está (sempre) subjacente, deixo a foto de capa de um dos livros que marcou a minha formação social e política.

É uma edição de 1974, impresso na Tipografia Central da Borralha, em Águeda, a edição nº 157, datada do mês de Abril. Dele deixo uma pequena nota da contra-capa: “Trata-se de uma antologia, organizada por ERNEST MANDEL, sobre Conselhos Operários, Autogestão, Contrôle Operário, nas diversas fases da ascensão do proletariado em face da empresa. O autor expõe, de forma bastante clara, as transformações operadas na sociedade até aos nossos dias”.

Do Autor, que recordo com saudade, porque o conheci e com ele me lembro de conversar, nos anos da Revolução, quero registar que nos deixou no ano de 1995, com 72 anos, tendo-nos legado várias obras, das quais destaco o “Tratado de Economia Marxista” (1962), que nós apelidávamos ternuramente apenas de “Traité”.

 

A outra obra que também quero hoje recordar e que foi talvez a primeira leitura importante, em matéria de filosofia política: “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” do Engels, um livro inesquecível, por tudo e mais alguma coisa e também porque foi um dos livros que me “desapareceu”, na voragem daqueles tempos...

 

O LIVRO NÃO É UM OBJECTO QUALQUER, ELE FAZ PARTE INTEGRANTE DE NÓS E DAQUILO QUE SOMOS!