
A CAVERNA DO JOSÉ
José conta-nos uma história. Uma história simples, uma história de todos os dias. Uma história dos dias de hoje, dos dias que passam, devagar para uns, depressa para outros, mas que vão passando, sem que na maior parte das vezes nos demos conta que somos constantemente envolvidos por um ritmo que parece não ser o nosso, um ritmo que somos obrigados a seguir, sem muitas vezes nos questionarmos porquê.
José conta-nos a história de Cipriano, um oleiro que vive com a filha Marta e que fabrica peças de cerâmica para o Centro, onde tudo se compra e tudo se vende. O Centro é a cidade, ou melhor como diz Cipriano, "por vezes o Centro parece maior que a cidade". De um momento para o outro, sem que nada o fizesse prever, os responsáveis informam Cipriano que já não querem mais peças da olaria, porque os clientes preferem comprar peças em plástico, que fica mais barato. Em face da previsível situação de deixar de ter a quem vender, Marta tem a ideia brilhante de diversificar a produção da olaria e, em vez das peças habituais, os pratos, as travessas, produzir bonecos decorativos; então vai Cipriano apresentar ao Centro a nova proposta que é aceite. A partir daí, dá-se uma verdadeira revolução na olaria, com novos produtos, que originam novos processos de fabrico, descoberta de novas técnicas, nova vida empresarial. Paralelamente a tudo isto, a história orienta-nos para uma espécie de determinismo fatal: é que Marçal, marido de Marta, é guarda no Centro e, mais cedo ou mais tarde terá de ir viver para um apartamento lá mesmo situado e, para Cipriano não ficar sozinho, irá com eles, deixando a olaria.
Vale mesmo a pena determo-nos na leitura da história para nos apercebermos do crescente processo de desumanização que vamos vivendo e que o autor quer naturalmente alertar. Para nos darmos conta daquilo que está bem à vista, com as nossas cidades cheias das novas catedrais do consumo. Esses centros, onde tudo é igual, até os cheiros (a hambúrguer e pipocas), as mesmas marcas, as mesmas lojas, as mesmas salas de cinema, …As pessoas vão entrando nas cavernas de todos os dias, uma espécie de lugar onde se vão sentando, olhando em frente, para uma parede por onde passam sombras, julgando que essas sombras são a realidade (Platão, Alegoria da Caverna)
Cada vez é maior o fosso entre o conhecimento e a ignorância e parece à primeira vista que a grande maioria das pessoas está dominada e ofuscada por meia dúzia de estereotipos fúteis, incapaz do exercício de simplesmente pensar, "aceitando" ser formatada por padrões de vulgaridade, de baixo gosto e de ausência de conceitos. Essa tentativa de formatação é visível em todos os sectores da sociedade, e necessária para que a elite do poder se vá perpetuando, sem grandes choques. É contra esta lógica perversa que José escreve, lançando questões e fazendo avisos.
No mundo dos computadores, quando queremos formatar uma vulgaríssima disquete, o sistema avisa, para o caso de estarmos a formatar algo onde temos gravado dados importantes, através de uma mensagem: "Aviso: A formatação apagará TODOS os dados contidos neste disco. Para formatar o disco, clique em OK. Para sair, clique em CANCELAR."
A questão é que para a "nossa formatação" não haverá um aviso semelhante; ou melhor, haver há; os avisos são os livros como os de José, que nos chamam a atenção, que nos despertam, nos ligam à vida, às pessoas, aos ideais, enfim ao encontro de um sentido para a existência. Face a isto, dizemos simplesmente "OK", ou rejeitamos em definitivo e dizemos "CANCELAR"?
Ao interrogarmos a nossa própria entrada para uma qualquer caverna, saibamos parar e perguntar como faz José: "... o que me preocupa neste momento é saber: que diabo de gente somos nós?"
José conta-nos a história de Cipriano, um oleiro que vive com a filha Marta e que fabrica peças de cerâmica para o Centro, onde tudo se compra e tudo se vende. O Centro é a cidade, ou melhor como diz Cipriano, "por vezes o Centro parece maior que a cidade". De um momento para o outro, sem que nada o fizesse prever, os responsáveis informam Cipriano que já não querem mais peças da olaria, porque os clientes preferem comprar peças em plástico, que fica mais barato. Em face da previsível situação de deixar de ter a quem vender, Marta tem a ideia brilhante de diversificar a produção da olaria e, em vez das peças habituais, os pratos, as travessas, produzir bonecos decorativos; então vai Cipriano apresentar ao Centro a nova proposta que é aceite. A partir daí, dá-se uma verdadeira revolução na olaria, com novos produtos, que originam novos processos de fabrico, descoberta de novas técnicas, nova vida empresarial. Paralelamente a tudo isto, a história orienta-nos para uma espécie de determinismo fatal: é que Marçal, marido de Marta, é guarda no Centro e, mais cedo ou mais tarde terá de ir viver para um apartamento lá mesmo situado e, para Cipriano não ficar sozinho, irá com eles, deixando a olaria.
Vale mesmo a pena determo-nos na leitura da história para nos apercebermos do crescente processo de desumanização que vamos vivendo e que o autor quer naturalmente alertar. Para nos darmos conta daquilo que está bem à vista, com as nossas cidades cheias das novas catedrais do consumo. Esses centros, onde tudo é igual, até os cheiros (a hambúrguer e pipocas), as mesmas marcas, as mesmas lojas, as mesmas salas de cinema, …As pessoas vão entrando nas cavernas de todos os dias, uma espécie de lugar onde se vão sentando, olhando em frente, para uma parede por onde passam sombras, julgando que essas sombras são a realidade (Platão, Alegoria da Caverna)
Cada vez é maior o fosso entre o conhecimento e a ignorância e parece à primeira vista que a grande maioria das pessoas está dominada e ofuscada por meia dúzia de estereotipos fúteis, incapaz do exercício de simplesmente pensar, "aceitando" ser formatada por padrões de vulgaridade, de baixo gosto e de ausência de conceitos. Essa tentativa de formatação é visível em todos os sectores da sociedade, e necessária para que a elite do poder se vá perpetuando, sem grandes choques. É contra esta lógica perversa que José escreve, lançando questões e fazendo avisos.
No mundo dos computadores, quando queremos formatar uma vulgaríssima disquete, o sistema avisa, para o caso de estarmos a formatar algo onde temos gravado dados importantes, através de uma mensagem: "Aviso: A formatação apagará TODOS os dados contidos neste disco. Para formatar o disco, clique em OK. Para sair, clique em CANCELAR."
A questão é que para a "nossa formatação" não haverá um aviso semelhante; ou melhor, haver há; os avisos são os livros como os de José, que nos chamam a atenção, que nos despertam, nos ligam à vida, às pessoas, aos ideais, enfim ao encontro de um sentido para a existência. Face a isto, dizemos simplesmente "OK", ou rejeitamos em definitivo e dizemos "CANCELAR"?
Ao interrogarmos a nossa própria entrada para uma qualquer caverna, saibamos parar e perguntar como faz José: "... o que me preocupa neste momento é saber: que diabo de gente somos nós?"





O PEIXE ESTRAGADO






