31 janeiro 2026

PANORÂMICA: O VOTO ÚTIL NA ERA DA ATENÇÃO ESCASSA


 

Uma asserção interessante e com algum sentido nos tempos actuais, a "riqueza de informação cria uma pobreza de atenção", foi feita por Herbert Simon, um economista alemão com cidadania norte-americana. Este Autor  estudou e propôs, nos anos setenta do século passado, a designada economia da atenção, um conceito que supõe um “mercado” num sistema económico invisível, no qual a atenção humana é o recurso mais cobiçado, moldando não apenas os meios de comunicação social, mas também a publicidade e, por arrastamento directo, a cultura, a política e a psicologia colectiva na era digital. Este mercado pode ser designado por "mercado da atenção" e classifica a atenção como um recurso escasso e valioso, disputado por diferentes actores: políticos, empresas, plataformas e criadores de conteúdos, num contexto de superabundância de informação. Ao contrário desta, em que a produção é quase infinita, a atenção das pessoas é limitada. Simon, que viria a receber, em 1978, o Prémio Nobel de Economia, pela investigação que realizou no sector dos processos de tomada de decisões em organizações económicas, falou mesmo numa autêntica disputa em que empresas e plataformas competem para capturar e reter a atenção, afim de ser rentabilizada, sob diversos formatos, como por exemplo, anúncios, vendas, influência ou angariação. E, no limite, uma autêntica moeda de troca, pois na maioria das vezes, os consumidores/utilizadores "pagam" com a sua atenção para acessar conteúdos ou serviços gratuitos, como redes sociais, vídeos e notícias.

A propósito da segunda volta presidencial, ficaria bem uma “panorâmica” sobre o designado voto útil, pelo menos para tentar evitar um certo esgotamento cognitivo, que resulta de uma sobrecarga de informação e consequente dificuldade de concentração. Ainda também para precaver a erosão da qualidade da informação, que resulta do incentivo a conteúdos superficiais e a uma disseminação viral e popularização rápida do fenómeno da  desinformação. Na verdade, a disputa pela atenção acaba por influenciar debates públicos, formação de opinião e, obviamente, os resultados eleitorais. É aqui que entram as sondagens, esse ardiloso instituto que apenas serve para induzir o voto, ao exercer meticulosamente, em qualquer eleição, a “árdua” tarefa de atirar para cima os candidatos mais “convenientes” e afundar a pouco e pouco os que são considerados “sem hipóteses” de serem eleitos. Este processo repete-se de eleição para eleição. Aqui, como em todas as etapas de um processo de dominação permanente, o mercado da atenção funciona de forma sistemática, suportado (de forma insuportável) pela legião de comentaristas de serviço, pagos precisamente para cumprirem a missão de sustentáculos de uma democracia decadente.

 

Veja-se então de que forma (ou formas) o mercado da atenção funciona, na polarização dos candidatos. Foca-se a narrativa em: (1) apresentação da candidatura do “chegano” como uma ameaça existencial à democracia e aos valores europeus, (2) oferta do voto em Seguro como o antídoto imediato e a única resposta democrática adequada, (3) transformação de uma eleição com múltiplas dimensões numa escolha binária entre "democracia" e "extremismo". Dois factores a ter em linha de conta neste evento são, por um lado, os mecanismos de captura e retenção e, por outro lado, a rentabilização crescente da atenção. Mais tarde iremos depararmo-nos com outras duas componentes determinantes para o sucesso da “operação”, a saber, a redução da complexidade e o enquadramento emocional. O resultado (óbvio) esperado é que a campanha de Seguro consiga capitalizar o capital (redundância intencional) de atenção e medo para ampliar a sua base além do eleitorado tradicional do PS, especialmente entre indecisos e eleitores de centro-direita descontentes com Ventura.

 

Sendo verdade que os monstros de Gramsci andam por aí e ensombram de tal forma a sociedade actual que chega a ser patética a escolha que nos é dado fazer a 8 de Fevereiro. Se um representa nitidamente a vontade expressa do autoritarismo como arma de choque, no sentido literal e não só, o outro é a expressão do conformismo tácito com a neo-liberalidade feita doutrina de pensamento e prática política e intérprete confesso de tudo o que existe no consenso das privatizações em série, das doutrinas laborais reaccionárias e contra os trabalhadores e apoio mais que evidente ao que existe de mais retrógrado na política internacional, apenas para citar o mais “visível”. Um em nome da luta contra a imigração, a “corrupção e bandalheira”, o outro usando a bandeira da Constituição, para o insípido e desencorajador “unir os portugueses”. Um, contra o “sistema”, seja lá o que isso for, o outro apelando ao "voto moderado e à estabilidade institucional", que sabemos muito bem o quer dizer.

 

Na lógica panorâmica da política, o "voto útil" em Seguro é uma mercadoria ideal no mercado da atenção, na era da atenção escassa. A narrativa "Seguro vs. Fascismo" é um produto que simplifica um cenário complexo numa batalha binária, gerando emoções fortes de urgência e de medo, que capturam atenção de forma eficiente. Esta estratégia direcciona o "capital de atenção" colectivo para um candidato que personifica a continuidade e estabilidade do sistema político tradicional. Não é, de forma alguma, um acto de transformação revolucionária, mas uma transação defensiva: o eleitor "paga" com o seu voto para obter uma promessa de segurança institucional e contenção do extremo. Ainda que seja, para muitos eleitores, um benefício real e urgente, a verdade é que o “voto útil” é um acto que preserva as estruturas de poder existentes, canalizando a insatisfação popular para um candidato da ordem estabelecida sem questionar os fundamentos do sistema que alimentou a própria ascensão do extremo que se pretende combater. Este voto útil é uma solução de mercado perfeita para um problema imediato, mas que pode adiar ou neutralizar a verdadeira e necessária transformação.

 

Na suposta escolha que a segunda volta presidencial representa, raramente existiu uma disputa ideológica clássica. O que de facto esteve (e está) em jogo, por força da narrativa passadista do “Estado que tem um chefe”, assemelha-se ao desespero de Ricardo III na peça de Shakespeare "o meu reino por um cavalo". Para quem pode perder tudo numa batalha, trocar o seu reino por algo aparentemente menor, o “cavalo”, representa a sobrevivência imediata, ou melhor, uma solução percebida como imediata ou por tácticas eleitorais de curto prazo, sem reflectir plenamente no que realmente está em jogo para o futuro do "reino". Em termos de sobrevivência na barbárie actual do “reino” (e não só), que fique ao menos o “cavalo”. 

 


 


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