08 março 2026

 UM DIA, ELA, NO PAÍS SEM AMOS

 


Há um gigante na serra!

É um gigante tamanho

Qu’a gente sente o gigante

Mas não lhe vê tamanho

A noite rimada”, José de Almada Negreiros (1922)

 

 

Entre o aplauso e a indignação, entre a conversa e o protesto, fica decerto e acima de tudo, a condição. De ser mulher, de ser quem arrasta um passado de luta, um presente cheio de dúvidas e um futuro quase sempre sem futuro. É a trabalhadora, a constante “dona-de-casa”, epíteto enganoso e cruel, de quem não é dona de coisa nenhuma. A não ser da sua condição, que repetidamente é objecto de estudo, académico e social e, na maior parte das vezes, postula o que conhecemos, apesar de representar a maioria, continua privada de direitos que são de todos.  Afinal, como os trabalhadores em geral, a maioria da sociedade que deveria usufruir do Poder e continua manietada e explorada, sempre a questão da condição.

 

Se pensarmos, com o Sérgio, “que força é essa?”, um grito no meio do nada, uma borboleta que “pousa agora, ...na pena deste poeta” e voamos com ela (a borboleta) até aquela outra, na voz da Ana Capicua, que diz assim: “Vi-te a trabalhar o dia inteiro/ A limpar a cidade dos homens/ Por amor ou por pouco dinheiro...”. E daí, vem-nos sempre à lembrança a Luísa a subir a calçada de Carriche e ao chegar a casa: “...lavou a loiça,/ varreu a escada;/ deu jeito à casa/ desarranjada;/ coseu a roupa/ já remendada;/ despiu-se à pressa,/ desinteressada;/ caiu na cama/ de uma assentada;/ chegou o homem,/ viu-a deitada;/ serviu-se dela,/ não deu por nada...”. Ainda que todas as possíveis caricaturas possam ter algum significado, não deixa de ser estranho que a condição se mantenha, na sociedade do desperdício que apenas valoriza o lucro, a propaganda e todos os amos. Opressão e pressão social, de mãos dadas com todos os panegíricos mais ou menos espalhafatosos, alguns de duvidosa reputação, contribuem para que tudo fique como sempre foi, a tradição burguesa assim o “determina”. Enquanto o vento sopra lá fora e às vezes dentro de casas desabrigadas, ouvimos e lemos e não podemos ignorar as notícias de um oriente tão distante quanto próximo, de centenas de meninas assassinadas pelo Império, num acto de guerra infame. Isto depois de sabermos como o estado terrorista de Israel se ocupa em matar mulheres e crianças, no que é hoje o extermínio ao telejornal, que alguns teimam em não querer ver.

 

Mulher, camarada e amiga, amante e companheira, este dia é para ti mais um, naquela que deve ser a Luta comum. Nada (ou muito pouco) mudou, desde que Rosa Luxemburgo falava, em 1904, da “...senhora burguesa entediada, cansada de seu papel de boneca ou de cozinheira do marido, corre, caprichosa, para todos os lados, em busca do espectáculo que preencha o vazio de sua vida e de sua mente.” Hoje em dia, como no tempo do fascismo, temos exemplares pífios dessas “senhoras”. Decerto lembramos a Supico Pinto do Movimento Nacional Feminino e a sua equivalente Jonet, que ostenta uma forma de vida à custa da miséria e do desespero dos outros, curtindo uma falsa imagem de solidariedade, na caridadezinha salazarista e bafienta e que tem um “banco”, que, como todos os bancos representa a miséria triste do capitalismo. Mulher trabalhadora, a luta é também contra estas excrescências untuosas da burguesia, nada como falar límpido e claro. 

 

Ela e tu também, no País Sem Amos. Dela diria Ary, evocando Catarina Eufémia, “Da palavra saudade, a mais bonita/a mais prenha de pranto, a mais novelo/da língua portuguesa fiz a fita/encarnada que ponho no cabelo”. Hoje, é mais um dia...

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