09 março 2026

VAI MARCELO E VEM/BEM SEGURO

 

 

Por entre fotos e nomes

Os olhos cheios de cores

O peito cheio de amores vãos

Eu vou

Por que não, por que não...

Alegria, Alegria”, Caetano Veloso (1967)

 

 

 

 

Entre o provável colapso emocional e o lapso temporal da cerimónia ocasional, circula por toda a parte o cortejo interminável da parcimónia palavrosa e doutoral do cardápio político, sempre com a nação em fundo e em formato musical da incontornável banda da GNR.  País profundo enfiado em são bento, em tempos sequestrado pela populaça, alguém vociferava no dia de uma mais que provável ocupação. Alguém se havia de lembrar, enfim.

O Homem sai de cena e deixa um rasto de saudade e alívio. A saudade, lindo termo portuga, muito lusa e difusa, convive (ao que parece) bem com o alívio de quem sempre teme o pior, mesmo que algo melhor lhe seja apresentado na bandeja flutuante do património lusitano, o temível, mas bem-amado fado do “tem-que-ser”, ou “tem-de-ser”.

 

A janela fechou-se e a porta abre-se ora suavemente sobre a colina que se desenha à frente do nariz. Obstaculizado com tanto solilóquio, o Homem desconfia da sorte e mete-se no carro sozinho para ir às compras da semana, hoje é segunda-feira e há que alimentar a alma do corpo que transpira. Não há chama que resista a tanta pompa, mesmo na circunstância em que o vácuo imenso da fala do chefe-de-cerimónia se confunde com o espaço desocupado, num momento de hiato profundo e deletério. 

Há contudo que saber manter a calma necessária quando parece suficiente manter a distância diluente entre o nada e o vazio. As palavras são invariavelmente as mesmas, os abraços confundem-se com a torpeza, quando raia no horizonte partidário a surpresa dura e crua do habitual. Senta e levanta, passa, em figura de cadeiras, da direita para a esquerda ou tanto faz, a mulher do regedor está sempre lá, são claramente coisas do arco da velha , “boa, boa brincadeira/uns na guerra, outros na feira...”[1].

 

Abundam os salamaleques do chefe da banda , já sem o casaco na lapela, despede-se do primeiro, que venha o outro, já que até é seguro e é hora de comer qualquer coisinha, que isto dos copos de água não aquece a alma, até porque o que é servido frio se parece com a vingança impulsiva de estar parado e finge que está em movimento...

 



[1] Recordação do tema “A Mulher do Regedor”, do albúm “Coisas do Arco da Velha”, Banda do Casaco (1976)

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