26 março 2026

         A PROPÓSITO DE IMAGENS (?)

 

Se há imagens que valem por não sei quantas palavras, outras há que se perdem, por gastas ou uso indevido. Há imagens boas e agradáveis, outras há de medo, que ferem a nossa tranquilidade. Há imagens de desespero, de guerras (santas ou não), que cortam a alma pelo horror e devastação que transportam. 

A imagem tem o poder de parecer mais “directa” que a palavra, quando na verdade é igualmente manipulável, muitas vezes em grau infinitamente superior. A imagem não é um espelho neutro do real. É sempre um recorte, um enquadramento, uma escolha. No contexto de guerras, agressões e crises, as imagens são produzidas, seleccionadas, difundidas ou censuradas com o objectivo claro de construir uma versão do acontecimento que sirva um determinado poder. A imagem funciona, tal como a palavra, através de um particular eufemismo: apresentar uma realidade violenta de modo a torná-la aceitável, se possível, banal. A imagem como ausência cumpre um papel fundamental na realidade actual, não a mostrar é uma escolha política. Não mostrar, por exemplo, os rostos das vítimas da fome causada por sanções, é uma forma de apagar o seu sofrimento.

 

O filósofo e historiador da arte francês Georges Didi-Huberman, professor na École des Hautes Études en Sciences Sociales em Paris é um estudioso da imagem e da teoria da arte e estética, analisando como as imagens produzem conhecimento, memória e reflexão política. Os seus trabalhos sobre a imagem em situações-limite, como o caso dos campos de concentração, conduzem-nos a territórios de resistência e confirmam as suas teses sobre a ocultação que o Poder pratica, muitas vezes de forma perfeitamente intencional. O que hoje vemos, todos os dias, nas rádios, televisões e jornais, controlados pelo poder do ocidente é sobretudo a intenção declarada de não mostrar uma realidade que lhe é perfeitamente hostil. A narrativa israelita e norte-americana sobre o que designam de “conflito no Médio Oriente” sustenta e é sustentada por imagens falsas ou arquitectadas de forma artificial, através de animações e gráficos para produzir  e simulações digitais “perfeitas” e “limpas”, uma estética que “higieniza” a violência. Assim se produz a guerra videojogo, em que o espectador é colocado na posição de quem observa de longe, como num centro de comando. E quando a imagem isola o gesto do seu contexto histórico e político, oferecendo uma leitura imediata, emocional, está criado o ambiente propício ao oposto da verdade. Mas é também o que não se vê. Tal como havia acontecido antes e acontece ainda, em Gaza, no Líbano ou na Síria, o acto deliberado de agressão ao Irão para matar não só líderes e dirigentes, mas também crianças, é paradigmático quanto à questão essencial: porque é que certas imagens não nos chegam?

 

Um dos lugares-comuns mais perigosos é a ideia de que “a imagem não mente”. Na verdade, a imagem mente constantemente, não porque seja falsa no sentido da montagem grosseira, mas porque a sua verdade é sempre enquadrada e o enquadramento é uma forma de discurso. Pode dizer-se até que a imagem pode mentir, com todos os meios técnicos que tem à sua disposição, tornando-se facilmente um documento manipulável, com a ajuda da inteligência artificial e da disseminação rápida nas redes sociais, constituindo assim uma nova camada de manipulação. A forma mais usual e a mais fácil, diga-se a propósito, a mais eficaz é, por exemplo, mostrar uma explosão, esconder o que a causou, ou mostrar um rosto em sofrimento, escondendo o motivo que o faz sofrer e quem é o responsável pelo sofrimento. Acrescente-se a figura execrável do ogre norte-americano, os seus gestos e expressões deploráveis, num cenário previamente estudado para transmitir força, determinação e até “honra”: a imagem resultante é a de um ser estranho que resiste à análise crítica, porque opera no registo da emoção primária.

 

A imagem continua, apesar de tudo, a desempenhar um papel primordial, no presente e no passado, dela vão “falando” a fotografia e o cinema. Estamos a pensar em profissionais da imagem, fotógrafos de guerra que se recusaram a mostrar apenas o “lado limpo” do conflito, ou em cineastas que deram voz e rosto aos que o sistema tenta tornar invisíveis. A imagem mostra a face de quem sofre a fome, a criança debaixo dos escombros, o olhar de quem perdeu tudo, devolvendo  humanidade ao que a propaganda desumanizou. Convém não esquecer que muitas das imagens que hoje nos permitem perceber a verdade de conflitos passados foram inicialmente censuradas ou ignoradas. Por isso e pela defesa da memória, a importância da construção um arquivo de “contra-imagens” é um acto político de grande significado. Na sua obra de 1977 “Sobre a Fotografia”, a ensaísta, cineasta e activista norte-americana Susan Sontag, analisou como as imagens moldam a percepção da realidade. Nesse livro, disse, “Ninguém que tenha visto fotografias de campos de concentração pode dizer que não sabia”. É o olhar crítico como exercício de prática social, na verdade, não basta ver, é preciso aprender a ver: ver e não esquecer, mas também não anestesiar.

 

A verdadeira questão da imagem parece residir na forma como se interpreta. A imagem é sempre uma arma, se a queremos “bem perfeita e oleada”, como a cantiga, na sublime interpretação do Zé Mário Branco, haverá que a preservar dos olhares obscenos e das versões mal-amanhadas daqueles que hoje dedicam um papel especial ao mal e à exploração.

A imagem da servidão permanente conduz hoje países e povos à ruína intelectual, produzindo monstros de trazer por casa, temo-los aos montes no nosso País e povoam os corredores da Assembleia e do Governo. Terão consciência da triste e miserável imagem que fazem e como nos envergonham? Citar-lhes os nomes seria decerto despiciendo. Contudo, a sua verrinosa influência, é um dado que não podemos descartar. Questão de imagem será decerto, bem a propósito.

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