25 junho 2026

O PÓS-PACOTE

 

Já aqui falámos do “incómodo” das greves, na opinião de quem se acha sensato e consensual e que vai ao ponto de dizer que não gosta de greves, coisas dessas já não têm sentido, são coisas do passado  e prejudicam as pessoas que legitimamente querem trabalhar. Acontece que este tipo de posições sempre existiram, independentemente do tempo e do espaço reivindicativo e constituem a narrativa conjunta do Poder, que é distribuído por administrações, governos, patrões e suas corporações. Chegam ao desgarre de afirmar que a greve é um legítimo direito, mas. E os “mas” são imensos e devastadores, desde os avultados prejuízos à economia, até ao “impedimento” de quem quer trabalhar, passando pela tese espúria do ataque à sustentabilidade das empresas. Esquecem sempre que o maior prejuízo é o de quem fica sem o seu salário, por cada dia de greve, o risco de quem parte para a greve para defender o que é seu, por direito. A comentarite, ou seja o exercício constante e permanente da interpretação do Poder feita por quem é pago para o defender e sustentar, é apenas a forma moderna de manipulação das mentes e consciências e que, desgraçadamente, consegue quase sempre levar a sua por diante. Quase sempre? Talvez num pequeno reduto, ainda que manifestamente desprotegido, resiste a voz de quem não se conforma, de quem aprendeu agora e há muito a dizer não. 

Convirá provavelmente fazer contas à vida, a começar pelo triunfo da greve. Foram duas, em horizonte próximo, marcando posição de recusa de uma proposta, pelos vistos um estudo académico, de uma personagem milionária, família conhecida no mundo da banca, essa excrescência social do capitalismo que domina as cenas a nível mundial e que, quando treme e faz disparates quer ser “salva” por quem trabalha. 

 

A linearidade do pensamento burguês funciona assim. O “pacote” chumbou, a ministra Ramalho classifica a rejeição como uma "oportunidade perdida", mas o Primeiro-Ministro mantém "confiança absoluta" nela. A Constituição prevê que a aprovação de uma moção de censura por maioria absoluta implica a demissão do governo. No entanto, a dissolução da Assembleia e a convocação de novas eleições é uma decisão política do Presidente da República. Como não haverá qualquer decisão presidencial, o governo que tudo apostou no “pacote” de uma série de “coisas boas” para o País, sobrevive e nada se passará, nenhuma conclusão politicamente relevante será retirada e tudo voltará ao “normal funcionamento das instituições”, como sói dizer-se. Haverá seguramente, como já foi sustentado, novas propostas e a negociação de outras reformas, seja lá o que isso queira dizer, mas sabemos bem o que quer. 

O filósofo francês Jacques Rancière define bem este estado de coisas, alertando que o consenso político actual neutraliza o dissenso e esvazia a política de conflito genuíno. Quando organizou, em 1983, uma antologia que reúne os escritos de Louis Gabriel Gauny, um operário marceneiro e filósofo autodidata do século XIX, Rancière fixa o papel da recusa do "bom operário" ou de "proletário exemplar" que a inteligência da época esperava. Em “O Filósofo Plebeu”, assim se chamou a colectânea, Gauny é a figura central, um operário que, nas horas vagas, se dedicava à reflexão filosófica, uma forma de afirmação da sua humanidade plena, recusando ser definido apenas pelo seu trabalho manual e afastando as teses da chamada ascensão social. Aqui reside a afirmação marxista de que a democracia representativa não passa de uma "comuna ilusória", onde o voto apenas legitima a dominação de classe, separando o "cidadão" do homem real, explorado no trabalho. Rosa Luxemburgo viria a denunciar a democracia burguesa como intrinsecamente limitada, contraditória e subordinada aos interesses do capital. E, mais recentemente, a cientista política norte-americana Ellen Wood argumenta que a democracia só é compatível com o capitalismo se for esvaziada do seu sentido popular, reduzindo a participação a um acto passivo e que o voto não altera as decisões económicas profundas, sendo exigida uma ruptura estrutural.

Aqui chegados, talvez paremos a pensar o que fazer. Decerto que as organizações da classe serão as primeiras a fazê-lo, incentivadas pela vontade dos trabalhadores e pela combatividade que souberam demonstrar. Sendo certo que a actual forma de dominação da democracia burguesa precisa ser superada, este momento poderá ser decisivo, dado que o governo foi derrotado, está moralmente comprometido e o terreno é fértil para aumentar a pressão social. A passagem simbólica consubstancia-se, em termos de governo, do "deve cair" ao "pode cair", ou seja, a derrota parlamentar deve transformar-se em mobilização permanente, através de greves sectoriais que parem o país, concentrações que cerquem os locais de poder simbólico e uma narrativa que seja capaz de aglutinar a luta contra a precariedade à luta contra a corrupção, nunca esquecendo neste particular, que este governo é chefiado por alguém a tempo parcial e que a questão nunca foi devidamente explicada e é tóxica ao próprio ecossistema. Emerge então (deve emergir) uma atitude assumida de desgastar o governo, numa perspectiva activa de ruptura social, muito ao largo da visão puramente eleitoral.

 

Há uma imagem brilhante do filósofo esloveno Slavoj Žižek, aliás título de uma sua obra de 2008, “Em Defesa das Causas Perdidas”, que ele associa a revoluções e projectos de emancipação que falharam ou degeneraram, mas que são fontes férteis de idealismo e abertura de caminhos. Ainda que alguns deles tenham fracassado, podem ser fontes para iluminar possibilidades que o consenso liberal actual tenta enterrar. O homem da designada Escola de Liubliana é um pensador que se tornou uma referência incontornável para quem procura pensar a crise política e ideológica contemporânea para além dos limites da democracia liberal. É fundamental equacionar o rompimento com o capitalismo e, para tal, necessário é adoptar posições políticas de grande firmeza ideológica e de elevado sentido táctico e estratégico.

O momento presente configura-se como crucial e poderá servir como exemplo de um acto político radical que rompa com o "senso comum" e a realidade ideológica estabelecida. 

18 junho 2026

"NÓS" E O FUTEBOL

 

A envolvência habitual do futebol na vida colectiva ultrapassa a antiga concepção para-religiosa do ópio do povo, como os três F de Salazar, FadoFátima e Futebol. A ultrapassagem hodierna consegue superar o direccionamento primário da velha paixão, que ocultava a contestação e uma eventual propensão revolucionária. Hoje, um jogo de noventa minutos, não é apenas um ritual social, mas uma manipulação electro-química que se apodera dos indivíduos e os transforma em massa, sequestrando os cérebros mais primitivos. No caso particular do Campeonato do Mundo, existe uma vontade declarada em moldar organicamente os cérebros para que as pessoas (envolvidas ou não) se rendam por completo ao fenómeno, de forma alienante e manifestamente estupidificante. As declarações de Infantino sobre a FIFA, que ele considera "apenas uma organização desportiva", são uma ofensa à inteligência de qualquer um. Quando aconselha 

as pessoas a “acalmar a cabeça", dizendo que o Mundial é um "momento de alegria e celebração", está a passar um esponja sobre toda a sua actuação política declaradamente persecutória e alinhada com as políticas de extrema-direita europeia e norte-americana, de que o Prémio da Paz oferecido a Trump é um exemplo tristemente significativo. Segundo informação do jornalista norte-americano David Andersson, existem relatos de atletas, árbitros, dirigentes e apoiantes que “...enfrentaram obstáculos discriminatórios, arbitrários e degradantes”: o atleta suíço Breel Embolo, impedido pelas autoridade de se juntar à equipa, o jogador iraquiano Aymen Hussein, detido para interrogatório por quase sete horas ao entrar nos EUA, o árbitro somali Omar Artanteve o seu visto negado e a FIFA impediu-o de participar no torneio e, finalmente, apoiantes escoceses viram as suas autorizações revogadas pouco antes da partida, apesar de terem direito à isenção de visto.

 

O dispositivo de fabrico de comunidades imaginadas, que constrói um "nós" por oposição a um "eles" no discurso da imprensa, reforça a pertença colectiva e o distanciamento xenófobo. A selecção, dita “nacional” é uma ferramenta política poderosa, forjada de cima para baixo para criar coesão nacional. No Estado Novo, o futebol foi usado para fomentar o orgulho nacionalista; hoje, esse símbolo é cooptado por diversas agendas políticas. A mescla futebol e identidade nacional constitui-se assim como comunidade imaginada, um conceito cunhado pelo historiador e cientista político irlandês Benedict Anderson. O Autor de “Comunidades Imaginadas - Reflexões Sobre a Origem e a Expansão do Nacionalismo”, de 2021, considera que o romance e o jornal proporcionam os meios técnicos ideais para "re-presentar" o tipo de comunidade imaginada a que corresponde uma nação, ou seja, a nação converte-se em comunidade sólida, recorrendo constantemente a uma história previamente seleccionada.

 

O futebol é o mecanismo perfeito para capturar, orientar, controlar e modelar condutas e opiniões das massas, constituindo hoje uma ferramenta primordial de poder. O francês Pascal Boniface, especialista em relações internacionais não tem dúvidas em associar o futebol ao conceito de soft power, transmitindo a ideia de que  será uma das expressões mais acabadas da globalização, tendo-se tornado numa questão social, política e diplomática, directamente responsável pela chamada “lavagem desportiva" (sportswashing), o mecanismo especial que utiliza o desporto, neste caso particular, o futebol, para “limpar” a reputação de uma administração, governo, ou empresa, desviando a atenção de todas as arbitrariedades e barbaridades  de corrupção, escândalos e violação de direitos humanos. O psicólogo social romeno Serge Moscovici, que foi director do Laboratoire Européen de Psychologie Sociale (Laboratório Europeu da Psicologia Social), fundado em Paris, em 1975, é Autor de teses relacionadas com representações sociais que ajudam a entender como "o país do futebol" se tornou uma crença tão enraizada no imaginário colectivo. Para Moscovici, é fundamental saber como os homens vivem, para ser possível deduzir o modo como pensam e sentem. Assim, poderá perceber-se como as vitórias da selecção ou os feitos de um craque transformam a mera crença numa realidade social partilhada que justifica orgulhos, euforias e até tragédias. Mas é o sociólogo jamaicano Stuart Hall que, na abordagem da complexidade das identidades-nação num mundo globalizado, nos faz compreender a identidade nacional "sólida" construída pelo futebol e as pessoas como produtores e consumidores de cultura ao mesmo tempo. E o investigador catalão Carles Viñas, doutor em História Contemporânea, conta-nos como o futebol se transformou em metáfora social, onde estádio, bancadas e adeptos actuam como amplificadores do contexto social, aproveitando a sua popularidade e ascensão social.

 

A construção de uma narrativa pretensamente nacionalista a propósito da selecção que “representa” o País no Campeonato do Mundo assenta em todo o discurso do actual governo de direita, apoiado (de forma disfarçada ou não) pela extrema-direita. A realidade mostra o acompanhamento constante às viagens, aos treinos, às “declarações” de treinador e jogadores e que se pode resumir num noticiário da rádio (repetido vezes sem conta): 9 minutos de “ocupação” num noticiário de 11 minutos. Idas à praia em cuecas são assunto e matéria de comentário idiota e desprovido de qualquer sentido. Tal situação perfila uma forma de estupidificação permanente, uma vez que não assenta em nada de substantivo sobe o jogo em si, balouçando entre o objectivo comercial (personificado no anedótico personagem embaixador da Arábia Saudita, o “idoso” que apenas joga para as câmaras) e a propaganda de mau gosto que coloca sistematicamente o grupo como favorito, mas não candidato à vitória. 

Estará encontrado provavelmente o cenário ideal para o controlo ideológico e económico: os neurónios estão condicionados a confundir uma vitória desportiva com uma conquista pessoal e um sistema de recompensa que depende do desempenho  de atletas milionários. Talvez a verdadeira questão não seja se “nós”, os adeptos, amamos o futebol, mas saber se têm opção: o cérebro já foi sequestrado para tal.

 

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Nota final: O jogo inaugural confirma tudo o que de mau se poderia esperar, 

                  um treinador sem nível, uma equipa sem chama nem brilho, 

                  subordinada a uma “estátua” de cera.


 

04 junho 2026

A GREVE É UM INCÓMODO... 


Repete-se, como sempre, a narrativa burguesa bem incarnada nesta administração privada que gere o País, o “incómodo” para quem quer trabalhar e se vê “prejudicado” pela situação provocada por meia dúzia de personagens que não deixam os outros trabalhar. Por mais que se faça notar a vacuidade da “tese”, bem como o seu ridículo fraseado ou o seu simplismo pacóvio, o certo é que funciona como uma espécie de controle reflexivo, onde é fornecido o estímulo adequado para que o consumidor crie daí uma suposição, caindo na armadilha montada com a naturalidade suposta. No dia de ontem, um sujeito jovem do Porto que “queria ir trabalhar” e que esperou mais de hora e meia pelo transporte alternativo dizia à jornalista de turno, “isto parece uma brincadeira...”. O “isto” passa bem na imagem televisiva exactamente porque a profissional ao serviço de um tal canal não andava à procura de uma opinião, mas sim de um qualquer intérprete que diga aquilo que o dito canal pensa sobre a matéria. De todas as formas, a manipulação grosseira da realidade está instalada e cumpre religiosamente o seu papel, o uso da classificação “religiosa” tem todo o cabimento, uma vez que deriva da crença instalada: a greve é mesmo um incómodo. 

Procuremos saber se existe incómodo, quem é que se sente verdadeiramente incomodado e com o quê. Pensemos nos trabalhadores que são obrigados a perder um dia de salário para defender os seus direitos. Na verdade, eles pagam para lutar, diria Marx, quando chamava a atenção, em 1844, nos “Manuscritos Económico-Filosóficos”, “O trabalhador torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz.” Perder um dia de salário para lutar contra essa lógica é a mais pura das contradições, ou seja, pagar com o pouco que se tem para tentar não perder tudo, é uma ironia feroz: os mesmos que criam toda a riqueza são aqueles para quem um dia sem rendimento é quase uma catástrofe pessoal ou familiar. Pensemos ainda naqueles trabalhadores que querem fazer greve, mas não podem, ou porque são impedidos, quando não ameaçados, ou porque o salário é tão baixo que a greve é um luxo impossível. Lembremos então Engels que, em 1845, na obra “A Situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra” denunciava que “A liberdade de associação é uma ilusão quando a fome é a companheira de cada dia.” E agora vale mesmo a pena pensar o que realmente mudou, cento e setenta anos depois, particularmente perante o aumento vertiginoso do preço dos produtos essenciais e de como ele se reflecte na vida de quem trabalha e aufere um salário de miséria, comparado com o patrão que ganha cinquenta vezes mais. Todavia, esta “questão” é vista do lado de quem governa (empresas, patrões e governo) como apenas o resultado lógico de quem, por um lado, carrega a responsabilidade legal da gestão dos postos de trabalho e, por outro lado tem que assumir o risco financeiro do investimento que fez. 

Equacionemos, de outro ponto vista, o significado da proposta do dito “pacote laboral”, a gíria do “Anteprojeto de reforma da legislação laboral”. A primeira questão a colocar poderia ser, quem pediu? Quem pediu uma lei que permite na prática despedimentos sem justa causa e que permite despedir para terceirizar, substituindo trabalhadores com direitos por trabalhadores sem direitos? Quem pediu para restringir os direitos fundamentais de liberdade sindical e de negociação colectiva e o próprio direito à greve? Pelos vistos, ninguém em concreto, o que resulta na presunção óbvia que é a pressão da extrema-direita em processo de refasciszação, sob a forma de governo da República, chefiado por um empresário que acumula com as funções de primeiro-ministro. É a conjunção perfeita das teses da direita reaccionária que vê em tudo a manifestação da chamada “ideologia”, pois ela aí está, a verdadeira “ideologia de classe”, sem aspas, em todo o seu esplendor. Este governo de turno tem afirmações desastrosas sobre as greves. Em todas faz questão de insultar os trabalhadores e os seus Sindicatos, apoucando sempre, com expressões como “...prejudicou a vida de muita gente”, “....a esmagadora maioria dos portugueses quis trabalhar e está a trabalhar”, ou a estulta, “não trouxe nenhuma novidade nem nenhuma solução”. 
Este governo, que se recusa a disponibilizar os números reais da Greve de Dezembro passado é o mesmo que diz, pela voz da ministra Ramalho, às nove da manhã (do próprio dia), que esta Greve é ”residual” e que, segundo consta no Jornal Público, “Nas fábricas, as pessoas estão a trabalhar. Toda a indústria está a trabalhar, de acordo com dados recolhidos pela CIP. No sector dos transportes e comércio e grandes superfícies, as portas também estão abertas. Na hotelaria e nas agências de viagem também está tudo a trabalhar normalmente.” O mesmo governo que quer impor a taxa social única e a perseguição aos imigrantes, ordena uma vergonhosa carga policial sobre mulheres desarmadas e persegue manifestantes escadas acima, tudo visto na TV, uma imagem que mostra claramente a violência da polícia do estado burguês, percebendo-se para que realmente serve, sempre pronta e exímia na repressão contra os trabalhadores. 

O incómodo verdadeiro é mesmo este governo. Há uma coisa que o seu “chefe” deveria entender, se para tal fosse capaz: há quem faça a sua escolha pela recusa sistemática das condições que lhe são apresentadas por uma administração minoritária. E que essa escolha se faz hoje na rua e nos locais de trabalho, nas empresas, nas escolas e nas universidades. Uma escolha que recusa ser menosprezada, uma classe que é, cada vez mais, super-explorada e, para cúmulo, responsabilizada pela sua própria condição. E ainda, que é uma escolha que pretende abalar as estruturas do Poder vigente até o fazer sentir que está a prazo e que o seu destino está traçado. Isso, sim, um verdadeiro incómodo.