A GREVE É UM INCÓMODO...
Repete-se, como sempre, a narrativa burguesa bem incarnada nesta administração privada que gere o País, o “incómodo” para quem quer trabalhar e se vê “prejudicado” pela situação provocada por meia dúzia de personagens que não deixam os outros trabalhar. Por mais que se faça notar a vacuidade da “tese”, bem como o seu ridículo fraseado ou o seu simplismo pacóvio, o certo é que funciona como uma espécie de controle reflexivo, onde é fornecido o estímulo adequado para que o consumidor crie daí uma suposição, caindo na armadilha montada com a naturalidade suposta. No dia de ontem, um sujeito jovem do Porto que “queria ir trabalhar” e que esperou mais de hora e meia pelo transporte alternativo dizia à jornalista de turno, “isto parece uma brincadeira...”. O “isto” passa bem na imagem televisiva exactamente porque a profissional ao serviço de um tal canal não andava à procura de uma opinião, mas sim de um qualquer intérprete que diga aquilo que o dito canal pensa sobre a matéria. De todas as formas, a manipulação grosseira da realidade está instalada e cumpre religiosamente o seu papel, o uso da classificação “religiosa” tem todo o cabimento, uma vez que deriva da crença instalada: a greve é mesmo um incómodo.
Procuremos saber se existe incómodo, quem é que se sente verdadeiramente incomodado e com o quê. Pensemos nos trabalhadores que são obrigados a perder um dia de salário para defender os seus direitos. Na verdade, eles pagam para lutar, diria Marx, quando chamava a atenção, em 1844, nos “Manuscritos Económico-Filosóficos”, “O trabalhador torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz.” Perder um dia de salário para lutar contra essa lógica é a mais pura das contradições, ou seja, pagar com o pouco que se tem para tentar não perder tudo, é uma ironia feroz: os mesmos que criam toda a riqueza são aqueles para quem um dia sem rendimento é quase uma catástrofe pessoal ou familiar. Pensemos ainda naqueles trabalhadores que querem fazer greve, mas não podem, ou porque são impedidos, quando não ameaçados, ou porque o salário é tão baixo que a greve é um luxo impossível. Lembremos então Engels que, em 1845, na obra “A Situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra” denunciava que “A liberdade de associação é uma ilusão quando a fome é a companheira de cada dia.” E agora vale mesmo a pena pensar o que realmente mudou, cento e setenta anos depois, particularmente perante o aumento vertiginoso do preço dos produtos essenciais e de como ele se reflecte na vida de quem trabalha e aufere um salário de miséria, comparado com o patrão que ganha cinquenta vezes mais. Todavia, esta “questão” é vista do lado de quem governa (empresas, patrões e governo) como apenas o resultado lógico de quem, por um lado, carrega a responsabilidade legal da gestão dos postos de trabalho e, por outro lado tem que assumir o risco financeiro do investimento que fez.
Equacionemos, de outro ponto vista, o significado da proposta do dito “pacote laboral”, a gíria do “Anteprojeto de reforma da legislação laboral”. A primeira questão a colocar poderia ser, quem pediu? Quem pediu uma lei que permite na prática despedimentos sem justa causa e que permite despedir para terceirizar, substituindo trabalhadores com direitos por trabalhadores sem direitos? Quem pediu para restringir os direitos fundamentais de liberdade sindical e de negociação colectiva e o próprio direito à greve?
Pelos vistos, ninguém em concreto, o que resulta na presunção óbvia que é a pressão da extrema-direita em processo de refasciszação, sob a forma de governo da República, chefiado por um empresário que acumula com as funções de primeiro-ministro. É a conjunção perfeita das teses da direita reaccionária que vê em tudo a manifestação da chamada “ideologia”, pois ela aí está, a verdadeira “ideologia de classe”, sem aspas, em todo o seu esplendor.
Este governo de turno tem afirmações desastrosas sobre as greves. Em todas faz questão de insultar os trabalhadores e os seus Sindicatos, apoucando sempre, com expressões como “...prejudicou a vida de muita gente”, “....a esmagadora maioria dos portugueses quis trabalhar e está a trabalhar”, ou a estulta, “não trouxe nenhuma novidade nem nenhuma solução”.
Este governo, que se recusa a disponibilizar os números reais da Greve de Dezembro passado é o mesmo que diz, pela voz da ministra Ramalho, às nove da manhã (do próprio dia), que esta Greve é ”residual” e que, segundo consta no Jornal Público, “Nas fábricas, as pessoas estão a trabalhar. Toda a indústria está a trabalhar, de acordo com dados recolhidos pela CIP. No sector dos transportes e comércio e grandes superfícies, as portas também estão abertas. Na hotelaria e nas agências de viagem também está tudo a trabalhar normalmente.”
O mesmo governo que quer impor a taxa social única e a perseguição aos imigrantes, ordena uma vergonhosa carga policial sobre mulheres desarmadas e persegue manifestantes escadas acima, tudo visto na TV, uma imagem que mostra claramente a violência da polícia do estado burguês, percebendo-se para que realmente serve, sempre pronta e exímia na repressão contra os trabalhadores.
O incómodo verdadeiro é mesmo este governo. Há uma coisa que o seu “chefe” deveria entender, se para tal fosse capaz: há quem faça a sua escolha pela recusa sistemática das condições que lhe são apresentadas por uma administração minoritária. E que essa escolha se faz hoje na rua e nos locais de trabalho, nas empresas, nas escolas e nas universidades. Uma escolha que recusa ser menosprezada, uma classe que é, cada vez mais, super-explorada e, para cúmulo, responsabilizada pela sua própria condição. E ainda, que é uma escolha que pretende abalar as estruturas do Poder vigente até o fazer sentir que está a prazo e que o seu destino está traçado.
Isso, sim, um verdadeiro incómodo.