A realização do Festival Babell, na cidade do Porto, entre os dias 24 e 29 de Junho, merece algumas reflexões, quer sobre conteúdos e respectiva programação, quer ainda sobre o conceito em si. Quis a organização, que envolveu a Fundação Lello e a Câmara Municipal do Porto, fazer uma espécie de ressignificação do mito da Torre de Babel, narrado no livro do Génesis, sobre a explicação antiga para a diversidade de línguas e a dispersão da humanidade, assumindo à partida o nome, o significado e a significância, na sua dimensão material. Ao arcar com tal peso, a fundação privada precisava do suporte da administração municipal, como sempre acontece com a maior parte das iniciativas privadas que recebem apoios estatais e socializam os prejuízos. Se existem “babelldónios”, ou outros cavaleiros privados do “interesse público” é porque a circunstância de construir uma cidade e uma torre que chegue aos céus só é possível na "confusão" que o nome sugere, tornando-se a possibilidade de falhanço sempre como um acto de castigo público, uma vez que o privado é sempre o detentor do sucesso garantido.
Não está em causa a qualidade intrínseca de qualquer dos eventos, muito menos dos intérpretes, que cumpriram a sua função de forma mais ou menos brilhante, consoante o estilo de cada um. De Byung-Chul Han a Walter Hugo Mãe, passando pelos incontornáveis Lídia Jorge, Ana Paula Tavares, Álvaro Siza, Gonçalo M. Tavares, Alberto Manguel e Margaret Atwood, até às divas Conceição Evaristo, Dulce Maria Cardoso e Djaimilia Pereira de Almeida, ao Nobel Salman Rushdie e ao Booker Prize Julian Barnes, ao esplendoroso Daniel Mordzinski, a Reginald Dwayne Betts, que criou mais de 500 bibliotecas em cadeias nos EUA e ao Homem da Memória, Javier Cercas, citando apenas quem porventura terá proclamado alguma atenção não forçosamente mediática (mas também). Aliás, deve assinalar-se o paradoxo iminente de alguns dos valorosos intérpretes defenderem, nas suas vidas e obras, exactamente valores opostos àqueles que o “festival” propôs e realizou.
Na sessão em que Alberto Manguel entrevistou Salman Rushdie, este afirmou que estamos limitadíssimos ao cérebro que temos, abordando assim a finitude biológica e cognitiva, a nossa incapacidade de aceder a realidades fora da nossa química neuronal. Na verdade os “babelldónios” desconsideram a cultura, fazendo dela um clube de leitura de luxo, como se a literatura precisasse de um código de barras para ser sagrada. O cérebro dos “babelldónios” está, de facto, formatado para a exclusividade, o glamour e o circuito fechado do capital cultural. Não deixa ainda de ser aberrante, como em tantas situações do género, a escolha do inglês com língua dominante, acrescendo desigualdade ao evento de massas que foi desenhado.
Ao pretender associar a "confusão" do mito Babel num ponto de encontro, o festival usa o nome do mito para celebrar exatamente o oposto: a unidade na diversidade que a literatura e a cultura podem proporcionar. Só que, no mito original, a construção parte da base para o topo, a humanidade unida num esforço colectivo, ergue a torre. No festival, a "construção" parte do topo para a base: uma curadoria de luxo impõe de cima para baixo o que é a cultura. As "massas" não constroem, são “convocadas” para a plateia (nalguns casos, para filas intermináveis), funcionando como massa crítica que valida o espectáculo pelo simples facto de lá estar. O "livro-bilhete", pretensamente democrático, transmuta-se em objecto de entrada. A livraria, outrora um espaço de descoberta editorial, está há anos convertida num "monumento turístico", com entrada paga e filas à porta. O festival parece a extensão natural da lógica que transforma a cultura numa experiência de consumo e não como espaço de debate incómodo ou de construção comunitária. É ainda a "tomada" do campo cultural por uma elite que decide, sozinha, o que merece ser celebrado. Simboliza a tensão entre o espectáculo pirotécnico e a efectiva democratização do saber, quem sabe talvez, o verdadeiro reflexo contemporâneo do mito: já não é um deus que confunde as línguas, mas o mercado e o capital simbólico que estratificam quem fala, quem ouve e quem apenas assiste.
E, por falar em assistir, não se pode deixar de referir a patética ostentação, traduzida em inúmeros carros pretos de alta cilindrada, cruzando a Cidade e cortando o centro histórico, um espaço que deveria ser do peão, da lentidão e do encontro acidental. É a lógica do fluxo rápido e exclusivo, símbolo máximo da velocidade e do poder que o arquitecto-filósofo e urbanista francês Paul Virilio ataca quando fala na “técnica cumulativa”, que alia a logística da percepção à lógica da velocidade. O Autor instituiu a designada “dromologia”, uma área de estudo interdisciplinar onde se equaciona a velocidade e o modo como ela pode mudar a percepção do tempo e do espaço e, naturalmente, a natureza dos fenómenos políticos, sociais, económicos e culturais. Numa aproximação simplista poderíamos falar aqui numa mitigação da cultura do lugar, uma espécie de "estado de excepção" sobre rodas: enquanto os cidadãos comuns andam a pé ou nos transportes colectivos, os "babelldónios” deslizam em máquinas negras que atravessam a cidade como se ela fosse um mero cenário, impondo aos cidadãos uma verdadeira humilhação, com grades e vedações.
O filósofo coreano Byung-Chul Han, que abriu o Babell, disse ao Jornal La Vanguardia, “Si la revolución no es posible hoy, es porque no tenemos tiempo para pensar, o de eso nos convencen”. O Autor porventura desconhecerá que a instituição que o acolheu é responsável pelo “esmagamento” da Associação Comunidade do Bangladesh do Porto, que viu o seu contrato de arrendamento não-renovado no ano passado, confirmado pelo actual presidente da Câmara, que sentenciou que "a construção de mesquitas não é prioridade", colocando os ditos imóveis em hasta pública. Han tem um forma muito particular de ver na esperança um acto contra a “ditadura da produtividade”, capaz de restaurar o sentido de comunidade num mundo esvaziado pela técnica e pela positividade.
Adormecidos como estamos (confortavelmente, como diz Roger Waters), porque já nos “convenceram” que assim tem que ser, sem tempo para pensar, deixamos que todos os possidónios e, em particular, estes "babelldónios”, nos ofusquem com o espectáculo e nos transformem em servos inúteis, sem condição.