18 junho 2026

"NÓS" E O FUTEBOL

 

A envolvência habitual do futebol na vida colectiva ultrapassa a antiga concepção para-religiosa do ópio do povo, como os três F de Salazar, FadoFátima e Futebol. A ultrapassagem hodierna consegue superar o direccionamento primário da velha paixão, que ocultava a contestação e uma eventual propensão revolucionária. Hoje, um jogo de noventa minutos, não é apenas um ritual social, mas uma manipulação electro-química que se apodera dos indivíduos e os transforma em massa, sequestrando os cérebros mais primitivos. No caso particular do Campeonato do Mundo, existe uma vontade declarada em moldar organicamente os cérebros para que as pessoas (envolvidas ou não) se rendam por completo ao fenómeno, de forma alienante e manifestamente estupidificante. As declarações de Infantino sobre a FIFA, que ele considera "apenas uma organização desportiva", são uma ofensa à inteligência de qualquer um. Quando aconselha 

as pessoas a “acalmar a cabeça", dizendo que o Mundial é um "momento de alegria e celebração", está a passar um esponja sobre toda a sua actuação política declaradamente persecutória e alinhada com as políticas de extrema-direita europeia e norte-americana, de que o Prémio da Paz oferecido a Trump é um exemplo tristemente significativo. Segundo informação do jornalista norte-americano David Andersson, existem relatos de atletas, árbitros, dirigentes e apoiantes que “...enfrentaram obstáculos discriminatórios, arbitrários e degradantes”: o atleta suíço Breel Embolo, impedido pelas autoridade de se juntar à equipa, o jogador iraquiano Aymen Hussein, detido para interrogatório por quase sete horas ao entrar nos EUA, o árbitro somali Omar Artanteve o seu visto negado e a FIFA impediu-o de participar no torneio e, finalmente, apoiantes escoceses viram as suas autorizações revogadas pouco antes da partida, apesar de terem direito à isenção de visto.

 

O dispositivo de fabrico de comunidades imaginadas, que constrói um "nós" por oposição a um "eles" no discurso da imprensa, reforça a pertença colectiva e o distanciamento xenófobo. A selecção, dita “nacional” é uma ferramenta política poderosa, forjada de cima para baixo para criar coesão nacional. No Estado Novo, o futebol foi usado para fomentar o orgulho nacionalista; hoje, esse símbolo é cooptado por diversas agendas políticas. A mescla futebol e identidade nacional constitui-se assim como comunidade imaginada, um conceito cunhado pelo historiador e cientista político irlandês Benedict Anderson. O Autor de “Comunidades Imaginadas - Reflexões Sobre a Origem e a Expansão do Nacionalismo”, de 2021, considera que o romance e o jornal proporcionam os meios técnicos ideais para "re-presentar" o tipo de comunidade imaginada a que corresponde uma nação, ou seja, a nação converte-se em comunidade sólida, recorrendo constantemente a uma história previamente seleccionada.

 

O futebol é o mecanismo perfeito para capturar, orientar, controlar e modelar condutas e opiniões das massas, constituindo hoje uma ferramenta primordial de poder. O francês Pascal Boniface, especialista em relações internacionais não tem dúvidas em associar o futebol ao conceito de soft power, transmitindo a ideia de que  será uma das expressões mais acabadas da globalização, tendo-se tornado numa questão social, política e diplomática, directamente responsável pela chamada “lavagem desportiva" (sportswashing), o mecanismo especial que utiliza o desporto, neste caso particular, o futebol, para “limpar” a reputação de uma administração, governo, ou empresa, desviando a atenção de todas as arbitrariedades e barbaridades  de corrupção, escândalos e violação de direitos humanos. O psicólogo social romeno Serge Moscovici, que foi director do Laboratoire Européen de Psychologie Sociale (Laboratório Europeu da Psicologia Social), fundado em Paris, em 1975, é Autor de teses relacionadas com representações sociais que ajudam a entender como "o país do futebol" se tornou uma crença tão enraizada no imaginário colectivo. Para Moscovici, é fundamental saber como os homens vivem, para ser possível deduzir o modo como pensam e sentem. Assim, poderá perceber-se como as vitórias da selecção ou os feitos de um craque transformam a mera crença numa realidade social partilhada que justifica orgulhos, euforias e até tragédias. Mas é o sociólogo jamaicano Stuart Hall que, na abordagem da complexidade das identidades-nação num mundo globalizado, nos faz compreender a identidade nacional "sólida" construída pelo futebol e as pessoas como produtores e consumidores de cultura ao mesmo tempo. E o investigador catalão Carles Viñas, doutor em História Contemporânea, conta-nos como o futebol se transformou em metáfora social, onde estádio, bancadas e adeptos actuam como amplificadores do contexto social, aproveitando a sua popularidade e ascensão social.

 

A construção de uma narrativa pretensamente nacionalista a propósito da selecção que “representa” o País no Campeonato do Mundo assenta em todo o discurso do actual governo de direita, apoiado (de forma disfarçada ou não) pela extrema-direita. A realidade mostra o acompanhamento constante às viagens, aos treinos, às “declarações” de treinador e jogadores e que se pode resumir num noticiário da rádio (repetido vezes sem conta): 9 minutos de “ocupação” num noticiário de 11 minutos. Idas à praia em cuecas são assunto e matéria de comentário idiota e desprovido de qualquer sentido. Tal situação perfila uma forma de estupidificação permanente, uma vez que não assenta em nada de substantivo sobe o jogo em si, balouçando entre o objectivo comercial (personificado no anedótico personagem embaixador da Arábia Saudita, o “idoso” que apenas joga para as câmaras) e a propaganda de mau gosto que coloca sistematicamente o grupo como favorito, mas não candidato à vitória. 

Estará encontrado provavelmente o cenário ideal para o controlo ideológico e económico: os neurónios estão condicionados a confundir uma vitória desportiva com uma conquista pessoal e um sistema de recompensa que depende do desempenho  de atletas milionários. Talvez a verdadeira questão não seja se “nós”, os adeptos, amamos o futebol, mas saber se têm opção: o cérebro já foi sequestrado para tal.

 

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Nota final: O jogo inaugural confirma tudo o que de mau se poderia esperar, 

                  um treinador sem nível, uma equipa sem chama nem brilho, 

                  subordinada a uma “estátua” de cera.


 

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