INTERMITÊNCIAS (intermitentes)
Do que se sabe, existe algo de intermitente na vida, uma questão de descontinuidade, como num emprego actual, em que há períodos de actividade intercalados com outros e aquela é substituída pela (muitas vezes, inesperada) inactividade. Quando se pretende escrever sobre intermitências devemos começar por ser intermitentes e assim respeitar a situação, o acto contínuo é relegado para plano secundário. Embora os contrários nem sempre se confrontem, antes se completem, segundo Hegel, assim terá sentido o progresso histórico e a possível alusão à intermitência que pode significar um enquadramento produtivo à análise, quando falha a lógica habitual.
Na sua obra de 2005, “As Intermitências da Morte”, José Saramago, imagina um país onde a morte deixa de funcionar: as pessoas festejam, mas logo se sucede o caos, com hospitais sem vagas, pensões a rebentar, a igreja em pânico teológico, a monarquia sem sucessão. A "intermitência" é desde logo política: quando o sistema perde o seu "terminador", o que aparece não é energia, é a máquina burocrática a girar em vazio. Num primeiro nível, o entusiasmo inicial com a morte suspensa equivale à ilusão de que a desaparição de um problema estrutural é a sua resolução. Depois vem a impotência: o governo organiza canais clandestinos para levar doentes a morrer no país vizinho, através de mecanismos de corrupção. Num segundo nível, o governo não decide nada de verdade, gere em segredo e fraude. É exatamente o "burocrata menor" que não governa, mantém um Estado semi-morto a funcionar.
A intermitência política não é revolução nem colapso, é uma governação que ora falha, ora finge funcionar. Assim nos encontramos, na maior parte dos países do ocidente caduco e incapaz de dar resposta aos anseios dos cidadãos. A disposição destes face ao fenómeno político não é paixão nem revolta, é apenas habituação. O governo não resolve, gere o dia-a-dia, não governa, deixa passar. O político medíocre não é o que falha, é o que se mantém a funcionar em modo intermitente, o suficiente para não ser substituído. E as pessoas aceitam, porque a alternativa é, ou lhe dizem que é, o caos. A intermitência torna-se um conforto, particularmente para uma oposição cinzenta e colaborante, que faz exactamente o mesmo, deixa andar e entrega à extrema-direita o “comando” de uma falsa alternativa. Na ficção, o governo organiza corredores clandestinos para levar doentes a morrer na fronteira. Na realidade, o governo, a máquina medíocre que continua a funcionar “com legitimidade democrática” (assim é a democracia burguesa), faz da intermitência o funcionamento permanente. Deste lado, apenas nos habituamos a que “ainda mexe”, não deixamos de nos indignar, aprendemos possivelmente a guardar a indignação na intermitência, no intervalo entre duas desilusões, vivendo a nossa vida. Há algures um comentário (des)ajustado: "Os portugueses querem é sossego, 58% desaprovam o desempenho do governo, mas isso não os faz querer eleições antecipadas, acham que governa mal, mas a maioria prefere deixar a legislatura ir até ao fim." Assim, assumimos o verbo “saramaguear” como cognato de analisar segundo uma visão reflexiva, necessariamente crítica e irónica e, muitas vezes subversiva. Este é o ponto.
No reino dos monstros do claro-escuro, há os que gritam e os que já aprenderam a não gritar. O debate da moção de censura ao governo redundou num fracasso admitido e não atribuído, um problema que espera eternamente ao virar da esquina. Na verdade, como bem nos ensina o filósofo francês Michel Onfray, o sistema não precisa de nos convencer, basta que aceitemos que não há alternativa, sendo que este é mesmo o sentido político da intermitência. Porventura, o melhor exemplo de intermitência é o “caso Spinumviva”, aparece e reaparece de quando em vez. Relembrando, o fisco investigou suspeitas de arranjos fiscais, a PGR veio dizer que "não houve nenhuma denúncia nem comunicação de informação à Autoridade Tributária", no inquérito preventivo. Todavia, o caso nunca encerrou: em 2025 entraram dois recursos, a correspondência com o Tribunal Constitucional continuou, sobre a mesma matéria. Houve ainda um regulador europeu a criticar a cobertura mediática por "fragilidades na exigência de informação", sem, no entanto, negar os arranjos. Onfray critica a servidão transformada em virtude e a fabricação do consentimento, centros nevrálgicos do Poder do século XXI.
Alguns recentes exemplos de episódios, que se não fossem trágicos, seriam hilariantes. Os resultados do PISA (“Programme for International Student Assessment”, ou “Programa Internacional de Avaliação de Alunos”), um estudo comparativo internacional desenvolvido pela OCDE, mostra quedas de 12 a 15 pontos em Leitura e Matemática, desde 2015, uma investigadora diz que os alunos estão cerca de um ano e meio atrás dos colegas de 2015 e que a leitura está ao nível de 2000 e o secretário de Estado da Educação diz que estes resultados, "do ponto de vista das políticas públicas, não se relacionam directamente com o actual governo". Ou seja, a Educação recua vinte anos e ninguém é responsável. Um outro tem a ver com as trapalhadas relacionadas com o ministro da Administração Interna, por quem quase ninguém põe a mão no fogo. No entanto, todos se manifestam contra o único mecanismo formal que transformaria essa concordância em consequência política. Mesmo quando se pensa (e bem) que não basta substituir pessoas e o que é preciso é substituir políticas, a verdade é que o sistema finge, durante umas horas, que vai exigir contas e, no minuto seguinte, regressa calmamente ao vazio. Isto não passa de intermitência de responsabilidade. O último episódio é por demais ultrajante: na abertura do debate da moção (dita de censura) o primeiro-ministro anuncia um suplemento extraordinário para pensionistas, uma esmola miserável em troco de um voto.
No final da ficção de Saramago, a morte apaixona-se por um violoncelista, humaniza-se, deixa de ser função e passa a ser alguém. Na realidade, a “morte” do sistema é a privatização completa da esfera pública, onde “....não há pão, nem há sossego”, como nos lembra Zeca Afonso, nos "Meninos do Bairro Negro", ou seja a desumanização absoluta.
Em boa verdade, os “monstros” e a sua narrativa ganham hoje uma nova vida: a evocação de Gramsci “O mundo velho está a morrer. O mundo novo tarda em aparecer. Neste claro-escuro nascem os monstros” ganha uma dimensão “especial” e supõe a seguinte “adaptação": o intervalo entre o que morreu e o que não nasceu é exactamente o espaço onde os burocratas medíocres reinam e prosperam. Assim mesmo é hoje o Poder instituído.