24 setembro 2026

FUTEBOL, IDENTIDADE E O PREÇO DA ATENÇÃO

 

A propósito do jogo do passado Domingo, que se convencionou chamar “clássico”, uma significativa maioria de interessados teria opinião definitiva sobre uma “expulsão”, que acontecera ou que deveria ter acontecido. O mesmo sobre meia-dúzia de lances polémicos, constituindo matéria de estudo de especialistas reputados na matéria e de outros comentadores de ocasião. Ter-se-á colocado uma vez mais em causa a “neutralidade” dos juízes, os do campo e os outros que se “escondem” no recato da tal “cidade do futebol”. Falou-se ainda da “inclinação do campo”, uma curiosa metáfora que reporta ao putativo favorecimento de uma das equipas por uma arbitragem criativa. Tudo isto constitui matéria bastante para encher noticiários, comentários, mil e um programas especializados nas rádios e televisões, onde se “debate” sobretudo a paixão. Entretanto, o País passou ao lado de si mesmo durante mais uns dias, não propriamente pelo que aconteceu no relvado, mas sobretudo fora dele: o que não se discutiu, o que não se exigiu, o que se deixou correr enquanto a atenção estava toda na bola que, entrando na baliza, ou não, constitui o cerne da questão.

 

Não escrevo isto com intuito depreciativo pelo futebol, o jogo de bola mais querido da “população”. O espectáculo do futebol não anestesia porque nos engana, mas simplesmente porque nos dá prazer. E o que dá prazer não se denuncia com facilidade, sobretudo quando é a única coisa que, para muita gente, dá prazer ao fim de uma semana sem prazer algum. Com o devido desconto, se tal é possível, dir-se-ia que, muito possivelmente, os intervenientes directos ou próximos não estarão interessados em sequer ouvir, tal é a sua firmeza acústica, provavelmente impermeável, de acomodação ou privilégio. Sendo a crónica um intervalo incómodo entre quem despreza e quem não quer saber, importará sobretudo identificar quem beneficia de que a atenção pública esteja ocupada com um “clássico” durante uma semana inteira. Afinal, na semana que vem haverá outro jogo qualquer, “clássico” ou não, mesmo que o primeiro ainda não esteja devidamente dissecado e mastigado.

O cientista político irlandês Benedict Anderson definiu a nação como uma "comunidade imaginada", onde se incluem milhões de pessoas que nunca se conhecerão, que não partilham interesses nem vidas, mas que se sentem parte do mesmo "nós" através de símbolos, rituais e narrativas. A nação, uma comunidade imaginada como soberana e horizontal é uma construção que precisa de ser alimentada. O futebol também, com a diferença profunda de ser imaginada como competitiva e hierárquica (o meu clube contra o teu), onde a pertença não se constrói por partilha, simplesmente por oposição. Os “clássicos” como o Porto-Benfica, com o seu ritual calendarizado, têm um historial carregado de casos e têm sobretudo o que se pode classificar como um “clero interpretativo”, a chamada imprensa desportiva, que produz um sentido onde há apenas um jogo, afinal tudo o que uma religião precisa, menos a promessa de salvação. Contudo, o futebol não inventa a identidade nacional do nada. Reconfigura uma identidade que já existe, e fá-lo substituindo formas mais exigentes de cidadania por formas puramente afectivas. Digamos que é mais fácil sentir-se português num estádio do que participar numa assembleia, num sindicato, numa associação, ou numa tertúlia. É mais fácil ter opinião sobre um penálti do que sobre uma determinada política pública. A pertença desportiva não exige nada, apenas exige que se sinta. E o que não exige nada acaba por valer pouco, mesmo quando se sente muito.

 

Nos dias de hoje, o futebol é uma indústria, com uma economia política que raramente se discute fora dos círculos especializados. Os adeptos são, ao mesmo tempo, consumidores e activos, pagam bilhetes, compram produtos promocionais, produzem audiências, dados e um envolvimento que constitui matéria-prima que os clubes e as televisões transformam em receita. A "paixão" não é um subproduto do negócio, é o próprio negócio e, como tal, é deliberadamente alimentada. Quanto mais intensa a rivalidade, maior o valor. Quanto maior o valor, maior o investimento para a alimentar, um ciclo que se auto-reforça e que não tem nenhum interesse em parar. No nosso País, este ciclo tem uma geografia própria. Durante décadas, os direitos televisivos foram negociados individualmente por cada clube. O resultado foi uma disparidade de aproximadamente quinze vezes entre o clube que mais recebe e o que menos recebe. Os convencionalmente designados por “três grandes” concentram mais de 70% da receita total. 

 

A pergunta a quem beneficia de que a atenção pública esteja ocupada com um “clássico” durante uma semana inteira, fica sem resposta, porque ninguém tem interesse em interrompê-la. Todos aparentemente beneficiam com a “organização”, a indústria do futebol, a comunicação dita social, os anunciantes. O sistema político é igualmente compensado, um país distraído é mais fácil de governar. E, alheios a tudo isto, os adeptos, a verdadeira matéria-prima do negócio, continuam a achar que estão apenas a fazer o que gostam. 

 

O filósofo britânico Terry Eagleton tentou interpretar a tese marxista do "ópio do povo", classificando-o como o esquema mais requintado que o capitalismo já concebeu, chegando mesmo a propor a sua abolição. O Autor foi ao ponto de afirmar que se todos os think tanks de direita se juntassem para inventar uma forma de distrair a população das injustiças políticas e compensá-la por uma vida de trabalho duro, a solução seria sempre a mesma: o futebol. Será o fenómeno do futebol então, neste momento a única linguagem que milhões de pessoas têm para dizer o que sentem sobre o mundo? Tomemos o exemplo do Brasil, onde, nos últimos anos, apareceram as torcidas antifascistas de adeptos que se organizam dentro e fora dos estádios para se oporem às políticas de extrema-direita, para defenderem direitos, para transformarem o espaço do futebol em espaço de mobilização política. Aqui, parece coexistir a pertença com o protesto, abalando a tese do ópio puro. 

 

Se o preço da atenção nos catapultar para imaginar a nação no relvado, estaremos no patamar zero da comunidade reduzida ao estádio. Este não pode ser o único lugar onde milhões de pessoas sentem que pertencem a alguma coisa. Caso assim fosse, estaríamos a desistir de nos reconhecermos em tudo o resto. Esta falsa identidade, que institui uma comunidade imaginada que substitui todas as outras, é apenas uma armadilha.

 

17 setembro 2026

 INTERMITÊNCIAS (intermitentes) 

Do que se sabe, existe algo de intermitente na vida, uma questão de descontinuidade, como num emprego actual, em que há períodos de actividade intercalados com outros e aquela é substituída pela (muitas vezes, inesperada) inactividade. Quando se pretende escrever sobre intermitências devemos começar por ser intermitentes e assim respeitar a situação, o acto contínuo é relegado para plano secundário. Embora os contrários nem sempre se confrontem, antes se completem, segundo Hegel, assim terá sentido o progresso histórico e a possível alusão à intermitência que pode significar um enquadramento produtivo à análise, quando falha a lógica habitual. 

 

Na sua obra de  2005, “As Intermitências da Morte”, José Saramago, imagina um país onde a morte deixa de funcionar: as pessoas festejam, mas logo se sucede o caos, com hospitais sem vagas, pensões a rebentar, a igreja em pânico teológico, a monarquia sem sucessão. A "intermitência" é desde logo política: quando o sistema perde o seu "terminador", o que aparece não é energia, é a máquina burocrática a girar em vazio. Num primeiro nível, o entusiasmo inicial com a morte suspensa equivale à ilusão de que a desaparição de um problema estrutural é a sua resolução. Depois vem a impotência: o governo organiza canais clandestinos para levar doentes a morrer no país vizinho, através de mecanismos de corrupção. Num segundo nível, o governo não decide nada de verdade, gere em segredo e fraude. É exatamente o "burocrata menor" que não governa, mantém um Estado semi-morto a funcionar. 

 

A intermitência política não é revolução nem colapso, é uma governação que ora falha, ora finge funcionar. Assim nos encontramos, na maior parte dos países do ocidente caduco e incapaz de dar resposta aos anseios dos cidadãos. A disposição destes face ao fenómeno político não é paixão nem revolta, é apenas habituação. O governo não resolve, gere o dia-a-dia, não governa, deixa passar. O político medíocre não é o que falha, é o que se mantém a funcionar em modo intermitente, o suficiente para não ser substituído. E as pessoas aceitam, porque a alternativa é, ou lhe dizem que é, o caos. A intermitência torna-se um conforto, particularmente para uma oposição cinzenta e colaborante, que faz exactamente o mesmo, deixa andar e entrega à extrema-direita o “comando” de uma falsa alternativa. Na ficção, o governo organiza corredores clandestinos para levar doentes a morrer na fronteira. Na realidade, o governo, a máquina medíocre que continua a funcionar “com legitimidade democrática” (assim é a democracia burguesa), faz da intermitência o funcionamento permanente. Deste lado, apenas nos habituamos a que “ainda mexe”, não deixamos de nos indignar, aprendemos possivelmente a guardar a indignação na intermitência, no intervalo entre duas desilusões, vivendo a nossa vida. Há algures um comentário (des)ajustado: "Os portugueses querem é sossego, 58% desaprovam o desempenho do governo, mas isso não os faz querer eleições antecipadas, acham que governa mal, mas a maioria prefere deixar a legislatura ir até ao fim." Assim, assumimos o verbo “saramaguear” como cognato de analisar segundo uma visão reflexiva, necessariamente crítica e irónica e, muitas vezes subversiva. Este é o ponto.

 

No reino dos monstros do claro-escuro, há os que gritam e os que já aprenderam a não gritar. O debate da moção de censura ao governo redundou num fracasso admitido e não atribuído, um problema que espera eternamente ao virar da esquina. Na verdade, como bem nos ensina o filósofo francês Michel Onfray, o sistema não precisa de nos convencer, basta que aceitemos que não há alternativa, sendo que este é mesmo o sentido político da intermitência. Porventura, o melhor exemplo de intermitência é o “caso Spinumviva”, aparece e reaparece de quando em vez. Relembrando, o fisco investigou suspeitas de arranjos fiscais, a PGR veio dizer que "não houve nenhuma denúncia nem comunicação de informação à Autoridade Tributária", no inquérito preventivo. Todavia, o caso nunca encerrou: em 2025 entraram dois recursos, a correspondência com o Tribunal Constitucional continuou, sobre a mesma matéria. Houve ainda um regulador europeu a criticar a cobertura mediática por "fragilidades na exigência de informação", sem, no entanto, negar os arranjos. Onfray critica a servidão transformada em virtude e a fabricação do consentimento, centros nevrálgicos do Poder do século XXI. 

 

Alguns recentes exemplos de episódios, que se não fossem trágicos, seriam hilariantes. Os resultados do PISA (“Programme for International Student Assessment”, ou “Programa Internacional de Avaliação de Alunos”), um estudo comparativo internacional desenvolvido pela OCDE, mostra quedas de 12 a 15 pontos em Leitura e Matemática, desde 2015, uma investigadora diz que os alunos estão cerca de um ano e meio atrás dos colegas de 2015 e que a leitura está ao nível de 2000 e o secretário de Estado da Educação diz que estes resultados, "do ponto de vista das políticas públicas, não se relacionam directamente com o actual governo". Ou seja, a Educação recua vinte anos e ninguém é responsável. Um outro tem a ver com as trapalhadas relacionadas com o ministro da Administração Interna, por quem quase ninguém põe a mão no fogo. No entanto, todos se manifestam contra o único mecanismo formal que transformaria essa concordância em consequência política. Mesmo quando se pensa (e bem) que não basta substituir pessoas e o que é preciso é substituir políticas, a verdade é que o sistema finge, durante umas horas, que vai exigir contas e, no minuto seguinte, regressa calmamente ao vazio. Isto não passa de intermitência de responsabilidade. O último episódio é por demais ultrajante: na abertura do debate da moção (dita de censura) o primeiro-ministro anuncia um suplemento extraordinário para pensionistas, uma esmola miserável em troco de um voto.

 

No final da ficção de Saramago, a morte apaixona-se por um violoncelista, humaniza-se, deixa de ser função e passa a ser alguém. Na realidade, a “morte” do sistema é a privatização completa da esfera pública, onde “....não há pão, nem há sossego”, como nos lembra Zeca Afonso, nos "Meninos do Bairro Negro", ou seja a desumanização absoluta.

Em boa verdade, os “monstros” e a sua narrativa ganham hoje uma nova vida: a evocação de Gramsci “O mundo velho está a morrer. O mundo novo tarda em aparecer. Neste claro-escuro nascem os monstros” ganha uma dimensão “especial” e supõe a seguinte “adaptação": o intervalo entre o que morreu e o que não nasceu é exactamente o espaço onde os burocratas medíocres reinam e prosperam. Assim mesmo é hoje o Poder instituído.