rio torto

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11 dezembro 2023

ARTIGOS DO MÊS DE NOVEMBRO 23 – DIÁRIO 560

 
A ESPIRAL DO SILÊNCIO
2 Novembro 2023
 
A imposição deliberada do silêncio serve uma estratégia perversa, uma espiral voluntariamente desenhada com o intuito de ocultar a história, mesmo que tal possa parecer uma impossibilidade. Não são quaisquer forças do mal, hipoteticamente ao serviço de teorias da conspiração, arquétipos de crenças sobre manipulações secretas, mas sim realidades bem vivas sobre acções deliberadas e intencionalmente apostadas numa narrativa unipolar para impor uma verdade, um pensamento, uma solução. Para tal, nada melhor que a “construção” de mais um muro, neste caso na Faixa de Gaza e que oculta uma chacina criminosa. O silêncio é, neste particular, uma posição, à qual se remete o “ocidente civilizado” perante a acção terrorista dos que apostam na passagem da ocupação violenta ao extermínio organizado. 

 

Proponho-vos um recuo a 8 de Julho de 2022. Nesse dia passariam 50 anos do assassinato de Ghassan Kanafani, co-fundador da Frente Popular para a Libertação da Palestina, pelos serviços secretos israelitas. E foi precisamente naquele dia que o médico palestiniano Yasser Jamil Fayad lhe rendeu um tributo muito especial, num texto particularmente sensível, parte de um livro que sairia a público uns meses depois, com o título “Ghassan Kanafani – anticolonialismo e alternativa socialista na Palestina”, publicado pela Editora Fedayin.  Nele se evoca o Homem que foi, para além de activista da causa palestiniana, um destacado intelectual e escritor e que abraçaria o internacionalismo revolucionário, anti-colonialista e anti-imperialista, um dos que viu os seus compatriotas sofrer. Sofrimento que Yasser classificou como a horrenda e execrável expulsão forçada de mais da metade do povo palestiniano das suas terras e de como se reorganizou, em campos de refugiados e tendas, a resistência e a luta nas décadas que se seguiram. Yasser lembrou, a propósito, os crimes cometidos por Israel, particularmente entre Dezembro de 2008 e Janeiro de 2009, com a utilização de armas químicas (fósforo branco), que dizimaram as populações. 

 

O som do silêncio “ouve-se” actualmente no mundo ocidental, onde é notória uma cultura de cancelamento. Não começou com a guerra da Ucrânia (vem de muito antes), mas foi esse um dos pontos mais altos, com os tristes episódios, de índole macarthista, das proibições de canais de televisão russa, de espectáculos e de obras de arte de autores russos. Continuou e intensificou-se, impondo uma verdade e um pensamento únicos. Culmina hoje com a posição hipócrita da dita União Europeia, colónia dos Estados Unidos da América, perante Israel, um país fora da lei e com um governo corrupto e terrorista, que criou o grupo Hamas, que, por força dos ensinamentos, é obviamente também terrorista. Mas não é esse o entendimento da maioria esmagadora da comunicação social ocidental, vendida ao Império e completamente subjugada aos seus interesses. Para esta, apenas o dito grupo é terrorista, a outa parte, é apenas, um “país aliado”. 

 

Um dos autores que teorizou o “cancelamento” foi o jornalista norte-americano Walter Lippmann. Em 1922, publicou uma obra, considerada fundamental para o estudo da comunicação social nos EUA, designada “Opinião Pública”, na qual formulou a tese de que os cidadãos não respondiam directamente aos factos do mundo real, mas que viviam, ou eram forçados a viver, num “pseudo-ambiente”, composto por imagens projectadas nas suas mentes e oriundas de uma comunicação social devidamente treinada e naturalmente subserviente ao poder do dinheiro. Muito embora, na segunda fase da sua vida, se tenha “convertido” ao mercado, à boa maneira americana, deixou-nos a interessante tese “the manufacture of consent”, em português, "fabricação de consentimento", que supõe um processo de construção das mentes. E foi aliás, com base naquela tese que os norte-americanos Noam Chomsky e Edward Samuel Herman, lançaram em 1998 a obra Manufacturing Consent – The Political Economy of the Mass Media, em que descrevam a comunicação social como um mero negócio, com base na propaganda. 

 

Poder-se-ia perguntar a qualquer pessoa se alguma vez se sentiu intimidada por expressar a sua opinião, porque era simplesmente diferente da maioria. É uma situação típica dos tempos que correm, que tem como consequência directa uma espiral de silêncio e um cancelamento conveniente. Numa circunstância dessas, a pessoa, muito provavelmente, ou expressa livremente a sua posição, ou, pelo contrário, cala-se e entra numa espiral de silêncio, deixando de manifestar o seu pensamento com receio de ser rejeitado pelo seu grupo social.

Alguns estudos sobre a espiral do silêncio datam dos anos setenta do século passado e tiveram, na cientista política alemã Elisabeth Noelle-Neumann e na sua obra “The Spiral of Silence: Public Opinion – Our Social Skin”, (em português, “A espiral do silêncio: Opinião Pública – a nossa Pele Social”), uma expressão significativa. Ao analisar o comportamento social, face aos meios de comunicação de massa, a Autora reforça a ideia de que as pessoas tendem a calar-se quando percebem que a sua opinião é minoritária ou contrária à opinião dominante na sociedade, com receio de serem criticadas ou mesmo ridicularizadas, quando não, inclusivamente isoladas.

 

Constata-se, com relativa naturalidade, que as sucessivas ofensivas militares judaicas contra a Faixa de Gaza e a Cisjordânia foram sempre protegidas por uma espiral de silêncio dos principais meios de comunicação mundiais controlados por aquilo que é o lobby judeu transnacional, um poder imenso, incarnado pelos detentores do capital e ao qual o “ocidente civilizado” se rende vergonhosamente.

 

E entretanto, os inocentes estão, uma vez mais, em silêncio. 

Um outro silêncio foi escrito em livro por Thomas Harris (The Silence of the Lambs), publicado em 1988 e depois passado para a tela por Jonathan Demme, em 1991. Netanyahu não tem a classe de Hannibal Lecter, mas, tal como ele, é um monstro, com uma mente psicopata, com uma fixação especial em destruir palestinianos. Aqui, a espiral do silêncio é arquitectada no morticínio em massa. Os mortos não falam. Deixam apenas um silêncio enorme atrás de si.

 

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ANÁLISE DO RITMO DO PODER

9 Novembro 2023

A perda de legitimidade da análise é hoje uma constante. E só mesmo com um esforço significativo se consegue chegar ao patamar mínimo, que é a passagem do pensamento crítico à expressão falada ou escrita, de uma ideia, ou de um pensamento. Os argumentos que são utilizados na discussão política, não passam, na maior parte das vezes, de arrufos obliterados, de tão ténues na sua essência e de tão pobres na sua significância. É hoje vulgar, sobretudo na comunicação (dita) social encontrar, por um lado, um profundo desprezo pela racionalidade e, por outro lado, uma falta de ritmo que é normalmente associada a uma espécie de paragem na solução de continuidade que é congruente com o fluir das ondas e, consequentemente, se estende ao desenvolvimento do próprio pensamento criativo.

O Poder tem um ritmo que por vezes não é compatível com a situação política. Existe uma impossibilidade prática de separação dos ritmos que envolvem o investigador e o investigado, na sociedade urbana atual. Se atentarmos à agitação provocada pela demissão do Primeiro-Ministro em Portugal, identificamos de imediato um ritmo uniforme, que tem a ver com o imediatismo e o espectáculo da “crucificação” da pessoa que ocupa o cargo, ficando para trás outras variáveis, como por exemplo, as causas da demissão, ou um hipotético envolvimento com eventuais arguidos. O que parece importar é apenas quem lhe irá suceder, aparecendo os nomes habituais e mais alguns que entretanto são avançados pelos comentadores que pautam a agenda mediática e, consequentemente, a agenda política. Fora de qualquer análise está, como sempre, uma mudança de políticas, o necessário diálogo com os intervenientes para a resolução dos problemas nas mais diversas áreas, enfim, uma análise séria legitimada em pressupostos identificáveis. Não deixa de ser curioso constatar que a análise seja centrada em uma só pessoa, ao ponto de se questionar que lugar irá ocupar em Bruxelas, ou noutro qualquer centro de Poder, na dita “União”. Não deixa de ser curioso também o facto de ser o ritmo do Ministério Público, a pautar a agenda mediática.

O final do século XIX e o início do século XX marcaram o nascimento de uma corrente filosófica designada “Ritmanálise”. O responsável pela autoria, foi o matemático e físico português Lúcio Pinheiro dos Santos, um Homem dotado de uma forte personalidade de grande capacidade pessoal e ainda de uma imensa combatividade cívica e política. A ele se associaram os conhecidos filósofos franceses Gaston Bachelard e Henri Lefebvre, ampliando estudos e investigação sobre a matéria, que entretanto carece de algum aprofundamento na actualidade, de forma a constituir-se como uma possível ferramenta, na análise e na retórica discursiva. Lefebvre fez, a partir da década de 1930, importantes estudos a respeito da imaginação na literatura e na produção de imagens literárias, a partir dos conceitos de ritmanálise, assinalando que a mesma, busca integrar através da noção de ritmo, tanto o que é social quanto o que é natural, para reconstituir uma unidade entre ambos. E sublinha a importância das rupturas sociais, porque é afinal a transformação da sociedade que está em jogo e que implica uma nova relação entre o espaço e o tempo. O critério adoptado é o das representações e decisões políticas. Na verdade, para haver mudanças, é preciso que um grupo social ou uma classe, intervenham, imprimindo um ritmo numa época, seja através de reformas, seja pela força. Segundo a sua tese, a ritmanálise tem como princípio a ideia de que a matéria não está inerte, indiferente ao tempo ou tão pouco numa duração uniforme.

Um dos objectivos da ritmanálise é de tratar das diferenças, das rupturas dos ritmos do quotidiano. É necessário dar a devida atenção à descontinuidade, através da combinação entre instante e ritmo.

O ritmo de vida actual substitui a “resistência” pela “resiliência”, a luta por direitos pelo conformismo, o diálogo pela aceitação tácita, a independência pela sujeição a poderes não-eleitos, a subordinação da economia à política pela financeirização e pelo poder da banca e do dinheiro, a livre expressão pelo condicionamento e, em alguns casos, pela auto-censura. Um vórtice imenso que transformou as democracias ocidentais em meros instrumentos onde dominam os burocratas e os censores, os notários e os banqueiros.

Ver hoje o organismo que tem por finalidade “garantir o direito à igualdade e a igualdade perante o Direito, bem como o rigoroso cumprimento das leis à luz dos princípios democráticos”, ao ritmo do mediatismo e do populismo, é deveras confrangedor. Sendo o Ministério Público, um órgão do poder judicial, que participa, com autonomia, na administração da justiça, com competência para exercer a acção penal, não pode ficar fora da análise cidadã.

A oportunidade que escolheu para, na prática, derrubar um governo, sem se preocupar em formular qualquer acusação em concreto, é sintomática da tentativa de impor um ritmo próprio. Que é devidamente marcado e corresponde a um movimento coordenado, uma sucessão regular dos tempos fortes, tal como na música. E que influencia, de forma emocional, uma sociedade, os seus comportamentos e actos, os seus anseios e esperanças, enfim, a sua vivência social e natural.

É o ritmo de um poder, que escapa seguramente às exigências prementes de uma Democracia, pelas piores razões, porque nega a sua essência de princípio unificador e escolhe deliberadamente o lado errado da existência.

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SOBERANIA e AUTONOMIA

16 Novembro 2023

 

A ideia de “soberania”, data do século XVII, surgindo na ordem jurídica internacional sob a capa de instituto jurídico, para que o Estado se pudesse afirmar como um elemento essencial para o seu desenvolvimento e afirmação. Soberanos são considerados os estados que ostentam a conhecida máxima "Um governo, um povo, um território", atribuída a Max Weber. Soberana é também a dívida, por ser considerada como o conjunto das dívidas assumidas ou garantidas pelo Estado, pelo menos no sentido estrito. Soberano é, segundo as definições habituais, aquele que detém o poder, o povo soberano, ou aquele que exerce o poder ou a autoridade sem restrições, neste caso, o governo soberano.

 

No século XX e no século em que vivemos, cultiva-se um conceito especial do termo “soberano”, naturalmente extensivo à reportada “soberania” e que pode ser associado a quem decide sobre o estado de excepção, bastando para tal recordar os tempos da pandemia, em que se usou e abusou da ideia, numa prática tipificada em sucessivas decisões estatais, em que ostensivamente abundaram as decisões para suspender a lei, justificando para tal uma “emergência estatal”. Recorde-se que o referido conceito foi explorado e difundido pelo filósofo e jurista alemão Carl Schmitt, um convicto defensor do regime nazi e que tal classificação se referia às vertente legal, constitucional e política da soberania.

 

Mas foi no século XIX que terá avançado um conceito jurídico de soberania, que supõe que ela pertence, de facto, ao Estado e não a qualquer autoridade particular. E mais, conforme as vastas formulações do filósofo alemão Immanuel Kant e do pensador político suíço Jean-Jacques Rousseau, que será a noção jurídica de soberania que orienta as relações entre os Estados, enquanto potências, e que tal princípio será a base da Constituição de cada país. 

 

Assim é, no nosso País. A Constituição da República Portuguesa consagra, no seu artigo 1.º, que “Portugal é uma República soberana”, condição especificada no artigo 2.º, “A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular”. E determina, no artigo 110.º, os Órgãos de Soberania que exercem os poderes soberanos do Estado: Presidente da República, Assembleia da República, Governo e Tribunais.

Um organismo muito em foco nos últimos anos, é o Ministério Público. O artigo 219.º da Constituição, estabelece-lhe as respectivas funções e estatuto: “Ao Ministério Público compete representar o Estado e defender os interesses que a lei determinar, bem como, com observância do disposto no número seguinte e nos termos da lei, participar na execução da política criminal definida pelos órgãos de soberania, exercer a acção penal orientada pelo princípio da legalidade e defender a legalidade democrática”. No Portal do organismo, pode ler-se que o MP é “...um órgão de administração da justiça, integrado na função judicial do Estado” e ainda “...é uma instituição que tem por finalidade garantir o direito à igualdade e a igualdade perante o Direito, bem como o rigoroso cumprimento das leis à luz dos princípios democráticos”.

 

Um conceito que está de certa forma ligado ao de soberania é o de “autonomia”. A etimologia do termo é grega e significa basicamente “lei própria”. Em ciência política, tal se pode associar, quer à faculdade de se governar por si mesmo (ou se reger por leis próprias), quer ainda a liberdade ou independência moral ou intelectual. Um conceito também utilizado em Educação e que reporta substancialmente à responsabilidade social da comunidade educativa, mas também à qualidade do “ser autónomo”, para mais adequadamente cumprir uma missão social específica.

 

A hiperactividade recente do MP, que, apesar de ter autonomia, não é um órgão de soberania, é preocupante, quer do ponto vista ético, quer na perspectiva do exercício de um poder quase espectral, na assertividade que deriva de um desejo de exercício de uma espécie de contra-poder, bem ao gosto das teses do antropólogo francês Lévi-Strauss. Uma situação perfeitamente evitável, mas porventura justificável, na perspectiva de quem parece pretender instalar uma certa confusão no que reporta ao exercício daquilo que se pode hoje apelidar de justicialismo na política, naturalmente ao arrepio da designada legalidade institucional.  Possivelmente, uma autonomia hiperactiva, de contornos muito pouco democráticos e, ao que é dado verificar, de consequências imprevisíveis.

 

Da soberania perdida na Europa, por ter sido retirada do centro da política, através da abdicação “...dos instrumentos de política que podem dar densidade material à autoridade política nacional”, segundo a opinião do investigador português João Rodrigues, até à imposição de uma autonomia artificial de um organismo como o MP, que deveria defender os interesses que a lei determinar, vai um passo muito curto, na denegação do virtuosismo e de uma certa “bondade” dos conceitos originais, particularmente no que se relaciona com o exercício da Democracia, que cada vez mais parece ser uma ilusão, porventura em vias de extinção.

 

E, por exigência factual, lembro o filósofo florentino Nicolau Maquiavel, que escreveu sobre o Estado e o governo como realmente são, e não como deveriam ser. E que a teoria política que ele vivenciou era, no fundo, uma política não democrática numa cidade cheia de conflitos internos e externos pelo poder e que sofria uma forte influência da igreja católica. São pontos de contacto terríveis, atendendo ao facto de ele ter vivido em pleno século XV.

O jornalista António Rodrigues escreveu, no passado 27 de Outubro, um artigo a que chamou “Bem-Vindos À Idade Média Versão 2.0” e em que, citando o jornalista israelita Gideon Levy, disse uma verdade que parece irrefutável, este é um tempo obscuro”.

 

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ZONAS CINZENTAS E SEUS HABITANTES

23 Novembro 2023

 

Multiplicam-se por todo lado as zonas cinzentas. Fruto alimentado no pântano em que se tornou o território social, em que predominam espécies em vias de crescimento e expansão, que compaginam com a mediocridade e o pensamento limitado e a que é suposto chamar “populismo”. Não têm qualquer problema em apelidar-se “moderados” e “do centro”, abjuram claramente teses que apelidam de “ideológicas”, as quais, no seu entender, atentam contra o interesse colectivo, que obviamente pensam representar. Para melhor se apresentarem, afirmam rejeitar “extremismos de direita e de esquerda”, colocando-se num eventual pedestal, que acreditam piamente ser trampolim para um eventual “desígnio”.

Pululam entre rádios e TV, escrevem em jornais e revistas, com pensamento qualificado em coisa nenhuma, passeiam diariamente a sua verborreia e anti-sabedoria. A única “qualificação” que parecem possuir é apenas o livre exercício da asneira e do disparate. 

 

Exemplos são aos montes e é difícil descobrir-lhes diferenças. Estão fervorosamente apostados em dominar o espaço público, que, para eles é o privado da mediania. Constituem-se como uma das zonas cinzentas da sociedade. Odeiam os trabalhadores e as suas organizações, que, para eles representam um perigo iminente, não só no aspecto formal, como no imaginário.

Aparentemente estudam os dossiês de forma leve e descuidada e facilmente caem em contradições, que, contudo, interpretam sempre de forma sobranceira. Citar-lhes os nomes é dar-lhes mérito que não têm. Um exemplo recente mostra uma dessas figuras menores a proclamar a morte do Partido Comunista Português e a “manifesta impossibilidade” em entrar numa solução governativa, porque está “contra a Ucrânia que todos defendemos”. Outro, perante a opinião do entrevistado sobre a natureza do Hamas, dizia, é “terrorista”, porque assim o classificam os EUA e a UE. 

 

O conceito de “zona cinzenta”, uma zona de contornos mal definidos, foi exposto pelo escritor italiano Primo Levi, baseado na sua experiência no campo da morte de Auschwitz, onde permaneceu durante quase um ano. Pensado e reflectido nas relações humanas em situações extremas, constitui um testemunho a uma análise da condição humana, um espaço nebuloso de indeterminação moral, conforme a classificação do professor brasileiro Aislan Maciera. Este investigador de Levi sustenta que é preciso sempre ter em vista os pontos cegos que definem as fronteiras das zonas cinzentas, para calibrar algumas respostas, através de uma cartografia própria.

Na sua última obra, “Os afogados e os sobreviventes”, concluída em 1986, um ano antes da sua morte, Primo Levi transforma em conceito a “zona cinzenta”, uma espécie de “chave de leitura”, uma ferramenta que abre as portas para novas possibilidades de interpretação de uma série de fenómenos nos campos da ética e da política.

 

Há uma asserção mortífera, que tem atravessado o espectro político, “À justiça o que é da justiça, à política o que é da política”. Para além da vacuidade formal, este “pensamento”, que pode incluir até um conceito, ou, no mínimo, uma postura, uma forma de instituir mais uma zona cinzenta, não abarca o essencial. Que é afinal o de “justiça política”, formulação onde cabe a correlação entre o cumprimento de objectivos pré-definidos, da natureza jurídica ou política, com as solicitações e necessidades específicas de justiça, respeitantes a grupos e comunidades definidas, teorizado pelo professor de filosofia política britânico John Rawls.

A base da justiça política pressupõe, por exemplo, que, em condições adversas e de exclusão, nomeadamente quando determinadas políticas públicas geram injustiças sociais evidentes, se instituam alterações no sentido de proteger os direitos fundamentais e na inserção social de comunidades desfavorecidas, ou mesmo, excluídas. A política determinará assim sempre a forma de interpretação, gestão e administração da justiça.

Os habitantes das zonas cinzentas não têm um património próprio. Quem os sustenta e alimenta detém a responsabilidade da sua existência e proliferação e investe provavelmente no vazio da sua insignificância. Mas, por outro lado, na sua capacidade como “influenciadores” de uma opinião pública carente e desprotegida. Não é certamente em nome do conhecimento e da cidadania. Mais parece ser um apelo à ignorância e à mediocridade, cultivando estes “valores”, que se traduzem no espectáculo mediático, se possível, com algum sangue à mistura. 

Os nativos destas zonas cultivam a ignorância e o medo. Falam alto, no pretenso bom som e na sua vontade de se fazerem simplesmente ouvir. Há os que detêm algum poder e, como tal, usam-no indiscriminadamente. Há outros, sem poder algum e que trepam por aí, com os meios que têm à disposição, nomeadamente nas redes sociais, um campo fértil ao mediatismo e à estupidificação e que desejam, acima de tudo, impor um estado contínuo de imediatismo ignorante, em que o outro é sempre um inimigo.

Saber compreender o carácter particular, e não geral, da verdade é um ensinamento que vem, pelo menos, do século XVIII, formulado pelo poeta inglês William Blake, homem que sempre resistiu à simplificação da experiência de pensamento. 

Nas zonas cinzentas não há lugar à relatividade e a verdade é uma e indivisível. 

 

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O “NÃO-SABER” É UMA ATITUDE

30 Novembro 2023

 

A capacidade de reconhecer que existem culturas diferentes, que deveriam merecem todo o respeito costuma ser designada pelo termo alteridade. Será eventualmente um passo importante na construção de uma sociedade mais justa e mais democrática. Existem na contemporaneidade algumas experiências de alteridade, por vezes desqualificadas, para contrariar a hegemonia de um tipo de saber dominante, que se baseiam substancialmente na incerteza e na perspectiva socrática do “não-saber”. Assim se constitui porventura uma poderosa fonte de descoberta.

 

O tema vem a propósito de uma excitante exposição, patente na Estação de metro de S. Bento, no Porto, com o título “L’École Du Non-Savoir”, ou “A Escola do Não-Saber”, que reúne obras de autores internacionais ligados ao design gráfico e foi apresentada no âmbito da Porto Design Biennale, de 21 de Outubro a 3 de Dezembro de 2023. O Autor é o designer franco-suíço Ruedi Baur, que lecciona na Universidade de Arte e Design de Genebra, na Escola de Artes Decorativas de Paris, na Luxun Academy Shenyang de Pequim e na International School of Percé do Quebec. A ideia original parte de um “conjunto de imagens que exploram a ideia de uma escola onde se trabalha aquilo que não sabemos, em vez daquilo que sabemos” e reúne trabalhos de estudantes de mais de 30 escolas e universidades internacionais, tendo como finalidade “transmitir conteúdos simples ou complexos dos quais não temos conhecimento”. São, no entender de Baur, conteúdos perdidos ou ignorados, “...grandes mistérios das nossas sociedades, mas também daquilo que poderemos descobrir no futuro no campo das ciências humanas, das ciências políticas e das ciências exactas”. 

A questão da representação está patente na Exposição. Na verdade, o trabalho de fundo do projecto é a representação do não-conhecimento, “...na convicção de que o diálogo entre as artes, o design, a ciência e a sociedade pode abrir novos horizontes para a compreensão e a apreensão de mundos conhecidos e ainda por descobrir”. A ideia será, com base numa abordagem interdisciplinar, poder questionar, “...a partir de diferentes pontos de vista e de diferentes pontos de partida, a nossa relação com o conhecido, o desconhecido, o escondido e o enterrado, e questionar tanto as representações como as formas de transmissão do não conhecimento”. Onde não são esquecidas as questões da actualidade, como a linguagem e a cultura, a história e o futuro, as tecnologias e a ciência, as migrações e as religiões, o Oriente e o Ocidente. E ainda o objectivo e o imaginário na representação do mundo. 

 

Uma das questões emergentes do novo século situa-se no eventual poder do não-saber. Quer porque vivemos um tempo de incertezas, quer ainda porque os avanços da técnica e das tecnologias não foram suficientes para garantir, nem mais igualdade, nem mais justiça social. A possibilidade de trabalhar aquilo que não sabemos, em vez daquilo que sabemos, poderá conduzir-nos ao desenvolvimento de narrativas próprias para transmitir conteúdos simples ou complexos dos quais não temos conhecimento. Como por exemplo, nas propostas da Escola do Não-Saber, para explicar coisas que foram esquecidas, ou que não foram descobertas, ou ainda para determinadas temáticas ou assuntos não-convenientes. 

 

Quando José Saramago diz, no “Ensaio Sobre a Cegueira”, “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, está de certa forma a enfrentar o desconhecimento e a suscitar todas as possíveis dúvidas, interrogações, e contradições da sociedade, particularmente numa situação de caos, em que as pessoas são transformadas em seres que lutam pela sobrevivência, face à desorganização ou à desestruturação sociais. Porque afinal a realidade é, ou pode ser, enganosa, o mundo não é só o que os olhos vêm, a imagem substitui o objecto, tudo parece relativo.

E aqui se pode colocar de novo a ideia de “representação”, centrada em conceitos do domínio do imaginário, como o mito e a memória, a utopia e a ideologia. O influente pensador do final do século XX que mais e melhor trabalhou sobre as “representações” foi o filósofo francês Cornelius Castoriadis, o Homem da “autonomia” e do grupo Socialismo ou Barbárie. Na sua obra "L'Institution imaginaire de la société” de 1975, o Autor levanta a questão da possibilidade efectiva de transformação social, afirmando que a história fez nascer um projecto que é o nosso, pois nele reconhecemos as nossas mais profundas aspirações, e pensamos que é viável, neste espaço e neste tempo. E ainda, que a transformação passa pela questão do instituinte e da autonomia, instâncias possivelmente de um qualquer contra-poder. 

 

Uma das melhores proposições de Ruedi Baur, sobre a sua exposição, foi, sem qualquer dívida que “cada imagem é em si mesma uma afirmação, e o nosso sistema educativo ensina-nos a persuadir em vez de questionar”. Associar hoje a transformação à necessidade premente de dotar a Escola dos instrumentos necessários de contra-poder é o mesmo que “fundar” uma nova escola baseada na mediação e na desconstrução. E se ela quer ser o contraponto entre “saber” e não-saber”, de forma a tornar o “não-saber” como atitude.

Se fosse possível reconhecer o que não sabemos encontraríamos decerto a melhor forma de combater uma eventual “ignorância” e desencadear, a partir daí, um processo contínuo de aprendizagem.

 

 

26 novembro 2023

 SEMPRE A ASNEIRAR...

 

Não será a capa do Jornal Record de ontem, apesar do “Olho para trás e não faz sentido”, atribuído ao treinador do meu clube, a suscitar um conselho àquele personagem que ontem discursou em Almada, no comício (perdão, no Congresso) do partido dele.

 


Na verdade, aquela figura que pensa ser o porta-voz da Direita anquilosada e reaccionária, olha para trás e parece fazer todo o sentido. Ao discursar daquela forma, apelando ao divino, “deus nos livre...”, faz lembrar as figuras salazarentas do dito estado novo, contra o perigo do comunismo (deus nos livre, diziam eles também) e do socialismo e de todas as outras enormidades que consumiam o regime. E erámos (SEMPRE) nós que fazíamos a luta contra aquilo que eles representavam.

Ao discursar em Almada, o sujeitinho quis afirmar-se, um vez mais. Afirmação essa que tarda a acontecer, até no partido dele. Diz ele que só será primeiro-ministro se ganhar as eleições e aí ficamos descansados. Diz que não fará alianças, pudera, ele e o outro (o “coiso”) são faces diferentes da mesma moeda, mas agora dizem basicamente a mesma coisa. Finalmente, concluímos que não é preciso aliança alguma, está tudo dito.

 

Direita nunca mais” diz o Record. O João Neves (miúdo grande) nada tem a ver, apesar da foto dizer que “joga melhor no centro”. O outro, o do Congresso, joga muito bem à direita e, com a linguagem rasteira que utilizou, poderá jogar, com toda a redundância, a extremo-direito. Muito embora duvide que os centros que faz para a grande área consigam dar origem a algum golo, a não ser que algum defesa contrário meta a bola na própria baliza.

A Direita é isto. Bolas para o ar, a ver se algum incauto as apanha. Ou que a tal defesa contrária lhe facilite a vida e guarda-redes esteja distraído. 

 

O discurso do sujeito ronda o absurdo. Nem sequer os apelos que invoca se salvam. A aproximação à extrema-direita é mais que evidente. Se quer tirar votos ao “coiso” penso que já vai tarde. Porque afinal, quem será minimamente capaz de acreditar numa figura daquelas que só faz figuras tristes e nem sequer é capaz de convencer os seus apaniguados? Ao dizer que “Portugal não pode ter um radical no Governo...” mostra a sua faceta de “democrata”. Ao invocar o “gonçalvismo”, mostra o seu desespero. Ao vociferar contra o "camarada Pedro e ... uma Cinderela chamada camarada Mortágua", está a proclamar a anunciada derrota.

 

Às vezes faz pena (a pior coisa que se dizer de uma pessoa...) ouvir este sujeito, que respira mediocridade por todos os poros. 

Até apetecia dizer (se não fosse ateu), oh, valha-me deus...

09 novembro 2023

 O PODER NEFASTO DA BANCA

A Rádio TSF está a transmitir há mais de 2 horas um “importante evento”, designado “Money Conference. O desafio da Inteligência Artificial no futuro da banca”. Que os altos dignitários da banca se juntem, para se divertirem com a pobreza, tudo bem. Agora que uma rádio que se diz de serviço público utilize 2 horas de tempo de antena, já é diferente. Os senhores da banca (não ouvi senhoras, a não ser a senhora directora de comunicação da TSF, Rosália Amorim, uma agente especial da banca e da Direita), divertiram-se muito, rindo muito, porque afinal devem mesmo ter que rir dos pacóvios (como todos nós) que confiam na banca. 

Utilizam metade da sua pastosa verborreia com palavras em inglês, é o “compliance”, os layers”, os “players”, os “data lake”, os “stand-abone” e outras, muitas outras, que os colocam num limbo, do qual não abdicam. A sua arrogância é absolutamente repugnante. Lucros excessivos? Que não, o que se trata é e acautelar possíveis crises. Taxas de juro altas? Disparate, as nossas são as melhores da Europa. Exactamente a mesma situação da remuneração dos depósitos, vejam essa Europa e agradeçam-nos, porque “sabemos cuidar dos nossos clientes e somo responsáveis pelo progresso do País”. Mais, fiquem sabendo que as taxas de serviço que cobramos são exactamente no mínimo dos mínimos.
Atente-se no seguinte, para que não restem dúvidas:  os “banqueiros” são as pessoas mais ricas, quando na verdade não produzem nada. O que produzem é simplesmente as “bolhas” para alimentar as “crises”, que obviamente serão pagas por todos nós, num “esforço colaborativo” que o neoliberalismo institui com o termo “resiliência”.
Aquilo que Henry Ford disse sobre a banca deveria estar nas nossas cabeças todos os dias e a toda a hora: "Ainda bem que o povo da nossa nação não percebe como funciona o nosso sistema bancário e monetário, porque se compreendesse, acredito que haveria uma revolução antes de amanhã de manhã..." 

O que fica e é a mais pura verdade, é que pagamos a esta gente todos os seus desvarios e “aventuras”. Os monstros que ajudamos a criar estão aí. “Produzem conhecimento” que os órgão servis do Capital (como a TSF) nos metem pela cabeça dentro. Veja-se o estatuto absolutamente desmesurado que a banca e o sector financeiro ganharam na zona euro, nas últimas décadas. Veja-se a submissão completa dos governos dos países ao Banco Central que domina as nossas vidas e ainda por cima goza connosco, inventando crises para se aguentar, fomentando guerras para se eternizar, invadindo Estados (ainda se lembram da Grécia?) para mostrar a sua força maléfica.

Até apetece terminar com uma bela expressão em Inglês: “FUCK YOU”!!!

17 outubro 2023

A POBREZA É (infelizmente) UMA ARMA CARREGADA DE FUTURO 

 

Um lamento muito especial por ser obrigado a parafrasear Gabriel Celaya, que escreveu um belo poema “La poesia es un arma cargada de futuro” ao qual o Paco Ibanez deu voz, nos anos setenta do século passado. Mas não será decerto por acaso. A certo passo do Poema, Celaya diz-nos, “É para os fracos que canto e em cada verso que invento//faço arma da poesia e grito ao meu próprio jeito...”

 

Hoje é, segundo reza o calendário das comemorações, o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Um dia em que se cantam e proclamam as mais “profundas” declarações de circunstância sobre o mal-estar que a pobreza provoca na cabeça dos comentadores e outros biltres que nos brindam com a sua verborreia. É vê-los neste dia a vomitar os maiores disparates e a mais pura hipocrisia.  Não deveria haver hoje tanta pobreza, há pobreza em mais, em Portugal a situação de pobreza alastra, as estatísticas estão aí para o demonstrar. Entretanto, há organizações não-governamentais que fazem uma ginástica esquisita para protestar e há declarações de entidades governamentais que lamentam e prometem mais medidas. 

 

Hoje, neste dia, um Governo que se diz socialista, vê a situação dos seus concidadãos a piorar dia-a-dia. E o que faz? Propõe, ao que consta, um novo modelo de intervenção social, uma propalada “resposta integrada e personalizada”, com projectos-piloto centrados nas autarquias. Um “gestor social” para cada caso.

 

No ano passado, o Secretário-Geral das Nações Unidas, ao assinalar o Dia, disse, que estamos perante “...uma dura realidade: o mundo está a andar para trás.” Que se saiba e conheça, a situação de hoje será bem pior. Mas, vá lá, até poderá ter tocado num ponto sensível, ao afirmar a necessidade de passar à acção “...para transformar um sistema financeiro mundial moralmente falido...”

 

Veja-se então, face a isto, o parolismo lusitano. São as visitas papais, as uebsamits, os campeonatos do mundo e outras manifestações que fazem lembrar a mais descarada submissão aos grandes interesses, os piores interesses, precisamente alguns dos quais são particularmente responsáveis na criação das maiores desigualdades e, consequentemente, de mais e mais pobreza. 

Se olhassem, um minuto que fosse, para os estudos sobre a situação de pobreza em Portugal, poderiam talvez apreender qualquer coisa. Na verdade, o nosso País apresenta esta vergonhosa situação, que representa 1/5 da população em situação de pobreza ou exclusão social em 2022, a saber, 2 milhões de pessoas (19,4% da população). E veja-se, a submissão completa aos ditames de uma “união”, de um banco central, de um FMI e de tantas outras entidades não-eleita. E veja-se a subordinação de todas as políticas à moeda única e à “armadilha” da dívida e do défice. 



Gestor social", senhoras e senhores?

Se calhar é a melhor forma de “afastar” o problema, possivelmente do Estado-central para as Autarquias. Para não se falar no efectivo problema que é, nem mais nem menos, o que representa o verdadeiro assalto aos rendimentos dos trabalhadores, para o “aplicar” no aumento de renda para o Capital. 

Será que o “Gestor social” vai descobrir a pólvora e “aconselhar” o Governo a aumentar salários, a aplicar as reservas do Estado no investimento público, na Saúde e na Habitação? Será que vai dizer que é preciso acabar com o escândalo dos lucros desmedidos da banca e das grandes empresas? Será que vai investir na Justiça para todos, particularmente para os mais desfavorecidos, acabando de vez com os despejos? Será que vai dizer ao Governo que o País precisa de políticas completamente diferentes daquelas que estão a ser seguidas?

 

Claro que aquelas perguntas são completamente parvas e estúpidas. E apenas podem ser colocadas por quem está decididamente empenhado em destruir um sistema imenso, baseado na injustiça social e na hipocrisia generalizada. Ou se calhar, ainda bem, porque a pior ilusão é dos que não querem ver. Entretanto, inventam “gestores sociais” e continuam a dar voz a figuras mais ou menos execráveis como aquela do chamado “banco alimentar” que dizia que devíamos ajudar as pessoas para elas não ficarem completamente enraivecidas contra a falência total de um sistema.  

Pela parte que me toca, estou no pólo oposto, considerando que devíamos alertar (não ajudar) os cidadãos para realidade, na defesa da sua dignidade, para a sua insubmissão e revolta. Falando-lhe, ao mesmo tempo, em “coisas simples”, como, por exemplo, explorados e exploradores. Dizendo-lhes, como escrevi num artigo que tem exactamente 1 ano, mas que tem sempre actualidade: este é, cada vez mais, “...um sistema económico perverso que retira de uma classe o que falta lhe faz, para o distribuir de forma clara à outra classe, excluindo da primeira a possibilidade de usufruir dos instrumentos necessários para a mesma qualidade de vida que a outra detém.”

 

Para que a pobreza deixe de ser, como ainda é, (infelizmente) uma arma carregada de futuro.

08 outubro 2023

MOEDAS É UMA TROTINETE DESCONTROLADA

Uma trotinete é um objecto que não serve para nada, a não ser para atrapalhar a vida do cidadão que trabalha. Paris acabou de vez com essa inutilidade modernista. É patético ver uma pessoa em cima de uma coisa daquelas. Chega a interrogar-se se “aquilo” é um ser vivo ou um androide elementar a quem se dá uma moeda para  fazer qualquer coisa. E essa coisa é precisamente atrapalhar. Vejamos, quem utiliza aquela patetice? Meia dúzia de jovens tontos que mais valera que andassem a pé e, claro, a turistada, essa espécie menor que invade as cidades e que deixa uma pegada terrível, mas quem alguém inventou um dia ser a sobrevivência da espécie lusitana, que, pelos vistos, não possui nada de concreto a que se agarrar. O que é verdade é que as trotinetes eléctricas são um perigo mortal à solta, mas que ninguém parece querer ver, particularmente os responsáveis autárquicos, que parecem conviver bem com a maldita moda, que coloca em risco pessoas e bens e já causou acidentes mortais. E as polícias, tão pressurosas com a dita “ordem pública”, não são capazes sequer de chamar a atenção (eu diria outra coisa...) a um idiota qualquer que insiste em passear em cima daquilo nos passeios dos peões.

 

Alguém deve ter dado uma “moeda” aquele senhor que preside à primeira autarquia do País, precisamente a que mais sofre com a “invasão” dos turistas de pé rapado e que incomoda sobremaneira o ritmo normal da Cidade. Esse senhor que não tem uma palavra para os reais problemas dos seus concidadãos, particularmente da habitação, descontrolou-se, como qualquer aparelho daqueles, e inventou a melhor coisa para a cidade de Lisboa: uma comemoração do 25 de Novembro. É absolutamente fabulosa a ideia do senhor, que parece ser um misto de trotinete e unicórnio (seja lá o que isso for) e que existe no universo “maravilhoso” dos eventos. Que são variados e encorajadores para a maioria dos cidadãos, nomeadamente visitas e cerimoniais tipo “Leadership Summit Portugal”. Se não sabem o que isto é, também não faz mal, mas sempre vos digo que é uma espécie de “reborn from chaos”, ou, se preferirem, um “path for a new renaissance”. Ficaram na mesma? Ainda bem, não perdem nada. 

 

O dito senhor, que quer (pelos vistos) catapultar-se a “qualquer coisa maior”, libertou-se finalmente “...dos preconceitos e dos paradigmas que impedem a sua versatilidade, flexibilidade, criatividade e visão ampla”. E, sabendo que, “O mundo está a dar cartas, mas o jogo quem o vai jogar são as novas lideranças, as que se reerguerem para o novo mundo renascido”, assume assim o protagonismo que pensa merecer. [Agradeço que não me venham perguntar onde é que eu fui retirar aquelas “sentenças” ...]

 

Então é isso. 

Mesmo que a “trotinete descontrolada” que dá por aquele sonante nome (sonante, porque faz barulho quando cai...) saiba decerto muito pouco sobre a "famosa" data de 1975, saberá pelo menos de onde vem o “apetite” por celebrar o “evento”. E sabe (isso sabe, de certeza) quem o apoiará naquela que, segundo ele acha, vai ser “uma grande iniciativa". 

E como se sabe da importância que terá comemorar o dito 25, fica-se a saber da importância das trotinetes descontroladas.

11 setembro 2023

DOZE MIL MULHERES CHORAM NO CHILE

 

Hoje, dia 11 de Setembro, é dia de chorar no Chile.

Cerca de 12 mil mulheres, vestidas de preto e com velas nas mãos, fizeram uma vigília numa simbólica proteção do Palácio La Moneda, bombardeada há 50 anos durante o golpe de Pinochet, noticia hoje a Agência Lusa.

Provavelmente, nem tudo foi contado sobre o horrendo golpe fascista que derrubou, há 50 anos, o regime democraticamente eleito de Salvador Allende. Hoje, poderíamos simplesmente dizer que nunca esqueceremos o assalto de Pinochet, antecedido das manobras da CIA e da administração americana que conspirou, desde o início, contra o regime socialista. 

Sabemos, está na história recente da América Latina. Todas as tentativas de afastar o jugo capitalista foram sempre travadas com dinheiro e armas pelos americanos, que pensam serem os donos do Mundo. Uma situação que ainda hoje segue os mesmos princípios, as mesmas regras, num “método” que o jornalista e escritor norte-americano Vincent Bevins denunciou, no ano passado, na sua obra que evoca a cruzada anticomunista de Washington e o programa de assassínio maciço que moldou o nosso mundo, nomeadamente na Indonésia, onde os EUA ajudaram as forças militares indonésias a matarem cerca de um milhão de civis inocentes, no ano de 1965.

 

Hoje, o Chile chora os seus mortos. Prisões, torturas, execuções sumárias, assassínios, desaparecimento de cidadãos, estão na lista de “intervenções” dos fascistas e dos seus aliados. Uma das mais significativas terá sido a da imposição de uma série de “reformas”, que marcariam a lógica neoliberal na América Latina e que rapidamente se estenderiam ao Mundo inteiro, um “ensaio” da designada escola de Chicago, na interpretação do que consideram ser o “mercado livre” e o domínio da economia na sociologia e na política.

 

Há mulheres a chorar pelo que foi feito às mulheres de há 50 anos. 

Fala Lídia: "As mulheres foram muito prejudicadas - foram mães, esposas e filhas de presos, desaparecidos e mortos pela ditadura. Ocupamos um papel fundamental na família, núcleo fundamental da sociedade e sobre cada uma de nós, houve um peso tremendo de dor".

Fala Melissa: "E é por isso que ainda está tudo muito vivo, porque 50 anos depois não há justiça. Todos nós procuraremos pelos nossos parentes desaparecidos até o último dos nossos dias. Isso é vital. Se quisermos avançar, tem de haver justiça. Para se perdoar, é preciso a verdade, caso contrário, isto vai-se arrastar eternamente".

Fala Triana: "São as mulheres que levaram contenção ao interior de famílias afectadas pela ditadura. Mantivemos a memória viva e, quando os chilenos saíram às ruas contra o regime, as mulheres eram a maioria". 

 

Outra mulher, de nome Rocío Montes, que é directora de informação do Jornal El País, em Santiago, denuncia múltiplos casos de abuso, tortura e violação de mulheres. Diz Rocío que uma jovem de 16 viveu o inferno supostamente num recinto da Direção de Inteligência Nacional (DINA), que funcionou entre 1974 e 1977: “Fui estuprada, punham-me correntes, me queimaram com cigarros, me davam chupões, puseram ratos (…). Me amarraram a uma maca onde cães adestrados me estupraram”. E afirma, sem qualquer filtro, que “Pinochet fez das mulheres troféus de guerra”. 

Na sua obra em livro, reúne trechos de relatório que revelou as atrocidades da ditadura chilena, relata que quase todas as mulheres que foram torturadas no Chile desde o golpe de Estado de 11 de setembro 1973, sofreram também violência sexual, sem distinção de idade: “...pelo menos 316 foram violadas, incluindo 11 que estavam grávidas. Do total das vítimas que depuseram entre 2003 e 2004 na Comissão Nacional sobre a Prisão Política e Tortura, 12,5% eram mulheres (3.399). Dessas, 229 esperavam um filho, e algumas perderam-no; outras deram à luz após serem violadas pelos seus torturadores, e muitas passaram por intrincadas e recorrentes tortura sexuais que incluíam agressões físicas e humilhações diante de pais e irmãos”.

 

Nos 17 anos do seu mandato de crime e violência, o regime fascista de Pinochet deixou um saldo de quase 40 mil torturados e de mais de 32 mil mortos e nunca foi julgado de forma justa. Inspira ainda, hoje em dia, muitos seguidores, não só no Chile, como em todo o Mundo, que, na maior parte dos casos, nem sonha com o que se passou, em 1973 e nos anos de terror que aconteceram de seguida.

 

Hoje lembro com algum orgulho as sessões em que participei, mostrando o filme “Chove em Santiago”, após o nosso 25 de Abril. 

Há quem afirme que o realizador chileno Helvio Soto deve ter chorado muito enquanto fazia esse filme. A enorme tristeza pelo regime de terror e obscurantismo que assolaria o Chile no dia 11 de Setembro de 1973, está retratada na sua obra contra a barbárie, com a cumplicidade criminosa da administração norte-americana. Ela que nunca é capaz de chorar pelos crimes que cometeu e que ainda comete.

 

Choremos pois, com as mulheres chilenas. 

Chorando, lembramos e dizemos: FASCISMO, NUNCA MAIS!

10 agosto 2023

 LEMBRANDO O REVOLUCIONÁRIO AFRICANO THOMAS ISIDORE NOËL SANKARA (1949-1987)

 



Fica, para memória presente e futura, este texto de Victor Tufani, a propósito do aniversário da Revolução Socialista do Alto Volta, hoje Burkina Faso.

 

Neste dia 10 de Agosto de 1983, Thomas Sankara, um jovem soldado de Alto Volta, uma pequena e paupérrima colónia francesa na África subsaariana, tornava-se líder da revolução socialista e o maior presidente da história da África, e talvez do mundo inteiro.

Sob o seu comando, o país se tornou independente e o Alto Volta se passou a designar-se BURKINA FASO - "A terra dos Homens íntegros". Durante os 4 anos seguintes, Sankara transformou a vida do povo para sempre e colocou Burkina Faso no mapa e na história africana.

No primeiro ano, Sankara fez a reforma agrária, cancelou o pagamento da dívida com a ex-metrópole francesa, criou um fundo monetário nacional, acabou com a especulação imobiliária, vendeu toda a frota de carros oficiais do governo, restringiu o tecto salarial a 450 dólares mensais. No segundo ano, com a casa arrumada, ele foi construir o País Burkina Faso.

Garantiu que todo cidadão burkinabé tivesse acesso a pelo menos duas refeições e dez litros de água por dia. Em poucas semanas, vacinou 2,5 milhões de crianças, erradicando a poliomielite, a meningite, a febre amarela e o sarampo. Perfurou 3000 poços artesianos nas aldeias mais isoladas, negociou com o governo do Gana o acesso ao mar. Plantou cem milhões de árvores no norte do país, para impedir a desertificação. Criou um imenso programa de construção de moradias populares, uniu nove etnias de forma pacífica sob a bandeira da revolução e alfabetizou a população em todas as línguas faladas no país.

Nomeou mulheres para o alto escalão do governo e distribuiu cargos por género. Baniu a mutilação genital feminina, o casamento forçado e a poligamia. Legalizou o alistamento militar feminino, distribuiu contraceptivos, proibiu as escolas de expulsarem estudantes grávidas.

Ao fim de 4 anos, o Burkina Faso contava com autossuficiência alimentar e têxtil e a taxa de analfabetismo caiu de 98% para 27%. 

Então, num atentado investigado até hoje, com provável participação dos governos da França e dos Estados Unidos, Sankara foi metralhado. Quando morreu, os seus bens somavam um carro, 3 motos, uma geladeira e um freezer. Todos comprados antes de ele se tornar presidente.”

 

E que viva a REVOLUÇÃO SOCIALISTA, que não é um mito ao contrário do que pretende a nefasta e perversa filosofia neoliberal!

 

28 julho 2023

Da "CAUSA PÚBLICA"

Mais valerá que se designe, "grupo de reflexão", "laboratório de ideias", ou até "observatório". A designação americanizada "think tank" pode eventualmente provocar alguns arrepios. O termo, que aparece após a II Guerra, precisamente nos EUA, associado a diversos grupos de "especialistas", cuja função era formular recomendações de índole política (geral e estratégica) com vocação estatal, inicialmente de natureza militar e expandindo-se à economia e política.

Isto a propósito do artigo do Público de hoje, relacionada com o lançamento da "Causa Pública", com o título "Causa Pública: o think tank para a esquerda que gostou da "geringonça"", um péssimo título.
Como se aconselha, em situações semelhantes, esperar para ver. O que se vê, para já, é o mediatismo habitual, de frases feitas como "entidade capaz de produzir reflexão e propostas sobre política pública", ou "preencher um espaço que está por preencher. Para não falar do chavão ultrapassado "gostar da geringonça".
A referência a figuras públicas ligadas à Esquerda, na sociedade e na academia, obrigatória em notícias deste tipo, não significa, no artigo da Ana Sá Lopes, que seja um "clube de apoio" a alguém 
Será então este "...um fórum para reabilitar o diálogo à esquerda", como o texto refere, na parte final?
Que possa ser (mais) um espaço para discussão na Esquerda, para além da alteridade que lhe é atribuída, é o que se verá no tempo devido. 
Chamar-lhe "think tank", pode ser fatal ou simplesmente banal.

11 junho 2023

 SEMPRE A “SUMAR”

 

 

As condições desesperadas em que vivo enchem-me de esperança

K. Marx (ao seu Amigo Arnold Ruge, 1843)

 

Com a devida distância daqueles tempos, começamos por saudar Yolanda.




 

Porque simplesmente quis somar e conseguir SUMAR.

Há quem prefira, usando a metáfora matemática, a divisão, que se costuma dizer, para melhor reinar. Há quem goste de subtrair ao bando algumas ovelhas tresmalhadas, para as treinar segundo a ordem convencional. Conveniente.

Nós preferimos a adição, a operação que junta e agrega. Que leva à multiplicação de esforços, afinal ela não passa de uma adição especial, sucessiva, de um número por ele mesmo. Uma das propriedades importantes da adição é a propriedade associativa, nela se consubstancia a independência da ordem em que realizamos as somas, para um mesmo resultado.

 

Pedíais un acuerdo y hemos conseguido un acuerdo”, assim disse Yolanda.

A líder do SUMAR Yolanda Díaz, sublinhou que todos os partidos estiveram à altura "da situação" e deram "o melhor de si". Reivindicou o "melhor" acordo da esquerda espanhola e proclamou que, após este pacto de "esperança", começa uma campanha sem medos.

Assim foi. E neste momento, Alianza Verde, Izquierda Unida, Podemos e Verdes, serão SUMAR            .

 

Parece simples. Parece tão fácil, abdicar de preconceitos e ideias feitas, que por vezes nos toldam o raciocínio, que de parecer lógico pode conduzir a uma lógica distorcida, de tal forma a dialéctica nos apanha em considerações fúteis. O desajuste que muitas vezes assola as Esquerdas pode, num momento concreto, ajustar-se às legítimas pretensões dos trabalhadores e voltar-se para a realidade diária de quem vê a sua condição degradar-se, dia a dia, hora a hora.

E onde está a Luta?

Se ainda significa algo e significa decerto, a unidade na acção merece atenção especial, pedias um acordo, conseguimos ao acordo.

Já assim foi com Mélenchon, numa França Insubmissa.

 

Assim pode (e deve) ser em Portugal.

Assim teve (e tem) sentido a constituição do Movimento FA25ABRIL (Frente Ampla 25 de Abril), que se apresentou publicamente no Porto, a 6 de Maio passado. Aí se lembrou a necessidade da reafirmação do papel político de uma Esquerda maioritariamente presente, no plano social, da reabilitação dos valores que fizeram a Revolução, da mudança de discurso e de atitude. Ainda, da necessidade de a Esquerda ser politicamente activa, marcar a agenda e não ser simplesmente reactiva, de conquistar a comunicação social, ter um papel de relevo, contra o discurso e contra a política do espectáculo, de ouvir os cidadãos e as suas organizações de base, as associações, as cooperativas, os sindicatos e outras.

O principal objectivo deste Movimento, é, conforme se afirma no Manifesto, “...o lançamento da proposta de uma candidatura unitária às legislativas de 2026, que deve ser concretizada, através de processos de democracia participativa e representativa, com um programa eleitoral será construído no diálogo entre partidos políticos de esquerda, organizações populares e cidadãos”.

 

Quem vê algum interesse neste Movimento, é decerto bem-vindo, na tentativa de SOMAR. Quem apoia o que afirma no Manifesto, “...um programa em consonância com os princípios da Constituição da República Portuguesa, saída da Revolução de Abril”, que garanta “...um modelo de Estado Social constituído por serviços públicos universais e gratuitos, segurança social financiada pela solidariedade entre gerações, direito do trabalho com forte protecção da parte mais frágil na relação laboral, propriedade pública de monopólios naturais e serviços de interesse geral, tributação progressiva, direito a uma habitação condigna e promoção do pleno emprego.”, que se junte para SOMAR.

Pode ser que se consiga. 

Para tal, “basta”, citando Yolanda, que todos (mesmo todos) estejam “à altura da situação" e consigam dar "o melhor de si", para alcançar um "melhor acordo”.

 

Ainda vamos a tempo!

 

09 junho 2023

 HARARI NA ESTUFA, QUE FRIO...


O mestre da banalidade e de uma estupidez bem instituida. 
Não é capaz de produzir uma linha que seja com interesse, a não ser o de polir as botas cardadas da chamada "democracia liberal". Para contento das mentes brilhantes de um Ocidente decadente e falido, é um dos líderes de opinião que não lidera coisa alguma que não seja o seu "pensamento" deslizante. 
O pode ser que seja, se não for tanto faz, a prosápia irritante de quem dá vinte e uma lições ao século vinte e um e passeia pelo mundo a sua superficialidade. Há quem defenda que ele desvenda questões políticas, tecnológicas, sociais e existenciais. Será porventura mais venda que desvenda.
Haverá maior banalidade do que esta, "Num mundo inundado de informações irrelevantes, clareza é poder.”? 
Afundado no seu pensamento dourado e capitalisticamente protegido, o Mestre que investe no futuro, vai somando dólares à cátedra, enquanto os seres da plateia são dispensados de pensar, porque ele pensa por todos, um dia ninguém se lembrará dele, mas que importa, hoje é espectáculo, afinal quem sou eu?