24 maio 2026

A IMAGEM E A PALAVRA EM BRAGA 

 


Falemos de palavras. E falemos de imagens. E falemos e conversemos, em tempo de bloqueio, que a palavra não pode ser capturada, nem lançada senão em terreno fértil, apesar de tudo e de quem dela não gosta, preferindo o ruído gutural da estupidez e da propaganda. A imagem que resiste é a da palavra bem construída e alimentada, símbolo e marca da inteligência e hoje, bem é preciso, da memória colectiva. A propósito de uma visita à Cidade a convite de Amigos para participar num debate sobre a sombra de um vinte e oito de Maio, nos anos vinte, onde daqui terá descido a caravana fascista até à Capital, guardamos tempo suficiente para o Muzeu. O tal que o corrector quer escrever com “s” e a que se resiste, porque é uma instituição, onde ganha forma e sentido a arte contemporânea e em que se respira a calma suave da presença da imagem e da palavra. Não é então uma simples visita, é um encontro com a magia dos mestres e em que o alemão Anselm Kiefer ocupa lugar de merecido destaque, trazido pela colecção privada de José Teixeira (dst group). Falar do museu e não falar da espectacular reabilitação urbana, abrangendo o edifício do antigo tribunal e as duas praças adjacentes, seria de todo uma injustiça aos pensadores e criadores que arquitectaram, desenharam e construíram em três mil metros quadrados, integrando   componentes e peças estruturais do miolo histórico da cidade, incluindo trechos da muralha medieval. Helena escreve lindos textos no Muzeu. Embora saibamos, pelo menos a acreditar no Pina, que a gramática não chega para dizer tudo, ao vermos estampada na parede a expressão “Sejamos realistas, exijamos o impossível”, temos o reflexo directo de um projecto “...de mudarmos o mundo juntos”. Mais, fica para que se saiba, que existe um lugar “...para a expressão de todas as artes de influência de quem as elege. Daqui partimos para Revolução

 

No passeio do percurso, derivamos pelos sítios dos livros, os que ainda existem na rua e não estão capturados nos sórdidos e irritantes templos do consumo, a que se convencionou chamar centros comerciais. Assim, chegamos a um que habita na Rua 25 de Abril, belíssimo e oportuno enquadramento de um local que sempre foi “antigo” na modernidade da Revolução e hoje é moderno sem ser modernista.

S. fala-nos da praça como centro da Cidade, ocupar uma e outra com o encontro e a conversa, lá está a palavra no âmago e a imagem no zénite. M. ensina-nos um pouco da História e do seu sinuoso curso. C. transporta-nos ao “campo” onde se resiste, tal como nas fábricas, uma luta classificada e que jamais perderá valor e sentido. L. fala-nos em tapar a estátua do Carmona com um pano preto. Entretanto, alguém nos fala ao ouvido acerca de um outro alguém que saiu do partido, mas o partido não saiu dele, ao que ingenuamente me interrogo se tal é bom ou mau, a coisa será (é) bem mais complexa e pode transportar-nos para o meio da Luta, onde reina a dúvida e alguma desesperança. Dizer que tudo está no seu lugar pode parecer suspeito, que se sabe da tendência dos revolucionários pela insubmissão e por confrontarem sempre os caminhos da difícil e estrita via da Liberdade. O nome da rua representa essa via e conforta os caminhos em que estamos envolvidos, sempre assim estamos e entendemos reafirmá-lo.

 

Chega o final da tarde, o sol encolheu, é hora de procurar outros confortos, guardamos a lembrança e apostamos novos encontros e novas cumplicidades, na simbiose entre passado e futuro e na certeza do que poderemos construir. Repescamos o título da inscrição da Helena, da qual retiramos as citações, com a ousadia de querer mais e nunca ficar indiferente: “Infinito e mais além”.

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