AMÍLCAR
A luz difusa do outro lado é bem capaz de obstruir a clareza da cumplicidade antiga, tão antiga que recente, diz muito da curta distância que nunca nos separou e que hoje deixo como imagem da Amizade. As capas negras sim, são as de Coimbra 69, a marca que o tempo nunca apaga e que corre assim devagar nas vidas que são as nossas, impossível esquecer. O registo do retrato é da nossa primeira incursão na Cidade, numa casa de uma senhora velhota, forreta e mal-disposta, sempre demasiado irritante, cedo nos cansamos dela e partimos para a República do 21. Curioso, foi ainda naquela casa que o Amílcar se lembra de que havia uma “coisa” chamada CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra) e que deveríamos ir para lá, o que haveria de constituir a nossa verdadeira aproximação à AAC, a nossa Associação Académica de Coimbra. Teatro, intervenção, luta estudantil, República, encontros e desencontros iriam construir a identidade que sempre guiou a nossa vida cívica, social e política e que nos orgulha como pessoas. Ainda lembro o Salvat e a sua expulsão pelo regime fascista, porque era quem era e sobretudo porque fazia marca como arauto da Liberdade. Depois de Coimbra, o Porto, onde o conhecíamos como “o Engenheiro”, porque era o seu porte e a marcava a distinção. E assim por diante, em vias separadas, o nosso contacto nunca se esvaneceu, sempre falamos e nos encontramos, nunca esquecíamos o 3 de Setembro e o 28 de Novembro. Os deuses que não existem quiseram ser cruéis para a sua saúde, mas ele encarava sempre as situações com um dito jocoso e esperançoso. Ambos vimos partir amigos e companheiros, falámos hoje deles com a poesia que faz a Vida e que entorna o círculo estreito da Amizade.
Escrevi algures que, em Coimbra, na nossa República”...aprendemos a falar outra linguagem, por força de ouvir e sentir as diversas formas de falar a mesma, a nossa língua, com os camaradas das colónias. De certa maneira, é como dizer, aprendemos a gostar dos outros e de nós próprios.” Por isso, ainda hoje, olhar para aquelas capas negras significa a força que suporta o que somos. Ver o meu Amigo ao meu lado é quanto quero, assim o verei sempre com o sorriso suave, distante e próximo que diz e sente.
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