A PROPÓSITO DE ATITUDES
Se quero falar de atitudes, possivelmente carregado de adjectivos pouco abonatórios para uma grande parte delas, será porque a carga que possuem no mundo de fantasia que habitamos é por demais violenta e castradora de consciências. Venham elas, estaremos eventualmente dispostos a acatá-las e a desconstruí-las, a bem da sanidade intelectual.
Se assim se começa, para saber como se acaba é (também) uma questão de atitude. Falamos de “atitudes” não propriamente no sentido psicológico individual, mas sim de posturas políticas materializadas em decisões. Uma atitude agressiva, belicista e arbitrária, não é um rasgo de temperamento, é antes um conjunto de políticas, como assassinatos, cirúrgicos ou nem por isso, aumento de arsenais, vetos a cessar-fogo, envio de armas, uso do espaço aéreo e toda uma série delas, que configuram crimes contra a humanidade e contra a consciência. Obviamente, contra a Liberdade e contra a dignidade, as atitudes torpes que caracterizam o Ocidente, como caso particular de estudo, sempre e há muito tempo no que parece ser o caminho para um abismo consciente, mas determinado na sua ridícula convicção de ser o “farol” da democracia e da civilização.
Qualquer atitude transformadora não é solitária nem violenta por natureza. Pode ser afirmativa, colectiva no plano global e ética, na sua natureza. O filósofo francês Gilles Deleuze, numa atitude de confronto contra as ideias feitas, sempre defendeu que a filosofia serve para "denunciar a baixeza do pensamento" e "fabricar” homens livres. Na verdade, a filosofia “activa” de Deleuze é um bastião na luta contra a estupidez, personificada porventura no que se pode chamar o “pensamento banal”, típico da contemporaneidade pífia. Como bem sabemos, a “baixeza do pensamento" produz situações caricatas, como aquelas em que as vítimas defendem os seus próprios algozes. Muito antes de Deleuze, uma obra de meados do século XIX (1849) designada “A Desobediência Civil”, escrita pelo historiador e filósofo norte-americano Henry David Thoreau, haveria de servir de “conforto” a movimentos de cidadãos pela emancipação e, acima de tudo, à resistência contra governos que cometem injustiças, como, no seu caso particular, contra a escravidão e a guerra contra o México.
As atitudes nobres, as que dignificam quem as assume, embora muito raras na política actual, existem e sublinham posições de firmeza intelectual e de compromisso com a verdade. Tentam ir ao fundo das questões e são, consequentemente, radicais, muito embora este termo seja usado de forma espúria, na grande maioria dos casos. Veja-se, por exemplo, a atitude de Pedro Sanchez no que reporta à recusa em alinhar com o Império e como foi interpretada pelo ogre norte-americano, do alto de toda a sua arrogância cretina. O contraponto estará certamente na atitude canina do lacaio Rangel, sempre pronta a servir a guerra e o seu “dono”, cuja vontade muitas vezes precede, executando fielmente um guião que não é apenas a submissão para cima, representado também violência para todos os lados.
As atitudes assassinas não são apenas o contraponto de atitudes nobres e funcionam através de uma moldura narrativa que enquadra os actos belicistas como "medidas de autodefesa". De cada vez que um político europeu aproveita a sua putativa influência para desviar o olhar ou suavizar a linguagem (Israel) está a contribuir para que a máquina belicista continue a trilhar o seu caminho destruidor. É aliás assim que o fracasso do projecto europeu não é um acidente, mas antes, o resultado de atitudes deliberadas. Fala-se hoje, de novo, na “unidade europeia” como se fosse um património a preservar. Mas como, e para quê, preservar o que nunca existiu?
Algo muito cruel deve estar em jogo para que as vítimas do capitalismo selvagem defendam os seus mentores. Se for apenas a “baixeza do pensamento", como sustentamos, talvez consigamos entender por quem somos, de momento, governados. Um primeiro-ministro que insiste em salientar a atitude do jogador de futebol português que é o actual emissário da Arábia Saudita para a lavagem de imagem através do desporto, diz tudo sobre a mediocridade e a escassez de recursos das pessoas em questão.
Bem a propósito, aproveitando o cinquentenário da Constituição da República, se lembra aqui um dos artigos mais curiosos do texto, aquele que autoriza os cidadãos a desobedecer a ordens ilegítimas que violem os seus direitos e permite o uso da força em legítima defesa, embora apenas quando não for possível recorrer atempadamente às autoridades para obter protecção. É o Artigo 21º, chamado “Direito de resistência” e está inserido nos princípios gerais da primeira parte, os “Direitos e Deveres fundamentais”. Poderemos classificá-lo como um direito à insubmissão e, no limite, assumir a postura aristotélica de oposição à aceitação passiva da realidade, que conduz à desobediência civil, no que será porventura uma interpretação “alargada” e criativa do texto fundamental. Na verdade, o Artigo em questão não é mais que a consagração da atitude de um cidadão livre. Poderá ser ainda mais, uma assumpção do paradoxo: a lei manda, por vezes, desobedecer à lei (ou à ordem ilegítima). Se a defesa acérrima da Constituição for eventualmente interpretada como um acto revolucionário, então a referência ao artigo passa a ser a primeira como atitude, ou mesmo a primeira das atitudes. Vamos tomar uma atitude? Poderá ser esse o sentido que se deve dar às manifestações de júbilo sobre os cinquenta anos? Não é certamente suficientemente mobilizadora a defesa abstracta de um qualquer diploma, mesmo sabendo que a Constituição da República não é um diploma qualquer. Então sim, a “descoberta” de um vigésimo primeiro que transmite confiança, a “potência de agir” de que falava Espinosa, ou mesmo o direito à desobediência civil, pode ser o móbil urgente e necessário.
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