17 abril 2026

ALIADOS


 

Aliados é nome de Avenida, no Porto, incarnando o coração cívico da cidade. Projectada no início do século XX, o seu nome evoca a aliança vitoriosa que derrotou Napoleão e, mais tarde, a tríplice entente da I Guerra Mundial, a avenida evoca diversas “alianças”, quiçá associadas a revoluções, do 31 de Janeiro de 1891 ao 25 de Abril de 1974, passando pela grande manifestação de apoio a Humberto Delgado a 14 de Maio de 1958. Aliados contra o medo e o fascismo, na avenida a que se associam a libertação, a união contra a tirania, num espaço de encontro e protesto cívico, um sentido que ainda hoje perdura e mantem viva a insubmissão.

 

Um dos cientistas político actuais que aborda a temática “aliança-aliados” é o professor de ciência política norte-americano John J. Mearsheimer, teórico e especialista em relações internacionais. A sua abordagem implica a consideração que as alianças não são comunidades de valores ou parcerias estáveis baseadas na confiança mútua, mas sim resultados de momentos conjunturais. Mearsheimer considera assim que as grandes potências estão permanentemente inclinadas a maximizar o seu poder e que a cooperação entre estados é intrinsecamente difícil. Particularmente crítico mordaz da NATO e da política do seu país, diz que aquela não tem qualquer razão de existir, por ser desnecessária, obsoleta e potencialmente perigosa, ao alimentar tensões com a Rússia. Para este Autor, o termo "aliado" é esvaziado de conteúdo substantivo. Não há verdadeira reciprocidade, partilha de encargos ou responsabilidades mútuas, existindo somente  "protectorados", ou seja, países que são defendidos pelos EUA e que, em troca, permitem que Washington lidere. Mearsheimer sugere até que, na retórica da hegemonia liberal, "aliado" é simplesmente qualquer país que “compre” o programa hegemónico americano e aceite que os EUA devem ser o polícia do mundo .

 

O tema “Aliados” constitui uma narrativa poderosa do Ocidente quando se associa basicamente a uma excrescência belicista chamada OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, em inglês), responsável pelas mais sacrossantos crimes de guerra, no ataque, ocupação e destruição de países e cuja materialização efectiva assentou, desde os anos sessenta do século passado, no Vietnam, Camboja, Balcãs, Iraque, Síria e Ucrânia, citando apenas os mais significativos. Esta putativa “aliança” não é apenas militar, é tudo menos “defensiva” e representa uma ofensa à integridade e às consciências, atingindo o bloqueio completo e cirúrgico da informação, sempre na esteira da obediência servilista ao Império. Serve hoje um propósito espúrio, que se traduz na “obrigatoriedade” de alocar os tais “cinco por cento para a defesa”, que, a serem aplicados, significariam a destruição sistemática do designado estado social, já de si parcialmente devastado pelos princípios e políticas neoliberais, adoptados por esta Europa manifestamente em fim de ciclo. A auto-proclamada “união europeia”, o maior embuste do final do século XX, não é mais que a tradução prática da assumpção da desigualdade feita dogma castigador para os trabalhadores.  A aliança do capital atinge nos nossos dias uma vitória retumbante sobre o trabalho, embora nunca lhe cheguem os milhares de milhões de lucros obscenos que fazem o modo de vida dos capitalistas do século XXI, oligarcas poderosos, “invisíveis” aos olhos fracos do estado burguês que afinal os usa como aliados da sua sobrevivência.

 

O termo bloqueio assume-se hoje como arma discursiva e efectiva, no plano operacional. Os “Aliados” usam-no de forma compulsiva para intimidar e, embora não sejam os únicos a fazê-lo, têm o infeliz destino de se auto-ridicularizarem. O caso bem recente da ameaça trumpista relativamente ao Estrito de Ormuz é um exemplo encantador do paradoxo de Teseu, afinal os “activos” navais norte-americanos abatidos podem ser recuperados para nova cruzada? A aliança, hoje furada, para varrer do mapa a civilização persa, encontrou o antídoto certo no propósito ridículo do “criador”. Assim, não foi possível ao Império reconstituir iraques, sírias e balcãs, por ainda restar algum sentido de respeito, em exemplos vindos de Espanha, Itália, Reino Unido e Turquia, que se contam (ou contavam) apesar de tudo, entre os ditos “Aliados”. Convém aqui citar a opinião de um atlantista “esforçado”, o diplomata e ensaísta e italiano Giovanni Jannuzzi, que desempenhou funções como representante italiano na NATO e que nos diz, com a maior das boas-vontades, que as crises são na Aliança e não da Aliança.

 

Sabe-se que, em matéria de facto, os EUA não têm aliados, têm protectorados e instrumentos, têm reflectores e canais, directos ou indirectos. E satélites, que, na maior parte das vezes, confundem a sua órbita com independência. Os “aliados” de Washington sabem sempre por antecipação o que vão pensar, o que vão votar e, por mais estranho que possa parecer, o que vão sofrer. A liberdade da “aliança”, neste mundo unipolar, é a liberdade de escolher entre obedecer ou ser abandonado. E o abandono, como os curdos, os vietnamitas do Sul ou os europeus em certas retiradas já aprenderam, é apenas a face visível da dominação. Um verdadeiro aliado seria aquele a quem se pergunta antes de agir, aquele que se ouve e a quem se revelam segredos e não apenas os que já foram roubados. Uma aliança autêntica é baseada em valores comuns, confiança e reciprocidade. Uma aliança espúria ou impura envolve tácticas por conveniência, onde o fim justifica os meios. 

 

Uma palavra será devida, em tempo oportuno, aos que estarão fora da “aliança”. Aos desalinhados, que recusam o sistema, por princípio, ou por isolamento estratégico. Outra ainda para os descartados, que são abandonados quando deixam de ser úteis. E uma última para os cães-de-fila, detentores da lealdade cega, executores sem questionar. Uns e outros estão marcados no seio da “aliança”, fazendo valer o seu preço (certamente débil) e a sua valia, mesmo que não queiram ser aliados.

 

Aliados sim, na essência da palavra, podem ser chamados todos os que se juntaram para responder ao miserável bloqueio imposto pela besta imperial a Cuba. Um sucesso completo, do fornecimento de petróleo, ao de alimentos e medicamentos, tudo o que o País estava tremendamente necessitado e que há décadas sofre de ataque cerrado dos que o consideram ameaça existencial. O mundo, habituado a alianças falsas (ou falsas alianças) assiste, ainda que incrédulo, à solidariedade de cidades, vilas e aldeias com o País sitiado, manifestações comprometidas com a Liberdade e o direito à vida, plenas de solidariedade. Aliados de princípio e com princípios. Aliados que mostram à besta imperial que ainda há esperança, que existe resistência e que nunca é tarde para mudar de atitude.

Aliados na Avenida, a rua é quem mais ordena, “dentro de ti, oh cidade”. 

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