Entra o novo mês, com a tradição renovada das giestas nas portas, abençoando Maio, que se foi fazendo “maduro” ao longo de tempos idos, celebrando a Primavera e esconjurando o mal, afastando os maus espíritos, invejas ou pragas e trazendo protecção e abundância para a casa. Na verdade, os “maios” são bonecos artesanais, feitos de palha de centeio, trapos velhos ou jornais, normalmente vestidos com trajes típicos de cada zona do País e que, no final do mês de Maio, substituem as flores. Consta que havia danças, era a festa com celebração pagã, extensiva ao hábito, feito sátira política, na criação artística representada, na vivência comunitária, pela participação popular. As “maias” (e os “maios”) à solta brindavam o arrojo e a ousadia, muitas vezes violentamente reprimidas, não fosse essa a essência dos poderes instituídos, sempre longe dos anseios e das vontades das classes populares. Não é despiciendo lembrar, entre as celebrações, a da fertilidade, aqui na acepção do novo ano agrícola.
No Maio actual, é bom que analisemos por um momento a enorme desfaçatez dos gigantes capitalistas, para ver até que ponto vai a exploração e o seu aproveitamento. A EDP teve 1.150 milhões de euro em 2025, representando um crescimento de 44% face a 2024; enquanto as famílias pagavam tarifas recorde, a empresa aumentou dividendos para accionistas. O Millennium BCP teve 1.018,6 milhões de euro em 2025, representando um aumento de 12,4% face a 2024. O Grupo Jerónimo Martins (Pingo Doce) teve lucros de 646 milhões de euro em 2025, representando um aumento de 7,9% face ao ano anterior, num ano de crise alimentar aumentou margens enquanto os preços dos produtos básicos disparavam. A Mota-Engil teve, em 2025, 133 milhões de euro, representando um crescimento de 9% face ao ano anterior e tem beneficiado de obras públicas e fundos europeus, mantendo práticas de despedimentos e pressão salarial. Segundo informação de ontem, o Grupo Santander registou lucros superiores a 5 mil milhões de euro, um acréscimo de mais de 60% em relação a 2025. Idem para o Grupo suíço UBS-AG, que registou lucros de mais de 2 mil milhões de euro, uma subida de 80%. E, a Iberdrola registou 1500 milhões de euro, adicionando 15% de aumento. E finalmente, o Grupo Total Energy, lucros de 5 mil milhões de euro, mais de 51% relativamente ao ano passado.
Face a cenários deste tipo, como interpretar a situação de desequilíbrio completo que grassa no capitalismo do século XXI? Enquanto os trabalhadores vão pagando sempre mais um pouco, ou muito e muito mais pelos preços de produtos e serviços, com o mesmo salário e a mesma pensão, que se pode considerar de miséria.
O 1º de Maio não tem hoje nada para festejar. Apenas tem de evocar a data histórica e passar adiante, mobilizando para a luta feroz contra o Capital, contra o governo infame deste País de Abril, apostado em afrontar os trabalhadores, com uma agenda reaccionária e, porque não dizê-lo com toda a frontalidade, completamente alinhada com a extrema-direita. Neste Primeiro de Maio, o “pacote” estará no centro da luta, a sua rejeição completa será a urgência absoluta, uma vez que a sua intenção é reduzir a regulação das condições de trabalho, facilitar a utilização de contratos a prazo e vontade de restringir claramente a greve, a actividade sindical e a contratação colectiva.
Saibamos ser denunciadores das misérias do capitalismo. Por exemplo, da baixeza moral da gente dos “galpes” e quejandos, cuja empresa-mãe teve, nos primeiros três meses deste ano, um resultado líquido ajustado de 272 milhões de euro, mais 41% do que no mesmo período do ano passado, aproveitando sobremaneira a guerra do imperialismo e fazendo subir artificialmente os preços dos combustíveis, com implicação directa nos aumentos imediatos dos bens de consumo e dos serviços associados, com a cumplicidade dos “reguladores”, os lacaios do capital travestidos de “serviço público”. Merecem, como resposta, a sabotagem económica legal, com greves, boicotes e todas as acções possíveis de desobediência colectiva. Atenção a empresas-abutre como as norte-americanas BlackRock e a Vanguard Group, que não produzem rigorosamente nada a não ser acumulação desmesurada de lucros através dos designados “gestão de activos”, “gestão de riscos” ou “gestão de fundos de investimentos”, uma das muitas misérias do capitalismo predador.
Entretanto, temos no Alentejo, trabalhadores imigrantes, nomeadamente do Nepal e Bangladesh, a receber dois euro por hora ou menos, sem contrato, nem subsídios, alojados em contentores superlotados, sem água potável, sem saneamento, em antigas fábricas ou estábulos, com jornadas de 12 a 16 horas sem folgas, especialmente na apanha da framboesa, amora, tomate e azeitona. Que, se reclamam, são muitas vezes agredidos, moral e fisicamente, despedidos e ameaçados de expulsão. Os governos, sempre cúmplices, fingem que não sabem e permitem situações de vergonha, onde os trabalhadores são mantidos na situação humilhante de servidão por dívida. Neste Primeiro de Maio deveriam ser lidos, em voz bem alta, os nomes dos muitos que morreram no trabalho, nos últimos anos, ilustrando para que dúvidas não restem, que o capitalismo continua a fazer escravos, hoje com medo e passaporte.
O matemático português, professor universitário e intelectual comunista Bento de Jesus Caraça, disse sobre o Primeiro de Maio ser o dia daqueles que, só por si, não contam na sociedade, “...o dia daqueles que, sendo a própria substância da sociedade, são a única força capaz de a transformar.” As palavras deste Homem, ferozmente perseguido pela ditadura fascista, podem ser um farol para quem (ainda) precise de ser “esclarecido”. Acontece que os “maios” de hoje não são propriamente bonecos de palha para substituir as flores pisadas e vilipendiadas. Maias e Maios das novas gerações se devem impor, para que a Luta passe da dimensão platónica social-democrata para uma outra eminentemente interventiva e declaradamente revolucionária.
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