O PODER (DO) RIDÍCULO
Muito embora não seja uma questão de dicionário, mas de filosofia política, será viável equacionar uma possível distinção semântica entre “poder” e “ridículo”. "Poder" designa, na acepção comum, a capacidade de produzir efeitos, de impor obediência, de determinar condutas, de decidir sobre a vida dos outros. A semântica do poder é vertical: quem pode, pode sobre alguém. O poder tem uma gramática de comando. "Ridículo" designa o que provoca riso por ser incongruente, desproporcionado ou absurdo. A semântica do ridículo é horizontal, não há "ridículo sobre" ninguém, há alguém que se torna ridículo aos olhos dos outros. O ridículo tem uma gramática de exposição. Se existe uma distinção crucial, poderá ser esta, o poder é uma relação, o ridículo é um julgamento. O poder exerce-se, o ridículo sofre-se. E é precisamente por isso que o ridículo é tão corrosivo para o poder, visto que não compete no mesmo terreno. O poder pode responder a um contra-poder, nomeadamente, com mais força ou mais poder. Não pode é responder ao ridículo com mais poder, porque o ridículo não se combate com força, mas com humor, eventualmente. Todavia, há que ter em consideração que o poder tenta apropriar-se do ridículo, mas nunca consegue. O governo, após ter conhecimento da decisão do Tribunal, tentou transformá-la numa espécie de "vitória técnica", ou seja, tentou redefinir os termos da disputa para que o ridículo não lhe fosse aplicável. Mas o ridículo não se redefine por decreto. Ele emerge da desproporção entre o que o poder diz que é e o que o poder faz. E essa desproporção é visível a qualquer um.
A “comunicação ao País” do PM, do passado dia 2 de Novembro, que faz lembrar uma “conversa em família” de Marcelo Caetano, roça o ridículo absoluto. Na verdade, afirmar que “tem direito a governar”, que “tem o dever de governar”, é exactamente o mesmo que dizer que o governo serve para governar e que deve governar. Esta suprema descoberta só é possível dada a dimensão intelectual do afirmante. Ficamos a saber que o Governo tem poder: poder de mandar na polícia, de invocar decretos, de ordenar cargas. Mas, o poder que tem, não lhe serve para nada contra o ridículo, porque o ridículo não se exerce, acontece simplesmente. Quando o Tribunal Administrativo de Lisboa decide que o limite da meia-noite e meia para manifestações não é "absoluto e automático", desautoriza o governo de turno. Quando uma assembleia popular em Lisboa decide que todas as tendas eram "de Renata Cambra", confronta o poder com algo que não se combate com poder.
Quem estudou o poder e também o ridículo foi o filósofo político francês Miguel Abensour, que desenvolveu as suas teses num terreno muito particular, o da renovação do pensamento sobre a democracia e a utopia, na perspectiva da filosofia crítica. Na sua obra de 2009, “Pour une philosophie politique critique” (“Por uma Filosofia Política Crítica”), publicado em 2009, encontramos uma série de artigos e trabalhos, onde se explana a ideia do tremendo falhanço da filosofia política ocidental, transformada numa ferramenta para justificar, organizar e legitimar a autoridade do Estado. E, contra esta ideia, o Autor propõe uma interrogação sobre a emancipação, uma vez que a política não existe para manter a ordem, mas para gerar emancipação. Abensour traz Marx e Engels ao tempo presente, defendendo que a utopia é necessária como um impulso imaginativo de ruptura, lembrando a asserção "crítico-utópico", relativa ao socialismo e ao comunismo, expressa e desenvolvida na terceira parte do Manifesto Comunista de 1848. Retemos então a ideia fundamental de que utopia aqui não é a promessa de um paraíso futuro perfeito, mas a capacidade presente de vislumbrar e desejar "um mundo novo" face à opressão. Um outro exemplo é, sem sobra de dúvida, o dramaturgo italiano Dario Fo, cuja vida e obra são descritas como "o riso de resistência feito carne" (no original, “la risata di resistenza fatta carne”). Na verdade, Fo complementa bem a densidade filosófica de Abensour. O autor de “Mistero Buffo” (“Mistério Bufão”), de 1969, reinventou a tradição dos “giullari“(os bobos medievais) para satirizar a autoridade e dar voz aos oprimidos, fustigando o poder e restaurando a dignidade dos humilhados, deixando bem claro que a gargalhada é sagrada: dizer a verdade ao rei através da piada. É precisamente o que tem sido feito constantemente nas assembleias populares, em Lisboa e no Porto.
Quando a "ordem" tem de obedecer a uma sentença que não gosta, a direita treme e entra facilmente na mais absoluta das contradições: ao mesmo tempo que afirma - "num Estado de Direito democrático, as decisões dos tribunais são para cumprir", desmente-se logo a seguir, dizendo que a sentença é "errada" ou "má para o país", ou ainda que "promove ainda mais a anarquia" e "desautoriza a polícia". E neste particular, a extrema-direita parlamentar e toda a direita institucional têm um problema (seguramente o mesmo) que é o da concordância total, em toda a linha do discurso central da "ordem" e "autoridade". Ao enfrentar uma sentença que não lhe agrada tem de se equilibrar entre "estado de direito" e "ordem". Traduzindo: respeitamos o tribunal, mas achamos que o tribunal errou e o erro do tribunal impede a polícia de agredir. Shakespeare conhecia este mecanismo, o usurpador de Macbeth não é derrotado pela justiça, é devorado pelo próprio medo.
Voltando por momentos a Abensour, diríamos que o ridículo do Governo não é apenas cómico, é a prova de que a "política normal" já não consegue conter o conflito democrático. O ridículo do governo, confrontado com a sua própria imagem, dá-nos seguramente, uma imagem grotesca. O governo do ridículo deixa de ser apenas uma questão de incompetência e passa a ser lido como sintoma da tentativa de silenciar o conflito que a democracia exige.