FUTEBOL, IDENTIDADE E O PREÇO DA ATENÇÃO
A propósito do jogo do passado Domingo, que se convencionou chamar “clássico”, uma significativa maioria de interessados teria opinião definitiva sobre uma “expulsão”, que acontecera ou que deveria ter acontecido. O mesmo sobre meia-dúzia de lances polémicos, constituindo matéria de estudo de especialistas reputados na matéria e de outros comentadores de ocasião. Ter-se-á colocado uma vez mais em causa a “neutralidade” dos juízes, os do campo e os outros que se “escondem” no recato da tal “cidade do futebol”. Falou-se ainda da “inclinação do campo”, uma curiosa metáfora que reporta ao putativo favorecimento de uma das equipas por uma arbitragem criativa. Tudo isto constitui matéria bastante para encher noticiários, comentários, mil e um programas especializados nas rádios e televisões, onde se “debate” sobretudo a paixão. Entretanto, o País passou ao lado de si mesmo durante mais uns dias, não propriamente pelo que aconteceu no relvado, mas sobretudo fora dele: o que não se discutiu, o que não se exigiu, o que se deixou correr enquanto a atenção estava toda na bola que, entrando na baliza, ou não, constitui o cerne da questão.
Não escrevo isto com intuito depreciativo pelo futebol, o jogo de bola mais querido da “população”. O espectáculo do futebol não anestesia porque nos engana, mas simplesmente porque nos dá prazer. E o que dá prazer não se denuncia com facilidade, sobretudo quando é a única coisa que, para muita gente, dá prazer ao fim de uma semana sem prazer algum. Com o devido desconto, se tal é possível, dir-se-ia que, muito possivelmente, os intervenientes directos ou próximos não estarão interessados em sequer ouvir, tal é a sua firmeza acústica, provavelmente impermeável, de acomodação ou privilégio. Sendo a crónica um intervalo incómodo entre quem despreza e quem não quer saber, importará sobretudo identificar quem beneficia de que a atenção pública esteja ocupada com um “clássico” durante uma semana inteira. Afinal, na semana que vem haverá outro jogo qualquer, “clássico” ou não, mesmo que o primeiro ainda não esteja devidamente dissecado e mastigado.
O cientista político irlandês Benedict Anderson definiu a nação como uma "comunidade imaginada", onde se incluem milhões de pessoas que nunca se conhecerão, que não partilham interesses nem vidas, mas que se sentem parte do mesmo "nós" através de símbolos, rituais e narrativas. A nação, uma comunidade imaginada como soberana e horizontal é uma construção que precisa de ser alimentada. O futebol também, com a diferença profunda de ser imaginada como competitiva e hierárquica (o meu clube contra o teu), onde a pertença não se constrói por partilha, simplesmente por oposição. Os “clássicos” como o Porto-Benfica, com o seu ritual calendarizado, têm um historial carregado de casos e têm sobretudo o que se pode classificar como um “clero interpretativo”, a chamada imprensa desportiva, que produz um sentido onde há apenas um jogo, afinal tudo o que uma religião precisa, menos a promessa de salvação. Contudo, o futebol não inventa a identidade nacional do nada. Reconfigura uma identidade que já existe, e fá-lo substituindo formas mais exigentes de cidadania por formas puramente afectivas. Digamos que é mais fácil sentir-se português num estádio do que participar numa assembleia, num sindicato, numa associação, ou numa tertúlia. É mais fácil ter opinião sobre um penálti do que sobre uma determinada política pública. A pertença desportiva não exige nada, apenas exige que se sinta. E o que não exige nada acaba por valer pouco, mesmo quando se sente muito.
Nos dias de hoje, o futebol é uma indústria, com uma economia política que raramente se discute fora dos círculos especializados. Os adeptos são, ao mesmo tempo, consumidores e activos, pagam bilhetes, compram produtos promocionais, produzem audiências, dados e um envolvimento que constitui matéria-prima que os clubes e as televisões transformam em receita. A "paixão" não é um subproduto do negócio, é o próprio negócio e, como tal, é deliberadamente alimentada. Quanto mais intensa a rivalidade, maior o valor. Quanto maior o valor, maior o investimento para a alimentar, um ciclo que se auto-reforça e que não tem nenhum interesse em parar. No nosso País, este ciclo tem uma geografia própria. Durante décadas, os direitos televisivos foram negociados individualmente por cada clube. O resultado foi uma disparidade de aproximadamente quinze vezes entre o clube que mais recebe e o que menos recebe. Os convencionalmente designados por “três grandes” concentram mais de 70% da receita total.
A pergunta a quem beneficia de que a atenção pública esteja ocupada com um “clássico” durante uma semana inteira, fica sem resposta, porque ninguém tem interesse em interrompê-la. Todos aparentemente beneficiam com a “organização”, a indústria do futebol, a comunicação dita social, os anunciantes. O sistema político é igualmente compensado, um país distraído é mais fácil de governar. E, alheios a tudo isto, os adeptos, a verdadeira matéria-prima do negócio, continuam a achar que estão apenas a fazer o que gostam.
O filósofo britânico Terry Eagleton tentou interpretar a tese marxista do "ópio do povo", classificando-o como o esquema mais requintado que o capitalismo já concebeu, chegando mesmo a propor a sua abolição. O Autor foi ao ponto de afirmar que se todos os think tanks de direita se juntassem para inventar uma forma de distrair a população das injustiças políticas e compensá-la por uma vida de trabalho duro, a solução seria sempre a mesma: o futebol. Será o fenómeno do futebol então, neste momento a única linguagem que milhões de pessoas têm para dizer o que sentem sobre o mundo? Tomemos o exemplo do Brasil, onde, nos últimos anos, apareceram as torcidas antifascistas de adeptos que se organizam dentro e fora dos estádios para se oporem às políticas de extrema-direita, para defenderem direitos, para transformarem o espaço do futebol em espaço de mobilização política. Aqui, parece coexistir a pertença com o protesto, abalando a tese do ópio puro.
Se o preço da atenção nos catapultar para imaginar a nação no relvado, estaremos no patamar zero da comunidade reduzida ao estádio. Este não pode ser o único lugar onde milhões de pessoas sentem que pertencem a alguma coisa. Caso assim fosse, estaríamos a desistir de nos reconhecermos em tudo o resto. Esta falsa identidade, que institui uma comunidade imaginada que substitui todas as outras, é apenas uma armadilha.
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