30 outubro 2026

ESTADO DA ARTE DA RESILIÊNCIA (às avessas)

 

Os tempos de chumbo têm mostrado uma realidade assaz curiosa, que assenta, por parte do Poder, em elogiar a "resiliência" das pessoas face à austeridade, à inflacção, a falhas nos serviços públicos e até aos baixos salários. O termo em questão, do latim “resilientia” ("saltar para trás"), é originário da Física e significa a capacidade de resistência de um material ao choque ou de um corpo ou sistema retornar ao seu estado original após sofrer uma deformação, pressão ou impacto. Em sentido figurado, pode ser interpretado como a aptidão para a adaptação, ou à superação de adversidades ou crises. Na política, o conceito sofre uma distorção ideológica profunda e apresenta-se como uma ferramenta retórica para normalizar a precariedade e promover a submissão. Na verdade, quer significar a capacidade de uma população "aguentar firme", transformando a sobrevivência à injustiça ou à negligência numa espécie de virtude heróica. Na prática, desmobiliza a revolta, o protesto e a exigência de direitos, incentivando as pessoas a adaptarem-se silenciosamente à perda de qualidade de vida. Para a governação trata-se de absorver o choque e regressar ao estado anterior. Todavia, os acampados do Rossio, em Lisboa, e da Praça D. João I, no Porto, mostram-nos uma lógica diversa: recusam regressar ao estado anterior, porque esse "estado anterior" - rendas galopantes, despejos sucessivos, habitação pública escassa - é precisamente aquilo contra o que se insurgem. Chamemos-lhe então "resiliência às avessas", ou seja, não a capacidade de suportar a crise, mas a capacidade de recusar que a crise se torne norma. Esta distinção não é um jogo semântico. O movimento pela habitação atravessou já algumas vagas de desmantelamento policial, dezenas de feridos e mais de uma centena de detidos. Segundo a lógica gestionária da resiliência, o movimento deveria dispersar. Não dispersou. Após cada desmantelamento, os manifestantes regressaram às praças e voltaram a montar as tendas. Coloca-se a questão, o que sustenta então esta persistência que não recua? Dos factos, as “acampadas”, a repressão da polícia de choque (chamada “de intervenção”), dos depoimentos, das opiniões inflamadas dos governantes, resultou até agora, na reocupação. O dado decisivo não está na intensidade da repressão, mas na velocidade e na forma da reacção. No Porto, a assembleia popular reuniu-se no próprio dia do desmantelamento e votou "voltar a acampar esta noite"; pelo menos 30 tendas foram repostas. Não é um motim espontâneo, antes é uma decisão organizada. Como disse uma das porta-vozes, o objectivo da polícia era "que, ao assustar-nos e reprimir-nos, iríamos parar", mas a resposta foi "continuar a lutar". Em paralelo, desenrola-se a contestação jurídica e institucional. A Inspecção Geral da Administração Interna (IGAI) abriu um processo para apurar a actuação policial. A Provedora da Justiça deu à PSP dez dias para justificar as intervenções. A Associação Portuguesa de Mulheres Juristas condenou a actuação policial como "não apenas ilegal, mas reveladora de uma exibição de força, autoritarismo e malícia incompatíveis com a missão legal da PSP". No passado 27 de outubro, dia do debate na generalidade do Orçamento, a plataforma "Casas Para Viver" concentrou-se junto ao Parlamento, fundindo a exigência habitacional com a denúncia da repressão policial.

 

A cientista política italiana Guya Accornero, investigadora no ISCTE-IUL, publicou um estudo, em conjunto com o sociólogo Tiago Carvalho, na revista académica Housing Studies, especializada na investigação sobre habitação, políticas sociais e económicas, sustentabilidade e demografia. O estudo "Marginal gentrifiers, networks of mobilization and new contentious collective identities. The struggle for housing in post-austerity Lisbon", foi publicado em 2023 e nele os seus autores demonstram que a interacção entre "gentrificadores marginais" e redes activistas pré-existentes" consolidou o campo do activismo local e conduziu ao aparecimento de novas identidades colectivas de contestação urbana. Por outras palavras, a capacidade organizativa, o repertório de acção e as redes interpessoais do movimento actual não nasceram em 2026: são capital organizacional acumulado durante o ciclo anti-austeridade, agora reinvestido. Esta descoberta converte a "resiliência às avessas" de virtude moral em facto social. Assim, a persistência tem memória, infraestrutura e transmissão geracional.

 

O outro lado da tensão social expôs-se no secretário-geral do PS. No mesmo dia em que o Partido viabilizou o Orçamento para 2027, com a sua abstenção, o secretário Carneiro veio a público queixar-se de ter sido "destratado e desconsiderado" pelo PSD e pelo CDS e, segundo relatou, de ter ficado "acabrunhado" com o tratamento recebido. O PS sustenta o Governo e, no mesmo gesto, lamenta falta de cortesia. Não é preciso adjectivar o secretário-geral para concluir o óbvio: quem se descreve a si próprio em termos de queixa e não de projecto, revela a miséria da política reduzida a protocolo. Os argumentos para a abstenção são conhecidos: a "estabilidade", o "não criar crise política", o “medo” do Chega. Mas, repetidos até à náusea, transformaram-se numa camisa de onze varas: se o PS nunca pode chumbar um orçamento porque o Chega cresce, então o centrão está condenado a governar sempre da mesma forma, alternando apenas nas cambiantes. A crise habitacional, fica entregue a um governo que elogia a PSP e a uma oposição que se queixa de não ser elogiada. Os acampados não pedem cortesia, pedem para ser levados a sério. E é aqui que a "resiliência às avessas" se revela como um espelho invertido da coreografia do centrão: enquanto uns se queixam de não ser tratados com deferência, outros recusam-se a sair da praça. 

É este o estado da arte.

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